18 – A Duas Ruas
A pastelaria da Íris ficava numa esquina da Baixa, daquelas que apanham o sol da manhã inteira. Era pequena, quente, cheirava a canela e a café acabado de tirar, e tinha meia dúzia de mesas onde os clientes do costume se sentavam sempre nos mesmos lugares, como se os tivessem comprado.
A Íris estava melhor do que esperava, passadas aquelas semanas. Seria mentira dizer que não tinha doído, mas fora como arrancar um penso: doeu no instante, e depois foi só alívio.
Pensar em tudo o que o Miguel aguentou por ela fê-la ter a certeza de que tomara a melhor decisão ao escolhê-lo como amigo. E ele provara ser esse amigo, o que calava só para a ver feliz.
Ela sentia-se em paz. Via o amigo feliz, a sorrir mais, e isso era suficiente para ela. Agora tinha a pastelaria, tinha as manhãs de sol e o cheiro a canela. E chegava.
Até a porta se abrir, a meio de uma manhã, e por ela entrar a pessoa que ela pensava não voltar a ver.
O Jaime.
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Ele parou à entrada, com um ar ensaiado, a meio caminho entre o arrependido e o dono da situação, o ar que, noutros tempos, teria feito o coração dela vacilar, e que agora só lhe causou indiferença.
— Íris. — A voz saiu-lhe macia, treinada. — Podemos falar?
— Não temos nada para falar. — Ela pousou o pano que tinha na mão, e foi só nesse gesto que percebeu que a mão lhe tremia um bocadinho. Mas não era de medo. Era de raiva. — Já te disse tudo o que tinha a dizer. Na minha cozinha. Por acaso esqueceste?
— Íris, ouve. — O Jaime avançou devagar, fazendo com que a pastelaria parecesse de repente mais pequena. — Aquilo... aquilo foi um mal-entendido. Eu tinha bebido, tu sabes como é. O rapaz provocou, e eu...
— Não. — A palavra saiu seca, e duas cabeças de clientes viraram-se. A Íris baixou a voz, mas não o tom. — Não esperas que eu acredite nisso, pois não? Pôr as culpas no Miguel? Posso não te conhecer muito bem a ti, mas conheço bem o Miguel. Ele nunca faria isso. E, além disso, eu ouvi-te, Jaime. Ninguém me contou. Não foi um mal-entendido. Foi quem tu és.
O Jaime perdeu, por um segundo, o ar ensaiado. E o que ficou por baixo era pior, uma coisa dura, impaciente, o homem que não estava habituado a ouvir "não" duas vezes da mesma pessoa.
— Achas que o conheces assim tão bem? — O Jaime baixou a voz, aproximando-se do balcão, e o tom saiu-lhe duro. — Que ele te disse a verdade? Se tu soubesses... podia contar-te coisas sobre...
— Acho que a senhora foi clara.
A frase do Jaime foi interrompida, não pela Íris, mas por uma voz que veio de uma das mesas do canto, tranquila, sem se levantar ainda, e que o fez virar-se, surpreendido, para quem tinha falado.
A Íris conhecia o homem de vista. Vinha ali quase todas as manhãs, sentava-se sempre no mesmo sítio junto à janela, pedia um galão e um pastel de nata, e ficava a ler, ou a olhar a rua, sem incomodar ninguém. Alto, de ombros largos, com uns olhos claros e uma calma que enchia mais a sala do que qualquer barulho. A Íris dava-lhe sempre um sorriso gentil, mas nunca lhe tinha ligado grande coisa. Até àquele momento, era apenas o senhor do galão das nove.
Só que agora o senhor do galão das nove tinha pousado o jornal, e olhava para o Jaime com uma expressão que era mais do que ameaça. Era a expressão de alguém habituado a comandar, a quem não passava sequer pela cabeça que pudesse não ser obedecido.
— Isto não é consigo — disse o Jaime, mas o tom já não era tão duro. Sem saber porquê, aquele homem intimidava-o. Tanto quanto o Carlos.
— Pois não. — O homem levantou-se, sem pressa, e era mais alto do que parecera sentado. — Mas o café é bom, e eu gosto de o beber em paz. E a senhora — indicou a Íris com a cabeça, com uma cortesia à antiga — disse-lhe que não tinham nada para falar. Duas vezes. Eu conto sempre até duas. — Um passo, calmo. — Não me obrigue a contar mais.
