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25 🔞 – O Cimo da Escada

E o Miguel foi.

Mas o Carlos, antes da cama, levou-o pela mão até à casa de banho.

— Primeiro isto — disse, baixo, e abriu a água quente. — Sem pressa nenhuma. A noite é toda nossa.

🍃 🍃 🍃

Despiram-se um ao outro, devagar, à luz baixa que vinha do quarto. Já não havia a vergonha das primeiras vezes que se tinham tocado, o esconder-se, o corar até às orelhas, ou havia, um bocadinho, mas era um corar diferente agora, um corar feliz, sem medo por baixo. O Miguel deixou-se despir, e despiu o Carlos por sua vez, com dedos que já não tremiam tanto, e ficaram os dois nus no vapor morno, a olhar-se, antes de entrarem na água.

E, debaixo do chuveiro, o Carlos lavou-o.

Foi uma coisa lenta, e terna, e mais íntima do que o Miguel imaginara que uma coisa tão simples pudesse ser. As mãos grandes do Carlos a correrem-lhe o corpo com sabão, sem pressa, a demorarem-se, os ombros, as costas, o peito, mais abaixo, e o Miguel a deixar-se lavar como quem se deixa cuidar, a cabeça a tombar para trás, os olhos fechados, o corpo a acender-se devagar debaixo daquelas mãos que o conheciam já melhor do que ele próprio.

E depois foi a vez dele. E o Miguel, com uma coragem que era nova, com a água a cair-lhe pelas costas, lavou o Carlos também, passou-lhe as mãos pelo peito largo, pelos braços, pelo ventre, aprendeu-lhe o corpo com a ponta dos dedos, e viu, com aquele espanto que ainda não o largava, o homem grande a fechar os olhos e a render-se ao toque dele. Ao toque das mãos pequenas do rapaz das prateleiras.

Os toques adensaram-se. As bocas encontraram-se debaixo da água, e os corpos colaram-se, pele contra pele quente e molhada, e o que começara como um banho deixou de o ser algures no meio dos beijos. O Miguel sentiu o Carlos contra si, sentiu-se a si próprio a responder, e gemeu contra a boca dele, e o Carlos apertou-o mais, e por um instante quase ali mesmo, com a água a cair, o mundo se resumiu àquilo, dois corpos, o vapor, o calor a subir.

Mas o Carlos afastou-se, a respiração alterada, e encostou a testa à do Miguel.

— Aqui não — disse, a voz rouca, um sorriso a espreitar. — A tua primeira vez não vai ser encostado a uns azulejos frios. — Beijou-lhe a ponta do nariz. — Anda. Deixa-me fazer-te as coisas como deve ser.

🍃 🍃 🍃

Levou-o para a cama, e deitou-o, e o Miguel deixou-se deitar, nu, ainda húmido, sobre os lençóis frescos, com o candeeiro de luz quente a dourar-lhe a pele e o mar a respirar lá fora.

E o Carlos tomou o seu tempo.

Voltou a fazer-lhe o que já lhe fizera, o que já aprendera a fazer-lhe, a boca no pescoço, nos mamilos, a mão a descer, a arrancar-lhe os sons que já sabia arrancar-lhe. Mas fê-lo devagar, mais devagar do que nunca, sem o levar à beira, só a mantê-lo ali, num prazer morno e contínuo, a soltá-lo todo, a derreter-lhe qualquer tensão que lhe restasse no corpo. Porque o Carlos sabia o que vinha a seguir, e sabia que, para o Miguel, tinha de vir com o corpo já rendido, já aberto, já sem defesa nenhuma.

— Vamos com calma — disse-lhe, baixo, contra a pele. — Se em algum momento não quiseres, ou doer de mais, ou só quiseres parar, dizes. Paramos na hora. Sempre. — Ergueu os olhos para ele. — Não temos de chegar a lado nenhum esta noite. Só quero estar contigo. O resto vem se vier.

— Eu quero — disse o Miguel, e a voz saiu-lhe firme, apesar do rubor, apesar do nervoso. — Quero, Carlos. Quero ser teu. Por inteiro.

E o Carlos fechou os olhos um instante, como se aquela frase lhe custasse a suportar de tão boa, e depois beijou-o, um beijo longo, fundo, uma promessa, e estendeu a mão para a mesa-de-cabeceira.

