12 – À Beira-Mar
Três da tarde, e o Miguel já estava à porta da lavandaria, descera bem antes da hora, incapaz de esperar lá em cima, e mais incapaz ainda de arriscar que fosse o Carlos a ter de esperar por ele.
Foi por isso que só percebeu quem era quando o vidro se abriu e um rosto conhecido assomou à janela, a chamá-lo. Um carro que não era o Mercedes.
— O outro dá muito nas vistas — explicou, ao ver a cara do Miguel. — E hoje eu quero que sejamos duas pessoas como outras quaisquer. Não é dia para dar nas vistas.
Duas pessoas quaisquer. O Miguel guardou a frase, como guardava as frases dele, e entrou no carro com o coração a fazer das suas e as mãos a não saberem onde se pôr. Levava a melhor camisa, a única sem o cotovelo a pedir reforma, e passara meia hora ao espelho da lavandaria a tentar domar os caracóis, sem resultado nenhum.
— Estás bem assim — disse o Carlos, sem tirar os olhos da estrada, como se lhe tivesse lido o pensamento. — Não mexas mais nisso. Estás bonito.
O Miguel largou o cabelo e olhou pela janela, para não sorrir tanto que se notasse.
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Foram para fora de Montefrio, para o lado do mar, uns quarenta minutos por uma estrada que ia ficando mais estreita e mais bonita, até o azul aparecer de repente ao fundo de uma curva e o Miguel se esquecer de disfarçar o deslumbramento.
— Nunca vieste ao mar? — perguntou o Carlos, ao ver-lhe o olhar.
— Vim, em pequeno. Com a minha mãe, uma vez ou duas. — O Miguel encolheu os ombros. — Depois a vida... não deu para passeios.
O Carlos não disse nada a isso. Mas o Miguel reparou que, a partir dali, ele conduziu um bocadinho mais devagar, como quem não tem pressa nenhuma de que o dia acabe.
O carro parou no estacionamento de um daqueles cafés de frente para o mar. O Carlos conduziu o Miguel por entre as mesas quase vazias, fora de época, até uma esplanada pequena, de mesas de plástico, com vista sobre a água azul, quase translúcida, por baixo da qual só se via areia e alguma concha aqui e ali.
Sentaram-se ao sol, e o Miguel inspirou fundo, a absorver o cheiro a maresia. Um empregado que não os conhecia de lado nenhum tratou-os com a mesma cortesia com que tratava toda a gente. O Carlos pediu dois cafés e um prato de qualquer coisa para petiscar, e ficaram ali, a olhar o mar, a falar de nada e de tudo, do carro, da estrada, de um barco que passava ao longe, da mania do empregado em pôr açúcar antes de perguntar.
E, a certa altura, o Miguel deu por si a falar da mãe sem que doesse. Contou uma história pequena, as duas vezes na praia, o gelado que derreteu depressa demais, a mãe a rir-se dele todo lambuzado, e o Carlos ouviu, com aquela atenção inteira que ele punha nas coisas, e no fim disse só:
— Ela parece que era boa pessoa.
— Era a melhor. — E o Miguel percebeu, com surpresa, que tinha dito aquilo a sorrir, e não a chorar. Que era a primeira vez, em oito meses, que falava dela e a memória vinha leve.
— E o teu pai? — perguntou o Carlos, ao reparar que o Miguel nunca o mencionava.
O Miguel encolheu os ombros, e a resposta veio mais fácil do que ele esperava.
— Não sei nada dele. Desapareceu assim que soube da doença da minha mãe. Nem sei se ainda é vivo. — Fez uma pausa. — Já não me magoa falar dele. Acho que um homem que foge quando as coisas ficam difíceis nunca foi bem um pai. Foi só quem lá estava.
O Carlos ficou um bocado calado, os olhos no mar.
— Os meus morreram — disse, por fim. E disse-o simplesmente, sem o peso que as pessoas costumam pôr na frase. — Primeiro o meu pai, eu ainda era novo. Depois a minha mãe. Fiquei com uma casa cheia de coisas deles e ninguém para as usar. — Um meio sorriso, sem alegria nenhuma. — Tenho uma governanta, a Berta, que ainda dá corda ao relógio do meu pai todos os domingos. E deixa a cadeira onde a minha mãe gostava de se sentar, a costurar, virada para a janela, como se ela ainda a usasse. Seis anos que eu estive fora, e ela manteve aquela casa como se eles ainda lá estivessem.
