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13 – Segunda-Feira

Aquele domingo foi diferente dos outros. Estava lento; o relógio parecia não querer colaborar e avançar até segunda.

O Miguel, que nunca gostara dos domingos, porque acabavam sempre depressa demais, deu por si a olhar várias vezes para as horas, e a suspirar. Passou o dia num estado de ansiedade que nunca tinha experimentado. Tentou distrair-se, fez as coisas de sempre, a roupa, o quarto, a bicicleta, e fez tudo a sorrir, embora o coração lhe batesse como se tivesse tambores dentro do peito, só de pensar na segunda-feira.

Já era noite quando se sentou no sofá a comer qualquer coisa simples. Ligou a televisão, mas a cabeça não estava ali, estava no dia anterior, no beijo. Distraidamente, pegou no telemóvel, e quando deu por si já tinha carregado em enviar, sem sequer ter noção do que escrevera.

📩 <Boa noite, bons sonhos.>

Arrependeu-se no instante seguinte. Como é que pudera enviar uma coisa assim, tão simples?

🍃 🍃 🍃

O Carlos acordou tarde nesse domingo, coisa que não lhe acontecia havia muito tempo. Passou parte do dia em casa, a relaxar, com a Berta a insistir que queria conhecer o tal menino que o fizera acordar tarde, e que o deixava com aquele sorriso e aquele brilho nos olhos que ela não via havia tanto tempo.

Também o Carlos estava ansioso. A vontade de que a segunda-feira chegasse era grande; queria voltar a ver o seu ruivo de olhos cinzentos.

À noite, estava n'O Limiar, rodeado dos amigos, aquele convívio simples e honesto de que só os amigos de verdade desfrutam, quando o telemóvel lhe vibrou com uma mensagem. E, assim que viu quem era e o que dizia, não conseguiu evitar um pequeno riso, que não passou despercebido aos amigos.

— Nem é preciso dizer de quem é essa mensagem. — Disse o Ivo, feliz por ver o amigo feliz. — O teu sorriso diz tudo.

A resposta do Carlos foi o silêncio. Palavras, para quê?

📩 <Boa noite, para ti também. Sonha comigo.<

Foi a resposta simples do Carlos.

Os amigos viram-lhe o brilho nos olhos e a expressão.

— Ele é mais do que um simples submisso, não é? — perguntou o Vicente, mesmo sabendo a resposta.

— Preciso de responder a isso? — respondeu o Carlos, querendo fugir à pergunta.

— Não, não precisas — completou o Sílvio. — Está na cara.

O Miguel recebeu a resposta quase de imediato, e releu-a várias vezes antes de dormir.

O Carlos ainda ficou n'O Limiar mais algum tempo. Mas a mente já não estava ali.

🍃 🍃 🍃

O Miguel chegou ao Sanctum em luta com sentimentos que ainda não sabia arrumar. Havia ansiedade, algum receio de voltar a vê-lo e, ao mesmo tempo, uma vontade quase impossível de esconder. Trazia um sorriso no rosto e o coração a bater depressa demais para uma simples segunda-feira.

À medida que as dezoito horas se aproximavam, a ansiedade crescia. O Miguel dava por si a olhar para a porta mais vezes do que queria admitir, como se cada abertura pudesse anunciar a chegada do Carlos.

Mas, nessa segunda-feira, a porta abriu-se antes da hora do costume. Ainda faltava algum tempo para as seis quando ele entrou.

O Carlos também não conseguira esperar. A ansiedade levara-o ao Sanctum uns quarenta e cinco minutos mais cedo, como se o tempo, naquele dia, tivesse decidido andar devagar demais para os dois.

A Mirella viu-o entrar antes de qualquer outra pessoa. Franziu a testa, surpreendida pela hora, e olhou para o relógio por puro instinto. Ainda faltava bastante para as seis. O sorriso abriu-se-lhe devagar quando percebeu o motivo: o Carlos já procurava o Miguel com os olhos.

Do outro lado do salão, o Miguel também o viu. Por um instante, ficaram presos um ao outro, num olhar breve e luminoso, quase impercetível para quem não soubesse ler. O Carlos acenou-lhe com discrição antes de seguir para a mesa do costume. O Miguel baixou os olhos, tentou recompor-se, e desapareceu por instantes, regressando logo depois com uma chávena de café na mão.

A mão com o café não tremia, o que tremia era o interior, o coração. E, quando os dedos grandes lhe prenderam os seus ao segurar a chávena, foi como se tivesse apanhado um choque. As mãos ficaram assim uns segundos largos, antes de se separarem.

A Mirella via tudo.

— Boa tarde. — Disse o Miguel, e depois, mais baixo, quase num sussurro, com um sorriso que era só para ele: — Carlos.