Não houve grito. Não houve peito contra peito. Houve só um homem grande e calmo, de pé no meio de uma pastelaria cheia de sol, a olhar para outro com a paciência de quem tem o dia todo e nenhuma dúvida sobre como aquilo ia acabar.
E o Jaime, pela segunda vez, calculou se valeria a pena insistir. Olhou para o homem, para a Íris, e para os clientes todos a assistir à cena, e percebeu que não havia ali nada para ele a não ser figura triste.
— Não vale a pena. — Recuou e, à porta, virou-se, com o sorriso torto de quem guarda a última carta. — Fica com o teu guarda-costas. E pergunta ao teu amiguinho o que ele faz naquele carro à noite, se tiveres coragem. — Atirou-o da porta. — Vê se ainda achas que o santo é assim tão santo.
E a Íris riu-se.
Não foi um riso nervoso, nem de bravata. Foi um riso verdadeiro, apanhado de surpresa, o riso de quem ouve alguém tentar a ameaça mais furada do mundo.
— Ai, Jaime. — Abanou a cabeça, ainda a rir. — Tu achas mesmo que me estás a contar alguma novidade? — Cruzou os braços. — Eu sei exatamente o que o Miguel faz, e com quem, e naquele carro. Sei mais do que tu alguma vez vais saber sobre ele. A diferença entre nós é que eu fico feliz por ele. Tu só ficas com inveja. — Apontou-lhe a porta com o queixo. — Adeus, Jaime. E fecha a porta com jeito, que ainda a partes. E essa também não é tua.
O Jaime saiu, batendo com a porta. E, pela montra, viram-no descer a rua sem olhar para trás, pequeno à luz da manhã, como os predadores pequenos ficam sempre à luz do dia.
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O silêncio pairou sobre a pastelaria, e as pessoas de repente ficaram muito interessadas nos seus cafés.
A Íris respirou fundo. Só então percebeu que tinha as mãos fechadas com força em cima do balcão.
— Obrigada — disse ao homem, e a voz saiu-lhe mais pequena do que queria. — Não era preciso, mas... obrigada.
— Era, sim. — Ele voltou a sentar-se, tão calmo como se levantara, e puxou o jornal para si outra vez. Mas não o abriu. — Não gosto de homens que vêm ao trabalho de alguém só para perturbar. Achei que aquela frase não devia acabar. — Um meio sorriso, quase tímido, que não combinava nada com o tamanho dele. — Desculpe se me meti onde não era chamado.
— Não tem de pedir desculpa. Eu é que agradeço que se tenha metido onde era chamado. — A Íris deu por si a sorrir, e a olhar aquele homem como se fosse a primeira vez que o via. O senhor do galão das nove tinha uns olhos bondosos. Era grande como um armário, e com uns olhos de quem não faria mal a uma mosca, a não ser que a mosca estivesse a chatear alguém. — Nem sei o seu nome. Vem cá há meses, e eu nunca...
— Vicente. — Estendeu a mão, e a mão pequena dela perdeu-se na dele: áspera, mas quente, e delicada, apesar de o tamanho parecer dizer o contrário. — Trabalho aqui ao virar da esquina. Restauro móveis antigos, a duas ruas. Venho cá pelo café. — Uma pausa, e o meio sorriso outra vez. — Pelo café e pelas natas, que são as melhores da Baixa. Não diga à concorrência.
A Íris riu-se, um riso verdadeiro, o primeiro do dia, e foi buscar-lhe outro galão, por conta da casa, e ficou a falar com ele mais um bocado do que costumava falar com os clientes, sem saber bem porquê.
E o Vicente bebeu o galão, e comeu a nata, e respondeu ao que ela perguntava com aquela calma toda. E percebeu que, se aquele idiota não tivesse entrado a chateá-la, ele não teria tido a coragem de dizer mais do que "um galão e uma nata, se faz favor".
Sim, porque o Vicente ia ali pelo galão e pelas natas, mas também porque já reparara nela havia alguns meses. Na maneira como ria com os clientes. Na forma como punha as flores frescas na montra, todas as manhãs.
Mentalmente, agradeceu àquele idiota. Coisas boas, às vezes, nascem de coisas más, pensou o Vicente.
Não disse nada disso. Bebeu o café. Mas ficou mais tempo do que costumava. E, quando saiu, prometeu a si mesmo voltar no dia seguinte, o que, aliás, já fazia todos os dias, mas que amanhã, pela primeira vez, teria outro motivo além das natas.
E a Íris deu por si a sorrir quando o homem deixou a pastelaria, a pensar no sorriso dele, e na mão quente e áspera na sua. E a pensar que ele havia de voltar, como já fazia.
