top of page

22 – A Palavra de Domingo

O Miguel acordou primeiro, devagar, com a luz de domingo a entrar pela janela alta e um peso quente e desconhecido a prendê-lo à cama, o braço do Carlos, atravessado sobre ele, a mão aberta nas suas costas, que mesmo a dormir o segurava.

Um sorriso iluminou-lhe o rosto, e ficou quieto. Não queria que aquele momento terminasse, não queria acordá-lo. Ficou a ouvir a respiração lenta do homem atrás de si, a sentir-lhe o peito a subir e a descer contra as suas costas, e pensou que nunca, em toda a vida, tinha acordado assim, seguro, quente, querido. Sem o nó no estômago que o acompanhava havia tanto tempo. Sem o velho hábito de acordar já a medir o que o dia lhe podia tirar.

Ali, naquela cama, tinha a sensação de que, pela primeira vez, o dia parecia querer dar-lhe em vez de tirar.

— Estás a pensar tão alto que me acordaste. — A voz do Carlos, rouca de sono, quente no cabelo dele. O braço apertou-o mais. — Bom dia.

— Bom dia. — O Miguel virou-se, dentro do abraço, até ficar de frente para ele. E ali, à luz da manhã, com os caracóis em desordem e os olhos ainda meio fechados, o Carlos parecia outro: mais novo, mais macio, sem a armadura do costume.

— Dormiste bem? — perguntou o Carlos, beijando-lhe a testa. O Miguel corou, e o Carlos sorriu. Mesmo depois do que tinham vivido, o Miguel ainda era aquela pessoa tímida e envergonhada.

— Sim. — O Miguel disse-o, aconchegando-se mais contra o Carlos. — Quero dizer... dormi mesmo. A noite toda. Sem acordar. — Encolheu os ombros, quase a rir da própria surpresa. — Não me lembro da última vez que dormi assim.

O Carlos olhou para ele um instante. E depois puxou-lhe a cabeça para o peito, e beijou-lhe o alto dos caracóis, e não disse nada, mas o Miguel sentiu-o apertá-lo com uma força nova, como quem guarda uma coisa preciosa e tem medo de que ela perceba o quanto vale.

🍃 🍃 🍃

O domingo foi passado sem vontade de sair, sem qualquer plano. Apenas o quererem estar os dois.

A Berta, que encontrou o Miguel ainda de camisola emprestada e o Carlos a tentar fazer o café e a fazê-lo mal, fingiu-se zangada, fez-lhes o pequeno-almoço, com um sorriso que não lhe cabia na cara. Depois recolheu-se ao seu canto, e deixou-os, porque sabia que havia coisas que é melhor que aconteçam sem testemunhas.

E a Berta era uma pessoa sábia, e observadora, e via um Carlos diferente quando estava com o Miguel, um Carlos que ela não via desde que a mãe ainda era viva. E mentalmente agradeceu àquele menino, que entrara na vida do Carlos como um raio de sol a entrar por uma janela.

E essas coisas aconteceram. O Carlos a mostrar-lhe a casa toda, agora à luz do dia, sem a solenidade da primeira visita, o quarto de quando era menino, os livros do pai, o jardim que a mãe plantara. O Miguel a ouvir as histórias todas, e a guardá-las, porque cada uma era um pedaço do homem que amava. Almoçaram sobras do dia anterior. Riram-se de coisas que não tinham graça nenhuma. Ficaram no sofá uma tarde inteira, o Miguel encostado ao peito do Carlos, um livro aberto que nenhum lia, a luz a mudar devagar na sala.

E foi aí, algures no fim da tarde, com o sol a descair alaranjado pelas janelas e a casa em silêncio à volta deles, que o Miguel disse.

Simplesmente ergueu a cabeça do peito do Carlos, olhou-o nos olhos âmbar, aqueles olhos que o tinham assustado no primeiro dia e que agora se tinham tornado o seu porto seguro, e finalmente aquela coisa sem nome tinha encontrado a sua casa, e podia ser nomeada.

Agora o Miguel tinha a certeza do nome.

— Amo-te.

O Miguel sentiu o coração parar à espera, o velho medo a espreitar, o "e se foi cedo de mais, e se disse mal, e se estraguei tudo". Mas segurou o olhar. Desta vez não fugiu, não se calou, não escondeu. Deixou a palavra ficar entre os dois, exposta, verdadeira, sua.

Era tarde para voltar atrás, e, sinceramente, ele não o queria fazer. Estava dito, e pronto.

E foi então que viu acontecer: o homem de gelo, o dono de si, o que media cada palavra, ficar sem nenhuma, e isso era uma coisa que poucas pessoas tinham tido o prazer de ver.

Viu os olhos âmbar encherem-se, e o Carlos engoliu em seco, uma vez, e abriu a boca, e fechou-a, à procura de uma resposta que estivesse à altura, e não a encontrou.

