10 – O Nome das Coisas
Carlos acordou cedo, o que era estranho, porque se deitara tarde e mal dormira.
Mas Carlos não se queixava; não tinha por que o fazer. A imagem de um rapaz ruivo de olhos cinzentos no meio d'O Limiar, a olhá-lo do fundo de uma mesa e a não fugir. A mão pequena na sua, sem fugir. A testa quente por baixo dos lábios. Se te apetecer. O turno das tardes não muda.
Tudo isto era o suficiente para o deixar de cabeça cheia, corpo leve e muitas certezas no futuro, um futuro do qual o nome Miguel surgia, e que compensava a falta de descanso.
Ficou um bocado a olhar para o teto, e viu o rosto de Miguel nele. Depois levantou-se, arranjou-se e desceu já vestido, desta vez. A Berta estava na cozinha, como sempre, e como sempre soube que ele tinha entrado antes de o ver.
— Bom dia, menino Carlos.
— Bom dia, Berta.
Ela pôs-lhe o café à frente sem perguntar, e a torrada como ele gostava, e continuou nos seus tachos com a naturalidade de quarenta anos de manhãs iguais. Mas os olhos dela, esses, andaram por ele uma vez, devagar, do género de olhar que a Berta guardava para avaliar roupa a corar ao sol e pessoas a esconder coisas.
— Dormiu bem?
— Dormi.
— Mentira. — Nem levantou a cabeça da panela. — Mas é uma mentira alegre, dessas que não fazem mal a ninguém. Gosto de ver essa mentira no rosto do menino.
Carlos sorriu; não respondeu. Ela conhecia-o bem. Bebeu o café. A Berta deixou passar exatamente o tempo de três mexidas na panela antes de continuar, porque a Berta tinha, para estas coisas, uma pontaria que metia medo.
— Quer dizer que a festa correu bem, então.
— Correu.
— E, pela sua disposição, deve ter sido muito boa mesmo. — Provou o que quer que fosse, aprovou-o, tapou a panela. — Não me lembro da última vez que o menino desceu a assobiar.
— Eu não estava a assobiar. — Carlos disse-o indignado, pois não se lembrava de o ter feito.
— Estava, estava. Uma coisinha desafinada, mas estava. — Virou-se, finalmente, o pano de cozinha no ombro, e olhou-o com aquele ar que ela tinha de quem já sabe a resposta e só faz a pergunta por educação. — Como é que ela se chama?
Carlos pousou a chávena, devagar. Pensou em mentir, ou em não responder, que dava no mesmo. Mas a Berta conhecia-o desde antes de ele saber falar, e mentir à Berta era como mentir a um espelho: um exercício de vaidade sem resultado prático.
— Não é "ela".
A Berta não pestanejou. Pegou noutro pano, endireitou uma coisa que não estava torta, e disse, com a mesma naturalidade com que dizia que ia chover:
— Então como é que ele se chama?
E aquele homem frio, que nos negócios fazia suar administrações inteiras, corou como um adolescente, ou como um miúdo apanhado na despensa.
— Miguel — disse, por fim. E o nome, dito ali, na cozinha da casa dos pais, à Berta, soou-lhe diferente de todas as vezes que o pensara. Soou a verdade dita em voz alta pela primeira vez.
A Berta assentiu.
— Miguel — repetiu, só para o experimentar na boca. — Bonito nome. — E voltou aos tachos, e por um instante Carlos pensou que a conversa tinha acabado ali.
Enganou-se.
— Sabe, menino — disse ela, de costas, com a voz a mudar para outra coisa, mais baixa, sem a brincadeira —, a sua mãe também ficava assim.
Carlos ergueu os olhos.
— Assim como?
— Assim. Com essa cara. Os olhos a brilhar de manhã sem motivo nenhum à vista. — A Berta mexeu a panela que não precisava de ser mexida. — O menino tem os olhos dela, já lhe disse mil vezes. Mas hoje tem mais do que a cor. Tem o brilho. E esse eu não via há muito tempo nesta casa.
