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06 – O Convite

Na sexta-feira, o Miguel estava distraído a tentar colocar umas prateleiras na parede, a refilar com os parafusos e com o folheto, e não o viu entrar. Só quando sentiu a prateleira mais leve é que se apercebeu de que ele ali estava, aquela montanha de homem, dono de meio mundo, disposto a ajudá-lo. E, naquele momento, se o chão tivesse um buraco, era por lá que o Miguel tinha desaparecido.

Tremeu ligeiramente, o coração saltou umas batidas sem que ele soubesse porquê. Ficou tímido, ele, que não era nada disso, parado com a chave de fendas na mão, sem saber se aparafusava ou se pedia desculpa por existir.

Até que aquela voz rouca soou, firme:

— Aparafusa, Miguel. A prateleira e eu estamos à espera.

E o corpo dele obedeceu antes de a cabeça dar autorização.

Deixou para pensar nisso mais tarde. Ou talvez não.

Isso agora era irrelevante. O que importava era que, à quarta prateleira, o Miguel já sabia que o senhor Carlos afinal não mordia: falava de parafusos como se fossem um assunto sério, ouvia-o, ria-se com ele e não dele. E o Miguel foi descontraindo: o coração mais leve, o sorriso fácil no rosto, as mãos a tremer menos, a conversa sobre tudo e sobre nada.

Foi à quinta prateleira que disse que o folheto estava errado, e se arrependeu no mesmo segundo. Quem era ele para corrigir folhetos à frente daquele homem? Mas o senhor Carlos apenas disse qualquer coisa sobre terrenos e erros, que o Miguel não percebeu muito bem, mas achou a frase bonita.

E à sexta prateleira aconteceu o desastre, fruto da descontração e do medo posto atrás das costas:

— Ei, está a duvidar das minhas capacidades? Estão ali para durar.

Com as mãos na cintura. A olhar o homem nos olhos. Em voz alta.

O Miguel passou o resto do turno a rever a frase, e o caminho de bicicleta inteiro, e ainda um bocado do jantar. Está a duvidar das minhas capacidades. Dito assim, para o senhor Carlos, como se fossem colegas de escola.

Quem era ele para falar assim com o senhor Carlos?

A D. Lurdes, quando ele lhe contou, porque contava tudo à D. Lurdes, era mais forte do que ele; ela tornara-se a figura maternal que o Miguel já não tinha, riu-se para dentro do tacho e disse que não via mal nenhum.

— Ele riu-se, não riu?

— Riu.

— Então o mal onde está?

O Miguel não soube responder. O mal não estava em lado nenhum. Era isso que o baralhava.

🍃 🍃 🍃

No sábado, o senhor Carlos não apareceu. E porque deveria? Era um homem ocupado, com coisas mais interessantes para fazer do que ajudar a pôr estantes na parede ou falar de parafusos.

O Miguel não estava à espera. Mas então porque é que os olhos cinzentos não deixavam de ir à porta de cada vez que ela se abria? Porque sentiu aquele aperto pequeno, sem saber de quê? Porque é que aquela tarde teve mais horas do que o costume?

A D. Lurdes, a mãe Lurdes, percebeu:

— Que cara é essa?

— Que cara? É a minha do costume — respondeu o Miguel, sem grande convicção.

Até a Mirella percebeu, encostada ao balcão, com aquele sorriso no rosto: o Miguel não estava à espera.

Mas estava.

🍃 🍃 🍃

No domingo, quando o Miguel saiu, ao fim de mais um dia de trabalho, o Jaime estava ali. A fazer o quê? E logo ali, na porta das traseiras?

Coincidência?

A resposta veio logo a seguir.

— Finalmente resolveste sair. Estou à tua espera há que tempos. — O sorriso largo, o passo a fechar o caminho para a bicicleta. — Já pensaste no que te disse?

— Jaime, como soubeste onde eu estava? Só pode ter sido a Íris. Estou cansado, vou para casa.

— Ela não tem nada a ver com isto. Segui-te. — E as mãos vieram para a parede, uma de cada lado, e o Miguel deu por si encostado ao muro do portão com o coração aos pontapés — e não era dos pontapés bons. — Eu estou a oferecer-te uma coisa boa. Uma noite. Ninguém fica a saber. A Íris nunca ia acreditar em ti mesmo que contasses, portanto nem há risco nenhum. Sei que me queres.

