19 – Uma Casa Cheia
O Carlos pensou que estava na altura de apresentar o Miguel aos amigos, mas sabia que O Limiar não era ainda o sítio para isso. Não ainda.
Que melhor sítio, então, do que a própria casa? Falou primeiro com o Miguel, que, com muito receio do que os amigos do Carlos pudessem pensar, aceitou. Depois falou com a Berta, que agarrou a ideia com as duas mãos e não a largou mais.
— Um almoço. Os meus amigos. Aqui, em casa. — O Carlos tinha-o dito num domingo, quase a medir a reação dela. — Já não junto os rapazes há uma eternidade, e agora que o Miguel...
— Agora que o Miguel faz parte disto, é altura de o pôr à mesa com a família toda. — A Berta terminou-lhe a frase, já com o avental a apertar-se atrás das costas e a cabeça a fazer contas de quilos de carne. — Deixa isso comigo. Tu só tens de aparecer e não estorvar na cozinha.
E foi assim que, no sábado seguinte, a casa dos Sousa se encheu de vozes graves, de gargalhadas, e do cheiro a assado que a Berta andava a preparar desde as sete da manhã, com uma felicidade que transparecia no sorriso e no carinho com que fazia cada coisa.
🍃 🍃 🍃
O Miguel disse que chegara mais cedo para ajudar, mas a verdade era que o fizera para não ter de entrar numa sala já cheia de gente que mal conhecia. A Berta percebeu-lhe o nervosismo e não hesitou em pô-lo a descascar batatas, e, ao fim de algum tempo, já o rapaz ria e falava com naturalidade. Quando os amigos do Carlos começaram a chegar, já o Miguel tinha as mãos ocupadas e o nervoso entretido, que era exatamente o que a velha governanta pretendera, sem o dizer.
Os outros foram aparecendo a conta-gotas.
O Ivo foi o primeiro, alto e largo, a voz rouca e inconfundível a anunciar-lhe a chegada. Abraçou o Carlos com estrondo, como se não o visse há muito tempo, e, segurando-o pelos ombros, os olhos foram-se-lhe à cozinha, onde, além do barulho e do cheiro do assado, se via um vulto a rir ao lado da Berta.
— Finalmente, o grande momento chegou. — Não era uma pergunta. O Ivo abriu um sorriso enorme. — Vamos conhecer o responsável por andares com essa cara de parvo apaixonado há meses. Já não era sem tempo.
— Entra e cala-te — disse o Carlos, mas sem veneno nenhum, quase a rir. — E, se o intimidares ou o deixares nervoso, juro que te bato.
O Ivo riu com vontade, e entrou. Mas, antes de largar o amigo, baixou a voz, só para ele, com uma última olhadela à casa em redor.
— Da última vez que aqui estive, isto era um museu bonito. — Uma mão no ombro do Carlos. — Agora está diferente. Se a causa é o jovem ruivo, fico feliz.
O Carlos não disse nada. Apenas olhou para a cozinha.
O Sílvio entrou pouco depois, contido, de mãos nos bolsos. Cumprimentou o Carlos e passou por ele, decidido, em direção à cozinha, também ele atraído não só pelo cheiro, mas pela curiosidade. Parou um instante a avaliar o rapaz de longe, antes de dizer o que quer que fosse, e o que viu deve tê-lo agradado, porque acenou com a cabeça, sério, e o aceno tinha qualquer coisa de aprovação silenciosa.
— Percebo por que te apaixonaste. — Disse-o o homem de poucas falas. E acrescentou: — Ele é bonito. E dá-se bem com a Berta.
— Olha, é isso tudo, sim. Mas é meu. — O Carlos disse-o firme, embora soubesse que o amigo brincava com ele.
— Ele não faz o meu género. Um pouco mais de firmeza, e acabava com ele. — O Sílvio riu. E, sem que se apercebesse, a imagem do sub de umas noites atrás atravessou-lhe a mente.
E o Vicente chegou por último, como sempre, e, ao contrário dos outros, não vinha de mãos vazias. Trazia uma garrafa de vinho e um sorriso que enchia salas. Cumprimentou o Carlos, estendeu-lhe a garrafa, e logo os olhos lhe procuraram a cozinha.
