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04 – A Casa Cheia

Na quinta-feira de manhã, Carlos acordou no quarto da infância, com o sol a bater na mesma parede de sempre, e demorou um momento a lembrar-se de que tinha trinta e oito anos.

Voltar àquela casa era voltar atrás no tempo, ao tempo em que os pais eram vivos e o futuro era uma conversa à mesa, não um testamento.

E a culpa era da Berta. Quando lhe ligara de Madrid a avisar que voltava, de vez, desta vez, ela apenas perguntara pela roupa que ele traria e se continuava a gostar de arroz de pato, como se Carlos estivesse ausente havia uma semana e não seis anos. E quando ele chegou, naquela noite, a casa esperava-o: o cheiro de comida no forno, o quarto pronto, a cama feita, os lençóis com o cheiro da infância. A porta do quarto dos pais fechada, sem que ele tivesse pedido; o tiquetaque do relógio do pai; a cadeira de baloiço onde a mãe gostava de se sentar. Foi como se a casa ainda estivesse viva, como se os pais ainda ali estivessem.

E uma breve sombra passou pelos olhos âmbar, herdados da mãe, mas logo desapareceu, ao descer as escadas e ver a simpática governanta, de pano de cozinha ao ombro, à volta de tachos e panelas.

A Berta. Sessenta e muitos anos, pequena, rápida, com opiniões sobre tudo e razão em quase tudo. Entrara naquela casa antes de Carlos nascer e nunca mais saíra, nem quando os patrões morreram, nem quando o rapaz partiu com uma empresa pequena e uma teimosia grande. Durante catorze anos mantivera a casa viva: as janelas abertas todas as manhãs, as flores mudadas, o pó sem hipótese nenhuma. A cadeira da D. Ermelinda no sítio do costume, de frente para a janela que dava para o quintal, com a caixa de costura ainda em cima; e o relógio de parede, aquele que só o senhor Alberto tinha licença de tocar, a Berta dera-lhe corda todas as semanas, seis anos a fio, para que a casa nunca ficasse em silêncio.

Carlos chegou à cozinha em tronco nu e foi logo cumprimentado com algo a atingir-lhe a cabeça. O pano que estava no ombro da Berta estava-lhe agora na cabeça.

— Menino Carlos, que modos são esses? Foi essa a educação que os seus falecidos paizinhos lhe deram? — A Berta tinha o ar sério e agitava uma colher de pau na mão. — Vá vestir alguma coisa, se ainda quiser tomar o pequeno-almoço.

— Tenho trinta e oito anos, Berta. — Carlos fingiu-se indignado, mas por dentro sorria. Essa era a sua Berta. E Deus, como tinha tido saudades das reprimendas dela.

— Pois, e eu tenho sessenta e seis, e uma colher de pau que, acredite, ainda sei como usar. Vá vestir uma camisola.

Foi vestir a camisola. Havia batalhas que nem os homens mais ricos do país ganhavam, e a Berta era todas elas.

— Combinei com os rapazes que vinham cá almoçar. Tenho saudades deles — disse ele, quando voltou, já apresentável e a meio do café. — Algum problema com isso, Berta?

— Eu já sabia. O Ivo ligou-me ontem a perguntar se eu ainda lhes fazia o cabrito de que vocês tanto gostam.

— Troca-tintas, amigo da onça. A fazer planos nas minhas costas. — Carlos sorria; essa atitude era típica do Ivo.

— E ainda bem que fez. Porque o menino pode ser o dono da casa, mas eu é que mando nela. — A Berta abriu o forno, avaliou o que lá ia dentro, fechou-o com a autoridade de um juiz. — Fiz comida para nove. Vocês são quatro, portanto deve chegar.

Carlos bebeu o café a sorrir. Era isto. Era exatamente isto que lhe tinha faltado seis anos.

