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26 🔞– O Segundo Dia

O Miguel acordou com a luz do mar a entrar pela janela e o corpo ainda marcado pela noite anterior, não de uma forma dolorosa, mas com aquele pequeno desconforto íntimo que lhe recordava, a cada movimento, que tudo tinha sido real.

Não fora um sonho. Tinha acontecido. E tinha sido mais do que alguma vez se atrevera a imaginar.

Ficou imóvel por alguns instantes, a olhar a luz espalhada pelo quarto, enquanto as memórias voltavam devagar: o carinho, o cuidado, a calma com que o Carlos o guiara; a paciência em cada gesto, a voz baixa a segurá-lo quando o corpo hesitava, a ternura que estivera presente mesmo nos momentos mais intensos.

E, ao recordar tudo, o corpo respondeu antes que a mente conseguisse organizar o que sentia. Fechou os olhos, corado, e deixou sair um pequeno sorriso. Não havia vergonha naquele desconforto, havia a descoberta, mas havia, acima de tudo, a certeza absoluta de que aquela noite ficaria para sempre gravada na sua memória, e de que alguma coisa dentro dele tinha mudado para sempre.

O Miguel estava de costas para o Carlos, e percebeu que ele tinha acordado quando sentiu o braço passar-lhe por cima da cintura e puxá-lo, a colar-lhe as costas ao peito dele, e algo duro a crescer contra as suas nádegas.

Também o Carlos acordara a pensar na noite anterior, e sentir o corpo pequeno e quente ainda contra o seu foi como acender uma fogueira. Os movimentos subtis que o Miguel fazia sem se aperceber foram o suficiente.

— Quero-te de novo. — A voz do Carlos, rouca, contra o ouvido dele. — Hoje é só sentires. Fica quieto, e deixa-me a mim.

Sussurrou-lho ao ouvido, e sentiu o corpo do Miguel estremecer com as palavras. E sorriu.

A boca do Carlos lambeu e mordiscou a orelha onde acabara de sussurrar, antes de descer pela curva do pescoço e demorar-se ali, quente; e a mão que lhe segurava a cintura começou a mover-se, devagar, à procura dos mamilos sensíveis. Havia o carinho, o cuidado, a atenção, mas havia agora, também, a posse. O tomar como seu o corpo que na véspera lhe dissera que era seu. Aquela certeza de já não precisar de pedir licença a cada passo, para tomar o que era dele.

O Miguel sentiu a diferença. Sentiu que havia dois Carlos: o de ontem, mais carinhoso, o que pedia; e o de hoje, mais intenso, o que agia. Mas isso não o incomodou. Estava a gostar dos dois.

O Carlos sabia lê-lo. Não havia naquilo pressa nenhuma, nem imposição nenhuma: estava atento a cada reação, à mais pequena tensão do corpo dele, e, se o Miguel se afastasse, ele parava. Isso o Miguel sabia-o, com uma certeza que estava para além das palavras.

Sabia o que viria. Sabia que ia ser diferente. Mas o corpo, mesmo dorido, reagia ao toque, e o Miguel aconchegou-se mais, ofereceu-se mais, e deixou-se levar.

E percebeu que havia um prazer diferente naquilo: em ser conduzido, em não ter de decidir, em poder entregar-se a uma vontade que escolhia aceitar. Toda a vida o Miguel tivera de estar em guarda, a defender-se, a segurar sozinho as rédeas da própria sobrevivência. Ali, com o Carlos a tomar conta de tudo, podia finalmente largá-las. Parar de se defender. Só sentir, confiar, e deixar-se ficar nas mãos de alguém que o não deixaria cair.

Era alívio. E era também mais do que isso, quente, fundo, assustador de tão bom. O Miguel não quis dar-lhe nome naquele instante. Apenas o sentiu. E rendeu-se.

O Carlos esticou o braço para a mesa-de-cabeceira, e o Miguel ouviu o rasgar do invólucro, o mesmo cuidado da véspera, o mesmo gesto, agora quase familiar. Depois sentiu-o de novo atrás de si, e sentiu a mão do Carlos demorar-se, prepará-lo devagar, testar-lhe o corpo com paciência, a ler-lhe cada reação. O Carlos sabia que o Miguel estava dorido, mas sabia também, pelo que a véspera lhe ensinara, que o corpo do rapaz ainda o receberia, se ele fosse com calma. E foi.

Entrou devagar, a sentir aos poucos o corpo do Miguel ceder, os gemidos de desconforto a transformarem-se, pouco a pouco, noutra coisa.

