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17 🔞 – O Que Não Se Diz

O Carlos levou-o a casa já noite, no carro que não dava nas vistas, e parou à porta da lavandaria, no sítio de sempre.

Mas nenhum dos dois queria que a noite terminasse.

Ficaram ali, no silêncio confortável do carro, apenas a olhar um para o outro. Era um daqueles silêncios que dizem mais do que muitas conversas. Nenhum deles parecia disposto a ser o primeiro a quebrá-lo.

A certa altura, os olhares desceram quase em simultâneo dos olhos para os lábios, como se obedecessem à mesma vontade, como se fossem atraídos pelo mesmo íman.

E os lábios encontraram-se. O beijo começou como começavam todos os outros: devagar, terno, um simples boa-noite. Mas desta vez não ficou por aí. Demorou-se. Aprofundou-se. Foi crescendo aos poucos, sem pressa, como tudo o que existia entre eles. E, quando deram por isso, já não era apenas um beijo de despedida. Era outra coisa. Algo maior, mais intenso, impossível de ignorar.

As mãos do Carlos tornaram-se mais atrevidas. Enquanto uma lhe segurava a nuca, a outra foi descendo pelas costas, a acariciá-las suavemente, descendo até à cintura e puxando-o mais para si. O Miguel sentiu o corpo começar a reagir de uma maneira diferente, mais intensa, o corpo a pedir mais sem bem saber o quê, a respiração a mudar, as mãos no peito do Carlos, agarradas à camisa.

O Carlos sentiu-o. Assim como sentiu, também, o próprio corpo a responder, porque, além de ser homem, era o Miguel que estava ali, a única pessoa que ele queria, e havia meses que aquilo crescia entre os dois.

Mas o Carlos sabia controlar-se, e não tinha pressa. Tudo o que queria, naquele momento, era conduzir o Miguel devagar, ao sítio onde ele sabia que o rapaz nunca tinha estado.

A mão das costas deslizou lentamente para o peito, a acariciá-lo por cima da camisa, atento a qualquer sinal de rejeição, que não veio. O que veio foi o corpo a reagir, a curvar-se e a pedir mais.

Afastou-se do beijo o suficiente para lhe falar contra a boca.

— Posso? — perguntou o Carlos, enquanto lhe levantava gentilmente a camisa.

O Miguel apenas acenou com a cabeça.

— Preciso de ouvir, Miguel.

A voz saiu firme. Não era o Dom, era o homem a precisar disso. Ou talvez fossem os dois, ali, naquele momento.

— Sim.

E o Carlos reparou nos olhos quase pretos do Miguel, na confiança e na entrega do jovem. As mãos tocaram-lhe a pele quente, o peito, os mamilos, que o Carlos percebeu serem sensíveis ao toque, ao ligeiro friccionar entre os dedos. Ficaram rígidos depressa. O Miguel não conseguiu evitar um gemido involuntário, que lhe saiu da garganta e morreu na boca do Carlos. E o Carlos sorriu para si mesmo, feliz.

Continuou um pouco mais nos mamilos, e o corpo do Miguel reagia com intensidade crescente.

O Miguel nunca se tinha sentido assim. Já se sentira excitado, já tivera necessidade de se tocar, já tivera alívio com isso, mas nunca fora assim. O toque das mãos quentes do Carlos no seu corpo era uma coisa que ele nunca pensara ser possível.

O Miguel queria mais, mas não sabia o que pedir, nem como pedir. Mas o Carlos sabia. Via o corpo do Miguel começar a tremer sem que ele se pudesse controlar. A mão desceu pelo abdómen, e parou no cinto das calças.

— Miguel, vou tocar-te — disse o Carlos, baixo, os olhos nos dele, a mão parada em cima da fivela do cinto do rapaz. Não era um aviso. Era uma pergunta, dita como afirmação, à espera da resposta. — Se não quiseres, dizes, e eu paro por aqui. E não há problema nenhum. Só preciso que me digas. Posso continuar?

O Miguel olhou para ele. O coração batia-lhe tão alto que tinha a certeza de que o Carlos o ouvia. E, pela primeira vez na vida, deixou o desejo falar antes do medo. Queria muito o que sabia que vinha a seguir.

— Podes.

E o Carlos tocou-o. Abriu-lhe o cinto e depois o fecho das calças, o suficiente para que a mão grande o alcançasse. A vontade dele era expor o rapaz, mas não ali, não à porta da lavandaria. Não seria justo.

Sentiu o Miguel duro na sua mão, e a vontade de o provar cresceu, ao ponto de a mente do Carlos balançar. Ele não era disso, gostava de dar prazer, mas não daquele modo, era apenas com as mãos. Com este rapaz, porém, ele queria mais.