O Miguel não disse nada. Não havia nada para dizer que não estragasse.
— Aprende-se a viver com isso — continuou o Carlos. — Mas há coisas a que a gente só dá valor quando as perde. — Virou-se para o Miguel, e por um segundo aquela cara fechada abriu-se toda. — Tu, por exemplo, falas da tua mãe com carinho, com um brilho diferente nos olhos. Eu habituei-me a ficar calado. Tiveste menos tempo com ela, mas amaste-a melhor.
— Acho que não tem a ver com amar melhor ou pior — disse o Miguel —, mas com a maneira como amamos. A sua maneira de dizer que ama os seus pais é o silêncio. Só não sabe como o dizer de outro jeito.
Os dois ficaram calados depois dessa frase. O Miguel, envergonhado por ter falado demais; o Carlos, surpreendido pelo facto de alguém tão novo falar com tanto conhecimento, quase como se o conseguisse ler.
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De repente, sem que nenhum deles o dissesse, ambos se levantaram, e a frase saiu quase em simultâneo das duas bocas.
— Vamos descer — disse o Carlos.
— Gostava de ir até à água — disse o Miguel.
E, depois de uma pequena troca de olhares em que ambos se riram da coincidência, deixaram a esplanada em direção à água, largando os sapatos numa pedra. O Carlos arregaçou as calças até meio da perna, e o Miguel fez o mesmo, e os dois, o dono de meio mundo e o rapaz das prateleiras, foram andar pela beira da água descalços, como dois miúdos, com a espuma fria a subir-lhes aos tornozelos e a areia a fugir-lhes debaixo dos pés a cada onda.
O Miguel guinchou à primeira onda, que estava gelada, e o Carlos riu-se, um riso verdadeiro, que lhe veio da alma, com aquele sorriso que chegava aos olhos, uma coisa que o Miguel ainda não lhe tinha visto fazer e que decidiu, ali mesmo, que queria ver mais vezes.
Andaram. Não falavam; o silêncio era quebrado pelo barulho do mar e de alguma onda a abater nas rochas. E, a dada altura, sem que nenhum dos dois o tivesse pensado, as mãos encontraram-se e ficaram dadas.
De quem foi a iniciativa?
De nenhum, ou dos dois.
Quando o Carlos deu por isso, a mão grande dele tinha a pequena unida à sua, os dedos entrelaçados. O Miguel deixou-a ficar, e apertou-a só um bocadinho, para ver se era verdade, e a mão grande apertou de volta, e ficou tudo dito sem uma palavra.
Continuaram a andar assim, de mãos dadas, à beira da água, em silêncio, sem irem a lado nenhum, porque não era preciso ir a lado nenhum. Estavam exatamente onde queriam estar. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O Miguel estava feliz; o coração cheio. Pela primeira vez, sentia-se acolhido. E, embora ainda não conseguisse nomear aquele sentimento novo que crescia dentro dele sempre que estava perto do Carlos, sabia uma coisa: não era submissão.
Para o Carlos, tudo aquilo era novo. Tudo em que acreditava, tudo o que tinha vivido nos seus trinta e oito anos, e alguns deles como Dom, caía por terra quando o assunto era o Miguel.
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O sol começou a descer quando já estavam de volta, perto dos sapatos, sem pressa de os calçar.
O Carlos parou, virado para o mar, e puxou o Miguel para si, devagar, a dar-lhe tempo, tempo de que o Miguel nem precisava, até o ter encostado ao peito, de costas, com os braços à volta dele e as mãos pousadas na barriga do rapaz, o queixo apoiado ao de leve no cabelo por cortar.
E ficaram assim, os dois, a ver o sol cair no mar.
O Miguel nunca na vida se tinha sentido assim. Não sabia o nome daquilo, e, pela primeira vez, não quis saber. Não tinha medo de o gastar. Só queria que durasse: o calor do peito atrás das costas, os braços à volta dele como uma casa, o coração do homem a bater-lhe contra a nuca, devagar, certo, sem pressa nenhuma. Como tudo o que o Carlos fazia.
— Miguel.
— Hmm.