O Miguel gelou ao ouvi-lo. Ninguém ia acreditar em ti. Sei que me queres.

Só podia estar doente. Como podia pensar numa coisa assim? Só de imaginar algo mais íntimo com ele, o corpo reagia com repulsa. O Jaime via o que queria ver, mesmo que não fosse real.

— Afasta-te, Jaime.

— Eu vi o que tu és. — A voz baixou, ficou doce de uma maneira que sabia a estragado. — Não me olhes assim, que eu reconheço os t...

— Miguel. Boa tarde.

O Miguel nunca na vida tinha ouvido duas palavras tão bonitas. Foi como se o sol fizesse a sua aparição num dia enevoado.

O resto passou diante dos olhos dele quase como um filme em câmara lenta: o senhor Carlos parado no passeio, enorme e calmo; o Jaime a encolher como roupa lavada em água quente; o aperto de mão que fez o outro esconder os dedos no bolso; e depois a rua vazia, e o Jaime a desaparecer na esquina com o passo de quem finge que a ideia de ir embora foi dele.

E o Miguel ficou ali, a apertar e desapertar o fecho do casaco, sem saber para onde olhar.

— Obrigado. — Saiu-lhe baixo, quase sussurrado. E o obrigado ficou incompleto: dizer porquê seria revelar demais.

— Não fiz nada — disse o senhor Carlos.

Fez tudo, pensou o Miguel. O senhor chegou.

Mas não o disse, claro. Em vez disso, disse a primeira coisa que lhe veio à mente: falou das estantes que ainda não tinham caído, porque foi a única frase que encontrou no meio do caos que ia lá dentro. E ouviu, divertido, a resposta brincalhona à sua observação.

Depois pedalou para casa com o coração dividido em três: uma parte ainda gelada do Jaime; uma parte preocupada com a Íris, será que lhe digo ou não?; e uma parte, a maior, embrulhada num calor esquisito que tinha o tamanho exato de um homem parado num passeio a dizer "boa tarde".

Não deu nome à terceira parte. Já se sabe porquê.

🍃 🍃 🍃

Na segunda-feira de manhã, o Miguel apresentou-se na cozinha com uma missão.

— D. Lurdes, ensine-me a fazer o café como deve ser.

A D. Lurdes olhou para ele por cima dos óculos.

— O café para quem?

— Ora, tem de haver um alguém? Para o geral... a casa?

Mas o tom do Miguel denunciou-o.

— Mmm. — Ela limpou as mãos ao avental com toda a calma do mundo. — E "a casa" chega a que horas? Pelas seis, não é?

O Miguel fez-se tão vermelho que a D. Lurdes teve pena e não insistiu, e o rosto dele fugiu para o chão. Ela ensinou-lhe o café três vezes: a primeira chávena foi "para despejar", a segunda "para quem a gente não gosta", e à terceira provou, fez um estalinho com a língua e declarou:

— Pronto. Já não envergonhas ninguém.

E às seis e dez, quando o Miguel atravessou o salão com a chávena e o pires a fazerem um barulhinho mínimo de loiça nervosa, e pousou o café à frente do senhor Carlos sem que ele o tivesse pedido, e disse a frase que ensaiara, o coração ia-lhe pela boca fora, mas a mão quase não tremeu, e ele contou isso como uma vitória de guerra.

— A D. Lurdes tem razão — disse o homem. E bebeu o café todo, devagar, até ao fim, como se fosse bom.

Se calhar até era. O Miguel preferiu não estragar a dúvida.

🍃 🍃 🍃

Foi já depois de o senhor Carlos sair, com o salão a compor-se para a noite, que a Mirella o encontrou a arrumar as últimas mesas.

— Miguel. Senta-te aí um bocadinho.

Ele sentou-se, com o medo de ser mandado embora, de ter feito alguma coisa mal, um medo que lhe deixou o pobre coração mais pequeno. O Miguel gostava de trabalhar ali; sentia-se em casa; aquela começava a ser a sua família do coração.

E havia outra coisa: se fosse mandado embora, nunca mais..., começou a pensar, e sacudiu depressa a ideia da cabeça. Não estava ali para pensar; estava ali para trabalhar.