— Estás a portar-te tão bem. — Disse o Carlos, quando se sentiu completo dentro dele, a beijar-lhe a nuca, enquanto uma das mãos descia até ao membro já duro do mais novo e o apertava com suavidade. — Só te vens quando eu disser.

A resposta foi o silêncio, e um aceno de cabeça do Miguel. E, para o Carlos, aquilo bastava, mais tarde poderia ensinar-lhe que as palavras também importavam, mas não agora.

Os movimentos, que começaram lentos, foram ficando mais intensos. O Miguel sentia-se à beira do abismo, e o ter de esperar para saltar tornava tudo ainda mais forte. O Carlos sabia-o, sentia-o, e adorava a maneira como o seu Miguel se estava a entregar. Quis testá-lo só um bocadinho, o Dom a vir ao de cima, mas só um bocadinho, para já. Segurou-o à beira mais tempo do que o Miguel aguentava, porque queria ouvi-lo pedir, e não demorou muito.

— Carlos, eu preciso...

Mas o Carlos não o deixou terminar. Beijou-o de lado, na boca, e aumentou o ritmo, também ele já estava perto, e disse apenas:

— Agora.

E o clímax veio, em simultâneo, para os dois. O Miguel sentiu tudo com mais intensidade do que na primeira vez. E o Carlos sentiu, uma vez mais, que tudo era mais intenso com o Miguel.

Ficaram depois a recuperar o fôlego, colados, e cada um levou consigo a sua descoberta.

O Miguel, porque sentira dentro de si aquela coisa nova acender-se, o gosto de se entregar, de largar o peso de ser sempre ele a decidir.

E o Carlos, porque conhecia aquele registo melhor do que ninguém. Sentira o rapaz render-se-lhe nas mãos, não por passividade, mas por uma entrega ativa, quase sôfrega, e reconhecera nela uma coisa que os anos lhe tinham ensinado a ler. Não disse nada. Não era altura, nem o rapaz sabia ainda o que aquilo era. Mas guardou-o, com cuidado, no mesmo sítio onde guardara o "doeu, mas foi bom" da noite anterior, no sítio das coisas que ainda não eram para agora, mas que talvez, um dia, viessem a ser.

Beijou-lhe o alto da cabeça, e não disse nada. Deixou o rapaz descansar contra o seu peito, dorido e saciado e seguro, e ficou a olhar o teto, com uma coisa quente e paciente a crescer-lhe no peito.

Uma prateleira de cada vez, pensou. Também esta. Quando ele quiser. Se quiser. E naquele pensamento estavam envolvidos os dois: o Homem e o Dom.

E, por enquanto, deixou que a manhã fosse só aquilo: o mar lá fora, o rapaz nos braços, e o dia todo à frente.

🍃 🍃 🍃

Depois foi a manhã mais preguiçosa da vida do Miguel.

Tomaram o pequeno-almoço já quase ao meio-dia, na cozinha pequena. O Miguel estava enrolado numa camisola do Carlos e em mais nada, os cabelos num caos impossível de salvar.

O Carlos fez ovos, queimou-os um bocadinho, e o Miguel olhou para o prato, depois para ele, e ergueu uma sobrancelha.

— E este é o homem que não me deixou fazer o café?

O Carlos pousou a frigideira no lava-loiça com uma dignidade muito ofendida.

— O café é uma ciência delicada.

— E os ovos são uma arte que claramente ainda não dominaste.

— Estás muito insolente para alguém vestido com a minha camisola.

O Miguel puxou a gola larga até ao queixo, a tentar esconder o sorriso.

— A camisola dá-me coragem.

O Carlos ficou a olhar para ele por um instante, com uma ternura tão aberta que o Miguel baixou os olhos.

— Fica-te bem — disse, baixo.

Comeram os ovos queimados na mesma. Souberam bem na mesma.

Mais tarde, voltaram à praia. O dia estava limpo, o mar mais calmo do que na véspera, e caminharam durante horas junto à água, a alternar entre conversas e o silêncio apenas cortado pelo barulho do mar.

Foi o Carlos quem começou a abrir a porta.

— A minha mãe gostava desta casa — disse, a olhar o mar. — Mais do que a casa grande. Aqui cantava. Lá, quase sempre, estava a tomar conta de alguma coisa.

O Miguel olhou-o de lado.

— Falas dela de maneira diferente quando estamos aqui.

O Carlos demorou a responder.

— Talvez porque aqui ainda a consiga ouvir.

O Miguel não disse nada, apenas lhe apertou a mão, e isso bastou para o Carlos continuar: falou do pai, dos verões naquela casa, dos anos em que deixou tudo fechado, dos amigos, da Mirella, e de como ela o encontrara em rapaz e o pusera debaixo da asa, como fazia com toda a gente que precisava.

