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Capítulo 06 — Família

        O silêncio tranquilo que reinava em casa de Henrique foi subitamente interrompido pelo toque da campainha. Ainda meio adormecido, levantou-se e dirigiu-se à porta de entrada, já antecipando quem estaria do outro lado. Assim que abriu a porta, Alice saltou do colo da avó diretamente para os seus braços.

— A Alice tinha saudades, Papá! — disse a pequena, que o tratava por Papá desde que tinha noção das palavras. Sabia que era sobrinha; Alice era filha adotiva do irmão e da cunhada de Henrique, falecidos num acidente de viação há pouco menos de um ano.

— Eu também senti muitas saudades tuas, minha princesa! —Depois, virando-se para a mãe: — Mãe, desculpa… esqueço-me da educação quando estou com ela. Entra, faz favor.

          A Sra. Silva sorriu, recusando gentilmente:

— Não, meu filho, tenho de ir. O teu pai está à minha espera e vamos aproveitar para dar um passeio a dois.

           Henrique assentiu, compreensivo:

— Fazem muito bem. Eu levo a Alice à escola na segunda-feira, está bem?

— Está ótimo. Porta-te bem, meu amor, e não dês muito trabalho ao papá — pediu a avó.

— A Alice não dá, vovó — respondeu a pequena, agarrada ao pai

           Henrique sorriu.

— Princesa, sabes quem está connosco em casa hoje?

— Quem é, papá? — perguntou, curiosa.

— O tio Mário!

— Onde é que o tito está? A Alice quer saber se ele está a dormir.

— Está, sim… vai lá chamá-lo, que eu trato do pequeno-almoço.

           Alice disparou pelo corredor fora. Abriu a porta do quarto de hóspedes e saltou para cima da cama, aninhando-se ao colo de Mário.

— Acorda, tito! — disse, enchendo-o de beijinhos.

           Mário despertou a rir.

— Ora, ora… se não é a princesa dos beijinhos! — disse ele, fazendo menção de lhe fazer cócegas.

— A Alice não quer cócegas! — protestou ela, rindo. — O papá chamou o tito!

— Já vou, princesa. Vai andando para a cozinha.

           Alice correu de volta.

— O tito já vem, papá! Mas fez cócegas à Alice, diz-lhe que não pode!

            Henrique fingiu-se sério.

— Vou ralhar com ele, ninguém faz cócegas à minha princesa.

             Mário entrou na cozinha nesse momento.

— Pareces um tolinho a rir-te sozinho. Nem precisas dizer em quem pensavas — brincou.

— A vida muda. Até há pouco tempo, esta princesa era tudo para mim. Agora tenho mais alguém com quem posso partilhar esse sentimento… e é muito bom.

— Eu percebo. Gostava que os nossos pequenos estivessem aqui. Seria tão bom dividir isto com eles.

            Mário suspirou, carregado de saudade e inquietação.

— O dia em que possamos dividir o nosso espaço com eles vai chegar… e não falta muito — disse com esperança. — Mas este fim de semana é nosso… e da princesa.

— A Alice também é vossa! O tito fica? — perguntou ela, esticando os braços.

— Queres que o titio fique?

— Quer, sim! Fica, tito! — pediu, com os olhos a brilhar.

— Fico, princesa — disse ele, beijando-lhe a testa.

— Vamos comer — anunciou Henrique.


🍃 🍃 🍃


          Os jovens estavam igualmente cansados depois da noite intensa. Acordaram tarde, quase à hora de almoço, ainda enroscados nas mantas, com o corpo pesado e a mente lenta.

— Jorge, acorda! A minha mãe está à nossa espera — chamou Gui, sacudindo-o de leve.

— Chato… já vou — resmungou Jorge, enterrando o rosto na almofada antes de finalmente se levantar.

           Vestiram-se à pressa, trocando olhares cúmplices e sorrisos sonolentos, e saíram de casa. O ar fresco da manhã tardia ajudou-os a despertar enquanto caminhavam lado a lado pelas ruas tranquilas do bairro. Gui falava do almoço, mas a conversa acabava sempre por regressar aos alfas — a forma como os tinham protegido, o que tinham sentido, o que aquilo poderia significar depois do dia anterior. Jorge ouvia, por vezes respondia, outras apenas sorria, e a sensação de normalidade, ainda frágil, era quase reconfortante.

          Assim que chegaram à porta da casa, ouviram passos apressados lá dentro.

Um pequeno alfa de cinco anos surgiu no corredor e, ao vê-los, disparou na direção deles como uma flecha.

— Mano! Já demoraste! — gritou Carlitos, atirando-se para os braços do irmão. — Tinha de tomar conta da mãe sozinho.

           Sorriu para Jorge, com um ar quase solene para a idade:

— Também tive saudades tuas, tio.

