24 – À Beira do Fim do Mundo
O Carlos não lhe disse para onde iriam. Só lhe disse que o ia apanhar bem cedo, sábado de manhã, pois queria aproveitar bem o fim de semana, e que não levasse muita coisa, que o resto era com ele.
E o Miguel, que aprendera a confiar naquele homem como nunca confiara, fez uma mala pequena, e à hora marcada estava à janela; e mal viu o carro discreto a virar a esquina, bem à hora marcada, desceu a correr as escadas com o coração já a bater de antecipação, com o Carlos não tinha medo.
O Carlos levantara-se cedo, depois de uma noite dormida aos soluços. Na cabeça, os planos iam e vinham, mudavam de forma, desfaziam-se e voltavam a nascer. Já os tinha revisto várias vezes, sempre com a mesma preocupação: queria que tudo fosse perfeito para o seu Miguel.
Não se tratava apenas de lhe oferecer uma primeira vez memorável, embora o Carlos soubesse, com uma certeza íntima, que esse momento acabaria por acontecer. Era mais do que isso. Queria dar-lhe um fim de semana que o Miguel guardasse no coração. Queria mostrar-lhe, através de gestos, cuidados e pequenos detalhes, aquilo que as palavras, por mais verdadeiras que fossem, nunca conseguiam dizer por inteiro.
Queria provar-lhe que o amava.
Então colocou meia dúzia de coisas numa mala, e à hora marcada estava a chegar à porta da lavandaria. Parou, e um sorriso surgiu-lhe, quando viu o Miguel sair do prédio quase a correr.
🍃 🍃 🍃
Saíram de Montefrio pela estrada da costa, com a manhã ainda fresca e o mar a aparecer e a desaparecer entre as curvas, azul e enorme à direita deles.
O Carlos conduzia com uma mão no volante e a outra pousada sobre a do Miguel, na consola entre os dois. Ia calado, mas era um silêncio daqueles que, se estivermos com a pessoa certa, já são companhia.
De vez em quando, o Miguel olhava-o de lado: o perfil recortado contra a luz, os olhos âmbar atentos à estrada, a expressão tranquila. Como pode a felicidade ser algo tão simples como andar de carro à beira-mar, com a mão de alguém entrelaçada na minha? Esse foi o pensamento que atravessou a mente do Miguel.
— Já estiveste alguma vez fora de Montefrio? — perguntou o Carlos, a certa altura.
O Miguel pensou.
— Uma vez. Em pequeno, com a minha mãe. — Um sorriso pequeno, com um fio de saudade lá dentro. — Fomos à praia um dia inteiro. Não me lembro de quase nada, só de que ela se riu muito, e de que comemos batatas fritas com areia. — Encolheu os ombros. — Depois nunca mais houve dinheiro para essas coisas.
O Carlos apertou-lhe a mão, e não disse nada, mas naquele aperto havia uma promessa silenciosa: proporcionar ao Miguel tudo o que ele nunca tivera. E o Miguel percebeu, percebeu que, a partir daquele momento, havia de haver dinheiro, e tempo, e mar, para todas as coisas que a vida lhe tinha negado.
🍃 🍃 🍃
A casa ficava quase no fim de uma estrada de terra, sozinha, virada para o mar.
O que agradou ao Miguel foi o facto de não ser grande. Ele esperava uma casa imponente, mas o que viu foi uma casa baixa, de pedra branca, com um alpendre de madeira gasta pelo salitre e umas janelas que davam todas para a água, sem nada à volta a não ser o mato rasteiro, as dunas, e depois o mar, que se ouvia de todo o lado, um respirar grande e contínuo por baixo de tudo.
— É tua? — perguntou o Miguel, ao sair do carro, com o vento a despentear-lhe os caracóis.
— É. — O Carlos foi buscar as malas. — Era dos meus pais. Vínhamos para aqui no verão, quando eu era miúdo. — Olhou a casa um instante, com aquela ternura contida que lhe vinha sempre que falava de antes. — Depois... depois deixei de vir. Durante muitos anos não pus aqui os pés. — Voltou-se para o Miguel, e havia nos olhos dele qualquer coisa que era quase timidez. — Vim cá na semana passada. Queria ter tudo em condições para te receber.
O Miguel ficou parado, a mala na mão, a perceber o peso do que o Carlos acabava de dizer.
Não era só uma casa à beira-mar que o Carlos partilhava com o Miguel. Era outra parte do cofre, com a porta a abrir-se mais um pouquinho, a deixar o Miguel entrar naquela parte onde até agora o Carlos tinha guardado os mortos, e a memória, e a dor, e que abrira, e limpara, e preparara, para o levar a ele. Como a casa dos âmbares. Como tudo o que aquele homem lhe dava: nunca coisas, sempre pedaços de si.
— Carlos... — começou, e não soube como continuar.
