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02 – A Visita de Cortesia

Carlos acordou tarde, como os ricos, e demorou mais do que o costume a escolher a camisa, coisa que não fazia desde os vinte anos e que preferiu não analisar.

O Sanctum ficava do outro lado de Montefrio, longe da zona industrial, numa rua tranquila onde os prédios tinham varandas com roupa estendida e ninguém parecia ter pressa. Quem passasse ali não adivinhava quase nada: um edifício antigo, bem tratado, portas de ferro pesadas e um pequeno letreiro apagado, que só à noite dizia ao que a casa vinha. O Limiar escondia-se atrás da discrição; o Sanctum escondia-se atrás da normalidade. Carlos sempre achara que isso dizia tudo sobre as duas casas.

Estacionou, desligou o motor e ficou um momento quieto, as mãos no volante.

Seis anos. Telefonemas, sim, ela nunca lho perdoaria se assim não fosse, mas seis anos sem lhe bater àquela porta. E agora ali estava, com trinta e oito anos, uma empresa em quatro países e um nó no estômago que nenhuma reunião de administração lhe fazia.

A Mirella. Se alguém lhe perguntasse quem ela era, Carlos dizia "uma velha amiga", mas a Mirella ia muito para além disso. Quando, aos vinte e um anos, Carlos e os amigos entraram no Sanctum, aquilo que viram não os assustou. Pelo contrário: transformou-os no que viriam a ser. A Mirella tornou-se, para Carlos, parte daquela família que se escolhe, a do coração, a que se pode recorrer sempre, mesmo que os anos passem.

O Sanctum era a base de tudo: o sítio onde quem entrava pela primeira vez se sentia acolhido, onde se aprendia a crescer dentro daquele meio, com aquela ternura que só a Mirella conseguia. O Limiar nasceu depois, da necessidade de outra casa na cidade, o passo seguinte, para quem já tinha aprendido e queria mais. O Limiar era o mundo onde Carlos aprendera a viver como Dom. O Sanctum foi sempre outra coisa: a família que ele não tinha. O aconchego, a ternura, a porta onde se batia sem motivo: tudo o que a vida não lhe dera, ela pôs dentro daquelas paredes e deixou-o entrar.

Quando partiu para Espanha, o Sanctum já estava onde queria estar. O Limiar ainda dava os primeiros passos.

Tocou à campainha. A porta abriu-se quase de imediato, como se do outro lado alguém estivesse à espera daquele momento.

A Mirella sorriu quando o viu e puxou-o para dentro. Carlos viu a mesma Mirella de sempre: os mesmos cabelos presos, antes negros, agora a começarem a ficar grisalhos; os mesmos olhos escuros e intensos; a mesma postura direita, os gestos calculados, aquela presença magnética.

— Pensei que já não vinhas ver os amigos. Porque não disseste que vinhas? Demoraste a vir ver-me — disse ela, enquanto o conduzia pelo corredor.

— Só cheguei ontem à noite.

— Eu soube. É por isso que digo que demoraste. Hoje já é tarde; devias ter vindo ontem.

E depois riu-se, e abriu os braços, e Carlos entrou neles como se entra em casa.

🍃 🍃 🍃

O Sanctum à tarde parecia um sítio diferente: pouca gente, longe da confusão e da agitação das noites, mais a casa de alguém do que um clube. A casa era a mesma, mas despida. A receção estava vazia, o salão de mesas arrumado, as cadeiras direitas, e onde à noite a luz era vermelha e violeta entrava agora o sol pelas janelas altas, a mostrar sem cerimónia o que a penumbra costumava insinuar: madeira escura, couro gasto nos sítios certos, tudo limpo, tudo cuidado. Ficava no ar um resto de incenso da véspera, misturado com a cera do soalho e qualquer coisa doce que vinha da cozinha. Não havia música; ouvia-se a casa: uma porta ao longe, água na loiça, passos de quem trabalha.

