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Capítulo 07 — Entre Dois Mundos

        A tão esperada segunda-feira finalmente chegou, trazendo consigo um misto de ansiedade e entusiasmo para Gui e Jorge. Era o início de uma nova fase das suas vidas, não apenas pelo trabalho em si, mas também pela oportunidade de estarem mais próximos dos seus alfas. No entanto, sentiam-se inseguros quanto à forma como deveriam agir, pois além de serem os ómegas dos alfas, estes também eram os seus patrões. Preocupavam-se com o que os outros poderiam pensar sobre a sua presença ali, receando que fosse atribuída apenas ao facto de serem companheiros dos chefes.

         Depois de conversarem longamente, chegaram a um acordo: dentro do escritório, tratariam os alfas como patrões, com o respeito que o cargo exige. Fora dali as relações pessoais poderiam prevalecer, mas no ambiente profissional manteriam postura discreta e profissional.

          Essa decisão foi tomada sem saberem ao certo qual seria a vontade dos alfas — se prefeririam manter tudo em segredo ou não.

         À chegada, foram recebidos pela simpática beta da receção, que os guiou pelo escritório, esclarecendo dúvidas e apresentando as instalações. No final, conduziu-os às suas secretárias, estrategicamente posicionadas em frente às salas dos alfas. Sempre que as portas se abrissem, a primeira pessoa que veriam seria Gui ou Jorge.

         Aquilo não era coincidência — era estratégia. Os alfas queriam os seus ómegas por perto.

          Os jovens foram bem acolhidos pelos colegas e perceberam rapidamente que os alfas ainda não tinham chegado, pois o cheiro característico deles não se fazia sentir. Pouco depois, esse aroma tornou-se intenso, sinalizando a chegada dos dois. Passaram por eles de forma discreta, cumprimentando-os da mesma forma que cumprimentaram os outros funcionários.

           A atitude, embora deixasse os ómegas com o coração apertado, foi compreendida. Também sentiram a agitação interna dos alfas — o esforço para manterem a postura profissional.

Assim que entraram no gabinete de Henrique, a tensão explodiu no ar. Henrique soltou um rosnado baixo, imediatamente acompanhado pelo lobo de Mário, revelando o turbilhão de emoções que ambos tentavam controlar.

— Bolas! Bolas! Vai ser mais difícil do que imaginei…— desabafou Henrique, passando a mão pelos cabelos pretos num gesto nervoso. O olhar desviou-se para a janela, como se procurasse ali alguma resposta.

          Sentia o peso da distância, quase físico. O aroma doce e familiar dos ómegas flutuava no ar, aguçando a saudade. Tirou o casaco com movimentos lentos e pendurou-o no bengaleiro, os ombros ligeiramente curvados.

         Mário, com o cabelo loiro ligeiramente despenteado e olhos de um azul frio e profundo, deixou-se cair no sofá de canto. O sorriso largo que lhe surgiu nos lábios escondia uma ansiedade silenciosa, e o brilho intenso nos olhos traía sentimentos que nunca tinha permitido que fossem tão visíveis.

           Henrique notou — e uma ponta de alegria atravessou-lhe o peito ao ver aquele lado mais vulnerável do amigo.

— E ainda é só o primeiro dia! — disse Mário, tentando disfarçar a inquietação com humor. — Posso chamá-los? Sinceramente, acho que ambos precisamos de os sentir mais perto… ou será que sou só eu? — A voz vacilou, revelando mais do que queria.

         A sala mergulhou num breve silêncio. Henrique sentiu o coração acelerar. O fim de semana longe dos ómegas tinha deixado marcas, e o cheiro deles, agora tão próximo, fazia crescer uma urgência inesperada.

           Os seus olhos ganharam um brilho intenso — emoção pura, sem filtros

— Sim, chama-os. — Assentiu, a voz rouca pelo esforço de manter a compostura. — Um fim de semana longe é demais… E além disso, quero ver como ele vai reagir quando lhe entregar o telemóvel. — Tentou disfarçar a insegurança que lhe corroía o pensamento: e se ele não aceitar? E se achar que é interesse?

           Mário perdeu o sorriso. Uma sombra de dúvida atravessou-lhe o rosto. A mão foi ao peito, apertando a camisa num gesto instintivo.

— Achas que eles estão connosco só por interesse? — murmurou, a voz baixa, quase temerosa.

           Henrique hesitou. Também ele tinha as suas inseguranças, mas recusava acreditar que o laço entre eles fosse superficial.

— Olha… quase tenho a certeza de que não. — disse com suavidade, aproximando-se e pousando uma mão firme no ombro do amigo. — E em breve vamos saber. Se ele aceitar de ânimo leve ou se lutar para não aceitar. E sinceramente… espero que seja a segunda hipótese. Não consigo nem quero acreditar que aqueles dois estejam a jogar sujo. Não os vejo assim.

           A sinceridade de Henrique devolveu brilho aos olhos de Mário — uma esperança cautelosa, mas real.

