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A Primeira Casa - Introdução

(Na voz da Mirella.)

Chamam-lhe Montefrio, esta cidade à beira-mar onde o sal se cola à pele e as noites são mais compridas do que deviam. Cresce como qualquer outra, de dia: gente que trabalha, que ama, que se cruza nas ruas sem se conhecer. Mas há uma Montefrio por baixo da Montefrio, uma cidade dentro da cidade, feita de casas discretas onde entra quem sabe e de onde sai quem se encontrou. É dessa que eu vos venho falar. Porque foi nela que eu vivi a minha vida inteira, e foi nela que vi nascer todas as histórias que vale a pena contar.

Chamo-me Mirella. E, se há uma coisa que aprendi, em todos estes anos a abrir portas e a fechá-las, é que ninguém chega a estes sítios por acaso.

Comecei pelo Sanctum. Foi a minha primeira casa, muito antes de ser a casa de tantos outros: um sítio que ergui do meu próprio desejo de existir sem máscaras, quando ainda nem sabia que um sítio assim podia existir. O Sanctum acolhe. É a casa de quem chega perdido, de olhos baixos e fome antiga, sem saber ainda o que é nem o que procura. Ali, ninguém exige nada. Espera-se. Porque há pessoas que carregam a entrega dentro de si como uma língua materna que nunca ninguém as deixou falar, e o meu trabalho, o meu único trabalho, é dar-lhes um sítio onde a possam dizer.

Mas o Sanctum não está sozinho nesta cidade.

Do outro lado de Montefrio ergue-se O Limiar, a casa do Ivo, um dos poucos homens que tratam este mundo com a seriedade que ele exige. Quem imagina rivalidade entre as nossas casas nunca percebeu nada de nenhuma delas. São diferentes porque as pessoas são diferentes: o Sanctum ensina a despir a armadura devagar; O Limiar recebe quem já sabe o que quer e o procura sem rede. Um acolhe; o outro exibe. Ambos são verdade.

E há ainda um terceiro sítio, mais recente, onde a cidade toda respira: o Desejos Secretos, o bar dos irmãos Matos. Não é casa de sessões nem de contratos; é chão neutro, o ponto de encontro onde este mundo se cruza com o outro, onde um Dom bebe um copo depois do trabalho e onde uma velha dona de clube se senta a rir com três irmãos que sabem tudo e não julgam nada. Se o Sanctum resguarda e O Limiar exibe, o Desejos acolhe, sem exigir que se seja o que quer que seja.

Três casas. Um mundo. E, por baixo de tudo, os mesmos fios a entrelaçarem-se, de história em história, de vida em vida, porque em Montefrio ninguém está verdadeiramente sozinho, por mais só que se julgue.

Mas eu prometi-vos uma história, e as histórias começam sempre por uma pessoa.

Ou, neste caso, por duas.

Conheço o Carlos há tempo suficiente para me lembrar do homem que ele era antes de ser o nome que hoje carrega, e fui eu quem primeiro lhe abriu as portas deste mundo, embora essa história não seja para agora. Quando ele regressou a Montefrio, rico de tudo menos do que importava, foi ao Limiar que pertenceu primeiro. Era o mundo dele: certezas, controlo, paredes pretas e douradas. Mas os homens de certezas são os que mais me divertem, porque basta uma tarde, uma visita de cortesia a uma velha amiga, um olhar atravessado num corredor, para as certezas todas começarem a tremer.

E o Miguel... o Miguel chegou-me como chegam os que ainda não sabem o que são: de olhos baixos, a pedir apenas trabalho. Órfão de mãe, órfão de quase tudo. Não lhe dei um emprego: dei-lhe um sítio onde ninguém lhe exigia nada, e esperei. Porque o reconheci à primeira, como reconheço sempre. E limitei-me a garantir que, no dia em que o Carlos atravessasse as minhas portas, o Miguel estivesse onde os olhos dele não pudessem deixar de o encontrar.

Chamem-lhe acaso, se quiserem.

Eu chamo-lhe paciência.

Esta é a história deles: a de dois homens e das casas que os fizeram, do limiar que separa o que somos daquilo que temos medo de ser. É a primeira de muitas que vos hei de contar, porque foi por aqui que tudo começou: esta foi a primeira casa, a raiz de onde nasceu todo o resto.

Se decidires atravessá-la comigo, leitor, prepara-te para seres visto. Porque nestas casas ninguém sai igual ao que entrou. E talvez, ao fechares este livro, descubras que também tu tens um limiar à espera de ser atravessado.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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