05 – As Tardes Calmas
Na sexta-feira, Carlos parou à porta do Sanctum, uns segundos apenas, o tempo de uma hesitação e de uma pergunta: que raios estou eu a fazer aqui, numa sexta à tarde?
Mas a resposta veio-lhe na forma de um ruivo de olhos cinzentos.
Assim que entrou, os olhos percorreram o salão, mas, antes de qualquer coisa ou pessoa, quem viu foi a Mirella, parada mesmo à sua frente.
— Não que eu não goste da tua visita, mas... dois dias seguidos? Perdeste alguma coisa... — Fez um segundo de pausa, a olhar na direção do jovem ruivo que acabava de entrar no salão com uma braçada de prateleiras. — Ou alguém?
— Não posso simplesmente passar por cá para ver uma amiga? — disse Carlos, a tentar disfarçar; mas os olhos desmentiam-no.
— Podes, claro que podes. Mas, sabes, se fosses o Pinóquio, o teu nariz chegava ao Miguel — porque os olhos já lá estão.
Carlos permaneceu em silêncio e desviou o olhar... mas apenas por segundos.
A Mirella ficou com aquele sorriso no rosto, um sorriso que vinha da alma e que sabia mais do que dizia. Com um gesto, chamou um dos rapazes que já compunham a casa para a noite de sexta e pediu bebidas, sem que Carlos desse por isso.
Os olhos de Carlos estavam presos no rapaz que, ao pé do bar, tentava montar a estante nova, uma luta declarada entre quarenta parafusos e um folheto de instruções que tinha claramente sido escrito para irritar. Também Carlos lutava: não com parafusos, mas contra a enorme vontade de se aproximar do Miguel.
E que melhor oportunidade do que uma prateleira?
Atravessou o salão, pegou na prateleira que teimava em escorregar, e segurou-a no sítio sem dizer nada.
O Miguel olhou para ele, alarmado.
— Senhor Carlos, não precisa... eu consigo...
— Já vi que consegues. Mas com quatro mãos consegues antes do jantar. — E, como o rapaz continuava especado: — Aparafusa, Miguel. A prateleira e eu estamos à espera.
E o Miguel aparafusou. Rígido ao início, os ombros junto às orelhas, a trabalhar depressa, o rosto vermelho. Mas na quarta prateleira o ritmo já era outro, a língua começava a soltar-se, e até se atreveu a dizer que o folheto estava errado.
— Este parafuso aqui não é este, é aquele. Eu sei porque já me enganei duas vezes.
— Bem, só quem conhece bem o terreno é que sabe onde errou — disse Carlos, e o Miguel riu-se, um riso pequeno mas verdadeiro. Na quinta prateleira, a conversa já fluía de forma natural, como se se conhecessem há muito tempo.
Falaram de tudo e de nada, mas de nada que fosse pessoal. Carlos reparou na maneira como o rapaz relaxava quando o assunto era trabalho e as mãos tinham o que fazer; na maneira como dizia "eu trato disso" sobre tudo, como se pedir ajuda fosse um vício a evitar; na maneira como, de vez em quando, se esquecia de ter medo, e depois se lembrava, e olhava de esguelha, e corava.
Quando a estante ficou de pé, o Miguel deu um passo atrás para a admirar, com as mãos na cintura e o orgulho de um empreiteiro.
— Não caiu — concluiu.
— Ainda é cedo — disse Carlos, muito sério, e o Miguel riu outra vez, e desta vez não corou quase nada.
— Ei, está a duvidar das minhas capacidades? Estão ali para durar — disse o Miguel, indignado, com as mãos na cintura e os olhos nos de Carlos.
Da mesa ao fundo, a Mirella ficou com as bebidas intactas à sua frente, tal como a sua opinião: bem guardada dentro dela... para já.
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No sábado, Carlos não foi ao Sanctum.
Não que não quisesse. Mas quatro dias seguidos, à mesma hora, seria como dar um nome a algo que nem ele mesmo sabia o que era. Ou sabia?