Ficou um silêncio na cozinha. Carlos olhou para a mulher pequena de costas para ele, que dera corda ao relógio do pai seis anos para a casa não ficar em silêncio, e que agora lhe dizia, sem o olhar de frente para lhe poupar a vergonha, que ele estava outra vez vivo.
— Berta.
— Diga.
Não tinha nada para dizer, na verdade.
— Obrigado.
Agradeceu por tudo e por nada, mas principalmente por ela ser a Berta.
— Ora essa. — E ela sorriu para a panela, onde ele não podia ver. — Coma, que ainda tem uma tarde inteira à sua frente. E, agora, um bom motivo para lá chegar. E espero continuar a vê-lo com esse sorriso nos olhos, que a sua mãezinha também tinha. E um dia quero conhecer esse Miguel.
— Um dia, quem sabe. — O rosto de Carlos estava iluminado, ao pensar no seu rapaz.
A Berta, mesmo de costas, podia ver isso.
🍃 🍃 🍃
O Miguel dormiu mal e acordou pior.
Não era cansaço físico; era mais um cansaço mental, daqueles que se entranham no corpo depois de uma noite inteira mal dormida, durante a qual pedaços da noite anterior lhe vinham à cabeça sem parar, sem que ele os pudesse travar. A voz. As mãos. O homem no palco. A mão grande sobre a dele. Os lábios na testa. Vais ter tempo para ver mais. Se tu deixares.
Não foi o modo como aquilo lhe soou a promessa, foi o facto de não conseguir perceber as reações do próprio corpo, a acender-se a ver, a acender-se ao toque, a acender-se só de lembrar.
Nada daquilo lhe fazia sentido. Ou talvez fizesse. Mas, sem que ele soubesse, alguém lhe iria dar respostas sobre o que ele não conseguia nomear, ainda.
Com a cabeça num novelo, o Miguel pedalou até ao Sanctum nessa quarta-feira, e, pela primeira vez em oito meses, não foi à cozinha primeiro. Foi procurar a Mirella.
🍃 🍃 🍃
O Miguel parou um pouco antes de entrar. Não queria incomodar a Mirella, mas o nó na cabeça precisava de ser desfeito, e ele sabia que ela era a pessoa certa para o fazer.
A Mirella estava sozinha na sua pequena sala, o café numa mão e um livro na outra, e parou assim que o sentiu à porta. E o que viu incomodou-a: uma certa palidez, as olheiras de uma noite mal dormida, mas, acima de tudo, uns olhos cinzentos a pedir uma ajuda silenciosa.
— Bom dia, Miguel. Senta-te.
Ele sentou-se na beira do sofá, as mãos entre os joelhos e os olhos presos ao chão, a tentar esconder o que havia neles: as dúvidas. Tantas perguntas que ele não sabia como começar.
A Mirella, como boa Dominadora, e como alguém que via para lá do corpo, viu tudo isso, mas não o apressou. Percebeu que o Miguel precisava do seu tempo. Bebeu o café e esperou. Deixou que o tempo e o silêncio fizessem o seu trabalho. Sabia que, naquele momento, era a única coisa sábia a fazer-se, soube-o desde a noite anterior, pelas leituras que fez ao Miguel quando este se absorvia nas cenas, e principalmente quando o Carlos se aproximou.
— D. Mirella... eu... — começou o Miguel, a voz entrecortada pelo nervosismo, as mãos entre os joelhos mais apertadas. — Ontem... aquilo que eu vi... aquilo que eu... — Parou. Recomeçou por outro lado. — Preciso de fazer uma pergunta, mesmo que possa parecer estúpida.
— Miguel, nenhuma pergunta é estúpida. Deixa só sair o que te vai na alma. — Disse-o com uma doçura que tornou as coisas bem mais fáceis para o rapaz. — Pergunta.
E o Miguel assim o fez, antes de perder a coragem, o rosto vermelho até às orelhas.