Porque a verdade é que o Carlos, que dizia tudo pela ordem certa, tinha ensaiado mil vezes a sua vez de o dizer, e o Miguel, o rapaz tímido das prateleiras, tinha-lhe passado à frente. Tinha sido mais corajoso do que ele.

— Tu... — começou o Carlos, e a voz falhou-lhe, coisa que nunca acontecia. Tentou outra vez. — Devia ter sido eu a dizê-lo primeiro. Andava a preparar-me para isso. — Um riso pequeno, molhado, incrédulo. Levou a mão à cara do Miguel, e o polegar tremia-lhe um bocadinho. — Meses a preparar-me. E tu dizes-mo assim, num domingo, de camisola vestida, como se fosse a coisa mais fácil do mundo.

— E não é? — perguntou o Miguel, baixo.

O Carlos olhou para ele. E percebeu que não, para o Miguel não fora fácil, fora a coisa mais difícil e mais corajosa que aquele rapaz alguma vez fizera. Dizer em voz alta a coisa que se guarda para não a gastar. Confiar tanto que se arrisca a palavra maior de todas.

— Amo-te. — O Carlos disse-o enfim, e a voz saiu-lhe firme agora, firme e cheia, como se a tivesse guardado a vida inteira à espera de a poder gastar toda de uma vez. — Amo-te, Miguel. Há mais tempo do que devia. Mais do que alguma vez pensei voltar a amar seja quem for. — Encostou a testa à dele. — Obrigado por o teres dito primeiro. Por seres, sempre, mais corajoso do que pareces.

E o Miguel chorou, sem saber porquê, sem vergonha, e o Carlos limpou-lhe as lágrimas com os polegares, e beijou-o, e ficaram assim, testa com testa, no sofá, com a tarde a acabar à volta deles e a palavra dita a aquecer a sala inteira.

A Berta, que passava por perto, viu a cena, a confissão, e o seu coração encheu-se de algo que ela nem sabia bem o que era, e as lágrimas assaltaram-lhe os olhos, prestes a cair.

🍃 🍃 🍃

Mais tarde, já com a noite a chegar, enrolados ainda no sofá, o Carlos falou-lhe contra o cabelo:

— Quero pedir-te uma coisa.

— Pede.

— Um fim de semana. Só nós os dois. — Fez uma festa lenta nas costas dele. — Sem a Berta, sem os amigos, sem boleias nem lavandarias nem horas para cumprir. Levo-te a um sítio, fora de Montefrio, à beira-mar. Um fim de semana inteiro em que não tenhas de ir a lado nenhum e eu não tenha de te deixar à porta de sítio nenhum.

O Miguel sorriu contra o peito dele.

— E vamos fazer o quê, nesse fim de semana?

Sentiu o Carlos rir baixo, o peito a vibrar-lhe debaixo da cara.

— Isso — disse o Carlos, com um traço de malícia na voz que o Miguel ainda não conhecia — depende de ti. Como sempre. — Uma pausa, e o Miguel adivinhou-lhe o meio-sorriso sem precisar de o ver. — Mas deixo-te um aviso: não te prometo que nós fiquemos só nos preliminares. Quero-te por completo. Digo-te para que não vás ao engano.

O Miguel corou até às orelhas, como sempre. Mas, desta vez, em vez de esconder a cara, ergueu-a, o rosto corado e os olhos a brilharem com uma certeza, e a coragem nascida depois da palavra dita respondeu:

— Ainda bem. — E, mais baixo: — Porque eu também quero isso.

O Carlos olhou para ele, e viu a certeza e a convicção nos olhos cinzentos, e nos olhos âmbar acendeu-se qualquer coisa, desejo, sim, mas por baixo dele uma coisa maior, mais funda, quase reverente. Como quem recebe uma dádiva que não esperava e não sabe bem o que fez para a merecer.

— Então está combinado — disse apenas.

E selaram o combinado com um beijo, e o fim de semana ficou marcado, algures ali à frente, à espera deles, a última prateleira, a que faltava, a que os dois agora, enfim, queriam alcançar juntos.

🍃 🍃 🍃

A felicidade bateu de frente com a realidade: o turno no Sanctum, a D. Lurdes a gritar da cozinha, a rotina a retomar o seu lugar.

Mas nada disso impediu o Miguel de ir trabalhar a flutuar, com a palavra de domingo ainda a aquecê-lo por dentro, a contar as horas para a tarde, para a boleia, para o Carlos.

Mas essa felicidade foi abalada no final do turno, quando o Miguel saiu do Sanctum pela porta das traseiras, como sempre, a ajeitar a mochila ao ombro, a cabeça já no carro que o esperaria dali a nada.

E lá estava ele. O Jaime.