Passou o dia em casa, a despachar chamadas de Madrid, a ler relatórios que não fixou, a abrir três vezes a porta do escritório para ir a lado nenhum.
Ao fim da tarde, a Berta apareceu-lhe com um chá que ele não pedira.
— O menino hoje está insuportável. Um chá vai acalmá-lo.
— Estou a trabalhar, Berta.
— Pois a mim parece-me mais um leão enjaulado no jardim zoológico. Vai gastar o chão de tanto andar de um lado para o outro, e as coitadas das portas não têm culpa de nada. — Pousou o chá, endireitou uma pilha de papéis que não precisava, e olhou para ele daquela maneira que a Berta tinha, igualzinha desde que ele fizera sete anos. — Amanhã é domingo. As pessoas visitam-se ao domingo.
— Que pessoas?
— Sei lá, menino. Pessoas. O menino é que pode saber. Mas deixe o pobre do chão em paz. — E foi-se embora, deixando a porta aberta e a sugestão em cima da mesa, ao pé do chá.
🍃 🍃 🍃
No domingo, quando Carlos deu por ele, estava a estacionar em frente ao Sanctum, à mesma hora de sempre. Mas o que viu fê-lo cerrar os punhos no volante, apertar os olhos e respirar fundo antes de sair do carro.
O Miguel estava junto ao portão das traseiras, ao pé da bicicleta, com o casaco já vestido, fim de turno, encostado à parede. E diante dele, perto demais, estava um tipo que Carlos nunca tinha visto: ombros de ginásio, sorriso largo, as mãos de cada lado da cabeça do rapaz, a fechar-lhe o caminho.
Carlos via o desconforto no rosto e no corpo do Miguel. Mas foi o que viu no rosto do outro que não lhe agradou: era lascivo.
O Miguel apenas abanava a cabeça, a tentar fugir por entre os braços do outro.
Carlos saiu do carro sem pressa, os olhos presos nos dois, agindo como se nada fosse, como se aquela cena não o estivesse a incomodar, como se as mãos fechadas dentro dos bolsos fossem uma coisa normal. Um sentimento para o qual não tinha nome; sabia apenas que não estava a gostar.
E a mente de Carlos dizia: ele é meu.
— Miguel. — A voz saiu calma, quente, de quem encontra um conhecido por acaso. — Boa tarde.
O efeito foi imediato, e ver o rosto do rapaz relaxar quando se virou, ver a cara de alívio dele, já tinha valido a pena.
Ao dar com a expressão dura no rosto de Carlos, com o olhar frio que lhe era dirigido, o tipo do ginásio endireitou-se, tirou as mãos da parede e recuou meio passo sem dar por isso. Aquele olhar tinha-lhe chegado à alma como uma faca.
— Senhor Carlos. Boa... boa tarde.
— Interrompo?
— Não! — depressa demais. — Não, o Jaime já... o Jaime é namorado da minha melhor amiga. Estava de passagem.
— Jaime. — Carlos estendeu a mão e sorriu com os dentes todos e com nada dos olhos. O aperto durou o suficiente — e foi mais forte do que o necessário. — Carlos. Amigo da casa.
— Muito... prazer. — O Jaime recuperou a mão e olhou para o relógio sem ver as horas. — Eu já estava de saída, na verdade. Fica para outro dia, Miguel. — E foi-se, com o passo elástico de quem finge que a ideia de ir embora foi dele.
Ficou um silêncio pequeno. O Miguel apertou o fecho do casaco até acima, desapertou-o outra vez, e olhou para a bicicleta como se ela lhe devesse uma explicação.
— Obrigado — disse, por fim, muito baixo, sem especificar porquê.
— Não fiz nada — disse Carlos. O que não era verdade, e os dois sabiam-no.
— Pois. — O rapaz montou a bicicleta e hesitou, com um pé no pedal. E depois, num fôlego, antes que a coragem acabasse: — Só uma coisa... as estantes não caíram, como alguém disse. Já lá pus os copos e tudo.
