14 – Cinco Meses
O Miguel só viu o Jaime quando as luzes do carro do Carlos viraram a esquina e ele se virou para entrar.
Estava do outro lado da rua, meio encostado à parede, as mãos nos bolsos, com uma cara que o Miguel não soube ler à primeira. O frio subiu-lhe pela espinha, o mesmo frio do domingo em que o Jaime aparecera na esplanada. O bem-estar todo da tarde escorreu-lhe pelos pés abaixo.
Não era só desconforto; era medo. E percebeu, pelo sorriso que não chegava aos olhos, que o Jaime tinha visto mais do que devia.
Tentou avançar, fingir que não o via. Mas uma mão agarrou-lhe o braço e travou-o.
— Jaime. — A voz saiu-lhe mais firme do que ele se sentia. — O que fazes aqui?
— Estava de passagem. Bonito carro, aquele. Teu amigo? — A mão não lhe largou o braço; apertava de leve. O Miguel tentou soltar-se, em vão.
— É um conhecido.
— Um conhecido. — O Jaime repetiu a palavra devagar, a saboreá-la, como quem já sabe que é mentira e gosta de ver o outro a dizê-la. Olhou para a mão do Miguel, depois para a esquina por onde o carro tinha desaparecido, e o sorriso torto abriu-se mais. — Pois. Um conhecido que te dá boleia e a quem tu beijas. Tens uns conhecidos muito atenciosos, Miguel.
O Miguel não respondeu. Não havia resposta que não fosse pior.
— Fica descansado. — O Jaime já recuava, largou-lhe o braço, as mãos outra vez nos bolsos. — Eu não digo nada a ninguém. Ainda. — Um piscar de olho que era tudo menos simpático. — Sábado há jantar lá em casa. Cinco meses, eu e a Íris. Ela faz questão que venhas. — O sorriso. — Eu também.
E foi-se, pela rua abaixo, sem pressa, deixando atrás de si o Miguel parado no passeio, com o coração outra vez num sítio errado, mas por uma razão completamente diferente da de há bocado.
Subiu as escadas devagar. Já não flutuava.
E, lá em cima, à janela, ficou muito tempo a olhar para a rua vazia, a tentar perceber quanto é que o Jaime tinha visto, e quanto é que aquilo lhe ia custar.
Mas custar o quê? Ele era livre. O Carlos era livre. Que diferença fazia que os outros soubessem? A Íris ainda não sabia, é certo, mas só porque ele não tivera oportunidade de lhe contar. O medo do Miguel não era de ser apanhado em nada de ilícito. Era, isso sim, o medo do Jaime.
Com esses pensamentos, a mensagem que enviou ao Carlos foi um simples "boa noite", sem mais nada.
E a omissão foi o seu primeiro erro. Pequeno, humano, mas o primeiro, como o Miguel iria perceber muito em breve.
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Do outro lado, o Carlos saiu dali com aquele sorriso no rosto que nem ele próprio sabia que tinha. A face ainda lhe queimava no sítio onde os lábios do rapaz tinham tocado, e passou a mão por ela, como se quisesse conservar a sensação.
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A semana passou depressa, porque era assim com as coisas boas.
O Miguel e o Carlos viam-se todos os dias. O Carlos aparecia no Sanctum todas as tardes, e o Miguel tinha-lhe um café à espera. A bicicleta começou a ficar à porta da lavandaria, e o carro que dava boleia até lá passou a ser, todos os dias, o que não dava nas vistas. Os beijos deixaram de ser tímidos para serem mais intensos.
O Miguel contou-lhe da Íris, a amiga de longa data, a que sempre estivera presente nos bons e nos maus momentos. Contou-lhe do jantar dos cinco meses de namoro, que ela fazia questão de comemorar. Não lhe contou do medo que o namorado dela lhe inspirava. Isso guardou-o para si, a tentar convencer-se de que não era nada, de que era tudo fruto da sua imaginação.
O Carlos viu uma pequena sombra passar diante dos olhos cinzentos quando o rapaz falou do jantar. Mas não perguntou, não o forçou. Acreditava que o Miguel falaria quando, e se, achasse que tinha de o fazer.
