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08 – A Demonstração

As luzes do salão acenderam-se, o Ivo levantou-se do trono e foi até ao palco. Pegou no microfone, e o discurso que ele jurara não fazer existiu, evidentemente.

— Em primeiro lugar, quero agradecer a todos os presentes. E hoje temos a honra de contar, nesta comemoração, com a dona do Sanctum — o que muito me enche de orgulho. Mirella. — O Ivo fez um gesto teatral, apontando na direção dela, que apenas sorriu. — Se hoje somos o que somos, a ti o devemos. Ajudaste-nos a crescer; ajudaste-nos a ver o que éramos mesmo antes de o sermos. Ajudaste os jovens que éramos a ser os homens que somos.

Seguiu-se uma torrente de aplausos.

— Aquele lugar ao meu lado esteve vazio seis anos. Seis anos à espera do dono — que finalmente voltou. Ele, além de um excelente Dominador, é um amigo. Daqueles com quem se pode contar, mesmo nas piores alturas. Daqueles que, mesmo lá fora a "lutar pela vida", nunca esqueceram os amigos; que estavam sempre à distância de um telefonema. Carlos: esta é a tua casa, e nós somos a tua família. Sê bem-vindo — és dos nossos. Foste dos primeiros e és dos melhores, e a partir de hoje esta casa tem outra vez o Dom de referência que merece. — Ergueu o copo. — Carlos. Senta-te no teu lugar, homem, que ele já ganhou teias de aranha à tua espera.

A casa riu, a casa aplaudiu, e Carlos atravessou a plataforma e sentou-se no sofá ao lado do trono, devagar, sem pressa, do jeito de quem faz as coisas pela ordem certa, e a casa aplaudiu mais.

Na mesa de baixo, o Miguel ouvia tudo com atenção. Olhou para a Mirella, calma ao seu lado, quando o Ivo lhe agradeceu, e isso fez com que ficasse a conhecer melhor a dona do Sanctum, o que só aumentou o carinho e a consideração que já tinha por ela. Era descrita como uma pessoa fria, capaz de desarmar só com o olhar; mas ele, Miguel, nunca sentira isso. Muito pelo contrário: da Mirella só tinha visto os olhos meigos.

Depois os olhos dele voltaram ao homem lá em cima. Para ele, era o senhor Carlos das prateleiras, do café, do "boa tarde" no passeio. Não conseguia ver mais do que isso.

Mas algo lhe dizia que, em breve, ia ter a sua resposta.

🍃 🍃 🍃

— E agora — anunciou o Ivo, que decididamente estava numa noite de microfone —, para fechar com chave de ouro, o nosso Dom regressado vai mostrar-nos porque é que esta casa o esperou seis anos. Palco principal. Silêncio, meus senhores. Isto não é para fazer barulho — é para aprender.

O Ciro subiu ao palco, o par que o Ivo escolhera antes sequer de convidar o Dom: trinta e poucos anos, experiente, da casa. A negociação tinha-se feito nos bastidores, ponto por ponto; ali em cima, os dois já falavam a mesma língua.

Carlos rodeou-o devagar, uma volta inteira, a mão a pousar aqui e ali, o ombro, a nuca, a linha das costas, toques curtos, de reconhecimento, como quem afina um instrumento antes de tocar. Depois pegou no pano preto.

— Confias? — perguntou, alto o suficiente para a casa ouvir.

— Confio, Mestre.

E a venda cobriu os olhos do Ciro, e a casa calou-se sozinha.

Os toques continuaram, agora às cegas para quem os recebia. O Ciro não via, não podia prever onde a mão ia pousar; permanecia quieto, mas cada toque lhe arrancava um estremecimento pequeno, e a casa via-os todos. As mãos de Carlos passearam pelo pescoço, pelo tórax, encontraram os mamilos e pressionaram, devagar, o suficiente, e um gemido involuntário escapou da boca do submisso.

— Não te mexas — disse a voz, calma, junto ao ouvido dele, alta o suficiente para o microfone apanhar. — Sentir é obrigatório. Mexer é proibido.

E o corpo do Ciro obedeceu: a lutar por obedecer, os punhos a fecharem-se, a respiração a mudar. E via-se, mesmo com o calção vestido, que o corpo dele já tinha tomado partido.

Na mesa de baixo, o Miguel via tudo com uma atenção que já não sabia disfarçar. Não conseguia desviar os olhos da cena; não conseguia desviar os olhos de Carlos: das mãos, da calma, do que elas faziam e do tempo que levavam a fazer.

Foi então que os olhares dos dois se cruzaram, porque Carlos, de forma involuntária, ou nem tanto, procurava por ele.

