07 – O Mundo a Sério
O porteiro d'O Limiar viu-o chegar e, desta vez, abriu-lhe a porta antes de ele dizer o nome.
— Boa noite, senhor Carlos. Grande noite, a de hoje.
— Vamos ver se sobrevivo ao discurso.
— O senhor Ivo jurou-me hoje três vezes que não há discurso. — O porteiro fez uma pausa de especialista. — Portanto vai haver, e dos grandes. — E depois, já com a porta aberta, mais baixo, com um sorriso que lhe mudou a cara: — Liguei ao Jeo, sabe? A contar que o senhor tinha voltado. Manda-lhe cumprimentos. Disse, e passo a citar, que "já não era sem tempo".
Carlos parou um segundo no vão da porta.
— Diga-lhe que os cumprimentos vão ser devolvidos em pessoa. Um dia destes.
Lá dentro, a casa estava irreconhecível de tão cheia. Terça-feira, e O Limiar fervia como um sábado: a pista composta, os dois palcos iluminados, o bar a três funcionários e ainda assim com fila. A casa inteira viera ver o Dom que voltara: uns por respeito, outros por curiosidade, mas nenhum estava ali pela casa.
O Ivo apanhou-o a meio caminho da zona VIP e abraçou-o à frente de toda a gente, sem cerimónia nenhuma, porque esse era o Ivo: dono das suas próprias regras, e uma delas era não fazer cerimónia, principalmente com quem gostava.
— Aí estás tu. — Recuou, avaliou-o dos pés à cabeça. — Vestiste-te para impressionar quem, posso saber?
Nessa noite, Carlos vestira-se de preto da cabeça aos pés: camisa boa de colarinho aberto, as mangas dobradas até meio do antebraço, um colete de couro justo e sóbrio, calças de corte perfeito, botas. Nada brilhava, nada pedia atenção, e era exatamente por isso que a atenção vinha. No pulso, em vez do relógio caro dos dias de semana, trazia um antigo, de correia de couro gasta, que fora do pai. A Berta tinha-lho deixado em cima da cómoda, sem uma palavra. Não eram precisas.
E, ao pescoço, uma corrente fina, à espera do que lhe pendurar, de algo que ele esperava há muito e ainda não tinha encontrado.
Ou será que já?
Miguel, pensou Carlos.
— A casa.
Foi a resposta que saiu, ao pensar que aquele que lhe povoava a mente desde que o conhecera não iria estar presente. Nem sequer a Mirella. E esse pensamento tornou os olhos âmbar mais escuros.
— A propósito de casa — disse o Ivo, com o ar de quem arquiva a resposta na gaveta das mentiras educadas —, antes de te sentares temos um assunto entre mãos. Vem cá.
Puxou-o para o canto mais sossegado do bar, pediu dois copos com um dedo, e foi direto, como o Ivo era sempre que queria alguma coisa:
— Hoje, depois do brinde, quero-te no palco.
— Ivo.
— Uma demonstração. Algo simples, teu, a fechar a noite. — Levantou a mão antes que o outro abrisse a boca. — Ouve primeiro. A casa vai aplaudir-te de qualquer maneira, porque eu mando e porque gostam de mim. Mas aplaudir um nome não é o mesmo que respeitar um Dom. Metade desta gente nunca te viu trabalhar; conhecem-te por ouvir dizer. Se te sentas no sofá e acenas, és o rico que voltou. Se subires ao palco dez minutos, és o Dom da casa. A diferença paga-se a ela mesma durante anos.
Carlos rodou o copo na mão, sem beber.
— É a primeira noite, Ivo. Tu conheces-me, e essa não é a minha ordem: primeiro ser da casa, depois mostrar. Não ao contrário.
— E eu respeito a ordem certa como respeito os limites de velocidade. — O Ivo encolheu os ombros. — Carlos. Tu esperaste seis anos; a casa esperou seis anos. Ninguém aqui precisa de mais espera — precisa de ver. Dez minutos.