— Eu sei. — O Carlos sorriu, e estendeu-lhe a mão livre. — Anda. Deixa-me mostrar-te o mar antes que o sol se ponha.
🍃 🍃 🍃
A tarde foi passada na praia deserta, ao fundo do caminho.
O Miguel percebeu que estava feliz por algo simples: andarem descalços pela areia molhada, com as calças arregaçadas e a espuma fria a subir-lhes aos tornozelos; o Carlos a mostrar-lhe como se atiram pedras à água para saltarem, e ele a não acertar uma única vez, e a rirem-se os dois disso como se fosse a coisa mais engraçada do mundo; a apanharem conchas que depois deitaram fora; a sentarem-se nas dunas a ver o mar mudar de cor com a tarde a cair.
Essa era a felicidade. Ali, naquele instante, sem reservas, o rapaz que passara a vida a guardar as coisas boas para não as gastar, a gastar aquela por inteiro, sem medo, porque aprendera enfim que há coisas que não se gastam de serem vividas. Que só crescem.
O Carlos observava-o de lado, o rapaz ruivo recortado contra o mar, os caracóis em desordem, a rir-se de nada, e sentiu o peito apertar. Pensou na promessa que fizera meses antes, a de lhe dizer no tempo certo; mas esse tempo já tinha chegado, e a frase tinha sido dita. Agora só restava ao Carlos provar que o amava todos os dias: em gestos.
🍃 🍃 🍃
Ao fim da tarde, o Carlos insistiu em fazer o jantar sozinho, e mandou o Miguel sentar-se no alpendre com um copo de vinho e não mexer em nada, o que fez o Miguel rir, logo o Carlos, que fazia o pior café do mundo, a própria Berta lho dizia muitas vezes. Mas o cheiro que começou a sair da cozinha fez o Miguel perceber que talvez o Carlos não fosse assim tão mau com os tachos.
Comeram no alpendre, à luz de uma vela que o vento ameaçava a cada bocado, com o mar preto e sonoro à frente e o céu a encher-se de estrelas como o Miguel nunca as vira, longe das luzes da cidade, eram tantas que metiam quase medo.
Falaram de muitas coisas, com o Carlos a abrir um pouco mais o tal cofre. Contou-lhe histórias dos verões de infância naquela casa, do pai a ensiná-lo a nadar, da mãe a estender a roupa entre dois postes e a cantar. E o Miguel a ouvir, e a guardar, como guardava tudo o que aquele homem dizia, cada pedaço era um tesouro que ele empilhava com cuidado, para os dias em que precisasse de se lembrar de que fora amado assim.
E houve um momento, a meio do jantar, em que o telemóvel do Carlos vibrou em cima da mesa. Uma mensagem. O nome do Ivo no ecrã.
📩 <Então, Sousa? Desapareceste. Passas pel'O Limiar logo à noite, ou andas entretido com coisa melhor?>
O Carlos leu de relance, com um meio-sorriso, e virou o telemóvel para baixo, sem responder.
— Não é nada que não possa esperar até segunda — disse.
O Miguel percebeu, pela maneira como ele o fez, sem pressa, sem incómodo, quase divertido, que era um dos amigos, e que o Carlos o estava a pôr de lado de propósito. Que fazia daquele fim de semana uma ilha, um sítio onde não entrava mais ninguém, nem os amigos, nem O Limiar, nem o mundo. Só eles os dois.
— Este fim de semana somos só nós — disse o Carlos, como se lhe adivinhasse o pensamento, e estendeu a mão por cima da mesa para lhe tocar na cara. — O resto fica lá fora. Prometo-te.
E o Miguel acreditou nele, porque aquele homem nunca lhe mentira, e porque queria acreditar, e porque tudo o resto, O Limiar, os amigos, a cidade inteira, parecia muito pequeno e muito longe, visto dali, daquele alpendre, à luz de uma vela e de um céu cheio de estrelas.
🍃 🍃 🍃
Mais tarde, quando o vento arrefeceu, recolheram para dentro.
A casa tinha um só quarto. Ambos tinham consciência disso, mas a nenhum dos dois isso importava; não eram precisas perguntas, porque a resposta já estava dada desde o domingo em que o Miguel dissera que o amava.
Não havia pressa. Com o Carlos nunca havia. Mas havia, dessa vez, uma certeza que não estivera lá antes, a de que, naquela noite, naquela casa à beira do fim do mundo, não ia haver nenhuma prateleira por alcançar. A de que tinham chegado, enfim, ao cimo da escada.
O Carlos acendeu o candeeiro de mesa-de-cabeceira, de luz baixa e quente. Lá fora, o mar continuava o seu respirar enorme. E voltou-se para o Miguel, para o seu Miguel, ali, de pé no meio do quarto, os caracóis desfeitos pelo vento, os olhos cinzentos a brilhar de uma coisa que já não era medo nenhum.
— Vem cá — disse o Carlos, baixo.
E o Miguel foi.