— Quem foi que disse uma maldade dessas? — Carlos riu. — Eu nunca duvidei.
— Duvidou, duvidou. — E foi-se, a pedalar, e ao fim da rua ainda se ouviu, mais para ele do que para Carlos: — "Ainda é cedo"... até parece...
Carlos ficou no passeio a vê-lo desaparecer, sem perceber que estava a sorrir, sorriso que logo se apagou ao lembrar-se das mãos na parede, do desconforto do rapaz, e do "estava de passagem" de alguém que namorava a melhor amiga dele, numa rua onde ninguém passa por acaso.
Não perguntou nada ao Miguel. Não era assunto dele, ainda.
Mas guardou a cara do Jaime no sítio onde guardava as caras, e nesse arquivo nunca se perdera nada.
Nessa noite não entrou no Sanctum. Era um domingo cheio de gente, mas o que ele ali procurava tinha saído de bicicleta ao fim da tarde, e, para Carlos, a casa iria estar vazia.
🍃 🍃 🍃
Na segunda-feira, o café já estava na mesa quando Carlos se sentou.
Não o pedira. A chávena chegou à frente dele pela mão do Miguel, com um pires que não tremeu quase nada, e o rapaz ficou ali um segundo a mais, a fazer uma coisa que claramente ensaiara:
— Hoje fui eu que o fiz. O café. A D. Lurdes diz que já não envergonho ninguém.
Carlos provou. O café estava bom, e podia ter sabido a água de lavar o chão que a resposta era a mesma.
— A D. Lurdes tem razão.
— Ela tem sempre. — O Miguel arrumou uma cadeira que não precisava de ser arrumada. — Se precisar de mais alguma coisa...
— Estou servido. Obrigado, Miguel.
O rapaz assentiu e voltou ao trabalho, e Carlos ficou a beber o melhor café medíocre da vida dele, com a solenidade adequada.
Da porta da cozinha, a D. Lurdes viu tudo, limpou as mãos ao avental e voltou para os tachos com a cara de quem confirmou uma suspeita.
Foi a Mirella quem se veio sentar, quando o salão já ganhava a luz do fim da tarde, com o Lorenzo por perto a fingir que lia um jornal.
— Amanhã é a tua noite — disse ela. — Nervoso?
— Eu? Faço apresentações a conselhos de administração desde os vinte e seis anos. Sou um Dominador e já frequentei aquela casa. — Carlos rodou a chávena vazia no pires. — Porque estaria nervoso?
— Não foi isso que perguntei.
— O Ivo vai fazer um espetáculo. Discurso não há, prometeu ele, mas conhecendo-o...
— Conhecendo-o, vai haver de tudo, e até mesmo um discurso. — A Mirella sorriu. — Vais sentar-te no teu lugar, à frente da casa toda. Um lugar de onde nunca devias ter saído.
— Vais aparecer?
Ela olhou para ele durante um bocado. Do lado do jornal, o Lorenzo voltou uma página que não tinha lido.
— Já te disse que aquilo é muito couro para o meu gosto.
— Isso não é uma resposta.
— Pois não. — E levantou-se, e alisou a saia, e deu o assunto por encerrado com a delicadeza de uma porta de ferro. — Preocupa-te com o teu lugar, Carlos. As minhas noites são comigo.
No caminho para casa, Carlos deu por si a pensar nos dias passados: nos amigos, nas casas, na Mirella, na Berta, em tudo e em todos.
Podia ser pouco. Mas era mais do que tudo o que Madrid lhe tinha dado em seis anos.
Amanhã ia sentar-se no lugar que o esperara seis anos, com todos os olhos fixos nele.
Todos, menos uns olhos cinzentos.
Que, neste momento, tinham no pensamento uns olhos âmbar.
Sem nenhum dos dois saber que a Mirella estava a começar a tecer a sua teia.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.