01 – O Regresso
A tarde caía sobre Montefrio; as luzes da cidade começavam a acender-se devagar, uma a uma, à sua passagem, como se estivessem a cumprimentá-lo.
Carlos Sousa abrandou sem necessidade. A estrada estava vazia, o Mercedes clássico, o primeiro carro que comprara quando o dinheiro deixou de ser um problema, não pedia cuidados, e ainda assim ele abrandou, como se visse a cidade pela primeira vez.
Nunca tinha cortado com Montefrio, a cidade onde nascera, onde estavam os poucos que o conheciam de verdade, os verdadeiros amigos, aqueles com quem podia contar, para o bem e para o mal. Durante anos dividira-se entre ela e Lisboa, onde a empresa dos pais crescera até se tornar o Nexum Group. Mas os últimos seis anos tinham sido diferentes: a expansão para Espanha engolira-lhe a vida, e Montefrio ficara reduzida a telefonemas e a visitas de passagem, sempre com o relógio a contar. Agora acabou, pensou, ao passar a primeira rotunda. Desta vez não trazia bilhete de volta.
Agora que o Nexum era uma das melhores empresas de desenvolvimento tecnológico, podia finalmente respirar.
Passou pelo desvio para a zona industrial sem querer olhar, e olhou na mesma. Ao fundo da segunda rua, discreto como sempre, erguia-se um edifício comprido, de paredes escuras, sem montra, sem fachada, sem nada que de longe explicasse o que ali existia. Quem precisava de saber, sabia. As janelas altas estavam apagadas àquela hora, mas Carlos reconheceu-o de imediato, como se reconhece uma cara antiga.
O Limiar.
Mas não parou. Ainda não era a hora certa, e Carlos gostava de fazer as coisas pela ordem certa; a vida ensinara-o a ser assim. Primeiro, casa. Depois, o duche e a roupa lavada. Só então viria O Limiar. E, por fim, o Sanctum: a visita a quem lhe dera a mão quando ele mais precisara, a quem o ajudara a tornar-se o homem que era hoje.
Mas esta teria de ficar para o dia seguinte.
🍃 🍃 🍃
Carlos parou diante da porta d'O Limiar. À primeira vista, era apenas a entrada de um prédio igual a tantos outros naquela cidade, não fosse o pequeno letreiro de néon, em letras douradas, que piscava discretamente o nome do clube.
O porteiro não o reconheceu. Como poderia? Havia seis anos que Carlos não entrava ali.
Devia ter uns trinta anos, ombros largos como um armário e o profissionalismo sereno de quem já viu de tudo e aprendeu a não se surpreender com nada. Olhou para Carlos com a cortesia neutra reservada aos desconhecidos que chegam sozinhos a uma porta daquelas.
— Boa noite. É membro?
— Fui. — Carlos deixou a palavra assentar antes de continuar. — Há seis anos que não venho aqui. Ainda sou do tempo do Jeovaldo. O que lhe aconteceu?
Na memória de Carlos, o Jeovaldo devia andar perto dos sessenta anos: sempre com um sorriso no rosto e uma palavra amiga pronta a oferecer.
— O bom Jeo. — O sorriso surgiu no rosto do porteiro, tornando-o por instantes menos formal. — Reformou-se e foi viver com os filhos. A esposa faleceu entretanto, e eles levaram-no para junto deles.
— Ele era quase um pai para o Ivo. Para todos nós, de certa maneira.
— Ainda o apanhei uns meses, quando entrei. Grande homem. A quem devo anunciar?
— Carlos Sousa.
O porteiro fez a ligação e, menos de três minutos depois, a porta interior abriu-se com mais força do que o necessário e o Ivo encheu o vão inteiro, mais grisalho do que da última vez que Carlos o vira, mas com os mesmos olhos de quem está sempre a meio de uma gargalhada ou de uma sentença, sem se saber qual.
— Filho da mãe — disse o Ivo, devagar, saboreando. — Quando chegaste? Nem um telefonema a avisar.
— Se avisasse, mandavas limpar a casa. Queria ver como ela está quando não esperas visitas.
