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23 – O Homem do Galão das Nove

O Vicente ensaiou o que dizer durante três dias.

A verdade era que, desde o almoço em casa do Carlos, o dia em que soube que a rapariga do galão era a melhor amiga do rapaz do amigo, o Vicente andava com uma coisa a mexer-lhe por dentro que já não o deixava em paz.

Mas isso era uma coisa só dele, pelo menos por enquanto. Os amigos ainda tinham a piada da pastelaria na ponta da língua, e não perdiam a oportunidade de lha atirar; confessar-lhes algo seria só deitar lenha nessa fogueira.

Porque numa coisa o Ivo tinha razão. Meses a beber galões àquela rapariga, a apreciar-lhe o riso por cima do jornal, a inventar desculpas para chegar mais cedo e sair mais tarde, e nunca, nem uma vez, a dizer-lhe mais do que "um galão e uma nata, se faz favor".

Um homem que endireitava impérios de madeira. Que restaurava com as próprias mãos coisas que os outros davam por perdidas. Que sabia, melhor do que ninguém, ver o valor escondido debaixo do estrago. E que, diante de uma mulher que ria numa pastelaria, se sentia completamente desajeitado.

Mas o Sousa arranjara coragem, ele, que durante catorze anos fora o homem mais fechado que o Vicente conhecia. Se o Carlos tinha conseguido, então talvez...

Tentar não deve magoar, pensou o Vicente.

🍃 🍃 🍃

O Vicente entrou pontual como sempre, as nove, e sentou-se no lugar do costume, junto à janela. A Íris viu-o entrar, e sorriu-lhe, aquele sorriso que ela dava a toda a gente, mas que, ao Vicente, sabia sempre a mais.

— Bom dia, senhor Vicente. — Já sabia o nome dele agora. Na memória da Íris ficara gravada toda a cena, mas principalmente aquele armário de homem, e o nome, e, acima de tudo, o modo como a defendera. — O do costume?

O Vicente não sabia que ela o via de um modo diferente desde esse dia, que já não era só o homem do galão das nove, mas o homem que a tinha defendido.

— O do costume. — E, quando ela se virou para a máquina, o Vicente sentiu o coração a fazer uma coisa ridícula para um homem daquele tamanho, e pensou: agora, ou não é nunca.

Ela trouxe-lhe o galão e a nata, e pousou-os, e ia a virar-se, quando o Vicente, antes que a cabeça o travasse, disse:

— Íris.

Ela parou, e voltou-se, porque algo na maneira como ele pronunciou o seu nome a fez ficar, não o "obrigado" distraído de sempre, mas uma coisa mais cheia, mais nervosa.

— Diga.

O Vicente abriu a boca, e, por um instante horrível, não saiu nada. A coragem dos três dias a ensaiar desapareceu, e ele viu-se ali, um armário de homem, mudo, a olhar para uma rapariga com os olhos de um miúdo apanhado a fazer asneira.

Mas a Íris esperou, com aquela paciência calma de quem serve cafés a gente nervosa a manhã inteira e sabe reconhecer quando alguém está a tentar dizer uma coisa difícil.

E foi essa paciência, a mesma que ele lhe vira dar aos velhos, aos miúdos, aos clientes chatos, que lhe destravou a língua.

— Eu venho aqui há meses — disse o Vicente, e a voz saiu-lhe mais firme do que ele esperava. — Todos os dias. E todos os dias digo a mim mesmo que hoje é o dia em que digo qualquer coisa que não seja o pedido. E todos os dias saio daqui com o galão bebido e a coisa por dizer. — Respirou. — Hoje não. Hoje digo.

A Íris tinha parado por completo. O pano que trazia na mão ficou esquecido. Ficou à espera do resto, que sabia existir.

— O que é que me quer dizer, senhor Vicente?

— Que gostava de a levar a jantar. — Pronto. Estava dito. E, agora que estava dito, o Vicente descobriu que não era assim tão difícil, que os amigos tinham razão, e continuou, mais solto: — Ou a almoçar, se jantar for muito. Ou a um café que não seja este, para variar, onde eu possa ser eu a servir-lhe a si, para variar também. Onde não haja balcão nenhum entre nós. — Encolheu os ombros grandes, com um meio-sorriso tímido. — Gostava de a conhecer, Íris. Fora daqui. Como deve ser.

Fez-se um silêncio. Curto, mas ao Vicente pareceu-lhe uma eternidade.

E depois a Íris sorriu, mas aquele não era o sorriso dado a toda a gente, o de balcão, o profissional. Era um diferente, mais pequeno, mais verdadeiro, mais só dele.

— Já não era sem tempo — disse ela.

O Vicente pestanejou, não conseguindo acreditar em como podia ser tão fácil, e viu no rosto dela o tal sorriso diferente.

— Como?

— Meses, senhor Vicente. — A Íris cruzou os braços, e havia riso nos olhos dela. — Meses a beber o galão e a olhar para mim por cima do jornal quando julgava que eu não via. Mas eu via. — Inclinou a cabeça. — Começava a achar que ia ter de ser eu a convidá-lo. E isso, com um homem tão grande e tão tímido, ia ser uma pena, porque metade da graça era ver se algum dia ganhava coragem.

O Vicente ficou vermelho, o vermelho dele, o dos almoços, o de rapaz, mas, desta vez, no meio do rubor, abriu-se-lhe na cara um sorriso tão largo e tão desarmado que a Íris teve a certeza de que tinha dado a resposta certa.

— Então é sim? — perguntou ele, para não haver dúvidas. O Vicente gostava de não haver dúvidas.

— É sim. — Ela pegou no pano outra vez, e virou-se para outra mesa, mas antes deitou-lhe um último olhar por cima do ombro, travesso. — Sexta. E não se atrase, que eu não gosto de esperar. Já esperei meses por si.

A Íris percebeu que o Jaime ter saído da vida dela tinha sido como tirar um peso dos ombros, que aquilo fora apenas uma ilusão de amor, que não sentia nada ao pensar nele. E que agora estava pronta para continuar a viver. Não sabia se tinha feito a escolha certa, mas pensar no Vicente aquecia-lhe o coração, coisa que nunca lhe acontecera com o Jaime.

E foi-se, a rir baixinho, deixando o Vicente sozinho à mesa, com o galão a arrefecer e a nata por comer e uma coisa quente e ridícula e imensa a encher-lhe o peito.

🍃 🍃 🍃

Ficou ali mais do que costumava. Se aquilo fosse um sonho, ele não queria sair, não queria que o momento se desfizesse, e que ele acordasse na sua oficina, no meio das cadeiras por restaurar.

Mas não era um sonho, e a prova era que, quando a Íris passava para servir outras mesas, o olhar e o sorriso que agora lhe dava eram diferentes. Agora o Vicente conseguia ver essa diferença.

Quando finalmente se levantou para sair, deixou na mesa o dobro da gorjeta do costume, e à porta ainda se voltou uma vez, só para a ver mais uma vez atrás do balcão, à luz da manhã, a rir com um cliente qualquer.

Coisas boas nascem de coisas más, pensou outra vez, como pensara no dia em que o idiota entrara a chateá-la. Só que agora percebia que a frase estava incompleta, e que coisas boas nascem de coisas más, mas só se alguém, um dia, tiver a coragem de as deixar nascer.

Ele tivera. Finalmente.

E foi só o começo, lento, como eram as coisas do Vicente, como tudo aquilo que nele valia a pena. Um jantar na sexta. E depois outro. O Vicente era paciente, e tinha dado o primeiro passo. E o resto...

Bem, o resto viria depois.

Agora o tempo era deles, assim como o silêncio.

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