O Miguel ouviu tudo com a atenção de quem recebia uma coisa preciosa.

— Estás a dar-me a tua história toda — disse, a certa altura.

O Carlos olhou para ele.

— Quero que a tenhas.

A resposta ficou entre os dois, simples e enorme. E então o Miguel fez o mesmo: falou da mãe. Das poucas memórias boas e das outras. Do pai que se fora. Da fome verdadeira, dos meses maus, da chegada ao Sanctum a pedir apenas trabalho e a encontrar, sem saber, uma família.

— Nunca contei isto assim a ninguém — disse o Miguel, a olhar para a água.

— Nem à Íris?

O Miguel abanou a cabeça.

— Nem à Íris. Há coisas que, se dizemos em voz alta, parecem mais reais.

O Carlos parou. Virou-se para ele e tocou-lhe no rosto com cuidado.

— E agora?

O Miguel respirou fundo. O mar vinha e ia aos pés deles.

— Agora já não assusta tanto.

O Carlos beijou-lhe a testa, devagar.

— Então diz o que precisares. Eu estarei aqui.

E, ali, na areia, com o mar por testemunha, o Miguel percebeu que acreditava nele. Porque o homem ao lado dele já lhe conhecia o corpo, começava a conhecer-lhe a alma, e não havia já nada nele que valesse a pena esconder.

🍃 🍃 🍃

Foi já ao fim da tarde, com o sol a descair sobre a água e a praia deserta só deles, que o Miguel reparou.

Estavam sentados na areia, encostados um ao outro, a ver o mar. O Carlos tinha um braço à volta dos ombros do Miguel, e falava de qualquer coisa sem importância, a voz baixa e calma, mas o Miguel, que passara os últimos meses a aprender a ler aquele homem como quem aprende uma língua, percebeu, por baixo da calma, outra coisa.

Percebeu-o na respiração do Carlos, um bocadinho mais funda do que devia. No modo como o corpo dele reagia à proximidade do Miguel, encostado assim. Percebeu-o, sem sombra de dúvida, quando o Miguel se ajeitou contra ele e sentiu, contra a anca, que o Carlos estava excitado.

E percebeu, também, que o Carlos não ia fazer nada quanto a isso.

Porque o Carlos se continha. Tinha passado o dia a conter-se, a não tocar de mais, a não pedir nada, com o cuidado de sempre, porque sabia que o Miguel estava dorido da noite e da manhã, e não ia sequer sugerir mais. O Carlos, que passara o fim de semana inteiro a dar, a cuidar, a pôr o Miguel à frente de tudo, inclusive à frente do próprio desejo.

E foi isso que fez qualquer coisa mexer-se no peito do Miguel.

Porque durante toda a vida fora ele o que recebia. E durante todo aquele fim de semana fora ele, outra vez, o que recebia, a casa, o cuidado, a primeira vez, a paciência, a história toda do Carlos posta nas mãos dele como um tesouro. E agora percebia que o homem ao lado dele, aquele que dava tudo e não pedia nada, tinha também um desejo que estava a pôr de lado, calado, por amor.

E o Miguel não quis que ele o pusesse de lado.

Endireitou-se. Virou-se para o Carlos, e o Carlos olhou-o, com aquela ternura tranquila, sem perceber ainda.

— O quê? — perguntou, com meio sorriso.

O Miguel não respondeu com palavras. Respondeu com a mão, pousou-a no peito do Carlos, e deixou-a descer, devagar, pelo corpo dele abaixo, os olhos presos nos dele, a ver-lhe a surpresa nascer na cara.

— Miguel...

— Deixa-me. — A voz do Miguel saiu baixa, mas firme, com uma coragem que era nova, que era dele. — Tu passaste o fim de semana todo a cuidar de mim. Deixa-me cuidar de ti, agora. — A mão chegou ao cós das calças do Carlos, e parou ali, a pedir licença à maneira dele. — Quero. Sou eu a querer, desta vez.

O Carlos ficou a olhá-lo, o rapaz ruivo recortado contra o mar, os olhos cinzentos cheios de uma determinação doce, e o Miguel viu-o render-se, viu a contenção dele ceder, viu o desejo que ele guardara subir-lhe aos olhos sem defesa nenhuma.

— Tens a certeza? — perguntou o Carlos, a voz rouca. Mesmo ali, mesmo assim, ele perguntava.

— Tenho. — E o Miguel sorriu. — Agora fica quieto, e deixa-me a mim. Para variar.

