16 – A Casa dos Âmbares
A vida continuava para os dois num ritmo tranquilo, sem pressas. O Carlos passava as tardes no Sanctum, levava o Miguel a casa, ia buscá-lo de vez em quando, convidava-o para um almoço aqui, um jantar ali, e roubava-lhe um beijo sempre que podia.
Entre um café e uma conversa, os dias foram-se acumulando, e, com eles, a intimidade.
Falavam de tudo e de nada. Partilhavam histórias, memórias, medos, pequenas alegrias do quotidiano. A cada dia que passava, conheciam-se melhor. O Miguel descobria novas razões para gostar da companhia do Carlos, e dava por si a ansiar pela hora em que o voltaria a ver.
Não sabia ainda que nome dar ao que sentia, mas começava a compreender que nem tudo precisa de um nome para existir. Há sentimentos que simplesmente acontecem. Que crescem devagar, ocupam espaço dentro de nós e nos fazem bem. E talvez isso fosse mais importante do que qualquer definição.
Nenhum dos dois tinha ainda dado um nome ao que viviam, mas não era preciso. Por agora, bastava-lhes estar um com o outro.
Foi o Carlos quem, num domingo, usou a desculpa de que a Berta queria conhecer o Miguel para o convidar a ir lá a casa. Uma desculpa em que nem ele próprio acreditou por completo.
📩 <A Berta anda a ameaçar-me há semanas que te quer conhecer. Diz que já não acredita em mim, e que tu não existes. Almoço, hoje, lá em casa? Aviso já: ela vai fazer-te perguntas a mais e comida a mais. Não há defesa contra nenhuma das duas coisas.>
O Miguel leu a mensagem umas quantas vezes. Lá em casa. A casa do Carlos. A casa dos pais dele, a do relógio a que a governanta dava corda, a da cadeira à janela. O sítio de onde o Carlos vinha.
O coração disparou-lhe. Sentiu uma mistura estranha de entusiasmo e nervosismo. Queria ir. Queria muito. Mas havia algo de diferente naquele convite. Não era apenas mais um almoço, já tinham almoçado juntos muitas vezes. Mas nunca ali, no espaço mais pessoal do Carlos, onde viviam as memórias que ele raramente mostrava a alguém.
O Miguel ficou uns instantes a olhar para o ecrã, e depois sorriu, e respondeu da forma sincera a que se habituara desde que o Carlos entrara na sua vida.
📩 <Vou. Mas estou nervoso.>
📩 <Ela vai adorar-te em três minutos. Aposto o relógio do meu pai. E eu não aposto esse relógio à toa.>
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O Carlos foi buscar o Miguel a casa à hora combinada.
O Miguel não esperava encontrar uma casa tão grande, rodeada por um jardim impecavelmente cuidado. Ficou parado um instante, ainda antes de sair do carro, a absorver tudo o que via. O Carlos reparou e, em vez de dizer alguma coisa, ficou em silêncio, deixando que ele descobrisse aquele lugar ao seu próprio ritmo.
A casa tinha a estranha beleza dos sítios feitos para serem vividos por muita gente e que, durante anos, tinham vivido com pouca. Havia nela uma espécie de eco discreto, próprio das casas grandes onde faltam vozes. Mas havia também outra coisa: o cuidado em cada detalhe, nos móveis bem tratados, nas flores frescas, no brilho do chão, nas janelas abertas à luz. Era uma casa mantida com amor. Uma casa que alguém se recusara a deixar morrer.
Por fim, saíram do carro. O Carlos contornou-o para lhe abrir a porta e, sem pensar, tomou-lhe a mão. Sentiu-a húmida, nervosa, e sorriu para si mesmo. Baixou-se ligeiramente e aproximou-se do ouvido dele.
— Ela vai gostar de ti. Tal como eu gosto.
As palavras saíram-lhe antes que as pudesse filtrar. Mas não se arrependeu.
O Miguel ficou imóvel. Sentiu o coração falhar uma batida ao ouvir a confissão, tão simples e tão direta. Levantou os olhos para ele por um instante, e encontrou nos olhos âmbar uma sinceridade que não deixava espaço para dúvidas. E isso deixou-o sem palavras. Quis dizer alguma coisa, mas não conseguiu, a voz ficou muda. Por isso limitou-se a apertar-lhe a mão de volta, e a segui-lo até à porta.
A Berta já os esperava. Trazia o avental vestido, as mãos na cintura, e aquele ar de quem estava pronta para avaliar uma pessoa inteira em três segundos. E foi o que fez. Os olhos percorreram o Miguel dos pés à cabeça de uma forma tão minuciosa que o rapaz teve a sensação de que o olhar lhe chegava aos ossos.
