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11 – A Casa Nunca se Engana Duas Vezes

Ficaram um bocado calados, o Miguel a deixar assentar a coisa toda, a Mirella a deixá-lo assentar.

Foi ele quem falou a seguir, e a pergunta saiu mais pequena do que todas as outras, porque era a que mais lhe importava:

— E o senhor Carlos?

A Mirella não fingiu não perceber. Fingir não fazia parte da sua natureza.

— O que é que tem o Carlos?

— Ele... — O Miguel procurou uma maneira de o dizer sem se expor, mas não achou nenhuma. — Ontem, à mesa... a mão... o que ele disse. D. Mirella, percebi que havia... qualquer coisa. Mas como é isso possível? Ele é o senhor Carlos... o Dom da casa, dono de meio mundo, é... — Um gesto vago que queria dizer tudo, e que acabava sempre no mesmo sítio: longe demais. — E eu sou o rapaz das prateleiras.

A Mirella sorriu ao perceber a confusão nas palavras atabalhoadas do Miguel. Ele não via o que ela via, não porque fosse cego, mas porque nunca ninguém lhe tinha ensinado a olhar para si assim.

— Miguel, será que tu és só o rapaz das prateleiras? — A Mirella fez a pergunta sem esperar resposta. O Miguel olhou-a nos olhos, ainda confuso. — Ele atravessou a casa dele inteira, na noite mais importante da vida dele, à frente de quinhentas pessoas, para te pedir licença para se sentar ao pé de ti. Só te viu a ti. — Inclinou-se um bocadinho para a frente. — Miguel, eu conheço o Carlos há mais de quinze anos. Vi-o comprar e vender coisas que tu não imaginas. Vi-o ter submissos. Vi-o não pestanejar em situações que faziam homens crescidos suar. Mas nunca, em quinze anos, o vi olhar para alguém como olhou para ti ontem. Portanto não me venhas com o "rapaz das prateleiras". O que aquele homem procura, disse-o ele à tua frente. Disse-o para ti. Ainda não percebeste o que era?

O Miguel abriu a boca. Fechou-a. O coração a dizer-lhe uma coisa, e a mente a dizer-lhe outra.

— Não tenhas pressa — disse a Mirella, encostando-se outra vez, a dar-lhe a saída. — Ninguém aqui tem pressa. As melhores coisas fazem-se devagar. — E, com um brilho: — Aos bocadinhos. Uma prateleira de cada vez. Não é o que ele diz?

O Miguel corou, porque essa era a frase deles, e a Mirella não devia sabê-la, e claro que a sabia, porque a Mirella sabia tudo.

🍃 🍃 🍃

O senhor Carlos chegou às seis, como sempre. Ou como se já fosse sempre, embora só houvesse uma semana de "sempre".

O Miguel viu-o entrar e dirigir-se à mesa do costume, e o coração disparou-lhe como sempre fazia quando o via, só que desta vez o Miguel sabia o nome do que sentia. Ou pensava saber. Porque o que sentia podia ter vários nomes, como ele havia de perceber em breve. E isso, às vezes, só tornava as coisas piores.

O Carlos viu-o assim que entrou, o ruivo a destacar-se por entre as pessoas. Ou, quem sabe, porque ele só tinha olhos para um ruivo.

Sentou-se, e não precisou de esperar muito: logo o café habitual, servido pela mesma pessoa de sempre, feito pela mesma pessoa, lhe foi posto à frente.

— Boa tarde, senhor Carlos. — A voz saiu-lhe um pouco menos firme do que o costume, e a mão que já não tremia voltou a fazê-lo ao estender a chávena.

— Boa tarde, Miguel. — Ele estendeu a mão para a chávena, e o toque acidental dos dedos fez o Miguel estremecer de leve. Os olhos âmbar subiram do café para ele e cruzaram-se com os cinzentos, e demoraram-se ali. O Miguel deixou-os demorar-se sem fugir, o que era novo. — Dormiste?

— Mal.

— Eu também.

A confissão ficou suspensa no ar, à espera de um porquê que nenhum dos dois estava pronto a dar. Ficaram os dois assim uns segundos, sem que fossem precisas palavras, até a D. Lurdes gritar da cozinha qualquer coisa sobre grades, e o mundo voltar a andar.

Mas, antes de o Miguel se afastar, o senhor Carlos segurou-lhe o braço e disse, no tom de quem comenta o tempo e não estava nada a comentar o tempo:

— Sábado não trabalhas.

— Não.

— Se te apetecer, sábado à tarde levo-te a um sítio.

A mente do Miguel, mais uma vez a trabalhar antes do coração: será que..., e o resto do pensamento foi o próprio Carlos a respondê-lo, ao ver a sombra atravessar os olhos cinzentos.

— Só nós os dois, sem couro nenhum. Aquele género de coisas que as pessoas normais fazem. Um café, uma boa conversa, um passeio. Nada demais.

O Miguel olhou para ele. E a frase que lhe saiu não foi ensaiada, não passou pela cabeça, não pediu autorização a ninguém, foi só verdade, dita antes que o medo a apanhasse:

— Apetece-me.