E o Carlos riu-se, um riso que se desfez num gemido baixo assim que a mão do Miguel o soltou das calças e se fechou à volta dele.

O Miguel tomou o seu tempo. Fez ao Carlos o que o Carlos lhe ensinara a fazer, semanas antes, no quarto, mas agora com uma segurança que não tinha então, atento à cara do homem que amava, a aprender-lhe as reações, a ajustar-se ao que o fazia estremecer. Viu o Carlos fechar os olhos, viu-lhe a cabeça tombar para trás, viu aquele homem de todas as certezas desfazer-se devagar sob a mão dele, ali, na areia, com o mar por testemunha.

E o Carlos, esse, deixava-se ir de uma maneira que há muito não conhecia. Não era a perícia do rapaz, era outra coisa. Tantas mãos lhe tinham tocado ao longo dos anos, mãos hábeis, treinadas, que sabiam exatamente o que faziam. E nenhuma, nenhuma, lhe fizera o que aquelas mãos desajeitadas e amadas lhe faziam agora. Porque não era o toque. Era de quem vinha. Era o amor por trás dele, que transformava um gesto simples na coisa mais íntima que alguma vez sentira.

E o Miguel descobriu, outra vez, a coisa que descobrira no quarto e que não se cansava de descobrir: que dar prazer àquele homem, vê-lo render-se, saber que era ele, o Miguel, o rapaz das prateleiras, a fazê-lo perder o controlo de ferro que punha em tudo, que isso lhe enchia o peito de uma coisa quente e poderosa e imensa. O poder de cuidar de quem sempre o cuidara. De ser, também ele, quem dá.

O Carlos tentou avisá-lo, a certa altura, a voz desfeita:

— Miguel, eu vou...

Foi a dar-lhe a hipótese de parar. Mas o Miguel não parou. Quis levá-lo até ao fim, quis dar-lhe aquilo por inteiro, e o Carlos chegou ao clímax nas mãos e na boca do rapaz que amava, com o nome dele nos lábios e os dedos enredados nos caracóis ruivos, ali, na praia deserta, com o sol a acabar de se pôr.

Depois, o Carlos puxou-o para si, e beijou-o, longo e fundo, sem se importar, e encostou a testa à dele, a respiração ainda a acalmar.

— Onde é que aprendeste a ser tão teimoso? — perguntou, baixo, com um sorriso na voz.

— Com um homem muito teimoso que conheço. — O Miguel aninhou-se contra ele, o coração cheio. — Que me ensinou que cuidar de alguém é a melhor coisa que há.

O Carlos apertou-o contra si, e não disse nada, mas o Miguel sentiu-lhe o queixo pousar-lhe no alto da cabeça, e sentiu-o respirar fundo, como quem mal acredita na sorte que lhe caiu no colo.

Ficaram ali até o sol desaparecer por inteiro, enrolados um no outro na areia a arrefecer, e o Miguel pensou que nunca, em nenhum sítio, se sentira tão em casa como naquela praia do fim do mundo, nos braços do homem que amava, a dar, pela primeira vez, tanto quanto recebia.

🍃 🍃 🍃

Já iam a meio da estrada da costa, o mar a começar a ficar para trás, quando o Carlos falou, sem tirar os olhos da estrada, a voz calma, quase distraída, mas o Miguel já o conhecia o suficiente para saber que nada no Carlos era distraído.

— Posso perguntar-te uma coisa?

— Porque não poderias?

— Quero saber como te sentes. — Uma pausa. — Quero a verdade, não a verdade do corpo. Isso eu sei: deves estar dorido, e logo à noite trato disso, ponho-te de molho em água quente. — Um sorriso de lado. — Falo de dentro. De como te sentes com... com esta manhã. Com o que foi diferente.

O Miguel sentiu o rubor subir-lhe, o de sempre, e olhou para as mãos no colo.

Sabia ao que o Carlos se referia. Ao Carlos que tomara conta de tudo, que dera ordens, que o segurara à beira até ele pedir. Ao Carlos que fora, por uns minutos, outra coisa, e ao Miguel que descobrira, com um espanto que ainda lhe mexia por dentro, que gostara daquilo. Que gostara muito daquilo.

— Eu... — começou, e parou, à procura das palavras, porque não as tinha. — Não sei bem como explicar.

— Não faz mal. — A voz do Carlos, tranquila. — Não tens de saber, mas gostava que tentasses na mesma.

O Miguel respirou.