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Nessa tarde, enquanto a Íris ia para casa e o Miguel se arranjava para mais uma tarde no Sanctum, ela contou-lhe tudo pelo telemóvel, o Jaime, a cena, a vergonha que ele fez.
E contou-lhe também, como quem não dá importância, de um cliente que se levantara por ela. O senhor do galão das nove, que agora ela sabia chamar-se Vicente, que restaurava móveis a duas ruas da pastelaria. Que vinha todas as manhãs, sempre calado, sempre no mesmo sítio junto à janela, e que, afinal, quando foi preciso, se levantara como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
O Miguel ouviu tudo, e ficou feliz pela maneira como a amiga falava daquele homem. Feliz porque, em vez de se focar no ex e na cena que ele armara, se focava no homem que se levantara para a defender.
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O Miguel acabou de se arranjar mesmo ao telefone com a amiga, e desceu para esperar a boleia no sítio do costume, ainda em ligação. Desligou quando viu o carro, e entrou animado, e a animação não passou despercebida ao Carlos.
— Porquê tanta animação? — perguntou o Carlos.
— Porque acho que a minha amiga está prestes a esquecer aquele idiota do Jaime. — O Miguel falou sem filtros; começava a não os ter com o Carlos.
— Porque dizes isso? — quis saber o Carlos.
Então o Miguel contou do Jaime na pastelaria, da cena, da amiga a mandá-lo embora com uma piada. E, no fim, quase de passagem:
— E ainda houve um cliente habitual que se levantou por ela. Um tal Vicente, que, segundo ela, restaura móveis ali na Baixa. Portou-se como um cavalheiro. Pôs o Jaime na rua sem levantar a voz.
O Carlos, que ia a conduzir, virou a cabeça um instante.
— Vicente. — Repetiu o nome devagar, a testa franzida, a pesar a hipótese de coincidência. — Alto? Ombros largos, calmo, daqueles que enchem uma sala sem dizer nada?
— Não sei, foi a Íris que... — O Miguel parou. Olhou para ele. — Espera. Tu conhece-lo?
O Carlos sorriu, um sorriso lento, divertido, o sorriso de quem acaba de ver o mundo dar uma volta pequena e perfeita.
— Se é o Vicente que eu penso, conheço-o há uma vida inteira. — Voltou os olhos à estrada, mas o sorriso ficou. — É um dos meus amigos mais antigos. Um dos quatro. O mais gentil de todos, de longe. Restaura antiguidades, tem o atelier na Baixa, a duas ruas de uma certa pastelaria onde, ao que parece, toma o café todas as manhãs. — Abanou a cabeça, quase a rir. — Ora, ora.
O Miguel ficou de boca aberta.
— A pastelaria da Íris.
— A pastelaria da Íris.
Ficaram os dois calados um instante, a deixar a coincidência assentar. E depois começaram a rir-se, ao mesmo tempo, os dois, daquela maneira que já era deles, a mesma vontade a sair pelas duas bocas de uma vez.
— Ele nunca disse nada — disse o Carlos, a abanar a cabeça. — Vai lá há meses. O Vicente é assim: capaz de restaurar uma cómoda do século dezoito com uma paciência de santo, e incapaz de dizer a uma rapariga que gosta do café dela. — Pousou a mão na do Miguel, em cima da consola. — É lento no que toca a coisas do coração.
— E a Íris conhece-o só como o senhor do galão das nove — disse o Miguel, ainda a sorrir.
— Vamos deixar as coisas assim, por enquanto. — O Carlos apertou-lhe a mão. — Que sejam só o Vicente do galão e a Íris da pastelaria, e não um Dom d'O Limiar e a melhor amiga do meu Miguel. As coisas boas não precisam de pressa nem de nomes grandes. — Um olhar de lado, terno. — Aprendi isso com um rapaz das prateleiras.
O Miguel corou, e virou-se para a janela para esconder o sorriso, mas apertou a mão do Carlos com mais força.
E, lá fora, Montefrio passava, com as suas casas e as suas ruas e os seus mundos que se tocavam sem darem por isso, a pastelaria da Baixa, o atelier a duas ruas, a lavandaria, o Sanctum. Uma cidade pequena onde, mais tarde ou mais cedo, toda a gente que se devia encontrar acabava por se encontrar.
Bastava, às vezes, um idiota entrar numa pastelaria a chatear quem não devia. E o resto fazia-se sozinho.