— Quando o senhor Sílvio, e depois o senhor Carlos, estavam no palco a fazer aquilo... era suposto eu ter sentido medo. Uma parte de mim sentiu. Mas a outra parte... bom, a outra parte nem sentiu tanto assim... até reagiu... — Fez uma pequena pausa, ao perceber o que tinha acabado de confessar, mas era tarde para voltar atrás. A Mirella ouvia, via, e mantinha o silêncio. Era o que ele precisava. — É normal, isso?
Pronto. Estava dito. Ficou a olhar para as mãos como quem espera uma sentença.
A Mirella pousou a chávena, sem pressa, e quando falou não havia nela uma gota de troça nem de surpresa.
Levantou-se e foi sentar-se ao lado do jovem. E, enquanto uma das mãos procurava a mão do Miguel, para a segurar com ternura e lhe transmitir algum conforto, a outra pegou-lhe delicadamente no queixo.
— Miguel. Olha para mim.
E ele olhou. E a Mirella leu-lhe nos olhos a dúvida de que o problema pudesse ser dele.
— É normal, sim. Não há nada de errado contigo. Não é um defeito, não é uma doença; é apenas uma maneira de ser, como qualquer outra. — Fez uma pausa, a medir as palavras como quem serve uma dose exata. — Miguel, há pessoas como eu, como o Carlos, como o Sílvio, e muitos outros, que gostam e precisam de conduzir. E há aquelas pessoas que se sentem bem quando é o outro a conduzir, que encontram uma paz e um prazer enormes em confiar, em entregar-se, em deixar que alguém em quem confiam tome as rédeas. E nada disso é uma fraqueza. Muito pelo contrário: requer coragem. Porque, para confiar assim, é preciso ter uma força que muita gente não tem.
O Miguel ouvia sem respirar. Ainda corado, mas, nos olhos, a dúvida e o medo começavam a mudar, a dar lugar a algo que ele ainda não sabia bem o que era. Qualquer coisa começava a mudar dentro dele. Começava a confiar no que sentira.
— Miguel. — A Mirella continuou, agora as mãos finas dela a segurarem as dele. — O que tu sentiste ontem tem nome.
— Tem? — A pergunta saiu rápida.
— Submissão. Essas pessoas chamam-se submissos. Eu vejo-te há oito meses como um — e o que acabaste de me dizer confirmou-mo.
A palavra ficou no ar entre os dois. O Miguel esperou sentir vergonha, ou susto, ou vontade de negar. Não sentiu nada disso. Sentiu, para sua enorme surpresa, uma espécie de alívio, como quem anda há meses com uma dor de que não sabia o nome e finalmente ouve o médico dizer o que é, e só de ter nome a dor fica mais pequena.
— Sabes, Miguel, há coisas que não se veem com os olhos. Veem-se de outra maneira; vê-se a alma. E eu aprendi a vê-la há muito tempo. — Continuou ela, mais baixo. — Eu soube, desde o primeiro momento em que bateste àquela porta a pedir trabalho. Foi por isso que te dei a pulseira.
O Miguel olhou para o pulso. A pulseira preta, que ele usava havia oito meses como um escudo, não estou disponível, deixem-me em paz.
— A preta — disse ele, devagar, a confusão a voltar-lhe ao olhar. — A D. Mirella disse-me que era para me deixarem em paz.
— E era. Mas não era só. — A Mirella sorriu, e no sorriso havia uma ternura antiga. — A preta não quer dizer um "não" definitivo. Quer dizer um "ainda não". Quer dizer: aqui está alguém que ainda não sabe o que é, à espera do dia em que saiba. Eu só te tentei proteger até esse dia... mas esse dia chegou.
A Mirella fez uma pausa, e de novo a mão voltou a erguer-lhe o rosto, que fugira com o olhar, ao perceber finalmente o que lhe ia na alma.
— E o Carlos é essa pessoa.
O silêncio, e o brilho nos olhos do Miguel, foram a resposta que a Mirella esperava.
E o coração do Miguel encheu-se de algo que ele ainda não sabia ao certo o que era, mas que agora já tinha um nome: submissão. E o Carlos, a começar a ficar-lhe gravado na alma.