O "senhor" tinha sido, até ali, uma espécie de capa protetora. Sem ele, o Miguel sentiu-se mais exposto, quase despido. Ainda assim, o coração falhou-lhe uma batida quando lhe pareceu ver um brilho diferente nos olhos âmbar do Carlos. Era um gesto simples, pequeno, mas enorme para tudo o que começava a sentir.

O Carlos estava habituado a títulos, a formalidades, ao "senhor" e ao "Mestre" ditos por outras bocas. Mas ouvir apenas o próprio nome na voz do Miguel, naquele tom baixo, íntimo e inseguro, acertou-lhe em cheio no coração.

— Boa tarde, Miguel. — O Carlos deixou a saudação pousar entre os dois antes de erguer uma das mãos. Num gesto lento e delicado, passou-lhe a ponta de um dedo pela face, ainda quente de embaraço. — Gostei.

— Do quê? — perguntou o Miguel, quase sem voz. O olhar fugiu-lhe por instinto à volta do salão, receoso de que alguém tivesse reparado.

Tinham reparado. A Mirella, do outro lado da sala, sorria como quem via precisamente o que esperava ver. E não era a única. Qualquer pessoa suficientemente perto teria percebido a mudança no ar. O Miguel corou até à raiz do cabelo, baixou os olhos ao chão e, se houvesse um sítio por onde desaparecer, teria desaparecido.

— Do meu nome na tua boca. — O Carlos disse-o baixo, só para ele, enquanto o dedo descia com suavidade até aos lábios do rapaz. Viu-lhe a reação, sentiu-a quase antes de a ver, e não se incomodou por estarem a ser observados. Pelo contrário: naquele instante, o salão inteiro podia existir à volta deles, que nada lhe retirava o prazer daquela resposta silenciosa. — Diz de novo.

— Carlos.

O Miguel disse o nome num fio de voz. Depois afastou-se, com o rosto em chamas e um sorriso que não conseguiu esconder, nem naquela noite, nem nas horas que se seguiram.

Os olhos âmbar do Carlos seguiram-no por onde ele passou. O Miguel sentia-os nas costas, na nuca, no coração; e, ainda assim, não se incomodava. Não com aqueles olhos.

Continuou a cumprir as tarefas do turno, mas mais de uma vez deu por si a repetir o que já estava feito. Estava envergonhado, sim, mas também feliz de uma forma nova, difícil de disfarçar. Tentou, a todo o custo, evitar cruzar o olhar com a Mirella; sabia que ela o leria sem esforço.

Quando isso se tornou impossível, e os olhos finalmente se encontraram, o Miguel não viu censura. Viu apenas aquele olhar antigo da Mirella, acompanhado de um sorriso pequeno, satisfeito, de quem percebe que a obra começa enfim a dar frutos. Não era preciso dizer nada. Estava tudo claro.

Ela ergueu a chávena de café num brinde discreto, só para ele. O Miguel baixou os olhos, corado e feliz, e a Mirella voltou ao que fazia, satisfeita como uma gata ao sol.

Também o Carlos viu. Conhecia bem aquele sorriso da Mirella, o sorriso que dizia: objetivo cumprido. Fiz a minha parte; agora é a tua vez.

Durante a tarde, houve dez desses momentos. Um toque ao passar o café. Um olhar que durava um segundo a mais. O Carlos a chamá-lo para pedir uma coisa de que não precisava, só para o ter perto. O Miguel a arranjar desculpas para passar pela mesa dele. Nenhuma palavra a mais do que as precisas, a casa estava cheia, havia outros olhos, mas entre os dois corria uma corrente que não precisava de palavras, e que a Mirella, essa, lia como quem lê um livro aberto.

🍃 🍃 🍃

O café à frente do Carlos já estava frio, mas isso não o incomodava. Havia muito que deixara de estar ali pelo café. Estava ali pelo jovem ruivo que se movia pelo salão e que, de vez em quando, lhe oferecia aquele sorriso que o Carlos começava a desejar ver cada vez mais.

A Mirella sentou-se sem pedir licença. O Carlos só deu pela presença dela quando a voz lhe interrompeu os pensamentos.

— Ele é diferente, não é?

A pergunta saiu direta, como tudo o que vinha dela. A Mirella nunca fora pessoa de rodeios, e conhecia-o há tempo suficiente para o ler antes ainda de ele se compreender a si próprio.

O Carlos olhou-a nos olhos. Não respondeu, a bem da verdade, não precisava. O silêncio foi resposta suficiente.

— Mirella...

E ficou por aí. Pela primeira vez em muito tempo, faltavam-lhe as palavras.

O Miguel era diferente. Despertava-lhe sentimentos que não sabia catalogar, organizar nem explicar. Não encontrava a gaveta certa onde os arrumar. Sabia apenas uma coisa: era diferente. E a simples presença do rapaz já lhe tornava os dias mais leves.

— Carlos, conheço-te há quinze anos. Não precisas de dizer nada. Eu estou a ver-te. Vejo a forma como olhas para o Miguel — e sei que não o estás a olhar com os olhos de Dominador.