E, a olhar para o Miguel, Carlos pegou em qualquer coisa metálica de cima da mesa. Ergueu-a devagar, a mostrá-la ao público, sendo que o público, naquele momento, era um só. O Miguel não soube o que era até ver: prendedores. E quando eles fecharam, primeiro um, depois o outro, e o Ciro gemeu por entre os dentes, o Miguel arrepiou-se da nuca aos pés, a respiração suspensa, sem saber porquê, foi como se tivessem sido colocados nele.

— Aguenta — disse a voz lá em cima.

E o Miguel agarrou uma mão com a outra debaixo da mesa, sem saber bem a qual dos dois a ordem tinha sido dada.

Porque o corpo dele já não escondia nada: estava excitado, outra vez, e desta vez sem susto nenhum a que deitar as culpas. Mas, se havia algo a quem deitá-las, era a voz. Eram as mãos. Era a calma daquele homem a fazer o que fazia; era aquela sensação de querer ser ele ali, no palco. E o Miguel, de pernas apertadas debaixo da mesa e cara em chamas, agradeceu ao escuro da sala pela segunda vez naquela noite.

A Mirella, como boa Dominadora que era, viu os sinais e sorriu. O Miguel era um submisso nato. A pulseira preta nunca se tinha enganado.

Carlos inclinou então o Ciro sobre a mesa do palco, com uma mão firme entre as omoplatas, e baixou-se para lhe sussurrar qualquer coisa ao ouvido. O Ciro acenou que sim. Só então o calção desceu até aos joelhos, e a casa inteira pôde confirmar o que já adivinhava: o submisso estava excitado, e não era pouco.

O plug era pequeno, e Carlos preparou-o sem pressa nenhuma, com o gel e com aqueles anos de experiência, e com os olhos, uma vez mais, na mesa de baixo. Colocou-o devagar, a voz a conduzir:

— Respira. Isso. Devagar — a pressa é minha, não é tua.

E depois trabalhou o objeto com uma calma que era, em si mesma, uma demonstração, enquanto a outra mão descia e encontrava o membro do submisso. O Ciro gemeu alto, a casa nem pestanejou, e o corpo em cima da mesa começou a subir, a subir—

— Para.

A mão de Carlos parou. Tudo parou.

O Ciro tremia inteiro, suspenso a um passo do fim, o corpo a implorar o que a boca não pedia, porque a boca sabia as regras.

— Ainda não — disse a voz, calma como quem agradece um café. — O teu prazer chega quando eu disser. E eu ainda não disse.

E a casa, quinhentas pessoas em silêncio absoluto, percebeu o que estava a ver: qualquer Dom acende um corpo. Suster um à beira, com uma palavra, e ser obedecido, isso era outro ofício. Era por isto que a casa o esperara seis anos.

Na mesa de baixo, o Miguel deu conta de que também ele tinha a respiração presa, à espera da mesma palavra.

Era a ti que eu queria aqui. Era isso que os olhos de Carlos diziam, cada vez que voltavam à mesa de baixo, para quem soubesse ler.

O Miguel não soube ler.

A Mirella e o Lorenzo leram muito bem.

A casa inteira viu.

E na sombra junto ao bar, com um copo intacto na mão, o Máximo viu tudo: a cena que pedira para protagonizar, entregue a outro; as mãos e a voz que quisera para si, a passarem por cima dele como se ele fosse mobília; e os olhos do Dom da casa, na noite da consagração, a voltarem uma e outra vez a um ruivo magro de camisa barata que ninguém sabia de onde viera.

O Máximo sabia ler. Era a única coisa que sempre soubera fazer bem.

E outra vez, como na primeira noite, ninguém reparou que ele saiu cedo.

🍃 🍃 🍃

Lá em cima, quando quis, só quando quis, Carlos disse a palavra.

Uma palavra. E o Ciro desfez-se sobre a mesa, com a casa inteira a assistir ao poder de uma palavra dita na hora certa.

Depois, Carlos terminou a cena como as coisas se terminavam naquela casa: amparou o submisso quando os joelhos lhe faltaram, compôs-lhe a roupa, tirou-lhe a venda com as duas mãos e segurou-lhe o rosto até os olhos dele acertarem outra vez com a luz.

— És teu outra vez — disse-lhe, baixo, e o microfone apanhou. — Portaste-te lindamente.

E entregou-o, embrulhado num roupão, aos cuidados de quem o esperava ao lado do palco.

A casa levantou-se para aplaudir, de pé, demorado, dos aplausos que não se encomendam.

Carlos agradeceu à casa com a cabeça. E depois desceu do palco, atravessou a pista cheia, a casa a abrir-lhe caminho, mãos a tocarem-lhe o ombro, palavras que ele não ouviu, e foi direito, sem desvio nenhum, à mesa abaixo da plataforma.

Aos olhos cinzentos que o viram vir e não fugiram.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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