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15 – O Nome na Mesa

A noite do Miguel foi inquieta, com a mesma pergunta a dar-lhe voltas na cabeça: por que raios tive de enviar aquela mensagem? O problema está resolvido. E que se importa ele com a minha vida?

Mas foi o próprio Miguel a dar-se a resposta, sem ter de pensar muito. Porque ele se preocupa contigo. Porque aparece todas as tardes para o café, não um café qualquer, o teu café. Porque tem demonstrado que te quer. Porque te beijou.

Então preparou, mentalmente, um discurso sobre o que lhe ia dizer.

Mas o Carlos chegou ao Sanctum como sempre: não perguntou nada, serviu-se do café, quis saber como estava, falou do dia. Embora estivesse curioso sobre o que o Miguel lhe queria dizer, sabia que há coisas difíceis que não se dizem entre uma mesa e outra, com a D. Lurdes a gritar da cozinha e meio salão a passar.

O Carlos não perguntou nada. E o Miguel, que se tinha preparado, agradeceu por dentro e esperou o momento certo.

Esse momento chegou ao fim do turno, já no carro, prontos para a boleia que se tornara rotina.

— Que tal um sítio tranquilo? — disse o Carlos. — Onde possamos conversar, sem sermos interrompidos. — Estava virado para o Miguel, e passou-lhe a mão suavemente pelo rosto, fazendo o jovem corar. — Não te quero deixar ainda. Que me dizes?

O Miguel assentiu. E foi só no carro, a atravessar Montefrio já de noite, que percebeu o que o Carlos tinha feito: dera-lhe um dia inteiro para respirar antes de ter de falar. Não o apressara. Escolhera o sítio, escolhera a hora, tratara de tudo, para que ao Miguel só faltasse a parte difícil, que era dizer o que lhe ia na alma.

🍃 🍃 🍃

O Carlos tinha escolhido o Desejos Secretos para aquela conversa.

Era um bar de ambiente tranquilo, frequentado por muitas das pessoas que passavam pelo Sanctum e pel'O Limiar quando precisavam de fugir à rotina, mudar de cenário, ou simplesmente relaxar. Mantinha uma ligação discreta ao mundo BDSM, mas sem o peso das regras nem das expectativas das duas casas. Ali, as pessoas conversavam, bebiam um copo, deixavam-se estar. E foi precisamente por isso que o Carlos o escolhera: por ser neutro.

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O Miguel seguia ao lado dele, cada vez mais curioso. O Carlos prometera um sítio calmo, mas estavam a dirigir-se para uma zona da cidade que ele não conhecia. A curiosidade crescia a cada rua que deixavam para trás, a cada volta que o carro dava.

— Para onde estamos a ir? — Não conseguiu evitar a pergunta. — Estás a pensar raptar-me? — brincou.

— Não era má ideia. Mas acho que não preciso disso, pois não?

A resposta do Miguel foi o silêncio. E o Carlos continuou:

— Se te dissesse, acabava-se o fator surpresa.

O Miguel cruzou os braços num gesto de resignação, arrancando um sorriso ao Carlos.

🍃 🍃 🍃

O Desejos Secretos ficava numa rua larga, de uma zona de Montefrio onde o Miguel nunca tinha estado. Por fora, não se distinguia muito dos outros bares da cidade: uma fachada elegante, um letreiro discreto, uma música suave que se escapava para a rua sempre que a porta se abria.

Por dentro, porém, o ambiente era acolhedor. A luz baixa tingia o espaço de tons quentes, que se refletiam no balcão comprido ao fundo da sala. Havia sofás, mesas espalhadas sem rigidez, grupos de pessoas a conversar sem pressa. E, assim que entrou, o Miguel percebeu exatamente por que é que o Carlos o tinha escolhido: todos os que ali estavam pareciam confortáveis, uns bebiam, riam, falavam, ali as pessoas podiam ser elas mesmas, sem máscaras, sem denominações.

— Bonito — disse o Miguel, simplesmente.