          Mário levantou-se, alisando a camisa com mãos trémulas, e dirigiu-se à porta. Com voz controlada, mas carregada de expectativa, chamou:

— Sr. Guilherme, Sr. Jorge, podem vir até aqui, por favor.

          Os dois jovens trocaram um olhar rápido antes de se levantarem.  Entraram no gabinete e fecharam a porta atrás de si.

         O sorriso de ambos alargou-se ao ver os alfas com os braços abertos, prontos para os receber. O calor dos corpos, o cheiro familiar, a segurança — tudo os puxou para aquele abraço. Ao se aproximarem, sentiram a suavidade dos tecidos a roçar nos braços e o leve sussurrar das respirações misturava-se ao silêncio confortável do gabinete. Jorge soltou um suspiro aliviado, enquanto Gui fechava os olhos por um instante, deixando escapar um sorriso contido, embalados pela sensação de aconchego que os envolvia.

          Os alfas inclinaram a cabeça, encostando o nariz ao pescoço dos seus ómegas, inspirando fundo. O toque ligeiro dos cabelos e a vibração discreta de um coração acelerado davam ainda mais profundidade ao momento, tornando o abraço ainda mais íntimo e memorável.

— Não me canso do teu cheiro, meu lobinho… — murmurou Henrique, apertando Jorge contra si.

— Anjo… não imaginas as saudades que tive — disse Mário, os olhos brilhando.

           Gui e Jorge sorriram, verdadeiramente felizes. Sentiam que cada palavra era real.

           Foi Jorge quem quebrou o momento, sempre brincalhão:

Vocês estão loucos! E se alguém descobrir? Vamos todos para o olho da rua! — riu, puxando Gui para junto de si.

            Gui entrou no jogo:

— Sim, imagina se os patrões sabem… não queremos perder o emprego!

           As gargalhadas encheram o gabinete. Era a primeira vez que estavam assim, juntos naquele espaço, mas parecia que já o faziam há anos.

           O calor dos abraços, o aroma reconfortante dos alfas e a leveza das brincadeiras tornavam o ambiente quase sagrado.

— É melhor terem cuidado, sim… ouvi dizer que os patrões são uns alfas muito maus. — Brincou Henrique, deslizando a ponta dos dedos pelas costas de Jorge num gesto lento, quase reverente.

           A mão percorreu a curva da cintura, detendo-se por um instante. O desejo vibrava no ar, mas era o respeito que guiava cada gesto, impondo-se com delicadeza e firmeza.

          Jorge percebeu o calor que se espalhava pela sua pele, uma onda suave que o envolvia. O corpo respondia à proximidade, mas o coração abria-se num gesto de confiança. Mais do que nunca, sentia que podia confiar em Henrique. O silêncio entre eles era carregado de significado, e Jorge compreendeu que aquele momento era feito tanto de desejo quanto de profundo respeito mútuo.

          Henrique apoiou suavemente a testa na de Jorge, aguardando em silêncio. Os olhos fechados, a respiração calma — a pedir sem palavras.

— Devem ter muito cuidado com eles. Afastem-se — disse Mário, mais afoito, o tom carregado de preocupação.

         Gui sentiu duas mãos grandes pousarem-lhe nas nádegas, apertando-as com leveza. Não se incomodou — pelo contrário, aquele gesto despertava-lhe algo íntimo, uma sensação de pertença que lhe aquecia o peito.

— Por muito que gostemos de estar aqui com vocês, o melhor é irem trabalhar. — Continuou Mário, agora mais sério. — E desculpem se formos frios convosco. Mas aqui… aqui é só trabalho. Pelo menos por agora.

— Nós percebemos. — disse Jorge, sereno. — Aqui somos apenas empregados. Nada mais. E respeitamos isso.

          Henrique afastou ligeiramente Jorge do abraço, apenas o suficiente para alcançar um pequeno saco pousado sobre a mesa. Estendeu-o ao ómega, que franziu o sobrolho ao vê-lo.

— Lobinho… isto é para ti.

          Jorge já se preparava para recusar.

— Não, por favor, eu…

         As palavras morreram-lhe nos lábios quando Henrique se inclinou e pousou os seus lábios quentes sobre os dele. Foi um beijo calmo, firme, cheio de significado. Um gesto que dizia sem precisar de voz: não é sobre o presente, é sobre o cuidado.

          Jorge fechou os olhos, rendido ao toque, e tudo à volta pareceu abrandar.

          O outro casal, ainda entrelaçado num abraço cúmplice, soltou gargalhadas suaves perante a cena.

— Não tens como reclamar, aceita sem reservas e não te sintas ofendido. — disse Henrique, o olhar cheio de compreensão, como se adivinhasse as dúvidas que atravessavam a mente do ómega. — Sei perfeitamente que não estás comigo por dinheiro. Nós dois sabemos que o que nos une não é o que temos, mas quem somos. O presente é só uma forma de facilitar a nossa proximidade… de podermos falar mais facilmente. Por favor, aceita.

          Jorge hesitou. Os dedos tremeram ao segurar o pequeno saco. Procurou o olhar do amigo em busca de apoio.

