21 – Os Que Ficam de Fora
Quando os três saíram de casa do Carlos, era já noite, mas, com o calor do almoço ainda em cima, nenhum tinha vontade de voltar para casa.
Foi então que o Ivo disse, ao chegar aos carros:
— Não me apetece ir para casa. E, sinceramente, também não me apetece ir a'O Limiar. — Meteu as mãos nos bolsos, olhou a rua. — Hoje não. Não me apetece bancar o dono da casa esta noite. Há sempre quem queira mais, e hoje não quero. — Um encolher de ombros. — Uma bebida, algures. Quem alinha?
O Sílvio alinhou, porque, quando a noite lhe mexia com qualquer coisa por dentro, preferia não ficar sozinho com ela, e era para isso que tinha os amigos. E o Vicente alinhou, porque alinhava sempre, era o género de homem que dizia que sim não só para agradar, mas porque eram amigos ali.
E, sem ser preciso dizer nada, qualquer um deles sabia que em Montefrio só havia um sítio quente, com barulho de outras vidas à volta, onde a sua própria coubesse sem dar muito nas vistas.
E esse lugar era o Destinos.
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O bar dos Matos, a um sábado àquela hora, estava cheio na medida certa, gente que chegava, gente que saía, a música baixa por cima do murmúrio, o cheiro a madeira e a boa bebida.
E o Lourenço, como sempre atrás do balcão, viu-os entrar, abriu o sorriso e os braços, como se quisesse abraçar os três.
— Ora aqui está o que faltava. — A voz rouca a passar por cima da sala. — Três quartos d'O Limiar dentro do meu bar. E o quarto, esse, de certeza que arranjou algo mais interessante para fazer, ou não os tinha deixado vir a esta humilde casa sozinhos. — Piscou o olho. — Sentem-se onde quiserem. Eu levo-vos já qualquer coisa que preste.
Sentaram-se numa mesa a um canto, longe do barulho. E o Lourenço, fiel à palavra, apareceu logo com uma garrafa e três copos, e ficou um instante, como bom anfitrião, e porque o seu instinto lhe dizia que havia algo no ar.
— O Sousa não vem? — perguntou, a servir.
— O Sousa — disse o Ivo, com um sorriso torto — bem, não te enganaste por muito. Está em casa. Com um rapaz ruivo.
O Lourenço soltou uma gargalhada, e o grupo surpreendeu-se.
— Então é verdade. — Abanou a cabeça, quase enternecido. — A Mirella tinha razão, como sempre. Aquela mulher fareja estas coisas antes de acontecerem. — Pousou a garrafa. — Fico feliz por ele. Já era altura de alguém daquela casa ser feliz. — E, com uma última piscadela: — Falta só ver quando é a vez de vocês.
E foi-se, antes que algum lhe respondesse, o que foi bom, porque nenhum dos três tinha resposta pronta para aquilo.
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De volta ao balcão, o Lourenço já não estava sozinho. Tinha os dois irmãos com ele.
O Lucas tinha aparecido a meio da tarde, e estava encostado a um canto do balcão a fazer olhinhos a um rapaz que ria mais do que a piada dele merecia.
O Luís, o mais velho, chegara há pouco, de fato ainda, direito do que quer que fazem os juízes às sextas à noite, e bebia um uísque em silêncio, a ver os irmãos com aquele ar sério e sereno de quem já viu tudo e se diverte com pouco.
Três irmãos, três feitios, um bar.
O Lourenço a encher a casa de voz, o Lucas a encher-se de conquistas, o Luís a encher o copo devagar e a não dizer nada. E, no meio deles, o retrato de uma família que se dava, onde as discussões existem, mas também a proteção.
Os três Doms, do seu canto, eram só mais uns clientes daquela noite. E, por uma vez, soube-lhes bem ser só isso.
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O silêncio, naquele canto do bar, era mais intenso do que o costume, cada um a beber os primeiros goles da bebida, cada um com os seus próprios pensamentos.
Foi o Ivo, como sempre, quem quebrou o gelo, trazendo ao de cima o tema principal: o Carlos e um ruivo.