Controlou-se. E, devagar, com cuidado, a ler-lhe a cara a cada instante, atento a cada estremecimento para saber o que era bom e o que era demais, deu ao Miguel a primeira coisa daquele género que ele recebia na vida. E o Miguel, de olhos fechados e cabeça atirada para trás contra o encosto, com uma mão agarrada ao braço do Carlos e a outra fechada no que apanhasse, descobriu, no escuro morno de um carro à porta de casa, que o corpo dele sabia coisas que ele nunca lhe tinha ensinado.

Foi rápido, era a primeira vez, era tudo novo, o rapaz não tinha defesas nenhumas. E, quando o Miguel atingiu o auge, o Carlos estava lá para o amparar na descida, com a boca no cabelo dele e a voz baixa a dizer-lhe que estava tudo bem, que fora lindo, que se portara lindamente, as mesmas palavras do cuidado, o mesmo tom de sempre, agora só para ele.

O Miguel ficou um bocado sem conseguir falar, a recuperar o fôlego, encostado a ele. Percebeu, pelo volume das calças do Carlos, que também ele precisava de alívio, e timidamente a mão começou a mexer-se, sem jeito, na direção do Carlos.

O Carlos apanhou-lhe a mão a meio caminho, com doçura, e levou-a aos lábios.

— Mas tu... eu posso... — A voz saía-lhe entrecortada, sem saber bem o que dizer.

— Hoje não. Hoje foi para ti. — E, ao ver a sombra da dúvida, o Miguel a pensar que tinha feito alguma coisa mal, como sempre pensava, acrescentou: — Miguel, não é falta de vontade. Muito pelo contrário. Mas, se me tocares agora, não te deixo subir essas escadas. E a tua primeira vez não merece ser num carro. Vamos devagar. Uma prateleira de cada vez. — Beijou-lhe a testa. — Prometo que, se ainda quiseres, para a próxima te ensino como me tocares. E há de ser tão bom ensinar-te como foi ver-te agora.

O Miguel corou até às orelhas, mas era um corar novo, um corar feliz.

— Agora sobe — disse o Carlos, com um meio sorriso, a afastá-lo com uma ternura que era quase esforço. — Sobe, antes que eu me esqueça de que sou um homem de palavra.

E o Miguel subiu, desajeitado, a rir-se sozinho, a flutuar, e ficou à janela a ver o carro afastar-se, como sempre, sem saber que o Carlos, ao volante, levou muito tempo a arrancar.

🍃 🍃 🍃

O Carlos não foi logo para casa. Precisava de algum tempo para se acalmar antes de dormir, tinha o Miguel demasiado entranhado no corpo, e da cabeça e do coração o rapaz já não lhe saía.

Foi a'O Limiar, onde sabia que estavam os amigos, como em todas as noites. O Ivo atrás da sua mesa, o Sílvio de copo na mão, o Vicente a rir-se de qualquer coisa. E o Carlos sentou-se com eles, pediu uma bebida, e foi aí que percebeu que estava diferente. Um sorriso mais leve, uma certeza no olhar que os amigos notaram.

O Carlos tinha encontrado a paz, finalmente. E aquilo que tanto procurava.

— Essa cara — disse o Sílvio, a olhá-lo por cima do copo. — Conheço-a. É a cara de quem não sabe o que fazer com a felicidade. É uma cara que um dia gostava de poder ver ao espelho.

Uma sombra escura passou, por breves segundos, pelo olhar do Sílvio. Os amigos perceberam-na, e sabiam bem por que a frase fora dita.

— Deixa-o — riu-se o Vicente. — Tu estás é com inveja. Não vês que o homem nem está aqui connosco?

⟡, Quem tem inveja?, resmungou o Sílvio, a bufar e a afastar o olhar dos amigos, a percorrer o salão com os olhos, até se deparar com um par que não conhecia, numa mesa mais afastada.

Um Dom que ele não conhecia e, com ele, de coleira, um rapaz miúdo, de olhos baixos, que o Sílvio nunca tinha visto.

Não foi a coleira que lhe chamou a atenção, mas sim a maneira como o rapaz se encolhia, como reagia ao tom de voz do Dom, baixo, seco, com um fio de desprezo que não era jogo nenhum, que não era cena nenhuma, e como obedecia depressa demais, com um sobressalto pequeno de cada vez, como quem obedece ao medo e não à confiança.

O Sílvio, que fazia da dor um ofício, reconheceu que aquela dor era para magoar. E isso, para ele, mesmo sendo sádico, não era correto.

Franziu o sobrolho. Ficou a olhar mais tempo do que era educado.

O rapaz, a certa altura, ergueu os olhos por acaso, e cruzou-os com os do Sílvio. Foi um segundo só. Mas houve, naquele segundo, qualquer coisa no olhar do rapaz que ao Sílvio ficou atravessada na noite toda, e em muitas noites depois dessa: uma espécie de pedido de socorro que a boca nunca faria.