🍃 🍃 🍃

O Ivo chegou primeiro, com duas garrafas de vinho e a voz a encher o jardim antes de o corpo entrar no portão. Atrás dele, o Sílvio, que não mudara nada: o mesmo armário de homem, um palmo acima de toda a gente, o cabelo escuro cortado curto e já com geadas nas têmporas, a mesma barba por fazer, a tatuagem a espreitar da manga da camisa, as mesmas mãos calejadas pelas ferramentas e pela madeira do ofício. Tinha a cara séria de quem nasceu com ela, mas os olhos, escuros e atentos, riam-se muito antes da boca e melhor do que ela.

— Sílvio.

— Carlos.

Primeiro o aperto de mãos e depois o abraço, com força, e tudo ficou dito nele, sem serem precisas palavras.

O Vicente chegou dez minutos depois, elegante como sempre, mais baixo que o Sílvio, mais fino, o cabelo castanho-claro penteado com um cuidado que parecia casual e não era, camisa de linho sem um vinco. Tinha o rosto agradável de quem escuta com a cara toda, e umas mãos limpas e precisas, de dedos compridos, mãos de quem passa os dias a devolver a vida a coisas antigas sem lhes apagar a idade. Trazia um ramo de flores que não era para nenhum deles.

— Dona Berta — disse, à porta da cozinha, com a vénia de um embaixador. — Continua a ser a única razão pela qual eu venho a esta casa.

— E o menino Vicente mente muito bem, mas continua a ser o único destes brutos que sabe entrar numa cozinha — e como tratar uma mulher. — A Berta aceitou as flores e apontou-lhe uma colher de pau ao peito. — Prove o arroz e diga a verdade.

O almoço durou três horas e nenhum deu por elas. Falou-se de tudo: da Espanha e dos espanhóis, dos preços das casas, das obras d'O Limiar, e de um Dom de Lisboa que encomendara ao Sílvio uma peça por medida, das especiais, e que depois lhe regateou o preço como quem compra hortaliça na praça. O Sílvio ouvira o homem até ao fim, desmontara a peça à frente dele, prancha a prancha, e devolvera-lhe o sinal até ao último cêntimo. "Não sabia quem eu era", disse o Sílvio, e mais nada, e a mesa riu cinco minutos.

O Vicente contou devagar, como ele contava as coisas, a história de um casal da casa que andava de costas voltadas havia dois anos, e da escrivaninha antiga que um deles lhe levou ao atelier para restaurar, sem saber que tinha sido o outro a comprá-la, anos antes, numa feira. O Vicente restaurou a escrivaninha e, já agora, o resto. O Ivo acusou-o de ser romântico; o Vicente aceitou a acusação como quem aceita um elogio.

E a certa altura, entre o cabrito e a sobremesa, fez-se um daqueles silêncios bons, e o Ivo levantou o copo sem se levantar da cadeira.

— Ao que faltava — disse só.

Os copos ergueram-se na direção de quem estava sentado à cabeceira da mesa dos pais, e não foi preciso dizer mais nada; o silêncio falou por eles.

Foi então que o atento Vicente reparou.

— Estás com pressa, Carlos?

— Eu? Não. — Carlos tentou disfarçar, mas sabia que tinha sido apanhado. — Porque teria pressa, se estou com os amigos?

— Não? A sério? Mas já é a terceira vez que olhas para o relógio — disse o Vicente, com aquele sorriso de quem sabe mais do que diz.

A mesa inteira virou-se para ele com o interesse educado de três abutres.

— Seres um bocadinho menos atento era bom, olhos de lince. — Carlos brincou; estava entre amigos que se conheciam há anos e por quem dariam a vida. — Bom, não adianta negar. Tenho um compromisso ao fim da tarde — disse, no tom mais aborrecido que conseguiu fabricar.

— Um compromisso — repetiu o Ivo, a saborear a palavra como saboreava o vinho. — De trabalho?

— Pessoal.

— Na cidade?

— Ivo.

— Só pergunto porque, se fores para os lados do Sanctum, levavas os cumprimentos que eu mandei anteontem e que aposto que não entregaste.

