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09 – A Mesa de Baixo

A casa inteira fingiu que não estava a ver, mas viu tudo.

Não tinha como não ver a maneira como o novo Dom desceu do palco, por entre aplausos e com um passo decidido, atravessou a pista e parou diante da mesa reservada abaixo da plataforma, diante da dona do Sanctum, do homem dos olhos metálicos, e de um rapaz ruivo de camisa lavada que a casa passara a noite a tentar perceber quem seria.

E então Carlos, não o Dom, fez algo que surpreendeu até ele mesmo.

Olhou para o rapaz, só para o rapaz, e perguntou:

— Posso sentar-me?

A Mirella, talvez a pessoa mais importante da mesa, tornou-se invisível, tal como o Lorenzo.

A pergunta caiu na mesa como uma moeda de ouro. A Mirella sorriu, escondendo o sorriso por detrás do copo que levou aos lábios. O Lorenzo desviou os olhos pelo salão, com o ar distraído de quem não está a perder uma única sílaba.

E o Miguel, que passara a noite inteira sem saber onde pôr as mãos, ficou agora sem saber onde se colocar a si próprio, o rosto corado que a penumbra do salão não conseguia esconder, a voz a falhar, sem saber o que fazer com a pergunta.

As pessoas à volta da mesa ouviram a pergunta do Dom. Mas o Miguel ouviu a pergunta de Carlos.

— Eu... claro. Quer dizer... a cadeira. A cadeira está livre. As cadeiras todas, aliás. Sente-se onde quiser.

— Quero esta.

E Carlos sentou-se na cadeira ao lado dele, com a calma de quem se senta à própria mesa, e a casa, percebendo que o espetáculo ia continuar sem microfone, voltou aos copos com uma atenção nova.

— Boa noite, Miguel.

— Boa noite, senhor Carlos.

E ali estava: no meio d'O Limiar, entre coleiras e cabedal, onde toda a gente lhe chamava Mestre e Dom, senhor Carlos, dito baixinho, mexeu com o homem de uma maneira que ele não soube definir. Mas que lhe fez o coração aquecer.

— Não sabia que vinhas.

Embora sentado ao lado dele, o rosto e o corpo de Carlos estavam virados para o Miguel, esquecendo por completo quem estava à volta. O braço nas costas da cadeira do mais novo, a tocar-lhe de leve as costas.

O Miguel sentia toda a atenção de Carlos sobre si; o coração batia-lhe depressa, sentia o calor do braço nas costas, e não conseguia evitar que uma parte do corpo se voltasse a acender.

— Eu também não. Soube ontem. A D. Mirella... — O Miguel olhou para ela, que examinava o próprio copo com um interesse científico. — Foi ideia dela.

— Sim, ela tem ótimas ideias. — Carlos não olhou para a Mirella; não era preciso. — E então? Que achas d'O Limiar?

— É... — O Miguel procurou a palavra. As mãos dele abriram-se e fecharam-se em cima da mesa. — Muito diferente.

— É.

— O Sanctum ao pé disto parece uma sala de estar.

— O Sanctum é uma sala de estar — disse Carlos. — É por isso que é o melhor sítio da cidade. Lá aprende-se; aqui vem-se quando já se sabe o que se procura.

O Miguel calou-se. A frase ficou a pairar-lhe na mente, e, antes que a coragem faltasse, perguntou, com aquela coragem da sexta prateleira, a que falava antes de pedir autorização:

— E o senhor sabe? O que procura?

A Mirella parou o copo a meio caminho. O Lorenzo achou o teto interessantíssimo. Mas os ouvidos dos dois aguardavam a resposta.

Carlos olhou para o Miguel durante um segundo comprido, o suficiente para o rapaz corar e não desviar os olhos, as duas coisas ao mesmo tempo, que era o progresso da noite.

— Sei — disse, pousando a mão livre sobre a mão agora trémula do jovem. — Não o sei há muito tempo. Mas agora sei.

A Mirella e o Lorenzo trocaram um olhar, comunicando-se sem que fossem precisas palavras. O gesto falou por si; os dois perceberam o significado.

Carlos não sabia o que o levava a agir assim. Aquela não era a sua natureza.

Só o Miguel estava alheio ao que tudo aquilo significava. Não sabia nomear o que sentia. Apenas se sentia bem na presença de Carlos.

Foi a Mirella quem quebrou o momento, com a pontaria de quem sabe exatamente quanto tempo um momento aguenta antes de pesar.

