27 – Quem Sabe destas Coisas
A vida retomou o seu ritmo. Como habitualmente: os turnos no Sanctum, a D. Lurdes a gritar da cozinha, os cheiros do costume, o trabalho de mãos. Mas o Miguel sentia-se diferente. Sentia uma quietude nova, uma segurança que não estava lá antes, a de quem sabe que, ao fim do dia, há um carro à espera, e uns braços à espera, e uma vida à espera. A de quem sabe que agora há alguém em quem pode confiar, não só o corpo mas a própria vida; alguém que o Miguel sabia que ia estar lá para ele sempre que precisasse.
Trabalhava a cantarolar. A D. Lurdes reparou, e não disse nada, mas sorriu para dentro da panela. A própria Mirella reparou, e o seu interior soltou-se de alegria ao perceber o porquê daquele cantarolar, mesmo que nada lhe tivesse sido dito.
Mas a sombra ainda estava lá. Não era constante, mas, de vez em quando, ao sair para o intervalo, ou ao chegar de manhã, o Miguel dava por si a olhar para a rua, para o outro lado, para os sítios onde o Jaime costumava aparecer. E, embora o Jaime nunca lá estivesse, havia sempre um segundo de tensão, de cada vez, até ele confirmar que a rua estava vazia.
O Miguel fez silêncio sobre isso. Não porque lho quisesse esconder, isso já não existia entre eles, mas porque nada havia a dizer, e ele sabia, porque confiava, que o Carlos iria tratar do assunto.
O que o Miguel não sabia era como.
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O Carlos achou que estava na altura de resolver de vez o assunto Jaime. Então, numa tarde, apareceu no Sanctum mais cedo que o habitual. Nesse dia não ia só ver e levar o Miguel para casa; era mais do que isso.
O Miguel viu-o aparecer mais cedo, estranhou, mas não disse nada, ficava feliz sempre que ele estava por perto. Serviu-lhe o café do costume, que o Carlos bebeu antes de se dirigir à sala da Mirella, a sala que escuta, o sofá de couro, a poltrona onde ela recebia. Bateu, e, quando teve autorização, entrou.
Viu a Mirella ao telefone. Sorria, feliz, e pelas respostas que dava o Carlos percebeu que estava a falar com o filho. Sentou-se, e esperou.
Ainda ao telefone, a Mirella percebeu só de olhar que algo incomodava o Carlos. Despediu-se rapidamente, pousou o telefone na mesa, e virou-lhe a atenção.
— Não vieste pelo café — disse ela, cruzando as mãos na mesa. — Nem pelo rapaz. Ou não estarias aqui, mas lá fora, onde ele está. Vieste por outra coisa. — Inclinou levemente a cabeça, os olhos atentos. — Diz.
E o Carlos disse tudo de uma só vez, sem pausas: contou-lhe do Jaime, o namorado da Íris que se atirara ao Miguel, a segunda-feira à parede, a chantagem, a rutura. E depois o resto, o mais recente: o Jaime à porta do Sanctum, à espera do Miguel, a insistir, a ameaçar pela metade, a dizer "eu vi-vos, sei o que tu és". Contou-lhe com a calma dele, sem levantar a voz. Mas a Mirella, que o conhecia desde os vinte e um anos, que o vira crescer de rapaz fechado a homem de gelo e agora a homem outra vez inteiro, ouvia, por baixo da calma, a coisa firme; a coisa que aquele homem guardava para quando era preciso proteger.
— E tu queres tratar disto — disse ela, quando ele acabou. Não era uma pergunta.
— Quero. Mas não me quero sujar, nem que o Miguel o faça. — O Carlos olhou-a, e ela viu a raiva contida, não por medo, mas por não querer magoar a pessoa amada. — Podia acabar com aquele homem numa tarde, Mirella, tu sabes que sim. Bastava um telefonema, e o ginásio dele fechava, e a vida dele com ele. Mas não é isso que quero. — Apertou o maxilar. — Quero é que ele desapareça. Que perceba, de uma vez, com quem se meteu, e que se afaste do Miguel para sempre. E, para isso, preciso de saber quem ele é. Onde vive, o que faz, o que tem a perder. Preciso de saber por onde o hei de apertar sem ter de o esmagar.
A Mirella olhou-o um bom bocado, com aquele olhar que parecia ler as pessoas até ao fundo. E depois sorriu, pequeno, quase divertido, o sorriso de quem acabou de receber um problema que sabia exatamente como resolver.
— Ah, Carlos. — Descruzou as mãos. — Isso é a parte fácil.
— É?