— É um bar de amigos meus — disse o Carlos. — Boa gente. Os irmãos Matos. São amigos da Mirella. O Lucas, o mais novo, foi quem projetou o Sanctum.

Esclareceu de forma sucinta, e o Miguel ouvia-o com atenção.

— Podes estar à vontade. — O Carlos pousou-lhe uma mão de leve nas costas, e o mais novo estremeceu, involuntariamente. O Carlos percebeu, e o seu interior sorriu. — Aqui ninguém te vai olhar duas vezes.

Depois baixou-se para lhe sussurrar ao ouvido:

— Só eu vou manter os olhos em ti.

O Miguel não soube o que dizer.

Mal entraram, um homem alto atrás do balcão levantou a cabeça e abriu um sorriso enorme.

— Ora, ora. Se não é o sr. Carlos Sousa em pessoa, aqui no meu bar. — Contornou o balcão a limpar as mãos a um pano, e deu-lhe um aperto de mão que era mais abraço. — O que te traz por estes lados? Andas perdido?

— Lourenço. — O Carlos deixou-se sorrir, daquela maneira que só abria com quem gostava. — Procurava um sítio tranquilo. E porquê não o pior sítio da cidade?

— Não te conhecia tão descarado. — O Lourenço riu-se, uma gargalhada que fez virar duas cabeças e não incomodou ninguém. Depois os olhos verde-água pousaram no Miguel, com curiosidade franca e nenhuma malícia. — E este?

— Este é o Miguel. — O Carlos disse-o com uma naturalidade que ao Miguel aqueceu qualquer coisa por dentro

: sem "conhecido", sem rodeios, só o nome. — Miguel, este é o Lourenço Matos. Ele e os irmãos são donos disto. E são gente a sério, das poucas.

— Muito prazer — disse o Miguel, e apertou a mão grande que lhe estenderam.

— Igualmente, rapaz. — O Lourenço olhou-o mais um instante, depois olhou para o Carlos, e alguma coisa lhe passou pela cara, a mesma coisa que passava pela cara de toda a gente que via o Carlos olhar para o Miguel, mas teve o bom senso de não dizer nada. — Sentem-se onde quiserem. O canto ali ao fundo é o mais sossegado. Mando-vos lá qualquer coisa. Que coincidência: a Mirella esteve cá com a família dela, hoje estás tu... quem será o próximo a visitar este canto da cidade?

Disse-o com aquele ar bem-disposto e divertido que o caracterizava.

— A Mirella. A mãe de todos nós. — O Carlos completou. — E, a propósito de mãe: como estão o Luís e o Lucas?

— Sabes como eles são. Casaram com as profissões e deixaram-me o bar para cuidar. O Luís anda às voltas com as leis e os tribunais. O Lucas, já o conheces — se não está atrás de algum rabo de calça, está enfiado nalguma obra. E eu, que tenho vidas humanas nas mãos, aqui estou.

O Lourenço piscou-lhe o olho e voltou para o balcão, a gritar qualquer coisa para um empregado, a encher o bar com a presença como só ele sabia.

O Miguel viu-o afastar-se e percebeu uma coisa: aquele mundo, o mundo do Carlos, o das casas e das pulseiras e do couro, era, afinal, também um mundo de gente. Gente que se conhecia, que se estimava, que ria alto e recebia bem. Menos assustador, visto de dentro, do que parecia visto da porta.

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Sentaram-se ao fundo, num canto de sofás baixos. O Lourenço mandou-lhes duas bebidas e um prato de coisas para petiscar, e depois deixou-os em paz, que era o que eles precisavam.

O Carlos soube esperar. Não perguntou, não tinha pressa. Bebeu um gole, encostou-se, e deixou o silêncio abrir espaço, a mesma técnica da Mirella, a de deixar que a outra pessoa chegue às palavras no seu tempo.

Esperou. E o Miguel, por fim, sentiu-se à vontade para falar.

— A pessoa de que te queria falar — começou, os olhos no copo. — Chama-se Jaime. É... era o namorado da Íris. A minha melhor amiga.