Os dois a confiarem no silêncio um do outro. O primeiro erro tinha companhia.
E o Miguel ia ao jantar. Não porque quisesse, a ideia de passar uma noite debaixo do mesmo teto que o Jaime dava-lhe arrepios, mas porque a Íris fazia questão, e a Íris não tinha culpa nenhuma de nada. Ia pela amiga. Custasse o que custasse.
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O Miguel gostava da casa da Íris. Ali sempre se sentira em segurança, era uma casa quente, cheia de coisas dela: plantas, fotografias, um cheiro a bolo acabado de fazer que dava vontade de ficar.
Mas, naquela noite, a sensação de segurança não ia durar.
A Íris abriu-lhe a porta com um abraço apertado.
— Até que enfim, pensei que não vinhas. — Puxou-o para dentro, sem parar de falar, como era típico dela quando estava feliz. — Cinco meses, podes imaginar? Quem diria que ia durar tanto tempo. Olha as flores que ele me trouxe. Não são lindas?
Apontou para uma jarra com umas flores em cima de uma mesa. Eram flores de bomba de gasolina. O Miguel apenas sorriu e, depois de a beijar na face, disse:
— Boa noite, amiga. São lindas, sim.
O Jaime cumprimentou-o do sofá, sem se levantar, com um aceno de cabeça e aquele sorriso que o Miguel já tinha aprendido a temer.
— Miguel. Ainda bem que vieste.
O jantar foi o que os jantares assim são. Ou quase. A Íris estava feliz demais para perceber o que quer que fosse. O Miguel sorria, mas aquele sorriso que se dá por mera cortesia, a contar os minutos para poder desaparecer de cena. E o Jaime? O Jaime continuava o seu jogo por baixo da toalha: um olhar mais prolongado, um roçar de perna, uma mão que pousava na coxa e que o Miguel afastava com o joelho, sem alarido, sem fazer cena. Uma ou outra pergunta fora de contexto.
— Então, Miguel — disse o Jaime, a certa altura, o copo na mão, os olhos a brilhar de uma maneira feia. — A Íris diz que andas muito ocupado no trabalho. Deve ser um trabalho e peras, para te ocupar tanto o fim de semana. Não nos queres dizer que tipo de trabalho é esse?
— É trabalho como outro qualquer.
— Hmm. — O Jaime bebeu, sem tirar os olhos dele. — Acredito que pelo menos se faça pagar bem.
— Jaime — riu-se a Íris, sem perceber nada. — Deixa o rapaz jantar. Ele está feliz, e isso é que interessa.
O Miguel sorriu para a amiga e mudou de assunto. Mas, por dentro, alguma coisa se apertou, porque conhecia aquele tom, e sabia que a noite ainda não tinha mostrado o pior.
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Foi já depois do bolo, quando o Miguel se prontificou a ajudar com a loiça, com o objetivo de se afastar um pouco, que tudo desmoronou.
Ouviu os passos atrás de si e não precisou de se virar para saber quem era.
— Deixa que eu ajudo — disse o Jaime, e a porta da cozinha fechou-se atrás dos dois com um estalo pequeno.
O Miguel pousou os pratos e virou-se. O Jaime estava encostado ao balcão, os braços cruzados, a barrar-lhe o caminho de volta sem parecer que o fazia.
— Não é preciso ajuda — disse o Miguel. — Já está.
— Não tenhas pressa. — O Jaime deu um passo. — Estava mesmo a precisar de falar contigo. A sós.
— Não temos nada para falar.
— Temos, temos. — A cozinha era pequena, e um passo pô-los frente a frente. O Miguel recuou, mas a pia parou-o. — Aquele teu conhecido. O do carro. — Um sorriso. — Andas com ele, não andas? Um velho ricaço, todo cheio de dinheiro. E tu a dares-lhe o que ele quer, aposto. — A voz não baixou; não teve o cuidado de baixar. — É que eu nunca teria imaginado, sabes? Tu, tão certinho, tão coitadinho. Afinal sempre gostas.