— Eu também tinha saudades tuas, Carlitos — respondeu Jorge.

          Entraram em casa, com Carlitos agarrado ao irmão. A mãe de Gui observou-os com ternura, feliz por ver a família reunida.

           Gui dirigiu-se à cozinha:

— Boa tarde, mãe. Cheira tão bem.

— Boa tarde, mãe — acrescentou Jorge, recebendo um sorriso caloroso.

— Mãe, onde está o Afonso? Está tudo bem entre vocês? — perguntou Gui, sentindo o aperto antigo no peito que sempre o visitava quando media o silêncio da casa.

— Sim, meu filho, está tudo bem. Ele ajudou-me bastante hoje e foi tomar banho para se refrescar — a mãe sorriu, com um olhar afetuoso, procurando tranquilizar Gui e dissipar a inquietação do filho.

            Pouco depois, Afonso apareceu, ainda a secar o cabelo.

— Boa tarde aos dois.

          A mesa foi posta, e o aroma da comida caseira encheu a sala. Durante o almoço, Gui e Jorge partilharam a novidade do emprego, deixando a mãe radiante de orgulho.

          Decidiram ficar o fim de semana ali, junto da família. Carlitos vibrou de alegria. O sábado foi cheio de brincadeiras, gargalhadas e momentos simples que fortaleceram ainda mais os laços entre eles.


🍃 🍃 🍃


          O sábado passou num sopro: brincadeiras, gargalhadas, histórias e abraços. A menina irradiava felicidade, e os dois homens sentiam que, apesar de tudo, havia ali um núcleo de amor que os sustentava.

          No domingo de manhã, enquanto Alice brincava no tapete da sala, Henrique aproximou-se de Mário com um ar pensativo.

— Ontem reparei numa coisa… o Jorge não tem telemóvel. Nem um simples.

           Mário ergueu o olhar.

— Também notei. A vida deles deve ter sido pior do que imaginamos.

           Henrique suspirou.

— Pensei em comprar-lhe um, mas acho que ele não aceitaria.

— Não aceitaria mesmo — respondeu Mário. — Ele parece ser daqueles ómegas que não querem dever nada a ninguém. Talvez por orgulho… talvez por medo.

           Henrique passou a mão pela nuca.

— Preocupa-me. Um jovem sem telemóvel… atualmente? Ele fica tão vulnerável assim.

— Pois fica — concordou Mário. — Mas se queres mesmo ajudá-lo… não ofereças. Diz que é um empréstimo. Que ele te paga aos poucos, descontando do ordenado. Assim ele sente que é dele… e que o conquistou.

            Os olhos de Henrique iluminaram-se.

Isso pode resultar.

— Pode. E se ele aceitar… é porque confia em ti mais do que pensa.

            Henrique ficou a pensar nisso, com o coração mais leve.


🍃 🍃 🍃


          O domingo levou Henrique, Mário e a Alice ao centro comercial — e, sem que nenhum dos dois grupos soubesse, também os ómegas se tinham deixado convencer pelo pedido insistente de Carlitos: um gelado, só um.

          A zona de restauração estava cheia, vozes e aromas de comida a misturarem-se no ar. Foi por baixo de tudo isso que o cheiro chegou — discreto, mas inconfundível. Henrique parou a meio do passo. Mário sentiu o mesmo instante depois.

— Sentes? — murmurou Henrique.

          Mário assentiu, o olhar já a percorrer o espaço, como quem procura algo que sabe estar ali sem conseguir ver.

          De repente, o olhar de Mário fixou-se numa mesa ao fundo. Henrique seguiu a direção do amigo, sentindo o coração acelerar pela súbita mudança de expressão de Mário. Lá estavam os jovens, a brincar com um menino que, à distância, exibia traços familiares demais.

          Mário parou, o peito apertado numa mistura de espanto e dúvida.

— Não pode ser… — balbuciou, incapaz de desviar os olhos do rapazinho. O semblante de Gui parecia refletido no pequeno de tal forma que, por um momento, tudo à volta se esbateu.

            Henrique notou o choque do amigo e pousou-lhe uma mão no ombro, tentando trazê-lo de volta à razão.

— Mário, espera… nem tudo é o que parece. Respira fundo, pensa um pouco.

            Mas Mário parecia preso ao próprio turbilhão interno.

— Henrique, olha bem para ele… é igual ao Gui. Só pode ser filho dele. Porque é que nunca me contou? — A voz vacilava entre incredulidade e mágoa. Sentia-se inseguro, temendo que Gui escondesse algo tão importante. No fundo, tinha medo de não ser suficiente, de não conhecer o rapaz que tanto desejava.

           Henrique, mais calmo, sorriu com compreensão.