O Miguel viu-o abrir a gaveta, tirar o preservativo e o resto, pousá-los ao alcance da mão. E não houve nisso constrangimento nenhum, nem quebra de encanto, era só mais um gesto do cuidado do Carlos, o mesmo cuidado de sempre, o homem que protegia o que amava em tudo, também naquilo. O Miguel percebeu-o assim, e amou-o um bocadinho mais por isso.

🍃 🍃 🍃

A preparação foi lenta.

O Carlos fê-la com uma paciência que era quase reverência, a ler-lhe a cara a cada instante, atento a cada tensão.

E o Miguel sentiu-o. A primeira intrusão, cuidadosa, lenta, um dedo do Carlos a pedir-lhe entrada onde ninguém nunca lhe pedira nada.

O corpo dele fechou-se por instinto, uma tensão a subir-lhe pela espinha, e o Miguel prendeu a respiração, os olhos a abrirem-se de repente, o desconforto tão novo que nem sabia se era bom ou mau.

— Shh. — O Carlos parou logo, a mão livre a espalmar-se-lhe no ventre, quente, a acalmá-lo. — Estou aqui. Não vou a lado nenhum. Respira. Deixa-me entrar devagar. Confia.

E o Miguel respirou. Obrigou o corpo a largar a tensão, um bocadinho de cada vez, e o Carlos esperou por ele, sem forçar, sem pressa, até o sentir amolecer de novo debaixo das suas mãos. E então avançou, devagar, e o Miguel sentiu-o entrar mais fundo, e desta vez não se fechou tanto.

Era estranho. Estranho de uma maneira que ele não tinha palavras para descrever, uma sensação de cheio, de invadido, de aberto, uma coisa que o corpo dele não sabia ainda se queria acolher ou expulsar. Mas o Carlos ia lendo-o o tempo todo, afinava a cada suspiro, e a boca e a mão livre nunca o largavam, davam-lhe prazer que se misturava com a estranheza e a amaciava, a tornava suportável, e depois mais do que suportável.

Ao segundo dedo, o Miguel voltou a tensar-se, um gemido a escapar-se-lhe, entre o desconforto e outra coisa que ainda não sabia nomear. O Carlos abrandou, esperou, distraiu-o com beijos no interior das coxas, no ventre, até a tensão ceder outra vez. E, quando cedeu, avançou de novo, e o Miguel sentiu-se abrir mais um bocadinho, o corpo a ganhar espaço para uma coisa que ainda não tinha acontecido, mas que se anunciava, ali, na maneira como o Carlos o preparava.

E os dedos moviam-se, devagar, e a sensação foi mudando. O que começara por ser só estranho foi ganhando, a cada movimento, uma borda de prazer, ténue ao princípio, depois mais funda, um calor que se enroscava por baixo do desconforto e o ia empurrando para longe. O Miguel deu por si a respirar mais depressa, a arquear-se um bocadinho contra a mão do Carlos, sem decidir fazê-lo, o corpo a pedir mais espaço, mais fundo, uma coisa que ele ainda não sabia o que era mas que já não queria que parasse.

O Carlos sentiu-o. Claro que sentiu. Sentia tudo.

— Isso — murmurou, a voz rouca contra a pele do Miguel. — Estás a abrir-te tão bem para mim. Estás quase, amor. Quase.

E foi então, com o Miguel já assim, o corpo rendido e aberto e a pedir, que o Carlos parou.

O Miguel não percebeu de imediato, até o ver pegar no preservativo e ficar parado entre as suas pernas.

— Preciso de ti agora. Muito. Prometo ir com calma. Posso ir mais além?

Aguardava a resposta da boca do seu Miguel. Com outro nem teria hesitado, mas o Miguel não era outro. Era o Miguel.

O Miguel olhou-o nos olhos por momentos, para perceber que o que ouvira era verdade, que o Carlos se dispunha mesmo a não continuar se ele dissesse não. Mas não era isso que o Miguel queria, não agora, não naquele momento, não quando já tinha chegado tão longe. Tinha medo, claro que tinha, mas confiava no homem que tinha à frente.

— Podes.