Havia meses que sabiam, todos eles. Tinham-no visto regressar ao que era antes de perder a mãe, a pessoa alegre, animada, sem o peso todo às costas. Tinham-lhe visto o sorriso, o ar ausente, as mensagens escondidas. E queriam dar rosto a essa felicidade, ao rapaz que lhes tinha mudado o amigo. Vinham, todos, já dispostos a gostar dele, porque gostavam do Carlos, e porque o Carlos gostava dele, e nesta família as duas coisas bastavam.
O Miguel, esse, não sabia disso. Da cozinha, com a Berta ainda a servir-lhe de escudo, via entrar aqueles homens todos, grandes, seguros, e o receio apertava-lhe o estômago: o velho medo de não ser suficiente, de não estar à altura, de não pertencer, a fazer-lhe o pobre coração acelerar.
A Berta, que lhe via o leve tremor nas mãos de cada vez que algum deles se aproximava da cozinha, sorriu, e disse:
— Relaxa. Eles podem parecer uns cães raivosos, que partem tudo à frente deles. Mas, no fundo, são mansos como cordeiros, e donos de um coração muito grande.
O Miguel riu com vontade ao ouvi-la, e o riso chegou fora da cozinha, o que fez virar todas as cabeças.
E o Miguel não sabia que a batalha já estava ganha, mesmo antes de ele dizer uma palavra.
🍃 🍃 🍃
O almoço foi longo e barulhento, como os bons almoços são.
A Berta comandava aqueles quatro homens temíveis. Para ela não eram Doms, eram apenas os jovens a quem dava bolo às escondidas quando eram crianças, que ajudava a escapar quando eram adolescentes, na fase das descobertas, e que vira crescer e tornar-se os homens que eram agora. A Berta não hesitou em dar um raspanete ao Ivo por pôr os cotovelos na mesa, nem em fazer o Sílvio jurar que comia a sopa toda. O Carlos e o Vicente sorriram, mas também eles foram repreendidos. Ninguém se atreveu a contrariá-la.
O Miguel assistia a tudo, admirado pela maneira como a Berta os tratava, e como eles se encolhiam e aceitavam as reprimendas. Ao princípio esteve calado, mas aos poucos foi-se soltando. O Carlos percebeu que o rapaz estava mais calmo, e isso deixou-o animado, e agradeceu mentalmente aos amigos por incluírem o Miguel sem o pressionarem: uma pergunta aqui, uma piada ali, espaço para responder ou para só ouvir. E, à cabeceira, via como aquelas duas partes da sua vida se encaixavam sem esforço.
Foi a meio do assado, quando já estavam um pouco regados pela bebida, que o Carlos achou que era altura de se divertir. E o seu alvo, como quase sempre, foi o Vicente.
— Já agora, Vicente. — O Carlos disse-o com uma inocência que não enganava ninguém que o conhecesse. — Um passarinho contou-me que andas a defender a honra de donzelas em pastelarias, e que puseste um sujeito na rua sem levantar a voz. O tal passarinho disse a verdade?
O Vicente, que levava o copo à boca, parou a meio do gesto.
— Como é que tu... — Franziu a testa, sinceramente confuso. — Eu não contei isso a ninguém.
— Ah, mas as boas ações viajam. Assim como os passarinhos. — O Carlos estava a gozar com ele abertamente agora, e os outros dois já se endireitavam nas cadeiras, a farejar sangue. — Diz-me lá: é verdade que a pastelaria é na Baixa? Que tens lá o teu lugar, junto à janela? Que vais lá há meses e ainda só sabes pedir o galão?
O Vicente ficou vermelho. Um homem daquele tamanho, vermelho como um rapaz. O Vicente era assim: um Dominador firme, seguro no que fazia, mas, no que tocava a sentimentos, frágil, algo tímido, até um pouco inseguro.
— Isso não é... quem é que anda a... quem raios é esse passarinho?
— Fui eu.