— Lorenzo — disse, levantando-se. — Vem comigo cumprimentar o Sílvio, que fez por merecer. E tu — a mão dela pousou de passagem no ombro do Miguel, leve — não fujas, que eu volto já.

E foram-se os dois, com a naturalidade ensaiada de quem deixa um palco a meio de propósito.

O silêncio que ficou não foi mau. A mão grande ainda estava na mão pequena, e o braço nas costas da cadeira, e nenhum dos dois teve vontade de mudar isso.

— A cena — disse o Miguel, ao fim de um bocado, os olhos no palco vazio para não terem de estar noutro lado. — Ele podia ter... acabado. O senhor não deixou... e ele obedeceu. Como é que... e quem vê pode sentir...

O Miguel calou-se, ao perceber que estava a pensar em voz alta, o olhar a fugir para o chão, e a mão, que ele agora tentava retirar, foi agarrada com mais firmeza.

Carlos não respondeu logo. Percebeu a confusão que a cena tinha causado no jovem. Apertou-lhe a mão que tentava fugir da sua.

— Miguel. Respira. Está tudo bem. — E depois, mais baixo: — Devagar. Aos bocadinhos. Uma prateleira de cada vez.

E o Miguel percebeu, talvez não tudo, talvez não já, mas percebeu qualquer coisa: que a resposta não era sobre o Ciro. Que nunca tinha sido sobre o Ciro.

Corou até às orelhas, o coração num sítio impossível. E deixou ficar a mão. E foi isso, mais do que os três segundos de olhos, mais do que qualquer coisa dita, que disse a Carlos que a noite não tinha sido em vão: o rapaz que fugia de tudo o que lhe fazia bem, para não gastar, tinha deixado a mão onde ela estava.

🍃 🍃 🍃

A Mirella voltou dez minutos depois, nem um a mais, nem um a menos, com o Lorenzo e o Ivo atrás, e a mesa encheu-se de conversa grande: a noite, a casa, o Sílvio que apareceu entretanto, já sem cabedal e com uma cerveja na mão, o Vicente com duas histórias. O Miguel foi ficando, mais calado que todos, mas dentro, a rir nos sítios certos, cada vez menos náufrago. E Carlos reparou que ele já não estava colado à Mirella. Estava só sentado. À mesa. O corpo mais solto, a mão deixada ficar, e mais encostado a Carlos do que ao princípio, porque a mesa cheia assim o "obrigava", e nenhum dos dois se queixou.

Era quase uma da manhã quando a Mirella deu a noite por terminada, com a autoridade de quem tem um pequeno grupo a seu cargo e um turno das tardes que amanhã não se adia.

Despediram-se à porta grande. O Lorenzo com um "até breve" que soou a certeza; a Mirella com dois beijos e meia frase ao ouvido de Carlos, "portaste-te bem, nas duas cenas", que ele achou melhor fingir que não percebeu, mas por dentro sorria.

E o Miguel, por último. Sem saber como se despedir, um aperto de mão parecia pouco, agora, ficou ali, a deixar o corpo perguntar aquilo que a mente se recusava a formular.

Carlos resolveu-lho. Levou a mão à nuca do rapaz, devagar, a dar-lhe tempo de recuar, que ele não recuou, e encostou-lhe os lábios à testa, um instante só.

— Obrigado por teres vindo, Miguel.

— Obrigado eu... pela noite. Foi... — O Miguel procurou a palavra e desistiu de a procurar. — Nunca vi nada assim.

— Vais ter tempo para ver mais — disse Carlos, baixo, de modo que só ele ouvisse. — Se tu deixares.

A frase soou ao Miguel como uma promessa, o que fez o pobre coração acelerar a ponto de quase explodir.

Nenhum dos dois disse mais nada. Não era preciso.

— Quarta-feira há café? — perguntou Carlos.

— O turno das tardes não muda — respondeu o Miguel, num fôlego.

— Então até quarta.

E deixou-o ir, entre a Mirella e o Lorenzo, outra vez meio passo atrás, mas já não como um escudo. Como quem leva a noite inteira guardada nos bolsos e uma testa que ainda estava quente.

🍃 🍃 🍃

Carlos ficou à porta d'O Limiar a ver o carro afastar-se.

Atrás dele, a casa continuava, a música, os copos, a noite dele, a consagração que esperara seis anos. Voltou para dentro, sentou-se no lugar que era dele, aceitou os copos e os parabéns e as apresentações, e fez tudo bem, como fazia tudo.

Mas de vez em quando a mão subia-lhe ao peito, sem ele dar por isso, e tocava a corrente fina por baixo da camisa.

Já não estava vazia de esperança. Só de tempo.

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