Carlos olhou para o amigo, cujo rosto sorria, e para o Sílvio, cujos olhos sorriam, e para o Vicente, que examinava a sobremesa com a atenção de quem está a dar a um homem a hipótese de mudar de assunto com dignidade.

— Entreguei os cumprimentos — disse Carlos. — E mais não digo.

— Mais não diz — repetiu o Ivo, encantado. — Ora aí está uma frase que promete.

— Acabaste de dizer mais do que pensas — disse o Sílvio, no seu modo simples de falar.

🍃 🍃 🍃

Os amigos saíram ao meio da tarde, com a Berta a distribuir embrulhos de sobras pela ordem de quem mais a elogiara, o Vicente levou dois.

Depois de eles saírem, Carlos tomou banho e trocou de roupa, demorando mais do que o habitual; pôs o perfume favorito e, antes de sair, olhou-se ao espelho mais uma vez.

O que viu no espelho foi alguém ansioso, como um adolescente num primeiro encontro, e não um Dominador com anos de experiência.

Era uma sensação que não vivia há muito tempo. Será que alguma vez a vivera mesmo?

Às seis, Carlos estacionou o Mercedes na rua tranquila do Sanctum, com um embrulho no banco do lado: um pequeno camião de madeira, compra de última hora no aeroporto de Madrid, sem saber porquê. Agora sabia, os padrinhos de fortuna não precisam de datas.

O porteiro era o mesmo do tempo dele, e sorriu-lhe assim que o viu, deixando-o entrar sem pedir autorização. Sabia quem ele era; aliás, todo o Sanctum sabia. A Mirella encarregara-se disso: o meu Carlos voltou.

A Mirella estava no sítio do costume, encostada ao balcão, a falar animadamente com uma figura alta que Carlos reconheceu de imediato.

Lorenzo Vieri. Um velho conhecido e, de alguma forma, amigo. Fora mentor da Mirella, fora ele que a ajudara a tornar-se a mulher e a Dominadora que era hoje. Bom ouvinte, só dava a sua opinião quando necessário; ótimo observador, conseguia ver até à alma.

Os anos tinham passado por ele, mas a idade não lhe tirara o charme: alto, magro, os cabelos quase brancos, os olhos azuis quase metálicos, a leveza de quem não precisa de afirmar presença.

Carlos aproximou-se e cumprimentou-os, a Mirella com um abraço, o Lorenzo com um aperto de mão. Depois estendeu o pequeno embrulho à Mirella, que sorriu ao reparar no papel infantil que o envolvia.

— Trouxe uma coisa para o Simão.

— Que atencioso.

— Comprei-a em Madrid. Já vinha destinada.

— Não precisavas. Bebe qualquer coisa; hoje pago eu. Lembras-te do Lorenzo? — E, com o embrulho do Simão debaixo do braço, foi ela mesma buscar os copos, deixando os dois homens à conversa.

— Sim, claro que sim. É bom ver-te de novo. Confesso que pensei que já estivesses mais sossegado.

— Sossegado? Meu rapaz, estás a chamar-me velho? Tu não chegas nem aos calcanhares daquilo que eu sei e sou. — A voz saiu fria, mas o rosto sorria; sabia que não tinha sido dito com má intenção.

— Desculpa, não quis ofender... — Carlos começou a desculpar-se, mas calou-se, com os olhos fixos no rapaz que, ao fundo do corredor, trocava uma lâmpada em cima do escadote.

Lorenzo viu-o ficar mudo, o olhar preso no corredor, e seguiu a direção do olhar de Carlos. E então percebeu.

Também a Mirella percebeu, voltava nesse momento, com os copos na mão, e bastou-lhe um simples olhar.

Uma troca de olhares entre os dois chegou para que a mente de ambos ficasse no mesmo registo.

De costas para os olhares nas suas costas, o Miguel continuava a substituir a lâmpada, até que a voz da Mirella lhe chegou aos ouvidos. Franziu a testa, voltou-se na direção da voz... e o coração parou-lhe.