Então o Carlos beijou-o no rosto, afastou-lhe os caracóis ruivos húmidos da testa, e certificou-se, uma última vez, com os olhos âmbar nos cinzentos.

— Olha para mim — disse, enquanto abria o invólucro e colocava o preservativo, bem à vista do olhar atento do Miguel, cujos olhos brilhavam, de excitação, de admiração. — Não desvies os olhos. Fica comigo. E, se doer, respira. Não fujas da dor, respira através dela. Eu vou devagar. Prometo.

O Miguel assentiu, os olhos presos nos dele, o coração aos saltos.

— Confio em ti — disse. E foi a coisa mais verdadeira que alguma vez dissera.

E o Carlos, com uma calma que nem ele sabia que tinha, pôs mais gel em si e no Miguel, e começou a entrar, lentamente. Não tinha pressa. Queria uma primeira vez que o Miguel pudesse recordar com carinho no coração.

O Miguel sentiu-o tentar entrar, e o corpo reagiu por puro instinto, e fechou-se de novo.

— Devagar. — O Carlos parou de imediato, baixou-se para lhe beijar a boca, enquanto a mão procurava o membro do mais novo, pronta para o acalmar e lhe fazer esquecer o momento. — Não há pressa nenhuma. Larga o corpo para mim, um bocadinho de cada vez. Eu espero. Temos a noite toda.

E o Miguel respirou. Obrigou o corpo a largar a tensão, um bocadinho de cada vez, e o Carlos esperou por ele, sem forçar, até sentir o rapaz voltar a amolecer. E então avançou, milímetro a milímetro, e o Miguel sentiu-o de novo, e desta vez não se fechou tanto.

Doeu. O Miguel não esperava que não doesse, não era ingénuo a esse ponto. Era aquela sensação de queimadura funda do corpo a abrir-se a algo novo, que lhe fez prender a respiração e cravar os dedos nos ombros do Carlos. E o Carlos parou logo, imóvel, a tremer com o esforço de se conter, a respirar contra a testa dele.

— Respira — sussurrou. — Estou aqui. Não me mexo. Respira comigo. Quando estiveres pronto, e só quando estiveres, dizes.

E o Miguel respirou. Respirou através da dor, como o Carlos lhe dissera, e sentiu-a começar a ceder, aos poucos, o corpo a habituar-se, a abrir-se, a aceitar. E, por baixo da dor a passar, começou a nascer outra coisa, uma sensação de plenitude, de estar cheio, de ter o Carlos dentro de si, de serem, pela primeira vez, uma coisa só e não duas.

— Podes — disse, por fim, a voz num fio. — Podes, Carlos. Continua.

E o Carlos começou a mover-se. Devagar sempre, a ler-lhe cada reação, a recuar cada vez que o Miguel tensionava, a insistir cada vez que ele soltava um som que já não era de dor. E a dor foi ficando para trás, e o outro, o prazer, fundo, novo, diferente de tudo, foi tomando o lugar dela, até o Miguel se ver a mover também, a ir ao encontro do corpo do Carlos, a querer mais, a gemer o nome dele sem vergonha nenhuma.

— Amo-te — disse o Miguel, no meio daquilo, sem pensar, porque era a única coisa que lhe cabia no peito e não cabia. — Amo-te, Carlos.

— E eu a ti. — A voz do Carlos, desfeita, contra a boca dele. — Meu. Finalmente, todo meu. E eu todo teu.

Moveram-se assim, juntos, cada vez menos devagar, o Carlos a perder aos poucos o controlo de ferro que sempre tivera, a desfazer-se dentro do rapaz que amava, e o Miguel a segurá-lo, a recebê-lo, a subir com ele. E, quando o fim chegou, chegou para os dois quase ao mesmo tempo, o Miguel primeiro, com o nome do Carlos na boca e o corpo todo a tremer, e o Carlos logo atrás, arrastado pelo do Miguel, a enterrar o rosto no pescoço dele, a dizer-lhe coisas sem sentido contra a pele, o nome, o amor, tudo misturado.

E depois ficaram quietos. Colados. A respirar um contra o outro, no escuro morno, com o mar a bater lá fora e o coração dos dois a bater dentro.

🍃 🍃 🍃

O Carlos saiu dele com cuidado, tratou das coisas com a discrição de sempre, e voltou para a cama, e puxou o Miguel para si, para o peito, para os braços.

