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20 🔞 – Uma Prateleira de Cada Vez

— Fico.

A resposta saiu sem hesitação. A voz do Miguel não vacilou; vinha firme, inteira, carregada da certeza que sentia. Queria ficar. Não apenas naquela noite, mas em muitas outras. Talvez em todas. Naquele instante, percebeu com uma clareza serena que desejava permanecer ao lado do Carlos por muito mais tempo do que se atrevera, até então, a imaginar.

Os olhos âmbar do Carlos brilharam, e o coração aqueceu-lhe no peito. Não respondeu de imediato. Apenas estendeu a mão. O Miguel aceitou-a, e deixou-se conduzir até ao andar de cima, à parte da casa que ainda não conhecia.

🍃 🍃 🍃

O quarto do Carlos deixava transparecer o que ele era: grande, sóbrio, sem nada a mais. Uma cama larga, madeira escura, uma janela alta por onde entrava a noite de Montefrio. Tinha o cheiro do Carlos, aquele cheiro que o Miguel já conhecia de cor, de meses de boleias e de abraços, e que ali, concentrado, o fez respirar mais fundo.

Já dentro do quarto, o Carlos foi a uma cómoda e tirou de lá uma camisola dobrada e uns calções velhos, macios de tantas lavagens, e estendeu-lhos, mas sem se aproximar, sem fazer menção de tocar.

O Miguel reparou, e agradeceu-o interiormente, aceitando a roupa com um sorriso.

— A casa de banho é ali. — Apontou uma porta. — A roupa é a que tenho, deve ficar-te grande, mas é o que há. Quem sabe se, num futuro próximo, esta cómoda não terá a tua roupa. — O Carlos disse-o com um sorriso, a tentar brincar. Mas, por dentro, sabia que era mesmo aquilo que queria: a roupa do Miguel junta com a sua.

O Miguel corou, sem saber o que responder. Não lhe passara nada daquilo pela cabeça, mas a ideia era bastante agradável.

— Fica à tua vontade. Não há pressa.

Não que o Carlos não quisesse esse banho com o Miguel, queria, e muito. Mas ainda era cedo. Sabia que tudo aquilo era novidade para o seu menino, e nada naquela noite havia de ser apressado, nada havia de acontecer antes de tempo, nem mesmo o dormir abraçados. Um rapaz nervoso precisa de uns minutos sozinho, com a água quente a cair-lhe nos ombros, para se assentar dentro da própria pele.

O Miguel sentiu o peito apertar ao perceber o gesto. Percebeu que o Carlos lhe estava a dar espaço, e isso só o fez confiar ainda mais naquela figura alta, agora sentada na cama, a olhá-lo. Pegou na roupa, ainda quente das mãos dele, com o cheiro a lavado a misturar-se com o cheiro do Carlos.

Quando saiu, de camisola e calções do Carlos, os caracóis ainda húmidos, encontrou-o já deitado, à espera, com um livro que não estava a ler pousado no peito. O cabelo molhado denunciou-o: tinha ido tomar banho a outro quarto.

O Carlos olhou para o rapaz ruivo, perdido dentro da roupa dele, à porta do quarto, sem saber bem o que fazer a seguir, a camisola a chegar-lhe um pouco acima dos joelhos, a tapar os calções amarrados com um nó na cintura para não lhe caírem, e teve de se controlar para não dizer tudo o que lhe ia na alma.

— Anda cá — disse apenas, a afastar a roupa da cama do lado vazio e a bater de leve com a mão no colchão.

🍃 🍃 🍃

O Miguel deitou-se primeiro um pouco afastado, como se ainda não soubesse que espaço podia ocupar naquela cama. O Carlos não o apressou. Apenas lhe encurtou a distância com cuidado, puxando-o para si devagar, até o sentir encostado ao peito, a cabeça ruiva abrigada debaixo do seu queixo.

Ficaram assim durante algum tempo, os corpos a encontrarem o seu encaixe, a respiração a assentar, o coração do Miguel a acalmar contra o do Carlos. E foi o Miguel quem, passado esse silêncio, ergueu o rosto.

