03 – O Turno das Tardes
O despertador do Miguel era o barulho da lavandaria a abrir lá em baixo: o ferro das grades, a máquina grande a arrancar, a D. Rosa a ralhar com a máquina grande. Funcionava melhor que qualquer telemóvel e não gastava bateria.
O quarto era pequeno: cama, cadeira, um armário que fechava a custo e uma janela por onde entrava sol das nove às dez e meia. Não era grande coisa, mas era dele, pago a dias certos, e havia oito meses que o Miguel aprendera que "pago a dias certos" era das frases mais bonitas da língua.
A mãe partira há pouco menos de um ano. A doença chegara muito antes, e o pai desaparecera no mundo mal ela foi descoberta, deixando-os aos dois com a luta toda. Foram anos: a doença levou-lhes as poucas economias e levou ao Miguel os estudos, trocados por consultas, remédios e noites de vigília. Quando ela se foi, ele viu-se sem nada e sem saber o que fazer. Procurou trabalho em muitos lados, mas a falta de experiência fechava-lhe as portas, até ouvir dizer que o Sanctum precisava de gente, e arriscar.
A Mirella, com aquele sorriso que desarmava, acolheu-o no clube, e também debaixo da asa dela. Mas isso o Miguel ainda não sabia.
Fora há oito meses. Oito meses em que a curta vida dele ganhara finalmente ordem: casa e comida já não faltavam.
Lavou-se, vestiu-se, fez café; o pão era o da véspera. E uma sombra de tristeza atravessou-lhe o olhar ao pensar na mãe, nos dias em que não havia comida para pôr na mesa e as contas se iam acumulando.
Na prateleira, ao lado dos livros da escola que nunca deitara fora, estava a fotografia da mãe, onde passava a mão todos os dias, num gesto que já se tornara ritual.
A bicicleta estava presa ao cano do costume. Vinte e cinco minutos até ao outro lado da cidade, doze se fosse a descer, e a vida a descer nunca era. Pedalou.
O Miguel entrava pelas traseiras, pendurava o casaco, vestia o avental e ajustava a pulseira preta no pulso esquerdo. Fora a Mirella que lha dera, no primeiro dia: "Quer dizer que não estás disponível. Com ela, ninguém te incomoda." E ninguém incomodava. O Miguel usava-a como quem usa um escudo, sem saber que, para quem soubesse ler, a pulseira dizia mais qualquer coisa.
Durante uma hora o mundo eram cheiros: o pão que a cozinheira punha no forno, a cera do soalho, o café da Mirella, que era o primeiro da casa e sagrado. Ele fazia o que houvesse: descarregava a carrinha, arrumava a despensa, engraxava o corrimão, mudava as flores do salão. Trabalho de mãos, que era o que pedira.
Ao princípio, oito meses antes, pensara que ia trabalhar de olhos no chão. A casa era o que era, e ele sempre o soubera: não tinha como não saber o que o Sanctum era; andava na boca do povo. O Miguel preparara-se para não ver nada, não ouvir nada, não perguntar nada. Enganara-se em duas coisas. Primeira: de dia havia muita coisa para ver, contas, fornecedores, lençóis, uma casa como as outras, só que mais limpa. Segunda: ninguém ali andava de olhos no chão. As pessoas olhavam-se de frente, falavam com calma, agradeciam. Fora isso que mais o baralhara nas primeiras semanas: não o que a casa era à noite, mas a maneira como se estava nela de dia. Havia ali uma ordem qualquer que ele não sabia explicar e que lhe fazia bem à cabeça, como música baixa noutra divisão.
Não pensava muito nisso, para não o gastar. Gostava de ali estar, sentia-se em casa; as pessoas tratavam-no com carinho.
— Miguel! — A voz da D. Lurdes, a cozinheira, soou da porta. — A carrinha das bebidas chegou. E diz o homem que hoje vem tudo em grades das grandes, portanto vê lá as costas.
— As minhas costas agradecem o aviso e pedem a demissão.
— Indeferido. Anda.
O Miguel sorriu. A D. Lurdes fazia-o lembrar a mãe.
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À noite, era a tasca do Ernesto, como sempre às terças. A Íris já lá estava, com a caixa das sobras da pastelaria em cima da mesa e o Jaime ao lado, o braço no encosto da cadeira dela.
— Bolos de ontem — anunciou ela, abrindo a caixa. — Ou seja, bolos, porque a data é uma invenção da sociedade.
A Íris. Desde a escola primária que o Miguel não sabia o que era o mundo sem ela: a Íris a defendê-lo dos grandes, a Íris a copiar-lhe a matemática, a Íris no funeral da mãe, ao lado dele, a segurar-lhe o braço da esquerda, que era o que tremia. Trabalhava na pastelaria da Baixa desde os dezassete, ganhava o justo para o quarto e a vida, e mesmo assim, nos piores meses do Miguel, aparecia sempre com qualquer coisa: os bolos, uma refeição, uma nota de dez dobrada em quatro que ele recusava e ela lhe metia no bolso na mesma. Mesmo que não pudesse ajudar muito, estava sempre pronta para o fazer.
— E o trabalho? — perguntou ela, com a boca meio cheia. — A tua casa misteriosa continua misteriosa?