O silêncio durou o que durou. O Ivo conhecia-o bem demais para o encher de argumentos; deixou o copo e a paciência fazerem o resto.
— Condução — disse Carlos, por fim. — Nada de impacto; isso fica para o Sílvio, que faz melhor e gosta mais.
— Como sabes que é o Sílvio a fazer uma cena?
— Porque, a não ser que tenha mudado muito, ele não perde uma oportunidade de se exibir.
O Ivo sorriu com a cara toda, como quem já tinha a noite desenhada há uma semana e só esperava a assinatura.
— Tens razão: não ia perder a oportunidade de deixar a marca dele nalgum corpo. E até já tenho o teu par: o Ciro. Da casa, experiente, nervos de aço — e gosta de trabalhar com voz, é conhecido por isso. Falas com ele antes; negoceiam nos bastidores, como deve ser.
— Escolheste-o antes de eu dizer que sim.
— Escolhi-o antes de te convidar sequer. — O Ivo ergueu o copo. — Chama-se gestão, meu amigo. Bem-vindo à casa.
Carlos riu, bateu-lhe no copo com o dele, e a coisa ficou fechada como se fechavam as coisas entre os dois: sem papel, sem testemunhas e sem hipótese de recuo.
Na plataforma, o Sílvio e o Vicente já lá estavam: o Sílvio de copo na mão e roupa de cena, o cabedal a assentar-lhe como a farda que sempre fora; o Vicente elegante e fresco como se viesse de um jantar de embaixada. Carlos sentou-se no sofá ao lado do trono do Ivo, não oficial ainda, e deixou que os olhos percorressem o salão.
Foi por isso que o viu aproximar-se. Aquele não era o seu ruivo; era o ruivo da primeira noite. Como era mesmo o nome?
— Mestre. Boa noite. — O Máximo ajoelhou junto à entrada da plataforma, no sítio certo, na postura certa, tudo certo. — Soube que vai haver uma demonstração sua, mais logo. Queria oferecer-me. Para a cena. Seria uma honra servir o novo Dom da casa na noite da sua apresentação.
Carlos olhou para ele o tempo suficiente para ser educado.
Os outros olharam uns para os outros, espantados com a ousadia, mas ficaram em silêncio, atentos à resposta.
— Em primeiro lugar, estamos aqui vários Mestres, e é falta de educação um submisso não os cumprimentar. Em segundo, agradeço a disponibilidade — mas a cena já está combinada com a casa; o par está escolhido há dias. — E, voltando os olhos à pista, porque a pista lhe interessava: — Boa noite para ti.
Foi tudo. Uma recusa de agenda, impessoal como um e-mail. O Máximo acusou o toque, ergueu-se, agradeceu com a voz treinada, e afastou-se para a sombra do costume, junto ao bar.
Carlos nem se apercebeu da cor dos olhos daquele jovem ruivo. Não se lembrara da primeira vez, porque se lembraria agora?
A sombra, essa, não perdeu pitada.
🍃 🍃 🍃
Às nove e meia, as portas grandes abriram-se, e a casa, que fervia, baixou o lume.
Primeiro, porque era ela: a Mirella. Depois, porque a dona do Sanctum n'O Limiar era um acontecimento raro, e a casa inteira o sabia; os mais antigos endireitaram-se, os mais novos perguntaram baixinho quem era, e a resposta correu a pista como um fósforo.
Vestia de preto, como sempre, num fato de cabedal que lhe assentava como uma segunda pele, o cabelo apanhado num coque, botas altas de cabedal também; uma corrente simples, com um coração, adornava-lhe o pescoço.
Parou à porta, os olhos a percorrerem o salão, como quem procura alguma coisa. E encontrou. Ser discreta era palavra que não entrava no vocabulário dela.
Logo atrás entrou o Lorenzo, de blazer escuro, com a leveza do costume, a cumprimentar com a cabeça duas ou três pessoas que ninguém sabia que ele conhecia.