Num impulso, tomou a iniciativa do beijo. Sabia que o Carlos lhe daria sempre espaço, que manteria a distância se ele precisasse dela. Mas o Miguel queria um pouco mais. Não sabia ainda dar nome ao que queria; sabia apenas que queria.

A boca dele procurou a do Carlos, e surpreendeu-o, não pela ousadia, mas pela confiança. O beijo começou devagar, como sempre. Só que ali, naquela cama, era diferente. Havia tempo. Havia silêncio. Havia espaço para sentir.

O beijo aprofundou-se, e as mãos do Carlos começaram a aprender o caminho por baixo da camisola emprestada, a subir-lhe pelas costas. A pele quente do Miguel arrepiou-se debaixo dos dedos.

Então o Carlos parou.

À sua frente estava o Miguel. O seu Miguel. Não um submisso qualquer, não mais um entre tantos que lhe tinham passado pelas mãos. E foi esse pensamento que o travou.

O Miguel continuava de olhos fechados, entregue, confiante. Mas percebeu a pausa, e abriu-os. Nos olhos cinzentos surgiu a dúvida.

— Miguel, preciso de saber. Posso continuar? — O Carlos perguntou-o sem desviar os olhos dos dele, as mãos ainda paradas por baixo da camisola larga. — Preciso de olhar para ti. De te tocar. — Viu ainda a sombra de dúvida no olhar que aprendera a amar, e continuou, mais baixo: — Só o que tu me quiseres dar. Neste momento, quero dar-te prazer. Quero ouvir-te gemer outra vez, como no carro. Só isso. Mas preciso que mo digas.

Por um instante, o Miguel ficou calado. Havia desejo no rosto dele, havia também receio, nascido da inexperiência. Mas havia, acima de tudo, confiança. E curiosidade. Muita curiosidade.

— Podes — disse, enfim, entre a ansiedade e a certeza.

🍃 🍃 🍃

Então, devagar, o Carlos tirou-lhe a camisola. O tecido subiu-lhe pelos braços, pela cabeça, e o Miguel ficou ali, exposto, não só pela pele nua, mas sobretudo pelo modo como o Carlos o olhava.

E o Carlos não teve pressa nenhuma de o tocar. Ficou primeiro só a olhá-lo, a demorar-se, a beber a imagem dele: a pele clara arrepiada pela frescura do quarto, as duas aréolas escuras que ele sabia serem sensíveis e que agora estavam ali, ao seu alcance, à espera; o peito a subir e a descer depressa, a respiração presa algures entre o medo e a vontade.

— Deixa-me olhar para ti — disse o Carlos, baixo, a voz mais rouca do que o Miguel alguma vez lhe ouvira. — Meses que quero olhar para ti assim.

O Miguel corou dos pés às orelhas. Mas não se tapou. Deixou-se olhar, e havia coragem nisso, uma coragem calada, e uma confiança inteira, oferecida sem uma palavra. E foi isso, mais do que qualquer ousadia, que atravessou o Carlos por dentro: não a pele do rapaz, mas a maneira como ele lha entregava, sem defesa nenhuma.

Voltou a beijá-lo. E, desta vez, as mãos não pararam.

Mas também não se apressaram. Foi essa a tortura doce, a lentidão. A mão grande do Carlos desceu-lhe pelo braço abaixo, devagar, tão devagar que o Miguel sentiu cada centímetro dela, e depois subiu-lhe ao peito, e demorou-se ali, a aprender-lhe a pele, sem chegar ainda onde o corpo do Miguel já começava a pedir que chegasse. E o Miguel percebeu, com um misto de vergonha e de espanto, que estava a querer que a mão descesse. Que o corpo dele, sozinho, sem lhe pedir licença, se arqueava um bocadinho para ir ao encontro do toque.

Nunca o corpo lhe tinha falado assim. Nunca lhe tinha exigido nada. E agora exigia, um calor no fundo do ventre que subia e se espalhava e não tinha nome, e o Miguel não sabia como se responde a uma fome destas. Só sabia que não a queria travar.