A Mirella sentou-se em frente, sem pressa, e foi direta como só ela sabia ser sem magoar:

— Amanhã à noite há uma festa n'O Limiar. O clube do outro lado da cidade — sabes qual é.

O Miguel sabia. Toda a gente sabia. O Limiar era o sítio de que os funcionários mais antigos falavam com meio sorriso e voz mais baixa: a casa do couro, dos palcos, das coisas a sério. Se o Sanctum andava na boca do povo, O Limiar andava nos sussurros.

— Sei.

— O Ivo, o dono, vai apresentar o Carlos à casa. Dom de referência — é uma honra grande, e é merecida. Eu vou lá estar. Levo o Lorenzo. — Uma pausa do tamanho certo. — E gostava de te levar a ti.

O Miguel olhou para ela como se ela tivesse falado noutra língua, mas as borboletas no estômago começaram a voar ao ouvir o nome: Carlos.

— A mim? Porquê?

— Miguel, porque é que tem de haver uma razão? Não basta eu querer que tu vás? — A Mirella encolheu os ombros, e depois olhou-o de frente, e a voz mudou meio tom. — Porque acho que mereces uma noite diferente. De ver outras coisas, de abrir os teus horizontes. E nada melhor do que O Limiar para isso.

O Limiar e o Carlos, pensou a Mirella. Vou pagar para ver a reação dele... e a tua também, meu pequeno.

O Miguel ficou calado. Lá dentro, tudo ao mesmo tempo: o medo do sítio, o couro, os palcos, as coisas a sério, a vergonha antecipada de não saber estar, de não saber onde pôr as mãos, de fazer figura de parvo à frente de... à frente de toda a gente. Mas também a vontade de ver outras coisas, outros sítios, e, acima de tudo, outras pessoas. Ou pessoa. Mas isso era algo que o Miguel nem a si mesmo confessava.

— Eu não... — começou, com a desculpa mais esfarrapada de que se lembrou. — Eu não tenho roupa para um sítio desses.

— Tens uma camisa lavada?

— Tenho.

— Então tens roupa. — A Mirella levantou-se, dando o assunto por arrumado. — Vais comigo e com o Lorenzo, ao meu lado, e ninguém te incomoda; disso trato eu. Saímos daqui às nove.

— Eu ainda não disse que sim.

Ela parou. Olhou para ele. E sorriu, aquele sorriso que vinha da alma e sabia mais do que dizia.

— Pois não — concordou. — Diz lá, então.

E o Miguel, que tinha passado a vida a dizer que não a tudo o que lhe podia fazer bem, para não gastar, abriu a boca para dizer que não.

— Sim — disse a boca, por conta própria.

— Às nove — repetiu a Mirella, já de costas, já a caminho da receção, com a vitória arrumada no bolso como quem arruma um lenço.

🍃 🍃 🍃

Nessa noite, o Miguel mandou uma mensagem à Íris:

📩 — <Amanhã não posso ir à tasca, coisas do trabalho.>

Aquilo era uma meia-verdade. Gostava da companhia da amiga, mas pensar que o Jaime estaria lá dava-lhe arrepios. Preferia afastar-se; a amiga que o desculpasse.

📩 — <Ok, fofo, para a semana és todo meu.>

Ficou a olhar para a resposta dela com uma culpa pequena a roer num canto. Pequena, porque, desta vez, a desculpa era das boas.

Deitou-se. Olhou para o teto.

O teto, que nas últimas noites já tinha visto muita coisa, preparou-se para mais uma sessão.

Amanhã ia entrar n'O Limiar. Ia ver o mundo de que se falava em voz baixa, o mundo do senhor Carlos, o verdadeiro, o de couro e palcos e regras que ele não conhecia. Ia provavelmente fazer figura de parvo. Ia de camisa lavada, ao lado da D. Mirella, para uma festa em honra de um homem que lhe segurava prateleiras e lhe bebia o café todo até ao fim.

E o senhor Carlos ia vê-lo lá. No meio daquilo tudo.

O Miguel virou-se para a parede. A parede, a esta altura, já sabia tudo.

E, pela primeira vez desde a morte da mãe, o Miguel deu por si a desejar que o dia seguinte chegasse depressa.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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