A Mirella levou-o para uma sala pequena, um sofá de couro, uma poltrona, uma mesa com água, e serviu café sem perguntar se ele queria, porque sabia que queria e sabia como.

— Agora estou pronta — disse, sentando-se na poltrona, em frente dele. — Podes dizer.

— Dizer o quê? — Carlos olhou-a, sem perceber.

— A frase que deves ter ensaiado. Deve ser boa; tiveste seis anos para pensar nela.

Carlos riu-se, apanhado. De facto, ensaiara algumas frases, muitas desculpas, muitos obrigados, mas ali, diante dela, com o café a fumegar entre os dois, nada do que ensaiara lhe parecia digno daquela mulher.

— Esquece a frase — disse. — Vim porque tinha saudades.

— Não muitas, ou terias vindo ver-me mais vezes. — Ela provou o café, avaliou-o, aprovou-o. — O Ivo ligou-me ontem à noite. Todo contente, o teu Ivo. Disse que voltaste para ficar e que aceitaste o lugar na casa dele.

— As notícias voam.

— Que esperas, numa cidade como esta? — Pousou a chávena. — Voltaste mesmo para ficar?

— Voltei.

— Porquê?

Essa pergunta desarmou Carlos, não que tivesse alguma coisa a esconder, mas porque nunca ninguém lha fizera.

— Porque seis anos é muito tempo longe de quem gostamos, de quem nos quer e nos faz bem. Das raízes, do Ivo, do Sílvio, do Vicente... mas acima de tudo da Mirella. — Encolheu os ombros. — Já estou onde queria: as empresas estão estabelecidas, e agora preciso de me encontrar a mim mesmo. E isso só posso fazer aqui.

A Mirella olhou para ele durante um bocado, daquela maneira dela, que não julgava nem consolava. Só via.

— E demoraste seis anos a perceber isso? — disse depois, devagar. — Se me tivesses perguntado, eu já te teria dito.

Carlos riu.

— Eu sei que sim. Mas também sabes que eu não te teria ouvido.

— Pois não. Esse é um dos teus melhores defeitos. — Sorriu. — Só ouves o que te interessa.

Carlos pousou o café.

— Nunca te agradeci tudo o que fizeste por mim. Nunca to disse como deve ser e...

— Carlos. — Ela levantou uma mão, sem drama. — Saber que estás bem é paga suficiente... e prometeres que não voltas a desaparecer.

— Prometo que não te vais ver livre de mim tão depressa — brincou ele, agora mais descontraído.

— Então estamos pagos. Porque não me quero ver livre de ti. — E depois, mudando de tom como quem muda de assunto à mesa: — Mas ainda não me perguntaste o mais importante.

— Ia agora. — Carlos pousou a chávena. — Como está a Isabel? E o miúdo?

O rosto da Mirella fez uma coisa que pouca gente via: amoleceu.

— A Isabel está ótima. E o Simão cresce depressa demais e manda em nós as duas — respondeu, com o orgulho mal disfarçado de quem se queixa do que mais ama. — Qualquer dia levo-o a conhecer-te. Convém que o padrinho de fortuna exista mesmo.

Carlos riu.

E ela, para arrumar o assunto, levantou-se.

— Anda, vou-te mostrar a casa. Mudou muita coisa desde o teu tempo.

🍃 🍃 🍃

A Mirella ia à frente, a falar das obras, mais dois quartos no piso de cima, a sala grande renovada, quando uma porta se abriu e um rapaz saiu por ela, de costas, a puxar uma caixa de garrafas que era claramente pesada demais para uma pessoa só.

— Que tal um pouco menos de peso, rapaz? Não precisas de fazer tudo de uma vez; o trabalho não foge — disse a Mirella, no rosto um sorriso amigo, fraternal, aquele olhar que Carlos conhecia também, e que reconhecia agora.

O rapaz virou-se com a caixa nos braços, e riu-se.

— O trabalho não foge, mas foge o tempo... e a minha paciência.