O Miguel estava a chorar.

E o Carlos não se assustou. Conhecia a diferença entre um choro de dor e um choro de uma coisa que era grande demais para o corpo.

Não fez perguntas. Não precisava. Apenas o apertou mais, e beijou-lhe a testa húmida, e deixou-o chorar contra o seu peito o tempo que ele precisou.

E o Miguel agradeceu-lhe o gesto, sentia que precisava dele, mais do que de qualquer palavra que o Carlos lhe pudesse dar. Aconchegou-se ainda mais naquele abraço, a cabeça no peito grande ainda suado.

— Está tudo bem — disse-lhe o Carlos, baixo. — Eu sei. Eu sei.

E sabia. Porque também ele, por dentro, sentia a mesma coisa, aquela plenitude quase insuportável, aquela sensação de que uma vida inteira de solidão e de portas fechadas tinha conduzido, sem ele saber, exatamente àquele quarto, àquela noite, àquele rapaz nos seus braços.

— Estou tão feliz — disse o Miguel, por fim, a voz molhada, quase a rir no meio das lágrimas. — Nunca pensei que se pudesse ser assim tão feliz. Tenho quase medo.

— Não tenhas. — O Carlos ergueu-lhe o queixo, e limpou-lhe as lágrimas com o polegar, como já fizera uma vez, no domingo em que o Miguel dissera que o amava. — Já não há nada para ter medo. Acabou. Os dois lados da tua vida em que tinhas medo, o passar fome e o estar sozinho, acabaram. A partir de agora é só isto. Isto, e mais anos disto do que os que conseguimos contar.

Ficaram assim um bom bocado, só a respirar, o Miguel a assentar aos poucos contra o peito do Carlos. E foi já no sossego, com o corpo mole e a cabeça leve, que o Carlos lhe perguntou, baixo, contra o cabelo:

— E tu? Como estás? A sério. — Um afago lento nas costas dele. — Doeu muito?

O Miguel pensou um instante. Podia mentir, mas respondeu com aquela honestidade que lhe era própria quando estava seguro.

— Doeu. — Disse-o sem drama, contra a pele do Carlos. — Ao princípio doeu, sim. — E depois, mais devagar, como quem descobre a coisa enquanto a diz: — Mas não foi... não foi uma dor má. Foi uma dor que valia a pena. E depois, quando passou... — Encolheu-se um bocadinho, quase tímido. — Depois foi bom. Foi mais do que bom. E até a parte que doeu, agora que penso nisso, não me faz querer que não tivesse acontecido. Estava lá, e fazia parte, e estava... bem. — Ficou calado um instante. — Não sei explicar melhor.

O Carlos não disse nada, ao princípio. Só lhe beijou o alto da cabeça.

Mas por dentro registou aquilo, a maneira como o rapaz falara da dor, sem medo dela, quase a defendê-la, a dizer que fazia parte. Não era coisa que se dissesse a um rapaz, nem que se apressasse, nem que se puxasse antes do tempo. Mas o Carlos guardou-a, com cuidado, no sítio onde guardava as coisas que ainda não eram para agora. Porque conhecia aquele registo. Porque sabia o que aquilo podia querer dizer, num rapaz assim, com um homem como ele. E porque, se um dia o Miguel quisesse ir mais longe do que aquela noite, mais fundo, a outros sítios onde o prazer e a entrega se misturavam com outras coisas, o Carlos havia de estar lá, sem pressa, para lho ensinar como ensinara tudo o resto: devagar, com cuidado, uma prateleira de cada vez.

Mas isso era para outro dia. Aquela noite era só do amor mais simples de todos.

— Estás bem — disse apenas o Carlos, e não era uma pergunta. — Portaste-te lindamente. Como sempre.

E o Miguel sorriu contra o peito dele, e fechou os olhos, e deixou-se ir no calor daquele corpo e daquela promessa.

E adormeceram assim, enrolados um no outro, na casa à beira do fim do mundo, com a escada toda subida atrás deles e uma vida inteira à frente, e, lá longe, do outro lado do sono, uma sombra qualquer chamada Jaime que, naquela noite, não tinha o menor poder sobre nada.

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