E entre os dois, meio passo atrás, quase como se os dois fossem um escudo, vinha um rapaz ruivo que ninguém conhecia, de camisa lavada e olhos verdadeiramente deslumbrados a admirar O Limiar. Ia para lá do que ele tinha imaginado. E o Miguel ficou paralisado ao ver Carlos: sabia que ele estaria ali, claro que sabia, mas ali ele era o Dom, não o homem que o tinha ajudado com as prateleiras. Desviou o olhar; não por medo, por vergonha, e pelo coração a bater mais depressa.
Carlos conhecia bem o ruivo que desviou o olhar assim que o viu, e os olhos dele não conseguiam desviar-se, o copo parado a meio do caminho. O mundo ao redor parou: não viu a Mirella, não viu o Lorenzo, não viu mais nada.
Na plataforma, o Ivo inclinou-se para ele.
— Olha-me esta. A Mirella em pessoa. E olha que ela não vinha cá desde... — Parou. Seguiu o olhar do amigo. Encontrou o ruivo. Fez as contas todas em dois segundos, porque o Ivo era lento para tudo menos para isto. — Ah — disse só. E depois, mais baixo, com um sorriso do tamanho da casa: — Ah.
Carlos não respondeu. Carlos não estava disponível.
O Miguel ali, no meio do couro e da luz vermelha, quase agarrado às costas da Mirella, e vivo, e real, e ali, na noite em que Carlos tinha feito contas à falta que aqueles olhos iam fazer.
A Mirella atravessou a casa até à plataforma e cumprimentou o Ivo com dois beijos.
— O Lorenzo já todos conhecem; dispensa apresentações — disse, e o Lorenzo fez um aceno com a cabeça. — E este pequeno é o mais novo lá de casa. Achei que seria interessante ele vir.
Enquanto falava, os olhos da Mirella observavam tudo: o Carlos de olhos fixos no rapaz, e o pobre rapaz sem saber onde se enfiar, sem saber o que fazer.
Aliás, todos os que ali estavam, como bons Dominadores que eram, puderam observar o mesmo.
— Eu sou o Ivo — disse, e estendeu a mão ao Miguel, que a aceitou um pouco a medo. — Bem-vindo a esta humilde casa. Estes são os nossos amigos, e outros Doms da casa. Este urso aqui — e apontou para o mais alto, que sorriu sem se sentir ofendido — é o Sílvio. E aquele outro, que parece um astro de cinema, é o Vicente.
Todos estenderam a mão para cumprimentar o "novo rapaz da Mirella", com um sorriso no rosto que dizia mais do que mil palavras.
Carlos permanecia em silêncio.
O Miguel disse "boa noite" duas vezes, porque à primeira não saiu som.
E depois a Mirella instalou o seu pequeno grupo numa mesa reservada mesmo abaixo da plataforma, perto o suficiente, à vista o suficiente, e, ao passar por Carlos, disse apenas, no tom de quem comenta o tempo:
— Só vim ver como te tratam. O Miguel é um bónus.
Os olhos dela diziam outra coisa. Os olhos dela diziam: entreguei-to à porta. O resto é contigo.
🍃 🍃 🍃
O Miguel começava a achar que aquele sítio era demasiado para ele: a música que se sentia no esterno, a luz vermelha e dourada, os corredores que prometiam coisas, os homens, tantos homens, e tão à vontade, de coleiras e pulseiras e cabedal, ajoelhados ao pé de mesas como se fosse a coisa mais natural do mundo. O Sanctum, ao pé disto, era uma sala de estar. Isto era o mundo a sério de que se falava em voz baixa, e o Miguel estava dentro dele, de camisa lavada, colado à Mirella como um náufrago à boia.
— Respira — disse-lhe ela, sem olhar, com a boca no copo. — Ninguém te come. Estás comigo.
— Eu estou a respirar.
— Estás a hiperventilar com estilo. É diferente.
Foi então, quando as luzes do salão desceram e o palco principal se acendeu, que o Miguel descobriu que ainda não tinha visto nada.