Depois o Dom disse qualquer coisa, e o rapaz baixou os olhos outra vez, e o momento passou.

O Sílvio não fez nada. Não havia nada a fazer, não era a sua casa, não era o seu sub, não era o seu assunto. Um homem não se mete entre um Dom e o dele sem mais nem menos.

Mas aquela cena ficou-lhe gravada por dentro.

Os amigos, à volta dele, estavam alheios a tudo. O Sílvio sabia esconder os sentimentos quando queria, e agora fazia-o, a fingir que a felicidade do Carlos não o incomodava, e que a cena que vira não o afetara.

— Sílvio, tenho a certeza de que um dia vais encontrar a pessoa certa. — O Carlos pousou-lhe uma mão no ombro, e o amigo finalmente desviou os olhos do salão para os amigos. — Eu encontrei a minha quando menos o esperava. Tu vais encontrar a tua.

Todos ficaram calados. E o Sílvio, sem perceber porquê, desviou o olhar de volta para aquela mesa, onde estavam o Dom e o sub desconhecidos.

— Bem, pelo menos confessas. — O Ivo abanou a cabeça, com aquele sorriso de dono da casa que vê tudo. — Não que fosse preciso. Sabes que nós sabemos ler-te. Carlos, meu velho, tu vieste para aqui esta noite porque não conseguias ir para casa sozinho com o que quer que tens dentro do peito. Nós sabemos. Já passámos por isso. Bebe e cala-te, que a felicidade dá sede.

E o Carlos bebeu, e calou-se, e deixou-se estar no meio deles, os amigos que o conheciam desde antes de ele ser o que era, e que agora o viam voltar à vida sem precisarem de perguntar quem era o responsável, porque já sabiam. Havia meses que sabiam.

Foi bom. Foi da família que ele escolhera, à volta de uma mesa, a não dizer nada de importante e a dizer tudo.

🍃 🍃 🍃

O Carlos levantou-se para se ir embora, era já tarde, quando uma figura ruiva lhe travou os passos.

O Máximo. Com aquela postura perfeita, o passo medido, tudo tão certo como da primeira vez. Tudo tão pouco natural.

— Mestre. — Ajoelhou, à distância certa, na inclinação certa. — Boa noite. Há muito que não... que não tínhamos oportunidade. Queria só dizer que continuo disponível. Para o que o Mestre entender. Uma cena, uma noite. O que quiser.

Por um instante, um instante só, curto como um relâmpago, o corpo do Carlos registou o que estava à frente. Um ruivo. Disponível. E o corpo dele, ainda acordado do carro, ainda quente do Miguel, teve um estremecimento animal, involuntário, uma faísca puramente física que não lhe pediu licença nenhuma.

Odiou esse relâmpago assim que o sentiu. E odiou-se a si mesmo por o sentir.

Ele não é o Miguel.

Foi o pensamento que se seguiu, inteiro, simples, definitivo. Aquele ruivo, ou qualquer outro ruivo, ou qualquer outro homem em qualquer parte do mundo, nenhum era o Miguel. E o Carlos percebeu, com uma clareza que quase o fez rir ali mesmo, que não queria nenhum que não fosse o Miguel. Que o desejo, sem o Miguel dentro dele, não lhe servia para nada. Era como ter sede e oferecerem-lhe areia.

A faísca apagou-se tão depressa como viera, e deixou atrás de si só um resíduo de desagrado, não do Máximo, de si próprio, por o corpo ter sequer piscado.

— Não — disse o Carlos.

Só isso. Uma palavra, dita com uma frieza tranquila que não deixava fresta nenhuma. Nem "obrigado", nem "talvez", nem "noutra altura". Só o não, fechado como uma porta de ferro.

— A resposta é não, e vai continuar a ser não. Não é contigo, não é com ninguém desta casa. Não voltes a oferecer-te. Boa noite.

E passou por ele, e foi-se, sem olhar para trás, sem dar à recusa mais peso do que ela merecia, que era nenhum.

O Máximo ficou ajoelhado mais um segundo do que devia. Depois ergueu-se, devagar, e voltou ao balcão, ao seu sítio, à sua sombra.

Não viu o relâmpago. Ninguém viu o relâmpago; morrera dentro do Carlos sem deixar rasto à vista. O que o Máximo viu foi só o gelo, a porta de ferro, o "não" que não abria.

E, na cabeça dele, na cabeça que fazia sempre as contas erradas, que lia sempre tudo ao contrário de si próprio, aquela recusa juntou-se a todas as outras, e engrossou a coisa fria e antiga que ele carregava desde miúdo: a certeza de que ninguém, nunca, olhava verdadeiramente para ele. Nem para o recusar como deve ser.

Bebeu um copo sozinho. E, quando saiu, mais uma vez, ninguém reparou.

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