O Carlos pousou a bebida, e virou-se um bocadinho mais para ele, e o rosto dizia estou a ouvir-te com toda a atenção.

E o Miguel contou. Contou tudo, sem se preocupar em guardar para não fazer mal a ninguém. Contou do Jaime que se atirara a ele há meses, do domingo na esplanada, do desconforto que fora crescendo. Contou da segunda-feira, do Jaime encostado à parede a ver o beijo, a ver o carro, a dizer "eu não digo nada a ninguém, ainda". Contou do jantar, da cozinha, do "se dás para ele porque não para mim". Contou da Íris a ouvir tudo, da rutura, e do Jaime a fugir rua abaixo.

— Porque não me disseste antes? — perguntou o Carlos, por fim.

— Porque tive medo. — Viu uma sombra passar pelos olhos âmbar, e acrescentou: — Não de ti. De estragar o que temos. De que, se ele contasse ao mundo, isto se tornasse um problema para ti. Então calei-me. Por hábito. E nem sempre as coisas correm bem.

Depois de dizer tudo o que lhe ia na alma, ficou mais leve, como se um peso lhe tivesse saído de cima. Ter partilhado o problema fê-lo sentir-se bem. Mas agora esperava, nem sabia bem o quê.

O Carlos ficou calado um bocado. E, quando falou, a voz estava tranquila, aquela tranquilidade de quem está a arrumar uma coisa com muito cuidado por dentro.

— Primeiro — disse. — Obrigado por confiares em mim. Sei o quanto deve ter sido difícil dizê-lo, pela maneira como o disseste. — A mão segurou a do Miguel entre as suas. — Segundo: nunca estragarias nada. Uma coisa que se estraga por se dizer a verdade não vale a pena. E a nossa aguenta essa verdade toda. Vou estar aqui para ti, sempre. Podes contar-me tudo o que quiseres. Sempre.

O Miguel respirou. Uma parte do peso, a que ainda restava, saiu-lhe pelos ombros.

— E terceiro — continuou o Carlos, e agora havia qualquer coisa nova na voz, uma coisa muito firme, que o Miguel nunca lhe tinha ouvido e que fez com que, pela primeira vez, percebesse que o homem à frente dele também podia meter medo, se fosse preciso, a quem fosse preciso. — Esse Jaime. Se ele voltar a aproximar-se de ti, seja onde for, tu dizes-me. No momento. Não quando achares que já é um problema. No momento. — Apertou-lhe a mão. — Peço-te. Deixas-me tratar de ti nisto?

O Miguel olhou para os olhos âmbar, para aquela coisa firme que morava lá agora, e não teve medo nenhum. Pelo contrário. Sentiu uma coisa que não sentia havia muito, muito tempo: sentiu-se protegido.

— Deixo — disse.

— Então está tratado. — E a coisa firme recuou dos olhos do Carlos, e voltou o homem do costume, o das prateleiras e do café, que lhe apertou a mão e mudou de assunto, porque já tinha dito o que era preciso e não era homem de repetir. — Agora come qualquer coisa, que estás magro, e a D. Lurdes há de pensar que sou eu que te ando a matar à fome.

E o Miguel riu-se. E comeu. E ficaram ali, no canto do bar dos Matos, até tarde, dois homens quaisquer, num sítio quente, a deixar a noite passar devagar.

🍃 🍃 🍃

Do balcão, de vez em quando, o Lourenço olhava para o canto onde os dois estavam, e sorria para dentro.

Vira muita gente entrar naquele bar. Vira o Carlos entrar nele mil vezes, sempre igual, cortês, contido, fechado como um cofre. Mas nunca o vira assim: inclinado para um rapaz ruivo como se o resto do mundo fosse decoração.

Fez uma nota mental de ligar à Mirella no dia seguinte, só para lhe dizer que ela tinha razão outra vez. Como sempre. Aquela mulher tinha um jeito para estas coisas que metia inveja.

Depois voltou ao balcão, e ao bar, e à sua noite. Mas o sorriso ficou-lhe lá um bom bocado.

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