          Gui, aconchegado ao peito de Mário, acenou-lhe com confiança silenciosa.

         Com um suspiro resignado, Jorge ergueu o olhar para Henrique.

Está bem, eu aceito… mas peço-te, não quero que continues a oferecer-me coisas — disse, a voz baixa, mas firme. — Não me faças sentir que te estou a usar. Não me ponhas nessa posição.

           Henrique sorriu, visivelmente aliviado, e tocou de leve a mão de Jorge.

— Lobinho, prometo que não o farei. Eu conheço-te bem e sei que não és interesseiro. Agora… abre.

          Jorge obedeceu com movimentos cautelosos. Assim que os olhos pousaram no telemóvel dentro do saco, um brilho sincero iluminou-lhe o rosto.  Ficou alguns segundos a fitar o presente, como se não acreditasse.

           Henrique, ao ver aquela expressão de surpresa e alegria genuína, sentiu o peito aquecer.

— É um modelo simples, prático. Nada de extravagâncias ou marcas caras, porque sabia que isso te podia ofender. — explicou, sorrindo. — Só quero garantir que posso falar contigo, seja por mensagem ou chamada, sempre que quiser. Está bem?

— Está bem, aceito. Obrigado, Henrique. — respondeu Jorge, a voz embargada de emoção.

           Num movimento rápido, Jorge levantou o rosto e deu um beijo delicado nos lábios do alfa, surpreendendo Henrique, que ficou momentaneamente sem reação. O toque foi breve, mas intenso — e o aroma de Henrique misturou-se com o calor do momento.

         Henrique ficou ali parado, como se tentasse perceber o que acabara de acontecer. Sentia o lobo no seu interior inquieto, ansioso, como se estivesse prestes a saltar e tomar o controlo.

          O cheiro a pinho e baunilha misturou-se com o de morangos numa dança invisível.

          Quando finalmente recuperou a compostura, olhou para Jorge com uma mistura de surpresa e ternura.

          Gui observava a cena, perplexo, mas feliz — nunca vira o amigo tão espontâneo.

          Depois desse momento, os dois saíram da sala com passos mais leves e sorrisos no rosto, sentindo-se finalmente mais relaxados e animados para o que viria.


🍃 🍃 🍃


          A manhã passou a voar no escritório, enquanto os dois mais jovens se dedicavam intensamente a aprender o funcionamento da empresa. Gui e Jorge estavam determinados a dar o melhor de si, conscientes da responsabilidade que carregavam e do desejo genuíno de não desiludir os alfas.

          Quando o relógio marcou a pausa para o almoço, os colegas conduziram-nos até ao restaurante dos funcionários. O espaço era surpreendentemente acolhedor. O aroma dos pratos acabados de preparar misturava-se com o cheiro dos clientes. Conversas descontraídas preenchiam as mesas, tornando o ambiente ainda mais convidativo.

           Sentaram-se junto a uma janela e foram informados de que ali podiam almoçar à vontade — as refeições eram pagas pelos patrões no final do mês.  Não tinham subsídio de refeição, mas podiam escolher o que quisessem do menu sem qualquer custo.

          A notícia trouxe-lhes um alívio inesperado, suavizando a tensão do primeiro dia.

          À mesa, sentaram-se ao lado de uma ómega e uma beta, que rapidamente os integraram na conversa, partilhando histórias do quotidiano do escritório.

         O ambiente era leve, e, apesar do nervosismo inicial, Gui e Jorge começaram a sentir-se verdadeiramente acolhidos.

         De repente, a ómega interrompeu a conversa, surpreendida ao olhar para a porta.

— Os patrões aqui? — exclamou, os olhos arregalados ao ver os dois alfas a entrarem no restaurante, imponentes e discretos ao mesmo tempo.

         Gui e Jorge entreolharam-se, lutando para disfarçar o sorriso cúmplice. Já suspeitavam que os alfas fariam questão de aparecer.

          O beta ao lado comentou:

O que os trouxe por aqui? Eles não costumam vir cá, pois não?

— Muito raramente! — respondeu a ómega, ainda incrédula.

         Jorge, tentando conter o riso, perguntou apenas:

— Não?

         Apesar de se sentirem cada vez mais integrados, Gui e Jorge não conseguiam evitar um certo nervosismo ao perceberem a presença dos alfas.

         Sabiam perfeitamente que a chegada deles não era por acaso — e tinham quase a certeza de que aquela rotina se tornaria frequente.

         Sentiam, de vez em quando, os olhares atentos dos alfas pousarem neles, provocando-lhes um misto de embaraço e conforto.

          A conversa à mesa manteve-se animada, pontuada por risos e pequenas confidências. Os colegas mostraram-se prestáveis e acolhedores, ajudando os recém-chegados a sentirem-se parte da equipa.

          No final do dia, ao regressarem a casa sozinhos, os ómegas sentiam-se satisfeitos com o acolhimento e orgulhosos do que tinham conseguido.

          Ainda assim, uma pontinha de saudade dos alfas apertava-lhes o peito.

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