E então a mão do Carlos chegou aos mamilos, e o Miguel ouviu-se gemer, um som que lhe saiu sem ele o mandar sair, e que morreu na boca do Carlos.

— Isso — sussurrou o Carlos contra os lábios dele, e havia um sorriso na voz, e uma vontade escura por baixo do sorriso. — Não te calas. Quero ouvir-te.

Os dedos apertaram-lhe os mamilos devagar, a girá-los, e o Miguel arqueou-se outra vez, mais alto, um gemido mais fundo a escapar-lhe. E o Carlos sentiu aquilo atravessá-lo todo, cada tremor do rapaz, cada som, cada vez que o corpo dele se erguia à procura de mais, excitava-o quase como se fosse o Miguel a tocá-lo. Dar prazer àquele rapaz era um prazer de outra ordem, mais fundo do que qualquer coisa que as mãos de outros lhe tivessem dado a ele.

Deixou-lhe a boca. E desceu, pelo pescoço, com a língua e os lábios a alternarem, a deixar um rasto de fogo pela pele do rapaz, que estremecia debaixo dele a cada beijo. Desceu até aos mamilos, e ali a boca fez o que as mãos tinham feito: lambeu, mordiscou de leve, prendeu um entre os lábios e puxou-o devagar, e o Miguel gemeu alto, uma mão a fechar-se-lhe no cabelo do Carlos sem ele dar conta, a outra agarrada ao lençol.

Não sabia. Não sabia que os mamilos pudessem ser fonte de tanto prazer, que o corpo dele guardava sítios assim, que um toque ali podia acender-lhe o corpo todo. Cada coisa que o Carlos lhe fazia era uma descoberta, e a descoberta era quase tão embriagante como o prazer.

Enquanto a boca do Carlos brincava com os mamilos agora eretos, as mãos desceram-lhe pela cintura, e pararam no cós dos calções, num gesto silencioso de autorização. E a resposta veio no gesto: o Miguel ergueu um pouco a anca, a facilitar a saída da roupa.

🍃 🍃 🍃

O Carlos despiu-o do resto, devagar, e o Miguel deixou-se despir, nu agora por inteiro na cama dele, à luz baixa do quarto, a tremer. Mas não de medo; ele não tinha medo dele. De outra coisa, de uma vontade que ainda o assustava um bocadinho, mas que ele já não queria travar.

Então, com calma, a mão do Carlos deslizou pelo corpo do mais novo, até lhe tocar com suavidade o membro já bastante duro, primeiro só as pontas dos dedos, a explorar cada parte, depois a palma da mão a fechar-se sobre ele. Mas o Carlos ia devagar, como fazia tudo naquela noite, a arrancar-lhe sons que o Miguel nem sabia ter dentro de si. E o Miguel perdeu-se logo ali, a cabeça atirada para trás contra a almofada, uma mão fechada no lençol, o corpo a arder de uma maneira nova, sem defesa nenhuma contra o que aquela mão lhe fazia. Era demasiado, e não era suficiente, e as duas coisas ao mesmo tempo, e o Miguel não sabia como se aguentava um prazer assim sem se desfazer todo.

— Carlos... — A voz num fio, o nome outra vez, sempre o nome. — Eu não... isto é...

— Eu sei. — O Carlos beijou-lhe o ventre, a voz baixa contra a pele quente dele. — Deixa vir. Não penses. Estou aqui.

E depois os olhos âmbar deixaram o rosto do jovem e, sem pensar muito, a boca desceu e substituiu a mão.

E o Miguel deixou de respirar. A sensação da boca quente e húmida foi como um choque que lhe subiu do ventre até o atingir em cheio no coração.