O abraço apanhou-o a meio da frase, e foi um abraço verdadeiro, carregado de sentimento, que dizia mais do que muitas palavras. Quando o Ivo o afastou, segurando-lhe os ombros para o ver melhor, Carlos deixou-se ver, coisa que não deixava fazer a mais ninguém, e ambos o sabiam, e nenhum o disse.
— Estás mais velho — concluiu o Ivo.
— Estou mais rico.
— É o que eu disse.
Riram-se os dois e, por um instante, Carlos voltou aos tempos da juventude, quando a vida era uma coisa que ainda ia acontecer.
Ali, tudo estava quase igual às lembranças de Carlos. O bar central continuava a ser o coração de tudo, uma ilha de madeira escura e latão polido onde três funcionários de calções de cabedal se moviam com a eficiência de quem foi treinado para servir e para reparar, pelas duas ordens. O palco principal crescera; havia agora um segundo, mais pequeno, num recanto que antigamente era um amontoado de sofás. As paredes eram pretas e douradas, sempre pretas e douradas; tinham sido refeitas em materiais melhores, e a luz descia de sítios invisíveis, quente e baixa, desenhando as pessoas em vez de as mostrar.
E havia pessoas. Uma terça-feira ainda cedo, e mesmo assim a pista respirava, os sofás conversavam, ao fundo alguém ria baixo. Não fora naquela casa que tudo começara, mas fora nela que aprendera a viver este mundo. E a casa continuava de pé: maior, melhor, mais cheia do que nunca.
— Quinhentos lugares — ia dizendo o Ivo, guiando-o por um corredor lateral. — Dois palcos, doze salas lá em cima, câmaras em todo o lado menos onde não pode haver. A papelada das fichas é digital agora, mas a regra é a mesma de sempre: zero a quatro, documento vivo, e amarelo e vermelho valem mais do que a minha assinatura. Isso não mudou nem muda.
— Sei de cor.
— Tenho a certeza de que sabes. Há coisas que não se esquecem. — O Ivo parou junto à zona VIP, uma plataforma elevada à direita da pista, e apontou com a cabeça para o lugar dele, o de sempre, o trono discreto de onde via a casa toda. Depois apontou para o sofá ao lado, vazio. — E aquele é o teu.
Carlos olhou para o sofá. Depois para o amigo.
— Ivo.
— Está vazio há anos. À tua espera. O Sílvio e o Vicente têm os lugares deles; faltavas tu para fechar o nosso ciclo. — O olhar do Ivo era o de alguém para quem um "não" não servia. — A casa precisa de um Dom de referência. As pessoas estão fartas de ver as nossas caras, e para a clientela destes últimos anos és uma cara nova — uma lufada de ar fresco e, quem sabe, mais dinheiro.
Carlos riu e apenas disse:
— Cheguei há três horas. Dá-me tempo, já estou longe disto há muito.
— Desde que não desapareças de novo. Sentimos a tua falta.
— Venho para ficar, prometo que não volto a desaparecer. E por falar em amigos, onde estão eles?
— Pensei que não te lembravas deles. — O Ivo deu uma gargalhada. — Vê se adivinhas.
— Algures por aí com algum submisso.
— Bingo. Nas respetivas salas. A tua mantém-se no mesmo sítio.
Ficaram calados um momento. Lá em baixo, a música mudou para uma coisa mais lenta, e um casal atravessou a pista em direção às escadas, o mais novo dois passos atrás, os olhos no chão, um sorriso pequeno a fugir-lhe da disciplina.
Carlos ficou a olhar para o casal na pista, e depois outros se juntaram. Dissera que precisava de tempo, mas tempo para quê? Ser Dom não era um passatempo: era parte dele, o que ele era. E havia muitos anos que ninguém lhe oferecia nada que não tivesse um preço.
— Aceito — disse.
O Ivo não fez cerimónia. Deu-lhe uma palmada no ombro capaz de derrubar um homem mais pequeno e disse apenas:
— Bem-vindo de volta. — E depois, porque era o Ivo: — A primeira rodada pago eu. As outras todas pagas tu, que és o rico.