E foi ali, no corredor das traseiras, entre a cozinha, a despensa e caixas de garrafas, que o mundo de Carlos iria mudar, sem que ele mesmo percebesse.

Carlos não conseguiu desviar os olhos do jovem: vinte anos, talvez; magro, de caracóis ruivos que precisavam de corte, mangas arregaçadas, a t-shirt com o pó da despensa, o rosto ainda a rir da própria piada. E, no pulso esquerdo, uma pulseira preta que Carlos leu sem querer ler: em bruto; ainda não; dela.

E, bolas, aquele riso entrou-lhe direto no coração, como havia muito não lhe acontecia. O coração batia forte, e os olhos não se conseguiam desviar do rapaz.

A Mirella viu, e fingiu não ver. E algo dentro dela se acendeu ao reparar na maneira como o jovem ficou na presença de Carlos: o olhar baixo, o rosto vermelho, as mãos ligeiramente trémulas, a voz a sair baixa, envergonhada.

— Boa tarde. Desculpem, já saio do caminho.

E saiu, com a caixa, e ao passar levantou os olhos por um segundo, um segundo só, para o desconhecido alto no corredor.

Cinzentos.

Carlos disse-o para si mesmo, e ficou a olhar para o vão da porta da cozinha, por onde o rapaz desaparecera, mais tempo do que seria de esperar.

Quando se voltou, a Mirella já ia a andar outra vez, como se não tivesse visto nada.

— A sala grande — dizia ela — foi a obra maior. Deitámos a parede abaixo e...

— Trabalha cá há muito? — A voz de Carlos saiu num tom que pretendia ser de conversa e não enganou ninguém, a começar por ele.

A Mirella parou. Voltou-se. Não sorriu, o que, nela, era uma forma superior de sorriso.

— Chama-se Miguel. Vinte anos. Chegou há uns meses, a pedir trabalho. — Uma pausa pequena, medida. — Órfão de mãe. Ficou sem nada e não pediu nada, só trabalho. Dei-lho.

— E?

— E nada. Apenas trabalha aqui. — Ela recomeçou a andar. — É dos meus, Carlos. Tal como tu foste.

— Dos teus.

— Dos meus. — Não precisou de explicar. Ele conhecia-a bem: os dela viviam debaixo da asa dela, e a asa só se levantava para quem passasse primeiro por ela. Carlos sabia-o melhor do que ninguém — sempre fora um dos dela.

Fizeram o resto da visita a falar de obras.

🍃 🍃 🍃

Despediram-se à porta de ferro, com a tarde a acabar.

— Para a semana é a tua apresentação, ouvi dizer — disse a Mirella. — O Ivo vai fazer um espetáculo, conhece-lo bem.

— Vais aparecer?

— N'O Limiar? — Fez uma careta divertida. — Aquilo é muito couro para o meu gosto. Manda-me fotografias.

— Nem pensar. Tens de aparecer por lá.

— Não posso prometer nada. — E depois, já com ele no primeiro degrau, no tom mais casual do mundo, o tom de quem comenta o tempo: — Aparece cá quando quiseres, Carlos. As tardes são calmas.

— Eu sei. Vi.

— Viste, pois. Eu sei que viste. — Os olhos dela brilharam um segundo, e foi tudo. — O Miguel faz o turno das tardes.

E fechou-lhe a porta na cara, com a delicadeza de quem dá um beijo.

Carlos ficou um momento no passeio, a olhar para o ferro da porta, sem saber se havia de rir ou de fingir dignidade. Optou por rir, sozinho, na rua tranquila onde ninguém tinha pressa.

O homem frio dos negócios, que conhecia todas as armadilhas, todas as iscas, todos os jogos, acabara de ser lido, medido e jogado por uma mulher em menos de uma tarde, com dois cafés e uma frase sobre turnos.

O pior, pensou, ao ligar o motor, é que ia voltar. E ela sabia. E ele sabia que ela sabia.

A apresentação era só na outra terça. Mas amanhã, decidiu, tinha a tarde livre.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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