— Nunca pensei ver aquilo. — Rodou o copo na mão. — O Sousa assim. Catorze anos fechado como um cofre, e foi preciso um rapaz ruivo que lhe chega aos ombros para que se derretesse e lhe abrisse as portas do cofre. — Deu um sorriso, e bebeu um pouco. — E a casa, viram a casa? Aquilo era um mausoléu. Hoje tinha gente, tinha barulho, tinha a Berta feliz. — Levantou o copo, meio a brincar, meio não. — À saúde do Sousa, que teve o bom senso de não morrer sozinho, como a gente lhe augurava.
Brindaram. Riram-se. E, por um instante, foi só isso, três amigos felizes pelo quarto.
Mas o Sílvio pousou o copo, e disse, mais para o líquido do que para eles:
— Ele mereceu. — Uma pausa. — Nem todos merecem. Mas ele mereceu.
E o Vicente e o Ivo, que se conheciam bem, e que conheciam o Sílvio, perceberam que aquela frase não era sobre o Carlos, mas sobre ele mesmo.
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Conheciam-lhe a ferida. Sabiam que ele se achava indigno de amor, e que fugia por medo de magoar.
Os amigos sabiam lê-lo. O Sílvio não era homem de muitas palavras, mas o silêncio, e aquela frase dita daquela maneira, e o olhar que se via triste e não frio, para quem o conhecia bem, tinha um peso diferente. E o Ivo, que o conhecia há séculos, notou-o.
— Sílvio, queres falar connosco? — perguntou, com cuidado. — Andas com uma cara desde que saímos de casa do Sousa.
— Andas diferente há uns dias — rematou o Vicente.
— Não ando com cara nenhuma. Está tudo na mesma. — O Sílvio disse-o com uma fingida indiferença que os amigos sabiam não ser verdade.
— Andas, sim. — O Ivo não insistiu com dureza. Sabia que, com o Sílvio, as coisas tinham de ser tiradas da alma com muita calma. E eles tinham essa calma.
— Somos amigos há tantos anos. Como não te conheceríamos? — completou o Vicente.
O Sílvio ficou calado um bocado. Bebeu. E, quando falou, foi para dizer uma coisa que não parecia ter que ver com nada, mas que tinha que ver com tudo. Pelo menos, tinha que ver com ele.
Vi uma coisa, há uns dias. N'O Limiar., Girava o copo devagar, os olhos lá dentro., Um tipo com um rapaz de coleira. Um tipo que eu não conhecia., Uma pausa., E o rapaz não estava ali por gostar. Estava ali por medo. Dava para ver. A maneira como se encolhia, como obedecia depressa de mais, com um salto de cada vez., Apertou o maxilar., Aquilo não era o que nós fazemos. Aquilo era outra coisa. Aquilo era um homem a usar uma coisa bonita para fazer mal.
Ninguém disse nada. O Ivo e o Vicente conheciam o Sílvio o suficiente para saber que ele não estava à espera de resposta. Estava só a deixar sair. E eles ouviam, atentos, e deixavam que saísse.
— E eu não fiz nada. — O Sílvio disse-o baixo. — Não era a minha casa, não era o meu sub, não era o meu assunto. Não fiz nada. — Bebeu. — Mas fiquei com aquilo cá dentro. A cara do rapaz. Aqueles olhos. — Abanou a cabeça. — Não sei porquê. Vejo muita coisa naquela casa, e nada me fica. Aquilo ficou.
O Ivo abriu a boca, e o Sílvio cortou-o, com um sorriso torto que não chegava aos olhos:
— Não digas nada. Não é nada. É só um rapaz qualquer, de um tipo qualquer, que eu nunca mais vou ver. — Esvaziou o copo. — Esquece.
Mas o que ele ainda não sabia era o quanto estava enganado.
Porque nenhum deles esqueceu, e o Sílvio menos que todos. Porque há coisas que um homem diz "esquece" precisamente porque sabe que não vai conseguir.
E, no fundo daquele copo vazio, sem que ele desse por isso, a cara do rapaz de coleira voltou a olhar para ele.
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O Ivo, que não gostava de deixar a conversa cair para um sítio escuro, virou-a depressa para o alvo mais fácil.
— E tu, Vicente. — Apoiou-se na mesa, com um brilho travesso. — Já que estamos com a mão na massa. Quando é que voltas à tal pastelaria?
O Vicente, que ia a meio de um gole, quase se engasgou.
— Eu volto à pastelaria todos os dias. Porque perguntas?