E o Carlos, que nunca fazia aquilo, que dava prazer com as mãos, com a voz, com o que quisessem, mas a boca, essa, guardava-a, numa linha que traçara havia muito e que quase nunca lhe apetecera cruzar. Mas com o Miguel teve essa vontade. Porque era o Miguel. Porque o queria por inteiro, e por inteiro se queria dar. E, ao fazê-lo, o Carlos percebeu, com uma espécie de espanto, que era quase novo para ele também. Que havia ali, naquela entrega, uma coisa que ele próprio não conhecia, a de se dar sem reservar nada, a de querer o prazer do outro acima do seu.

Para o Miguel, foi o fim do mundo e o princípio de outro.

Não havia comparação com nada que ele conhecesse, nem com o carro, nem com as próprias mãos nas noites solitárias, nem com coisa nenhuma. Era quente, e era húmido, e era demasiado, e o corpo dele já não lhe obedecia, arqueava-se sozinho, tremia sozinho, procurava mais sozinho. Uma mão foi-se-lhe agarrar ao cabelo do Carlos, sem força, só a segurar-se, como quem se agarra a uma coisa para não cair. E ele ouvia-se a gemer, sons que nunca fizera, e já nem tinha vergonha deles, já não tinha vergonha de nada, entregue àquilo, entregue àquele homem, sem uma parede inteira que fosse a separá-lo do que sentia.

E o Carlos lia-o. Sentia-lhe no corpo cada sinal, quando abrandar, quando insistir, o que o fazia estremecer, o que o levava mais perto, e conduzia-o com a mesma paciência que punha em tudo o que amava, devagar, até à beira, e depois deixava-o recuar um bocadinho, e levava-o outra vez, a saborear o poder pequeno e imenso de ter aquele rapaz assim, desfeito e confiante, todo nas suas mãos.

— Carlos, eu... eu vou... — O Miguel mal conseguia falar, a voz desfeita, o corpo à beira de qualquer coisa que ele nunca sentira assim, com outra pessoa, com alguém que o via. — Não consigo... não aguento.

E ver a expressão do Miguel, a sua entrega, ouvir-lhe os gemidos, quase fez o Carlos perceber-se também à beira do orgasmo, sem sequer se ter tocado. E isso surpreendeu-o, e ele adorou a sensação, era uma novidade bem-vinda.

— Não aguentes. — A voz do Carlos, rouca, um instante contra a pele dele, antes de voltar. — É para isso. Deixa-te ir. Quero ver-te.

E o Miguel foi.

Foi com o nome do Carlos na boca, o corpo todo a fechar-se e a abrir-se ao mesmo tempo, uma onda que o levou de si próprio e o devolveu depois, aos poucos, trémulo, desfeito, refeito. E o Carlos ficou com ele até ao fim, e amparou-o na descida, e subiu-lhe outra vez pelo corpo com beijos lentos, e apanhou-o nos braços, e o Miguel deixou-se apanhar, sem osso nenhum, sem palavra nenhuma, só a respirar contra o peito do homem que o amava.

— Estás bem? — perguntou o Carlos, baixo, o queixo no cabelo húmido dele.

O Miguel fez que sim com a cabeça, porque falar era ainda de mais. E depois, quando a voz voltou, saiu-lhe pequena, e maravilhada, e um bocado a rir:

— Eu não sabia. — Encostou a testa ao peito do Carlos. — Não sabia que era assim.

🍃 🍃 🍃

O Miguel, agora com o fôlego recuperado, o mundo a voltar ao normal, o rosto encostado ao peito largo a sentir a respiração ainda descontrolada do outro e a mão a afagar-lhe a cabeça, viu uma coisa: viu o volume através da roupa que o Carlos ainda tinha vestida. E algo se acendeu de novo dentro dele. Não era o desejo do corpo, esse estava saciado. Era outra coisa. Era a vontade de satisfazer, de fazer ao Carlos o que ele lhe fizera. De dar, e não só receber.

E, sem erguer o rosto, fez a mão deslizar suavemente pelo abdómen bem definido, a sentir a aspereza dos pelos, a rigidez do ventre. O Carlos via a mão deslizar por si, e deixou, a pensar que o Miguel estava apenas a descontrair, sem saber o que lhe ia na cabeça. Mas, quando a mão pequena se começou a infiltrar para dentro da roupa, a mão grande travou-a.