Ele estava ali. Agora com um nome: Carlos. A Mirella fizera questão de que todos o soubessem, o nome, o que ele era, quem ele era. E dizia-o com orgulho.

O Miguel achava-o bonito. Mas de certeza que não era para ele.

Enganava-se.

— Miguel — chamou a Mirella. — Chega aqui, faz favor.

O rapaz desceu do escadote com uma lâmpada fundida na mão e foi-se aproximando, os olhos no chão, o rosto quase tão vermelho como o cabelo, as mãos trémulas a apertarem a lâmpada mais do que deviam. O coração batia-lhe tão depressa que parecia que ia saltar-lhe do peito.

— Este é o Carlos — disse a Mirella. — Já me ouviste falar dele. Vai passar a aparecer por aqui mais vezes.

O Lorenzo manteve-se encostado ao balcão, a assistir à cena que se desenrolava à sua frente, atento ao que os corpos lhe transmitiam.

— Certo, D. Mirella. — O rapaz estendeu a mão, e depois olhou para a lâmpada fundida que ela ainda segurava, trocou-a de mão à pressa, e estendeu outra vez a que estava livre. — Desculpe. Muito prazer. Sou o Miguel.

— Carlos. — Apertou-lha. A mão do rapaz era quente e fina, com calos de trabalho nos sítios em que os das mãos dele eram de caneta, e tremia levemente. Aliás, o corpo inteiro do Miguel estremeceu com aquele aperto de mão, como se tivesse levado um choque elétrico. — O prazer é meu.

Os olhos cinzentos encontraram os olhos âmbar durante quase dois segundos inteiros, antes de fugirem para o chão pelo caminho do costume.

— Eu... estava a mudar as lâmpadas — informou o Miguel, sem saber o que dizer. A presença daquele homem deixava-o sem saber o que dizer ou fazer; ele não era uma pessoa tímida, mas ali, agora, estava.

— Reparei — disse Carlos, com toda a seriedade de que foi capaz. — Trabalho importante. Sem luz, isto à noite não ia lá.

— É o que eu digo sempre. Ninguém me dá ouvidos.

E riram-se todos.

A mão do Miguel ainda estava na mão de Carlos. A Mirella viu, o Lorenzo viu, todo o Sanctum viu, só os dois não viram.

— As lâmpadas, Miguel — lembrou a Mirella, docemente.

— As lâmpadas. — O rapaz recuou dois passos, olhou para a sua mão e para a de Carlos, largou-a, apontou para o escadote como quem apresenta um álibi, e foi-se: depressa demais, direito demais, os ombros a fingirem uma calma que os ombros não sabiam fazer.

Carlos deu por si a segui-lo com os olhos e obrigou-se a parar. A Mirella e o Lorenzo escolheram a mesa com vista para o salão inteiro e sentaram-se com ele, ela com o ar de quem tem todo o tempo do mundo e sabe que o tempo trabalha para ela.

— Então — disse. — Fala-me desse camião de madeira.

🍃 🍃 🍃

Já era quase noite quando Carlos saiu, com a promessa de que o Simão havia de lhe ligar a agradecer, "ele adora falar ao telefone; arrependes-te ao terceiro minuto", e conduziu para casa devagar, com a cidade a começar a adormecer.

Fizera contas ao dia, como fazia sempre: uma casa que afinal nunca deixara de ser dele, uma mesa cheia, um aperto de mão.

Como podia um simples aperto de mão ser tão diferente dos muitos que dava num dia de trabalho?

Fez a pergunta, e a resposta veio com um nome: Miguel.

O jovem de caracóis ruivos e olhos cinzentos, de mãos quentes e calejadas, que lhe despertava sentimentos a que não sabia dar nome.

Mas a vida haveria de se encarregar de lho ensinar.

No semáforo da avenida, o mesmo de terça à noite, verde agora, Carlos soube que ia fazer aquele caminho muitas mais vezes.

Muitas mais.

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