— Mário… o miúdo tem uns cinco ou seis anos. O Gui mal passou dos vinte. Achas mesmo que pode ser filho dele? Só se tivesse tido o primeiro cio aos quinze — e sabes bem que isso é raro. Mas diz-me: se fosse filho dele… isso mudava alguma coisa para ti?

             Mário hesitou, sentindo a ansiedade diluir-se diante da racionalidade do amigo.

— Não mudava nada, Henrique. Quero-o da mesma forma, mesmo que seja pai. Mas tens razão… é quase impossível — tentou sorrir, embora o coração ainda lhe pesasse. Pensava nas expectativas que criara, nas inseguranças que sempre carregou, no medo de dar passos em frente sem conhecer todo o passado de Gui.

             Respirou fundo.

— Vamos esperar, Henrique. Prefiro ouvir o que ele tem para dizer, sem conclusões precipitadas.

             Os dois retomaram lentamente o passeio, cada um mergulhado nas suas próprias reflexões. O ambiente voltou a encher-se de sons leves, enquanto Mário, agora mais tranquilo, seguia ao lado de Henrique, com a menina entre eles — mas, no íntimo, sabia que as respostas que buscava só Gui poderia dar.

            Henrique tentou aliviar o ambiente:

— Então acalma-te e vamos deixá-los em paz. Vamos aproveitar a nossa princesa… e dar uma passagem pela loja dos telemóveis. Já decidi que vou comprar um para o meu ómega, mas confesso que não sei que modelo escolher. Achas que se ele for muito caro… ele recusa?

           Mário pensou por um instante.

— Talvez. Mas escolhe um bom, sem ser de luxo. Algo que ele use sem se sentir em dívida, mas que dure.

          Henrique sorriu, mais tranquilo.

— Tens razão. Vamos lá ver o que encontramos.

          Deixaram os ómegas entretidos na esplanada da gelataria e seguiram para a loja. Escolheram um modelo muito apreciado pelos jovens, segundo o funcionário. Saíram dali felizes — sobretudo Henrique, que finalmente teria uma forma de comunicar com o seu ómega sem depender do amigo.


🍃 🍃 🍃


          Quase ao mesmo tempo, também os ómegas, sentados à mesa, puderam sentir o cheiro dos alfas. Jorge e Gui olharam ao redor e sorriram, partilhando a alegria da presença dos alfas. Apenas a presença de ambos fez os lobos se animarem, espalhando ainda mais os seus respetivos cheiros.

          Gui começou também a procurar com o olhar, tentando identificar Henrique e Mário entre a multidão. Por momentos, ambos ficaram em silêncio, atentos a cada pormenor.

           De repente, Gui parou o olhar numa direção. O sobrolho franzido denunciou que os tinha encontrado. O coração acelerou ao ver Mário parado do outro lado, olhando fixamente para a mesa deles.      O olhar de Mário era intenso, quase inquietante, como se procurasse respostas para uma dúvida antiga.

           Gui sentiu um aperto no peito, que não sabia se era dele ou do seu lobo.

— Sim, estão do outro lado. E o Mário está muito sério… aposto que percebeu a parecença entre nós. —     Olhou de soslaio para o pequeno. — Deve estar a pensar que é meu filho. Tenho mesmo de falar com ele.

           Fez menção de se levantar, ansioso, mas Jorge colocou-lhe uma mão no braço, transmitindo calma.

          Gui permaneceu sentado, mas o olhar inquieto voltava vezes sem conta para Mário.

— Gui, deixa-o pensar. Se o Mário for esperto, vai perceber que não podes ser pai do Carlitos. E mesmo que pense isso… se gostar de ti de verdade, isso não vai importar.

           Gui respirou fundo.

— Sim, tens razão. Vou fingir que não o vi — murmurou, mais aliviado. No fundo, sabia que, se Mário gostasse realmente dele, aquele pormenor não faria diferença.

           Gui assentiu, mais calmo.

— Vamos ver qual vai ser a reação dele.

— Isso mesmo! — disse Jorge, animado. — Agora vamos acabar de comer, deixar este rapaz em casa e seguir para a nossa. Quero rever umas coisas do curso para amanhã. Quero mostrar que fizeram a escolha certa. Quero deixá-los orgulhosos de nós.

           Gui assentiu, sentindo a esperança crescer.

— Ok, concordo contigo. Não podemos desiludir os nossos alfas… nem deixá-los mal vistos perante os outros.

           O resto da tarde passou-se sem sobressaltos. Henrique guardou o telemóvel, à espera do momento certo para o entregar a Jorge. Mário seguiu depois para a sua casa. Do lado dos ómegas, despediram-se de Carlitos e da família, e voltaram para casa, prontos para a semana que começava no dia seguinte.

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