— Miguel, que estás a fazer? — A voz saiu-lhe rouca, menos firme que o habitual. — Não precisas...

— Eu sei que não. — Disse o Miguel, a afastar-lhe a mão e a deslizar a sua para dentro da roupa, a tocar. — Mas eu quero. Mostra-me como gostas. Ensina-me.

O Carlos estremeceu de forma involuntária quando sentiu a mão pequena e quente fechar-se sobre o seu membro já duro, e o Miguel começou a massajá-lo.

— Eu mostro. — Disse o Carlos, e a voz não lhe saiu tão firme como era costume. — Posso despir-me?

— Por favor.

Perante o olhar brilhante e curioso do Miguel, ficou nu. O Miguel olhava, fascinado.

Então o Carlos colocou a sua mão sobre a do Miguel, e guiou-a, devagar, sem pressa nenhuma, com a mesma paciência de quem esperara meses e não se importava de esperar mais. Mostrou-lhe onde, e como, e com que firmeza. Dizia-lhe baixo o que era bom, "assim", "mais devagar", "isso, é isso", e o Miguel bebia cada palavra, atento, aplicado, sério como quem aprende uma coisa importante e não quer falhar.

E aprendeu. Desajeitado ao princípio, depois menos, depois nada desajeitado, atento ao corpo do Carlos como quem decifra uma língua nova e descobre, com espanto, que sempre soubera falá-la. Viu o Carlos fechar os olhos. Viu-lhe a respiração mudar. Viu aquele homem de todas as certezas, o dono de si em tudo, começar a desfazer-se, um bocadinho, e depois mais, nas mãos dele, do Miguel, do rapaz das prateleiras.

E descobriu uma coisa que não sabia: que dar prazer podia ser um prazer maior do que recebê-lo. Que ver o Carlos assim, vulnerável, entregue, à mercê do que as mãos dele faziam, lhe enchia o peito de uma coisa vertiginosa, quente, quase feroz. O poder pequeno e imenso de fazer bem a quem se ama. De ser, por uma vez, quem cuida, e não só quem é cuidado.

O Carlos chegou ao fim nas mãos do Miguel, com a testa encostada à testa dele, a respirar o nome do rapaz. E o Miguel amparou-o como o Carlos o amparara a ele, desajeitado no gesto, certíssimo na intenção, e ficou a vê-lo recompor-se, maravilhado com o que acabara de fazer.

🍃 🍃 🍃

Ficaram quietos depois, enrolados um no outro, a roupa esquecida no chão, a noite alta lá fora. O Miguel com a cabeça no peito do Carlos, a ouvir-lhe o coração abrandar. O Carlos com o queixo nos caracóis do rapaz, a mão a subir e a descer-lhe pelas costas, devagar.

E, no escuro morno daquele quarto que durante catorze anos ninguém dividira com ninguém, houve um silêncio longo, daqueles cheios, dos que dizem tudo.

O Miguel abriu a boca, uma vez. A palavra estava ali, tão perto. Quase a disse. Mas guardou-a. Agora sabia o que era, mas ainda não era altura de a dizer. Em vez disso, aconchegou-se mais, e fechou os olhos, e deixou que o Carlos o sentisse, o corpo a dizer o que a boca ainda não conseguia, no peso do corpo dele a render-se ao sono nos braços do homem que amava.

E o Carlos, que também a sabia, e que também esperava o momento certo para a sua, apertou-o mais contra si, e ficou muito tempo acordado, no escuro, a ouvir o rapaz dormir.

A casa estava cheia. O peito estava cheio. A corrente, ao pescoço, já não pesava.

Faltava só uma palavra. E o tempo, agora, era todo deles para a dizer.

Mas tinham partilhado bastante naquela noite, muita descoberta, e ambos perceberam que era o suficiente. Ambos sabiam que era uma prateleira de cada vez.

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