Mas, de repente, ela sorriu. E o sorriso transformou-lhe o rosto por completo.
— Este é o jovem de que tanto se fala por aqui ultimamente? — Disse-o para o Carlos, mas sem tirar os olhos do Miguel. — Anda, entra, que está muito calor aqui fora e a comida esfria lá dentro. E tira do rosto esse ar assustado, que aqui não se come ninguém... não em público.
— Berta... — avisou o Carlos.
— Estou só a tentar descontrair o nosso jovem.
E, sem lhe dar hipótese de resposta, agarrou o Miguel pelo braço e puxou-o para dentro com uma energia que desmentia por completo a idade que tinha.
— Tens cara de quem percebe uma brincadeira. Uns olhos honestos. E eu gosto disso.
O Miguel, que chegara agarrado ao nervosismo como a uma tábua de salvação, deu por si a sorrir antes mesmo de chegar à sala. A Berta tinha esse dom. Pertencia à mesma escola da D. Lurdes, a das mulheres que desarmam um rapaz assustado sem que ele perceba como aconteceu.
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O almoço foi exatamente aquilo que o Carlos tinha prometido: comida a mais e perguntas a mais.
A Berta quis saber tudo. De onde era, de que terra, o que fazia a mãe, o que fazia o pai, e, por um instante, os olhos do Miguel baixaram para o prato. O silêncio que se seguiu foi pequeno, mas sentiu-se. E ele disse, por fim:
— A minha mãe morreu há cerca de um ano. — Fez uma pausa. — E o meu pai foi-se embora muito antes disso.
Mas a Berta não fez nenhuma expressão de pena. Não o olhou como se estivesse partido. Limitou-se a estender a mão, a pousá-la sobre o braço dele, e a dizer:
— Então a família fazemo-la nós, rapaz. — Disse-o com toda a simplicidade do mundo. — É assim que as coisas se fazem.
E continuou a bombardeá-lo com mais perguntas. E o Miguel percebeu que acabava de receber uma bênção sem que ninguém tivesse feito disso cerimónia.
O Carlos, à cabeceira, dizia pouco. Apenas via.
Via a Berta a encher o prato do Miguel pela terceira vez, apesar dos protestos cada vez menos convincentes.
— Berta, ele vai rebentar.
— Ótimo. Assim sei que almoçou como deve ser.
Via o Miguel a rir-se das histórias dela, as histórias de sempre. A do Carlos em criança, a partir um vaso e a jurar durante uma semana inteira que o culpado fora o gato. A do Carlos aos catorze anos, apanhado a fumar atrás da garagem.
— Eu disse que era uma experiência científica — defendeu-se o Carlos.
— E eu disse que a ciência se fazia sem queimar os pulmões. Mas o menino nunca foi muito dado a ouvir gente inteligente.
Via o rapaz a soltar-se, aos poucos, na cozinha da sua casa, à mesa dos seus pais, como se ali fosse o sítio dele.
E havia qualquer coisa naquilo que lhe apertava o peito de uma maneira boa. A casa, que durante seis anos fora um museu, bonita, cuidada, mas silenciosa, tinha agora vozes outra vez, risos, tinha a Berta feliz. Mas, acima de tudo, tinha um rapaz ruivo sentado à mesa dos seus pais como se ali sempre tivesse existido um lugar à espera dele.
E, pela primeira vez em muito tempo, a casa parecia habitada.
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A Berta aproveitou o momento em que o Carlos teve de atender uma chamada que não podia evitar para levar o Miguel a conhecer a casa. Mas não era propriamente uma visita, o Miguel percebeu isso quase de imediato.
A cada divisão que atravessavam, a Berta não lhe mostrava apenas quartos, corredores ou salas. Mostrava-lhe histórias.
— Aqui era o escritório do senhor Alberto. — Indicou uma porta de madeira ao fundo do corredor. — Passava aí horas fechado e, depois, queixava-se de que ninguém lhe fazia companhia.
Continuaram a andar.
— Esta era a sala dos domingos. — O sorriso dela alargou-se. — Almoços que duravam até ao jantar, discussões sobre futebol, sobremesas a mais e promessas de dieta na segunda-feira.
O Miguel sorriu. Começava a perceber que a Berta não lhe estava a mostrar a casa, mas sim as pessoas que tinham vivido nela. Era como folhear um álbum de fotografias sem fotografias.
Subiram as escadas.
— E ali era o quarto do menino Carlos. — Apontou para uma porta fechada. — Continuei a arejá-lo todas as semanas, mesmo nos seis anos em que ele não dormiu lá uma única noite.