🍃 🍃 🍃
Foi já perto da meia-noite, com o clube em velocidade de cruzeiro e dois dedos de whisky, que um rapaz ruivo se aproximou.
Carlos estava na zona VIP, sozinho por minutos; o Ivo fora resolver qualquer coisa. E fazia aquilo que sempre fizera melhor: perceber quem dominava, quem servia, quem fingia uma coisa sendo outra. Os códigos não tinham mudado. Pulseiras, posturas, distâncias. Um Dom de meia-idade ensinava qualquer coisa a dois mais novos junto ao palco pequeno; um submisso de coleira nova irradiava um orgulho que se via da outra ponta da casa. Era um mundo em ordem, e Carlos gostava de mundos em ordem.
— Mestre.
A voz era bonita, treinada, um equilíbrio perfeito entre o saber e o dever.
Carlos levantou os olhos.
Uma coisa Carlos não podia negar: o rapaz era bonito também: ruivo, pele clara, o corpo apresentado com um cuidado que não devia nada ao acaso. Ajoelhara junto à entrada da plataforma, fora do espaço reservado, na postura correta, impecável, de manual. Mas Carlos, habituado a ver para além do que estava à mostra, percebeu que nada naquele ruivo era natural: era tudo estudado, forçado.
— Ainda não sou Mestre de ninguém nesta casa — disse Carlos, sem aspereza.
— Vi-o entrar e percebi na sua postura um Mestre. Sei reconhecer o que vale a pena antes dos outros. — O rapaz ergueu o rosto o suficiente para deixar ver os olhos, e havia neles uma segurança que estudara bem o disfarce de humildade. — E os mais antigos disseram-me quem era.
Falava bem. Ensaiara: percebia-se o discurso polido por muitas utilizações, adaptável a muitos homens. Carlos já vira aquele talento antes, em salas de reuniões e em quartos, e sabia exatamente quanto custava e quanto valia.
— Como te chamas?
— Máximo, senhor.
— Máximo. — Carlos pegou no copo, sem beber. — Agradeço a atenção. Mas cheguei hoje, e não vim à procura de nada. Boa noite.
Foi tudo. Apenas a cortesia perfeita e impessoal de quem fecha uma porta que nunca chegou a considerar aberta. Voltou os olhos para a pista antes ainda de o rapaz se erguer, porque a sala lhe interessava e o rapaz não. Para Carlos foi apenas mais um não, entre os muitos que estava habituado a dizer, algo que nem ficaria na sua memória.
Se alguém lhe perguntasse a cor dos olhos do rapaz, não saberia dizer.
Eram verdes. E agora estavam frios, colados a Carlos desde a sombra junto ao bar: nos dois homens, depois de o Ivo ter voltado, nos risos, nos copos que bebiam.
E ninguém reparou que o Máximo saiu cedo naquela noite. Talvez porque ninguém reparasse verdadeiramente nele.
🍃 🍃 🍃
O Ivo acompanhou-o à porta às duas da manhã, contra todos os protestos.
— Terça que vem — disse, a jeito de despedida — apresento-te à casa como deve ser. Quero que te vejam sentado no teu lugar.
— Lá estarei.
— E amanhã? Dormes até tarde, como os ricos?
— Porque não? É um dos privilégios de se ser rico. — Carlos brincou, antes de a voz lhe sair mais séria. — Amanhã tenho uma visita a fazer.
O Ivo olhou para ele, e o sorriso que lhe cresceu na cara era o de quem sabia perfeitamente que a visita seria na outra parte da cidade.
— Tens a Mirella e o Sanctum escritos no rosto — disse, pondo-lhe a mão no ombro, como quem sabe mais do que diz. — Mas ela merece. Manda-lhe cumprimentos meus.
— Assim farei. Estar aqui e não a visitar seria desleal da minha parte, depois do muito que ela me ajudou.
Nada mais foi dito, e não era preciso.
Carlos conduziu para casa pelas ruas vazias, as mãos leves no volante, a cidade a passar escura e conhecida dos dois lados. No semáforo vermelho da avenida deserta, deu por si a ensaiar em silêncio a primeira frase que lhe ia dizer, e a descartá-la, e a ensaiar outra, como um rapaz.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.