— Cala-te.
— Então é assim que funciona? — O Jaime encostou-o ao lava-loiça, sem lhe tocar ainda, só com o corpo, com a presença. — Dás a um velho por dinheiro, mas a mim torces o nariz? Se dás para ele, Miguel, porque é que não dás para mim? Não sou pior que ele. Sou mais novo, até. É uma questão de dinheiro?
O Miguel sentiu o nojo subir-lhe pela garganta, e por baixo do nojo o velho medo, o medo que o calava sempre, o medo de que ninguém acreditasse, o medo de gastar o pouco que tinha.
E, desta vez, não se calou.
— Cala-te tu. Que sabes tu da minha vida? A quem dou ou deixo de dar é problema meu. A ti nunca darei — além de não me agradares, és o namorado da minha melhor amiga. Se te rejeitei várias vezes, o que te leva a pensar que te aceito agora?
Disse tudo o que tinha para dizer, de uma só vez, a enfrentar o Jaime como nunca pensara ser capaz.
O Jaime abriu a boca. Não chegou a dizer nada.
Porque a porta da cozinha abriu-se.
E a Íris estava lá.
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Não se soube quanto tempo ela ali tinha estado. Mas, pelo rosto, dir-se-ia que tinha sido o suficiente.
O Miguel relaxou, respirou fundo, aliviado. O Jaime tinha agora o olhar assustado de quem foi apanhado.
A Íris não gritou. Ficou muito quieta, muito branca, com um pano de cozinha ainda na mão, a olhar para o namorado como quem olha para um estranho que lhe entrou em casa.
— Jaime. — A voz saiu-lhe pequena, e depois firme. — Sai da minha cozinha.
— Íris, amor, não é o que tu...
— Não me chames amor. — Deu um passo para dentro, o pano a cair-lhe da mão. — E não me tomes por estúpida. Eu ouvi, Jaime. Ouvi tudo. Se tens a coragem de dizer que foi o Miguel que se atirou a ti, juro que perco a cabeça e bato-te. — A voz partiu-se-lhe a meio, mas ela não deixou que caísse. — Ele recusou-te. E tu insististe. Na minha casa. Cinco meses, Jaime. Cinco meses em que te dei tudo. E tu, na minha casa, a atirares-te ao meu melhor amigo.
O Miguel estava calado, encolhido onde estava. Nunca tinha visto a amiga assim. Com pena dela, e, ao mesmo tempo, aliviado por tudo estar a acabar.
O Jaime tentou o sorriso. O sorriso, desta vez, não pegou.
— Estás a fazer um drama de...
— Vai à merda, Jaime. Sai. — Uma palavra só, e toda a casa pareceu ficar em silêncio à volta dela. — Sai, não voltes, não me ligues, não apareças. Acabou. Acabou agora. Esquece que um dia me conheceste.
E houve um segundo em que o Jaime pensou em insistir, via-se-lhe na cara, o cálculo, a arrogância a medir se valia a pena. Depois olhou para a Íris, e para o Miguel, e para a porta, e percebeu que naquela casa já não havia nada para ele. Encolheu os ombros, como quem descarta uma coisa que nunca teve valor.
— Vocês os dois merecem-se — disse, e a frase saiu-lhe torta, sem veneno, só derrota. — Um que se vende e outra que não vê nada à frente do nariz.
— A porta é ali — disse a Íris.
E o Jaime saiu. Bateu com a porta. E, pela janela, o Miguel viu-o descer a rua sem olhar para trás, o predador a fugir como um rato ao primeiro custo real.
O medo do Miguel tinha acabado. Não voltaria a vê-lo como um predador; não voltaria a ser assediado.
Ou será que sim?
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Ficaram os dois na cozinha, a Íris e o Miguel, no meio dos pratos por lavar e do silêncio.
E então a Íris virou-se para ele, e a pergunta que ele mais temia veio, baixinha, magoada:
— Tu sabias.