— Então está combinado. — O Carlos tirou um cartão do bolso, escreveu qualquer coisa nas costas, e estendeu-lho. Era um cartão de visita; atrás, um número de telemóvel. O Miguel ficou a olhar para ele sem perceber bem, e o Carlos, ao ver as sobrancelhas franzidas, acrescentou como se fosse a coisa mais natural do mundo: — É o meu cartão. O número de trás é o meu pessoal. Fica com ele, e, se não mudares de ideias, manda-me uma mensagem, para eu ficar com o teu contacto. Fica mais fácil para combinarmos.

E o Miguel saiu sem dar resposta, sem sequer ter tempo de acabar o café. Já ia na escada quando o bolso lhe tocou com uma notificação. Pegou no telemóvel, e sorriu, um sorriso que lhe chegou aos olhos, quando viu quem era.

Ao longe, a Mirella via tudo, com aqueles olhos de lince que lhe liam a alma. E sorriu. Mais uma vez, os instintos dela estavam certos.

🍃 🍃 🍃

O Sanctum ainda tinha as portas fechadas quando alguém bateu.

O porteiro ainda não tinha chegado, e a D. Lurdes, por estar mais perto, apressou-se a abrir. O Miguel estava a compor as flores do salão quando ela voltou a anunciar que estava ali uma rapariga a perguntar pela dona.

A Mirella, que revia o stock de umas coisas em falta, foi até à porta, curiosa. E o instinto do Miguel disse-lhe para ir atrás, não era só curiosidade; era qualquer coisa que o puxava para lá.

À porta do Sanctum, com a luz da manhã atrás dela, estava uma rapariga nova, loura, pequena, um casaco que já tinha visto melhores dias, e uma maneira de estar direita apesar de tudo, como quem decidiu há muito tempo não pedir pena a ninguém.

— Bom dia — disse ela, e a voz tremia só o suficiente para se notar que a estava a obrigar a não tremer. — Chamo-me Clara. Soube que talvez precisassem de gente. Faço de tudo, e aprendo depressa. Não dou problemas.

O Miguel conhecia aquela frase. Tinha-a dito, palavra por palavra, oito meses antes, à mesma porta, com a mesma voz a fingir que não tremia. E, ao lado dele, viu a Mirella fazer uma coisa que ele só agora era capaz de reconhecer: olhar para a rapariga um segundo a mais do que era preciso, não para o casaco gasto, não para a cara cansada, mas para qualquer coisa mais funda, que só ela via, e que ele agora sabia que ela via, porque a tinha visto fazer o mesmo consigo, sem nunca ter percebido, até hoje.

— Entra, Clara — disse a Mirella. — Está frio aí fora. Toma um café, e conta-me lá isso.

A rapariga entrou, com a gratidão contida de quem não está habituada a portas que se abrem à primeira. E a Mirella, ao passar pelo Miguel, disse-lhe baixinho, só para ele, com um meio sorriso que ele não soube ler mas havia de compreender muito mais tarde:

— A casa nunca se engana duas vezes seguidas. E hoje, parece-me, acertou duas.

O Miguel ficou a vê-la levar a rapariga para dentro, para a mesma sala pequena onde, no dia anterior, ela lhe tinha dado o nome das coisas. E percebeu, sem tristeza nenhuma, uma coisa nova: que não era especial. Ou melhor, que era especial exatamente da mesma maneira que toda a gente naquela casa era especial: alguém que tinha batido a uma porta sem esperar nada, e a quem a Mirella tinha aberto tudo.

Não era o único. Nunca tinha sido. E, em vez de o diminuir, aquilo fê-lo sentir-se, pela primeira vez em muito tempo, parte de qualquer coisa.

🍃 🍃 🍃

Nessa noite, no quarto por cima da lavandaria, o Miguel não olhou para o teto.

Estava demasiado ocupado a olhar para sábado.

Faltavam dois dias. Dois dias, um café, uma volta, "só nós". Um sítio normal, tinha ele dito, sem couro nenhum, como se houvesse alguma coisa de normal em o senhor Carlos, dono de meio mundo, o querer levar a lado nenhum.

O Miguel deitou-se e, pela segunda noite seguida, deu por si a desejar que os dias passassem depressa. Estava a ganhar-lhe o jeito, àquilo de querer que o tempo corresse. Fazia oito meses que só queria que ele parasse.

A mãe, pensou, ia gostar de saber que ele voltara a ter pressa de viver.

E, com esse pensamento, que noutro dia lhe teria doído e que hoje, estranhamente, não doeu, o Miguel adormeceu antes de decidir dar-lhe um nome.

🍃 🍃 🍃

E o Carlos, noutro ponto de Montefrio, com a noite a acabar n'O Limiar e os amigos à volta, pensava em sábado também, com uma ansiedade que não sentia havia muitos anos. Quando eles lhe perguntaram a razão do sorriso e daquele ar ausente que não era costume, a resposta foi o silêncio.

Cada um guardava a coisa nova à sua maneira: o Miguel por costume, o Carlos por escolha. Mas era a mesma coisa. E tinha o mesmo nome, ainda que nenhum dos dois se atrevesse, por agora, a dizê-lo em voz alta.

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