— Preciso de fazer uma coisa. — A voz dele, junto ao ouvido, baixa, foi como um raio a atravessar o corpo pequeno aconchegado no calor do corpo grande. — Mas, se não quiseres, dizes, e eu paro, e não muda nada entre nós. Está bem?
O Miguel virou-se nos braços dele, devagar, o coração aos pontapés, até ficarem cara a cara, o sol a pôr-se de lado, a dourar tudo. E viu o olhar do Carlos pousado nos seus lábios. E não foi preciso mais nada para perceber.
— Está bem — disse. — Eu quero... mas eu...
O Carlos calou-o com um dedo nos lábios. Depois levou a mão ao rosto corado do rapaz e passou o polegar pela face, uma vez, devagar. E baixou-se.
O Miguel viu-o aproximar-se e, num gesto instintivo, fechou os olhos.
Era o primeiro beijo do Miguel, o primeiro de toda a vida dele, e ele havia de se lembrar disso para sempre. Também o Carlos se lembraria, porque percebeu, no jeito desajeitado do rapaz, que era o primeiro.
O Miguel, de início, não sabia o que fazer com o nariz, nem com as mãos, nem com o ar que de repente não sabia por onde lhe entrava. Mas logo se deixou envolver pela paciência do Carlos, que o conduziu sem pressa nenhuma, devagar, a avançar aos poucos, primeiro a língua a passar-lhe pelos lábios, a mordiscá-los de vez em quando; as mãos a deixarem-lhe a cara e a deslizarem-lhe pelas costas, parando na cintura. O Miguel estremeceu, e o Carlos sentiu-o.
A língua começou a pedir entrada, e o Miguel não percebeu, até uma voz lhe sussurrar ao ouvido:
— Abre.
E, quando a boca voltou à boca, doce e quente, ele percebeu. E deixou-a entrar.
Aos poucos, o Miguel começou a soltar-se, a deixar de pensar, a corresponder ao beijo, com aquela sensação de estar a ser beijado à beira-mar, ao pôr do sol, pelo homem que lhe segurava o rosto como se ele fosse a coisa mais importante que já tinha tido nas mãos.
Quando se separaram, o Miguel manteve os olhos fechados mais um segundo, a cabeça pousada no peito largo, envolvido naquele abraço apertado. Não queria abri-los e descobrir que tinha sido a imaginar.
Mas, quando os abriu, a realidade estava lá. O Carlos ainda lá estava, muito perto, a olhá-lo com uma coisa nova nos olhos âmbar, uma coisa aberta, quase insegura, que não combinava nada com a fama dele, e que o Miguel havia de aprender a reconhecer, com o tempo, como a cara que o Carlos só fazia a ele.
— Estás bem? — perguntou o Carlos, baixo.
O Miguel pensou em todas as respostas espertas que podia dar. Não deu nenhuma.
— Nunca estive tão bem — disse, corado.
E era verdade. E, pela primeira vez em muito tempo, não teve medo nenhum de o dizer em voz alta.
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Levou-o a casa já de noite, à porta da lavandaria, e o carro que não dava nas vistas ficou parado um bocado no escuro, com os dois lá dentro sem grande vontade de que o dia acabasse.
— Segunda há café? — perguntou o Carlos.
E o Miguel percebeu que aquilo, o "há café?", se estava a tornar a maneira deles de dizer outra coisa qualquer, maior, que ainda não tinham palavras para dizer de frente.
— O turno das tardes não muda — respondeu.
— Ainda bem. — O Carlos inclinou-se e deu-lhe um beijo na testa, o mesmo da outra noite, mas que já sabia a coisa diferente agora. — Boa noite, Miguel. Dorme.
— Boa noite, senhor Carlos.
— Carlos. Para ti, sou Carlos.
E o Miguel ouviu, e não respondeu, porque não sabia o que dizer. Saiu, subiu as escadas, e ficou à janela a ver o carro afastar-se. Não viu que o Carlos ficou ali parado, à espera de que ele entrasse. Nenhum dos dois soube que o outro fazia o mesmo.
Nessa noite, ambos dormiram a noite inteira, de uma ponta à outra, sem sonhar, sem acordar, um sono fundo e limpo de quem finalmente pousou uma coisa que andava a carregar há muito tempo.
E, quando o domingo chegou, a lembrança da véspera fê-los sorrir, um sorriso que ficou o resto do dia.
O dia lá fora estava escuro. Mas, para eles, era como se o sol brilhasse.