A Mirella calou-se, e o Carlos desviou os olhos para o salão. O Miguel olhava na direção da mesa, com aquela expressão curiosa e ligeiramente confusa de quem sente que está a ser observado sem perceber porquê.

— Não o vou negar. A ti, não consigo. — O Carlos sorriu de leve. — Ele é diferente. Mexe com uma parte de mim que eu julgava morta. Uma parte que sempre achei que não existia para mim. A vida toda foi o Dominador a vir primeiro. Agora, pela primeira vez, sinto o homem a sobrepor-se ao Dominador. E sabes uma coisa? Não me assusta nem um pouco. Acho que, com o Miguel, posso ser os dois.

Falava com a Mirella, mas os olhos permaneciam presos ao rapaz. Ela seguiu-lhe o olhar, e sorriu.

— Eu vi isso no primeiro dia em que ele me bateu à porta a pedir trabalho. Não sabia quem era, não sabia que mundo era este, não sabia quase nada. Tomei conta dele como tomei conta de ti. Por isso te confio.

Fez uma pausa.

— Mas há uma coisa de que quero que te lembres sempre. O Miguel é virgem de tudo. Do amor. Do sexo. Da vida. E, se o magoares, é a mim que vais ter de prestar contas.

O Carlos voltou-se finalmente para ela.

— Nunca o vou magoar. Não me perguntes como sei. Não tenho explicação. Só sei que é diferente. Quero que ele conheça tudo o que eu sou. Não apenas o Dominador. O homem também.

A Mirella observou-o em silêncio durante alguns segundos.

— Sabes qual é a diferença entre agora e todas as outras vezes?

O Carlos limitou-se a erguer uma sobrancelha.

— Diz-me.

— Tu sempre soubeste exatamente o que procuravas. Gostavas disto, evitavas aquilo. Procuravas compatibilidade. Negociavas tudo antes mesmo de começar.

— Chama-se maturidade.

— Chama-se controlo.

O Carlos soltou uma gargalhada cansada.

— E agora?

— Agora pareces um adolescente.

O silêncio caiu entre os dois. O Carlos não se defendeu. Nem tentou.

A Mirella sorriu.

— Estás a ver?

— A ver o quê?

— Nem te defendeste.

O Carlos passou uma mão pelo rosto.

— O que queres que diga?

— Nada. Eu já sei.

— E o que sabes?

A Mirella inclinou a cabeça.

— Que o homem que construiu um império em quatro países fica sem saber falar quando um rapaz de vinte anos lhe sorri.

O Carlos fechou os olhos por um instante. Porque era verdade.

— E não é só isso — continuou ela. — O Dominador nunca teria atravessado uma sala cheia para se sentar numa cadeira específica. Nunca teria tocado o rosto de alguém daquela maneira. Aquilo que eu vi no Sanctum não foi um Dominador. Foi um homem.

O Carlos levou a mão à corrente, num gesto instintivo.

— Acho que finalmente encontrei aquilo que procurava.

O sorriso da Mirella desapareceu; o olhar tornou-se sério.

— Ele sente-se seguro contigo. Está a começar a confiar em ti. E não te esqueças de uma coisa: já houve demasiada gente a abandoná-lo.

O Carlos assentiu.

— Eu sei.

— Não. — A Mirella sustentou-lhe o olhar. — Quero mesmo que saibas. Porque ele é dos meus.

Fez uma pausa.

— Tal como tu.

Levantou-se então, e afastou-se sem acrescentar mais nada, deixando o Carlos sozinho com os pensamentos e com a tarefa, nada simples, de arrumar cada sentimento na gaveta certa. Talvez, pela primeira vez, estivesse também a aproximar-se de dar um nome àquilo que ainda se recusava a dizer em voz alta.

🍃 🍃 🍃

A Mirella não foi longe. Do balcão, onde o Miguel arrumava umas coisas, distraído, o rapaz deu um pequeno salto quando sentiu uma mão pousar-lhe de leve no ombro. Virou-se e encontrou-a. Havia qualquer coisa no olhar dela que não soube decifrar.

Assustou-se de imediato. Por um instante, preparou-se para uma repreensão, ou pior, para ouvir que tinha feito alguma coisa errada. Mas o que ela disse a seguir fez-lhe os olhos cinzentos brilhar.

— Meu pequeno. Podes confiar no Carlos. Segue apenas o que o teu coração te disser.

O Miguel baixou os olhos depressa, a tentar esconder as lágrimas que começavam a formar-se. Mas a Mirella conhecia-o bem demais. Com uma delicadeza quase maternal, pousou-lhe a mão no queixo e obrigou-o a erguer o rosto.

— Olha para mim. — O tom era suave, mas firme. — Eu vou estar aqui, sempre que precisares.

E, naquele momento, o Miguel acreditou nela.

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