Encostado à parede do outro lado da rua, as mãos nos bolsos, com aquele ar de quem espera há bocado e quer que se note. Mais magro e mais mal encarado do que o Miguel se lembrava, sem aquele charme ensaiado na cara, agora havia um desespero de quem foi perdendo e não sabe parar.

O Miguel estacou. O velho frio subiu-lhe pela espinha.

— Miguel. — O Jaime desencostou-se da parede, mas não avançou. — Só quero falar. Um minuto.

— Não temos nada para falar. — A voz do Miguel saiu mais firme do que ele esperava. A palavra de domingo, se calhar. Ou os meses todos de deixar de ter medo. — Já disse tudo o que tinha a dizer. Tu e a Íris trataram do resto.

— A Íris. — O Jaime torceu a boca. — A Íris virou-me as costas por causa de ti. Toda a gente vira, afinal. — Deu meio passo. — Eu só quero perceber. O que é que ele tem, o teu ricaço, que eu não tenha? A não ser o dinheiro. — A voz baixou, e ficou feia. — Porque a ele dás, e a mim... Eu vi-vos, Miguel. Sei o que tu és. Podíamos...

— Não. — O Miguel cortou-o, e a firmeza da própria voz surpreendeu-o a ele mesmo. — Não há "podíamos". Nunca houve. E tu não sabes nada do que eu sou. — Apertou a alça da mochila. — Vai-te embora, Jaime. A sério. Não voltes aqui.

O Jaime abriu a boca para responder, mas qualquer coisa, atrás do Miguel, lhe apanhou o olhar, e o que quer que ia dizer morreu-lhe na garganta.

Era o carro. O carro discreto, a virar a esquina, a abrandar junto ao passeio.

O Jaime olhou para o carro, e para o Miguel, e uma sombra passou-lhe pela cara, e recuou um passo, dois. Cuspiu qualquer coisa entre dentes, uma ameaça pela metade, e afastou-se rua abaixo, depressa, sem olhar para trás.

O Miguel ficou parado, o coração a bater, a ver o carro parar à sua frente.

E, pela primeira vez na vida, não pensou em calar-se.

🍃 🍃 🍃

Assim que o Miguel entrou no carro, o Carlos percebeu logo. Bastou-lhe um simples olhar para o rosto do mais novo.

— O que foi? — A voz mudou, ficou atenta, séria. — Miguel. O que foi?

E o Miguel contou. Não só porque tinha prometido, mas porque precisava, porque já não sabia esconder nada daquele homem, e porque desde domingo nada mais ficava por dizer. Contou o Jaime à parede, o que dissera, o "eu vi-vos, sei o que tu és", a ameaça pela metade, a fuga assim que o carro apareceu.

E o Carlos ouviu tudo em silêncio. Não disse nada de violento. Não gritou, não praguejou, não bateu no volante. Só estendeu a mão, e pousou-a na nuca do Miguel, e puxou-lhe a testa até à sua, devagar.

E o Miguel viu, no rosto dele, a coisa firme instalar-se, aquela que ele já conhecia, a que morava lá quando era preciso proteger, a que fazia daquele homem calmo alguém capaz de meter medo a quem fosse preciso.

— Obrigado — disse, baixo. — Por me teres contado. No momento, como pedi. — Um beijo na testa. — Fizeste bem. Fizeste lindamente.

— Ele não vai desistir, pois não? — A voz do Miguel saiu pequena.

— Não. — O Carlos não lhe mentiu. — Gente assim não desiste sozinha. — Afastou-se o suficiente para o olhar nos olhos, e a coisa firme estava lá, tranquila e total. — Mas isto acaba. Ouve-me bem: isto acaba, e acaba em breve, e não és tu que vais ter de o resolver. Deste-me a tua parte: contaste-me. A minha parte, a de tratar disto, é comigo. — Apertou-lhe a nuca. — Deixas-me tratar disto, como combinámos?

O Miguel olhou para aqueles olhos, para aquela calma que não era fraqueza nenhuma, e sentiu o medo escoar-se-lhe do corpo, substituído por outra coisa, a mesma que sentira na casa, diante da cadeira da mãe morta. A certeza de estar, enfim, protegido.

— Deixo — disse.

— Então está tratado. — E o Carlos endireitou-se, meteu o carro em andamento, e a coisa firme recolheu-se para onde vivia, à espera da hora. — Agora vamos para casa. Já pensaste no fim de semana?

E o Miguel, apesar de tudo, apesar do Jaime, apesar do susto, apesar da sombra que a segunda-feira trouxera, deu por si a sorrir.

Porque havia uma sombra, sim. Mas havia também um homem ao seu lado que a havia de fazer desaparecer. E havia um fim de semana à espera. E havia, dita e guardada e verdadeira, a palavra de domingo.

E, contra tudo aquilo, uma sombra não era grande coisa.

A felicidade e o amor eram mais fortes do que qualquer sombra.

bottom of page