Não era uma pergunta. E, mais uma vez, veio-lhe o instinto de encolher os ombros, de dizer "não é nada", de guardar, de calar, de proteger toda a gente calando-se, como sempre fizera. De a proteger a ela, principalmente.
Mas, desta vez, não o fez. Pela primeira vez, não quis fazê-lo. Sentia que a amiga precisava da verdade.
— Sabia — disse, por fim. — Ele já se vinha a atirar a mim desde que nos conhecemos. Tem sido mais insistente nestes últimos tempos. Eu não te disse... — Engoliu em seco. — Porque tu estavas tão feliz. Só falavas nele. Tive medo de que não acreditasses em mim. De que pensasses que eu só te queria afastar dele. Simplesmente não consegui. Eu quero a tua felicidade: ver-te feliz faz-me feliz. Se, para te ver feliz, eu tivesse de continuar a rejeitá-lo em silêncio, tê-lo-ia feito.
A Íris olhou para ele um bocado. E o Miguel esperou a zanga, que teria merecido.
Mas a zanga não veio.
O que veio foi ela a atravessar a cozinha em passos rápidos e a abraçá-lo, com força, os dois a segurarem-se no meio da noite estragada.
— Sua besta — disse ela, contra o ombro dele, a chorar e a rir ao mesmo tempo. — Da próxima vez que um sacana se atirar a ti, tu contas-me. Ouviste? Contas-me. Nós não nos escondemos coisas.
— Ouvi. — O Miguel ria e chorava ao mesmo tempo, um rebuliço de sentimentos a atravessar-lhe a alma naquele momento.
— E agora — disse a Íris, a afastar-se, a limpar a cara com as costas da mão, a tentar um sorriso no meio dos escombros — vais fazer uma coisa por mim. Vais sentar-te ali, e vais contar-me tudo sobre o teu conhecido do carro. Tudo. Porque eu acabei de perder um namorado e preciso de ouvir falar de amor, nem que seja do teu.
E o Miguel riu-se, um riso molhado, cansado, mas verdadeiro. E sentou-se. E contou-lhe.
Contou-lhe do Carlos. Não o senhor Carlos das prateleiras, o Carlos. O do mar, o do primeiro beijo, o dos olhos âmbar que o olhavam como se ele fosse a coisa mais importante do mundo. Contou-lhe com as palavras todas, sem guardar nenhuma, pela primeira vez na vida a dar a alguém a coisa boa inteira, sem medo de a gastar.
E a Íris ouviu, com a cara apoiada nas mãos, e a meio já estava outra vez a sorrir a sério, porque a felicidade do Miguel era, mesmo naquela noite, a coisa mais bonita que lhe tinha acontecido em cinco meses.
O Jaime desapareceu depressa da cabeça dos dois. Mas será que os dois iam desaparecer da cabeça do Jaime?
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Foi já a caminho de casa que o Miguel percebeu, pela primeira vez, que o peso do medo tinha aliviado. O facto de ter contado tudo à melhor amiga, de ter conseguido dizer o que queria em vez de o engolir, deixara-o mais leve.
E, naquele momento, o pensamento foi para a pessoa dos olhos âmbar. Tirou o telemóvel do bolso. Olhou para o número que sabia de cor sem nunca lhe ter mandado nada de importante. E, parado no passeio, debaixo de um candeeiro, escreveu, devagar, sem apagar três vezes como era seu costume:
📩 <Carlos, tenho uma coisa para te contar. Não é nada de mal. Mas amanhã, ao café, preciso de falar contigo a sério. Sobre uma pessoa.>
Carregou em enviar. E, pela primeira vez em muito tempo, não se arrependeu de ter enviado.
A resposta chegou antes de ele guardar o telemóvel.
📩 <Ouço quando quiseres. Agora, ou amanhã, com calma. E, Miguel, seja quem for essa pessoa, ou qualquer outra coisa que te preocupe, lembra-te: já não estás sozinho.>
O Miguel leu a mensagem duas vezes. Depois guardou o telemóvel, olhou para a rua vazia, e continuou o caminho para casa.
Já não pesava.