— Gostei. — Disse-o baixo, quase envergonhado da própria confissão. — Foi... foi diferente de ontem. Ontem foi... foi lindo, foi o mais lindo que já me aconteceu. Mas foi doce. Foi os dois a descobrir. — Franziu a testa, a tentar apanhar a coisa que sentia. — Hoje foi outra coisa. Hoje tu... tu tomaste conta. Não tive de pensar em nada. Não tive de decidir nada. Só... deixei-me estar. E foi... — Encolheu os ombros, corado até às orelhas. — Não sei. Foi bom de uma maneira que me assustou um bocadinho. Como se uma parte de mim estivesse à espera daquilo sem eu saber.

O Miguel sabia que a explicação tinha saído confusa, mas não o conseguia dizer de outra maneira.

O Carlos não disse nada por um momento; mas, ao ouvir a explicação confusa do rapaz, que quase dormia no banco ao seu lado, algo se acendeu dentro dele, e um meio-sorriso apareceu-lhe no canto da boca. O Miguel percebeu a mudança no rosto, mas não soube definir o que era.

Mais tarde, o próprio Carlos se iria encarregar de lho explicar.

— Não há nada de errado nisso — disse o Carlos, por fim, e a voz saiu-lhe cuidadosa, escolhida. — Ouve-me bem, porque é importante: não há nada de errado no que sentiste. Nem no que gostaste. Nem em teres gostado de te deixares levar. — Pousou-lhe a mão na perna, um instante, antes de voltar ao volante. — Há gente que passa a vida a lutar contra coisas assim, com vergonha delas. E não é preciso. Uma pessoa gostar de largar o peso, de confiar tanto em alguém que pode parar de segurar tudo sozinha, isso não é fraqueza nenhuma, Miguel. É das coisas mais valentes que há.

O Miguel olhou para ele, e sentiu o peito aquecer, porque era exatamente aquilo, o largar o peso, e o Carlos tinha-o dito por ele, tinha-lhe dado o nome que ele não encontrara.

— Há uma conversa que quero ter contigo — continuou o Carlos, devagar, a medir bem as palavras. — Sobre isto. Sobre mim, sobre o que eu sou, sobre uma parte da minha vida que ainda não te mostrei por inteiro. E sobre o que tu talvez sejas, também. — Olhou-o de relance, e havia ternura na cara dele, e cuidado, e nenhuma pressa. — Mas não é para agora. Não é uma conversa de carro, no fim de um fim de semana, com um susto qualquer à espera lá em Montefrio. É uma conversa que merece o seu tempo, e a sua calma, e a certeza de que não há mais nada a puxar por nós. — Apertou-lhe a perna outra vez. — Quando for tempo. Sem pressa nenhuma. E, quando a tivermos, tu vais poder dizer que sim ou que não, e as duas respostas estão certas. Não muda nada entre nós, ouviste? Seja qual for a resposta.

O Miguel assentiu, devagar. Não percebia tudo, mas percebia o essencial: que havia mais do Carlos por conhecer, mais portas por abrir, e que o Carlos lho ia mostrar quando fosse tempo, sem o empurrar para nada. E percebia que, fosse o que fosse essa conversa, ele já sabia, no fundo, o que ia responder.

— Está bem — disse apenas. E depois, com um sorriso pequeno, corajoso: — Mas fico curioso.

O Carlos riu-se, um riso baixo, quente.

— Fica. A curiosidade é boa. Guarda-a. — Voltou os olhos à estrada. — Mas, neste momento, quero que retenhas apenas este fim de semana.

E o Miguel guardou-a, e encostou a cabeça ao vidro, e deixou-se ir aos poucos no calor do carro e da voz dele, com o mar a desaparecer para trás e uma coisa nova e boa a assentar-lhe no peito, a certeza de que ainda havia mundo por descobrir com aquele homem, e de que ele o ia descobrir devagar, em segurança, uma prateleira de cada vez.

O Carlos conduziu em silêncio para não o acordar, com uma mão no volante e a outra pousada na perna do rapaz, e deixou-o dormir o caminho todo.

Mas, à medida que se aproximavam da cidade, a mão do Carlos no volante foi-se fechando um bocadinho mais.

Porque o fim de semana tinha sido uma ponte, e, como todas as pontes, tinha um fim. E, no fim dela, estava o Jaime, que o Carlos deixara de fora, como prometera. Um fim de semana inteiro. Mas havia coisas que um homem não podia deixar lá fora para sempre.

Olhou para o Miguel a dormir, sereno, confiante, seguro, finalmente seguro, e a coisa firme instalou-se-lhe no peito, calma e total.

Ninguém te vai tirar isto, pensou. Nem ele. Nem ninguém. Trato disto esta semana.

E conduziu para casa, para a cidade, para o que havia de ser feito.

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