— Sabes porque pergunto. — O Ivo não largava. — Levas meses a admirá-la com olhos de carneiro mal morto, por detrás de um jornal e de um galão como desculpa.
— Eu não faço olhos de carneiro nenhuns.
— Fazes uns olhos — atalhou o Sílvio, sem levantar os seus do copo, mas com um princípio de sorriso — que até um cego via.
O Vicente abriu a boca para protestar, e fechou-a. Porque a verdade é que não havia como negar, e os três sabiam-no, e ele era um homem que, se não sabia mentir aos amigos, ao menos sabia calar-se.
— Ela é... — Começou, e parou, à procura da palavra. Encolheu os ombros grandes, quase tímido. — Ela ri-se com toda a gente. Com os velhos que vão lá tomar o café, com os miúdos, com os clientes chatos. Ri-se como se o mundo lhe agradasse. — Rodou o copo. — Não sei o que uma mulher assim iria querer com um tipo que restaura cadeiras velhas e não sabe dizer três palavras seguidas sem se atrapalhar.
E ali estava, acabara de o confessar, sem dar por isso: não era falta de vontade que travava o Vicente. Era o achar-se pouco. O gigante que endireitava impérios de madeira, e se sentia pequeno diante de uma rapariga que ria numa pastelaria.
— Vicente. — O Ivo tinha largado o gozo, e falava agora a sério. — Vai lá. Toma o café. Diz-lhe qualquer coisa que não seja "um galão, se faz favor". É só isso. O resto vem.
— É fácil dizê-lo.
— E é fácil fazê-lo. E é de graça. — O Ivo sorriu. — Põe os olhos no Sousa. Ele achava que a vida boa era coisa de outros. E hoje provou-nos que não.
O Vicente não respondeu. Mas ficou a olhar para o copo com uma coisa nova na cara, não a vergonha de há bocado. Qualquer coisa mais parecida com coragem a ganhar forma, devagar, como as coisas boas ganham.
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Ficaram até tarde. Beberam mais um, e depois outro, e a conversa aligeirou-se outra vez, o Ivo a contar uma história antiga, o Vicente a rir, o Sílvio a voltar ao seu silêncio de sempre, agora mais leve.
Do balcão, os Matos iam-nos vigiando com o canto do olho, à maneira de quem cuida da casa. O Lucas acabou por sair, a meio da noite, com o rapaz do riso fácil atrás de si, não se sabe para onde. O Luís pagou a conta de todos sem dizer nada, como quem não quer que se note, e saiu primeiro. E o Lourenço, ao fechar, mandou-lhes o último copo por conta da casa, com um recado:
— Digam ao Sousa que a Mirella tinha razão. — Sorriu. — E digam-lhe que o resto de vocês também merece. Ela costuma ter razão sobre isso também.
Saíram para a noite de Montefrio, os três, cada um com a sua bebida a mais e a sua verdade calada.
O Ivo despediu-se primeiro, com um abraço de urso e uma piada qualquer, e meteu-se no carro rumo a uma casa grande, cheia de quartos e vazia de gente, a casa do homem que dava abrigo a toda a gente e voltava sempre sozinho para a sua.
O Vicente ficou ainda um bocado no passeio, sem pressa de arrancar, o riso de uma rapariga a dar-lhe voltas à cabeça e, pela primeira vez em meses, a ideia de fazer alguma coisa acerca disso. Diz-lhe qualquer coisa que não seja "um galão, se faz favor." Talvez. Talvez amanhã. Talvez, desta vez, ganhasse a coragem.
E o Sílvio foi o último a sair. Ficou um instante à porta do Destinos, a acender um cigarro que não lhe apetecia, só para adiar a casa. Levava consigo uns olhos que não eram os seus, os do rapaz de coleira, e uma farpa que não saía, e a certeza incómoda, que ele havia de negar a si mesmo por muito tempo ainda, de que algumas coisas, quando nos ficam, é porque vieram para ficar.
Três homens, três caminhos, três faltas.
E, do outro lado da cidade, numa casa que voltara à vida, um quarto Dom dormia com um rapaz ruivo nos braços, sem saber que, naquela noite, sem ele lá estar, tinha sido o assunto de três amigos, e a prova viva de uma coisa em que nenhum deles se atrevia a acreditar por inteiro:
Que a felicidade, às vezes, também chega aos que julgam já não estar à espera dela.