Na voz da Berta havia não só orgulho, mas também carinho.
E depois seguiram para a sala de estar. Junto à janela grande, ela parou diante de uma cadeira de braços, antiga, com um tecido gasto nos sítios do costume. Ao lado, numa mesinha, uma caixa de costura de madeira, fechada.
O Miguel sorriu, ao lembrar-se de quando o Carlos lhe falara dos pais, da cadeira da mãe e do relógio do pai, o relógio que a Berta mantinha sempre impecavelmente arrumado e limpo.
— Esta cadeira era da D. Ermelinda. Sentava-se aqui a costurar, de tarde, com a luz a entrar por esta janela, e passava horas. — O Miguel disse-o a olhar para a cadeira. Depois olhou em redor e apontou para o relógio. — E aquele deve ser o relógio do sr. Alberto. Ele disse-me que a Berta lhe dá corda, sempre que é preciso.
A Berta virou-se para ele, e havia agora nos olhos dela uma coisa nova, uma atenção súbita, quase um susto.
— Falou-te dela? E do pai? — E, ao ver o Miguel assentir: — Rapaz, ouve bem o que te digo. — Baixou a voz, como quem confia um segredo grande. — O menino Carlos não fala da mãe. A ninguém. Há catorze anos que só ouço o silêncio, que o nome dos pais é quase um tabu nesta casa. Se ele te falou deles, das coisas deles... — Abanou a cabeça devagar, e um sorriso lento foi-lhe nascendo, os olhos a ficarem brilhantes. — Então tu não és uma visita qualquer, pois não?
O Miguel não soube o que responder. Mas a Berta respondeu por ele.
Olhou para a cadeira da patroa morta, e depois para o rapaz de olhos cinzentos, e disse, mais para si do que para ele:
— Ela ia gostar de ti. — Uma pausa. — A senhora tinha os olhos como os do filho. Aquela cor. Âmbar, chamava-lhe ela, quando estava vaidosa. E sabes o que é que eu penso, rapaz? — Voltou a pousar-lhe a mão no braço, como fizera à mesa. — Penso que ela olhava para as pessoas da mesma maneira que o menino Carlos olha para ti. Como se as visse por dentro. — Apertou-lhe o braço. — Aquele rapaz esteve morto por dentro seis anos. Mais, se calhar. E voltou. E o motivo por que voltou almoçou hoje à minha mesa e comeu três pratos. E dá pelo nome de Miguel.
A Berta parou um pouco, a olhar para a cadeira e depois para o relógio, e disse:
— Senhores, podem descansar em paz. O nosso menino encontrou alguém que o merece. Finalmente.
Depois endireitou-se, limpou os olhos com o avental como quem enxota uma mosca, e voltou ao tom de sempre:
— Anda. Vamos fazer um café antes que ele acabe a chamada, senão põe-se a ensinar-nos como se faz. E ele é péssimo a fazer café.
E foi-se para a cozinha, deixando o Miguel um instante sozinho, ali, ao pé da cadeira vazia, com a luz da tarde a entrar pela janela e a cair-lhe nas mãos.
Um pensamento atravessou-lhe a mente, leve e inesperado, mas tão claro que quase o fez parar no lugar.
Se ele deixar, vou tomar conta dele. Prometo.
O Miguel ficou alguns segundos a olhar para a cadeira, para a caixa de costura, para a luz dourada da tarde espalhada pela sala.
E foi ali que percebeu uma coisa: muitas das coisas que sentira até então não tinham nome. Tinham sido apenas sensações, vontades, certezas difíceis de explicar. Pela primeira vez, aquilo que trazia no peito começava a ganhar forma, e talvez também um nome.
Com essa convicção silenciosa a aquecer-lhe o coração, voltou-se e seguiu atrás da Berta.
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Quando o Carlos voltou da chamada, encontrou-os na cozinha, os dois, a Berta a ensinar o Miguel a fazer o café como devia ser feito naquela casa, os dois a discutir se levava ou não uma pitada de sal.
Parou à porta, e ficou a ver.
O rapaz que ele amava, na cozinha da sua mãe, a rir-se com a mulher que o criara.
Levou a mão ao peito, à corrente fina por baixo da camisa, sem dar por isso.
E percebeu, ali, encostado ao umbral da porta da cozinha, que já não estava à espera de nada. Que aquilo, aquela cozinha, aquele riso, aquele rapaz, era exatamente o que a corrente esperava havia tanto tempo.
Só faltava dizê-lo. E isso, o Carlos, que fazia tudo pela ordem certa, havia de fazer no tempo certo.
Mas o tempo certo, sabia-o agora, estava cada vez mais perto.