A voz veio do Miguel, baixa, e todas as cabeças se viraram para ele.
O Miguel pousou o garfo, com um sorriso que não conseguia esconder.
— A rapariga da pastelaria. A Íris. — Fez uma pausa, a saborear o momento como poucas vezes na vida se dava a saborear seja o que fosse. — É a minha melhor amiga. Desde a primária.
O Vicente ficou a olhá-lo, e viu-se-lhe a ficha a cair devagar.
— Espera. Tu conhece-la? — A testa a franzir, a juntar as peças. — O Miguel... o rapaz da Íris... então tu sabias, este tempo todo?
— Só desde ontem — admitiu o Miguel, e o sorriso alargou-se. — O Carlos contou-me.
O silêncio durou um segundo inteiro. E depois a mesa veio abaixo.
O Ivo soltou uma gargalhada que fez tremer os copos. O Sílvio, que raramente ria alto, riu-se agora, com vontade. E o Vicente olhava do Miguel para o Carlos e do Carlos para o Miguel, com a cara de um homem que acaba de perceber que o mundo é muito mais pequeno, e muito mais traiçoeiro, do que julgava.
— Meses, Vicente. — O Ivo limpava os olhos. — E foi preciso um palhaço qualquer entrar a chateá-la para tu abrires a boca. E nunca tiveste coragem de lhe dizer nada. Somos teus amigos, podias ter-nos contado.
— Eu não... — O Vicente tentou, e desistiu, e escondeu a cara atrás do copo. — Contar o quê? Ela faz um bom galão — resmungou, digno, o que só fez a mesa rir mais.
— E eu sou a Madre Teresa de Calcutá — disse o Sílvio, a provocar.
— Deixem o homem — disse a Berta, da bancada, sem se virar, mas com um sorriso na voz. — Ao menos este tem vergonha. Bem melhor do que os descarados que eu cá tenho à mesa.
E o Miguel, no meio daquilo tudo, no meio do riso, e do calor, e da família do Carlos que agora era um bocadinho a sua, apanhou o olhar do Vicente. E o Vicente, ainda corado, ainda desmascarado, ergueu-lhe o copo, num brinde pequeno e sincero.
Cuida bem dela, dizia o brinde.
E o Miguel ergueu o seu de volta. Cuida tu, que ela merece.
Não foram precisas palavras. O olhar dos dois dizia tudo.
🍃 🍃 🍃
Os amigos foram-se ao fim da tarde, um a um, com abraços demorados e promessas de repetir. O Ivo prometeu voltar "quando houvesse outra vez assado da Berta". O Sílvio apertou a mão do Miguel, um aperto firme, sério, que valia mais do que um discurso. E o Vicente, à porta, disse-lhe baixo que, se um dia lá aparecesse na pastelaria, o galão era por conta dele, e o Miguel percebeu que aquilo era a maneira do Vicente de dizer bem-vindo à família.
A casa, de repente, ficou em silêncio outra vez. Mas desta vez era diferente, era aquele tipo de silêncio que se segue depois de uma casa cheia de gente boa ficar vazia, e que guarda o calor.
A Berta recolheu-se cedo, cansada e feliz, depois de recusar ajuda com a loiça e de mandar os dois "rapazes" não fazerem barulho.
E o Miguel preparava-se para se despedir, já com o casaco na mão, quando o Carlos lhe pousou a mão no braço.
— Fica.
Não era uma ordem. Era um simples pedido, dito baixo, com aquele fio de coisa firme por baixo que o Miguel estava a aprender a reconhecer, e a desejar.
— Fica comigo esta noite. — O Carlos aproximou-se, tirou-lhe o casaco da mão devagar, e pousou-o nas costas de uma cadeira. — Só quero ficar a teu lado. Aceitarei o que me quiseres dar, e se mo quiseres dar. Apenas não te quero ver ir embora.
O Miguel olhou para ele. O coração a bater rápido. O medo, quando estava com o Carlos, parecia-lhe cada vez mais pequeno, ao lado dele sentia-se seguro, e confiava. E algo crescia dentro dele. Algo que ele já quase sabia nomear.