O homem que subiu ao palco era o Sílvio, aquele a quem o Ivo chamara urso, mas ali parecia outro: parado, enorme, com um chicote de tiras na mão e uma calma que dava mais respeito do que qualquer grito. Diante dele, um submisso da casa que fazia cenas com o Sílvio com frequência. Já se conheciam; a cena fora planeada fora do palco, como sempre: cada um conhecia os limites do outro.
Mas o Miguel era novo naquele mundo. Não sabia o que se passava nos bastidores, aliás, não sabia sequer o que se passava. No Sanctum não havia público: tudo era feito na privacidade dos quartos.
Depois começou.
E o Miguel percebeu depressa que o urso dera lugar a um homem que trabalhava a dor como quem domina um ofício antigo. O chicote de tiras foi só o princípio, o aquecimento, ouviu o Miguel dizer a alguém atrás dele. Como é que aquilo podia ser só o aquecimento?
Mas depois percebeu, quando veio a vara fina que assobiava antes de morder, e o chicote de ponta única que estalava no ar como um tiro e fazia a casa inteira suster a respiração. Cada golpe caía exatamente onde o Sílvio queria, como se fosse um instrumento de precisão, quando ele queria, com a força exata que ele decidia. E conseguia ver-se na cara do Sílvio, mesmo na meia-luz do palco, que ele o fazia com prazer. Um prazer concentrado, frio, de artesão, o sádico no seu elemento, a desenhar linhas vermelhas nas costas do homem preso à cruz como quem assina uma peça.
E o homem gritava. Não de teatro, de verdade: gritos que a música não tapava, o corpo a puxar as correias, a pele a marcar-se a olhos vistos.
— Ele pode parar aquilo tudo com uma palavra — disse a Mirella, baixinho, sem tirar os olhos do palco, como se lhe estivesse a ler os pensamentos. — Uma só. Repara bem: não a diz.
O Miguel apertou as mãos debaixo da mesa até doerem. Cada golpe que o Sílvio dava no submisso era sentido pelo Miguel como se fosse ele em palco, como se cada golpe lhe atingisse a pele. Sentia o corpo a aquecer, o coração aos saltos, a boca seca, o corpo inquieto na cadeira. Os gritos do homem, que não pedia para parar, que podia parar tudo com uma única palavra e não a dizia, mexiam com ele. E o Miguel não sabia onde pôr aquela vergonha: estava assustado e estava excitado, as duas coisas ao mesmo tempo, atadas uma à outra, e nenhuma delas fazia sentido com a outra ali ao lado.
Carlos não estava atento ao que se passava no palco, mas sim ao rapaz inquieto na cadeira: às mãos unidas no colo, ao rosto corado, aos olhos brilhantes que ele não conseguia saber se eram de medo ou de qualquer outra coisa.
Será que o seu rapaz estava assustado com tudo aquilo? Queria acreditar que não.
O Miguel olhava o palco, mas sentia um par de olhos âmbar fixos nele, e, por breves segundos, atreveu-se a desviar o olhar do palco.
— Olha até ao fim — disse a Mirella, baixinho, sem desviar os olhos do palco. — O fim é a parte que importa.
E o Miguel olhou até ao fim. Viu o Sílvio pousar tudo, aproximar-se, soltar as correias uma a uma, e o homem, o que apanhara, o que gritara, o que tinha as costas riscadas de vermelho, virou-se para ele e encostou-lhe a testa ao peito, a tremer, com um sorriso enorme e desfeito. E o Sílvio embrulhou-o num cobertor e nos braços, segurou-lhe a cabeça, disse-lhe coisas ao ouvido, e a casa aplaudiu devagar, com respeito, como se aplaude uma coisa bem feita.
O Miguel não aplaudiu. Estava ocupado a não se desfazer. A tentar processar o que vira e onde o encaixar, mas, acima de tudo, a tentar perceber em que parte se encaixava o facto de se ter excitado com o que viu.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.