— É. — Levantou-se, serviu-se de um copo de água, sem pressa nenhuma. — Tu conheces muita gente, Carlos. Gente importante, com poder. — Voltou-se para ele. — Mas eu conheço outra gente. A que limpa, a que serve, a que abre e fecha as portas e vê tudo o que se passa atrás delas, e a quem ninguém liga, porque acha que não conta. — Bebeu um gole. — Essa gente sabe tudo, mais até que os poderosos. E, além de gostar de mim, deve-me uns quantos favores. E eu sei fazer uma pergunta discreta nos sítios certos.
O Carlos ficou a olhá-la. E percebeu, uma vez mais, porque é que aquela mulher era o que era, porque é que meia cidade lhe devia qualquer coisa, porque é que ninguém em Montefrio se metia com ela, porque é que lhe chamavam, todos, a mãe de todos.
— Dá-me uns dias — disse a Mirella, e voltou a sentar-se, a serenidade toda de volta. — Não faças nada até lá. Não o procures, não o assustes, não mexas uma palha. Deixa-o pensar que ganhou, que te meteu medo, que o deixaste em paz. — Um sorriso fino. — Os homens como esse Jaime são mais descuidados quando se julgam vencedores. Dá-me uns dias, e eu digo-te tudo o que precisas de saber sobre ele. Quem é, o que faz, e onde é que aquele ginásio dele tem o rabo à mostra. — Cruzou as mãos de novo. — Porque tem. Homens assim têm sempre.
O Carlos respirou, e sentiu uma parte do peso sair-lhe dos ombros, sabia que o resto só sairia quando tudo estivesse terminado.
— Obrigado — disse.
— Ainda não fiz nada. — A Mirella abanou a mão, a desvalorizar. — Agradeces-me quando estiver tratado. — E depois, com uma ternura que lhe suavizou a cara toda: — E, Carlos... o teu Miguel. Não sei o que lhe fizeste. — Fez uma pausa. — Está diferente. Parece mais leve, a cantarolar pela casa. Há oito meses que o vejo trabalhar em silêncio. — Olhou-o nos olhos. — Seja o que for que lhe andas a fazer, faz mais. E não deixes que um qualquer, um Jaime qualquer, lhe tire isso. Nem por um dia.
— Não vou deixar — disse o Carlos.
E a Mirella assentiu, satisfeita, como quem dá um assunto por encerrado, porque, quando o Carlos dizia uma coisa daquela maneira, o assunto estava mesmo encerrado.
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O Carlos saiu do escritório da Mirella a sentir-se melhor do que entrara. Não que o problema estivesse resolvido, porque não estava, mas porque o tinha posto nas mãos certas, e sabia-o. A Mirella ia descobrir o que havia para descobrir. E depois... bem, depois era com ele.
Sentou-se no sítio do costume, à espera que o turno do Miguel terminasse, o que não demorou.
Saíram de mãos dadas. Já não escondiam o que eram um para o outro; não fora dito por palavras, mas ambos o sabiam. E no Sanctum também.
— Então? — perguntou o Miguel, assim que entraram no carro, a curiosidade no rosto. — Vieste mais cedo. Está tudo bem?
— Está tudo bem. — O Carlos pegou-lhe na mão, e beijou-lha, e meteu o carro em andamento. — Vim só ver a Mirella, tratar de umas coisas. Nada com que te preocupes. — Olhou-o de lado, e sorriu. — Conta-me o teu dia.
O Miguel olhou para ele por mais um instante, como se tentasse perceber se havia alguma coisa escondida por trás daquela calma. Conhecia já o suficiente do Carlos para saber que nem todos os silêncios dele eram vazios. Alguns eram portas fechadas.
Mas também já o conhecia o suficiente para saber que, se a porta estava fechada, era porque ele ainda não queria que o Miguel carregasse o que estava do outro lado.
Por isso respirou fundo, entrelaçou melhor os dedos nos dele, e deixou-se ficar.
E o Miguel contou-lhe o dia, seguro e feliz no banco do lado, sem ter a certeza do que o Carlos queria com a Mirella, mas podia imaginar. Confiava.
E o Carlos ouvia-o como sempre: inteiro, atento, como se nada naquele mundo fosse mais importante do que a voz do rapaz no banco ao lado. Guardou para si a conversa com a Mirella, e a sombra que ela deixara, porque, para o Carlos, amar também era isto: proteger sem pesar, cuidar sem assustar, carregar primeiro aquilo que ainda não precisava de ser dividido.
Mas, ao sentir os dedos do Miguel apertarem os seus, percebeu que o rapaz talvez soubesse mais do que dizia.
E, mesmo assim, confiava.