— Continua uma casa. Mistério nenhum, só reumático: sessenta grades e uma valente dor nas costas.
— Mmm. — A Íris apontou-lhe o resto do bolo, desconfiada por desporto. — Um dia ainda lá vou espreitar.
— Se esse dia chegar, vai ser pelas traseiras, para me ajudares com as grades.
Ela riu-se. O Jaime riu-se também, um bocadinho depois, como quem chega atrasado a todo o lado.
O Jaime andava com a Íris havia quatro meses. Trabalhava num ginásio da parte nova, tinha ombros que faziam publicidade ao emprego e um sorriso rápido que gostava de si próprio. A Íris andava feliz: ria mais alto, mandava mensagens à noite, fazia planos com "nós" dentro. E o Miguel, que a conhecia melhor do que ninguém, alegrava-se pela amiga e mantinha, sobre o Jaime, uma opinião que guardava só para si.
Porque não lhe podia dizer que a mão com que o Jaime o cumprimentava ficava tempo demais no ombro, que o abraço de despedida demorava mais do que o normal, que a maneira como o olhava o fazia sentir-se despido.
Naquela noite, quando a Íris se levantou para ir à casa de banho, o Jaime chegou a cadeira para o lado dele. Cheirava a perfume de amostra.
— Então e esse sítio onde trabalhas — disse, em voz de conversa. — A Íris diz que é um clube privado. Deve passar-se lá cada coisa...
— Passa. Hoje passaram sessenta grades pelas minhas costas.
— Havias de me levar lá um dia. — O joelho do Jaime encostou ao dele, devagar, e ficou. — Só nós os dois. Eu sei ter segredos.
O Miguel afastou a perna sem pressa, como quem muda de posição, e olhou para a porta da casa de banho, na esperança de a ver sair.
— Sabes mesmo? — disse, no mesmo tom de conversa. — Acabaste de me contar um.
O sorriso do Jaime tremeu meio milímetro, sem cair. A Íris voltou nesse momento, o serão continuou, e o Miguel riu no sítio das piadas e foi-se embora à hora do costume.
Pedalou para casa devagar, a dúvida plantada na cabeça. Falar com a Íris ou não? Dizer-lhe que o namorado não valia nada: que andava com ela de olho no amigo, que se convidara para irem só os dois ao clube, que tinha mãos e joelhos que tocavam mais do que deviam? Mas ela iria acreditar?
Não. Claro que não. O melhor era não estar presente quando ele estivesse.
Meteu a bicicleta no cano. Calar. Era o que sabia fazer melhor. O método de sofrer calado estava quase aperfeiçoado.
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Na quarta-feira à tarde, a Mirella tinha visitas.
O Miguel soube-o pelo café: dois serviços na bandeja em vez de um, a melhor loiça. Não fez perguntas; eram assuntos da Mirella.
Continuou com os afazeres e foi à despensa buscar as garrafas para repor o bar do salão. Encheu a caixa com mais do que devia, como sempre, porque fazer duas viagens era admitir a derrota, e saiu de costas, a puxá-la.
— Que tal um pouco menos de peso, rapaz? Não precisas de fazer tudo de uma vez; o trabalho não foge — disse a Mirella, no rosto aquele sorriso fraternal que fazia o Miguel sentir-se acolhido, como se fosse parte da família.
O Miguel virou-se com a caixa nos braços, e riu-se.
— O trabalho não foge, mas foge o tempo... e a minha paciência.
Foi então que reparou na figura ao lado dela. Um homem alto, alto de encher corredores, parado a olhar para ele com a cara de quem tinha ouvido tudo. Fato sem gravata, daqueles que não fazem vincos porque não se atrevem; corpo imponente, cabelo preto, pele escura, e uns olhos de uma cor que o Miguel não sabia que os olhos pudessem ter, e que o olhavam de uma maneira que o fazia sentir coisas que nunca sentira e a que não sabia dar nome.
Mas a vida haveria de se encarregar de lho ensinar.
O Miguel sentiu a cara a aquecer e pôs em marcha o plano de emergência de todas as situações: desaparecer com graça.
— Boa tarde. Desculpem, já saio do caminho.
Saiu, com a caixa, os passos mais rápidos do que era digno. Mas ao passar pelo homem, não conseguiu evitar, foi mais forte do que ele, levantou os olhos um segundo.
Um segundo só.
Âmbar, pensou depois, na cozinha, com a caixa ainda nos braços e o coração num sítio esquisito.
Arrumou as mesmas garrafas mais do que uma vez. Na cabeça, o homem alto e os olhos âmbar.
Não perguntou à D. Lurdes quem era a visita. Não perguntou à Mirella, ao fim da tarde, quando ela apareceu na cozinha com as chávenas vazias e um ar de quem tinha ganho qualquer coisa ao dominó. Perguntar era dar nome àquilo, e o Miguel não dava nome a coisas que lhe faziam bem, para não as gastar.
Mas nessa noite, no quarto por cima da lavandaria, deu por si acordado a olhar para o teto, a pensar na cor âmbar e no tamanho do homem no corredor, e apanhou-se, e envergonhou-se, e virou-se para a parede.
E pensou mais um bocadinho, virado para a parede, que sempre era outra coisa.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.