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Capítulo 05 — Depois da Tempestade

         De volta a casa, o silêncio da noite ainda pairava entre eles.

         Jorge movia-se pelo quarto com uma calma que surpreendia o próprio Gui.

— Estás bem, Jorge? — perguntou Gui, ao notar que o amigo não parecia nervoso, ao contrário do que esperava.

— Sim! Por incrível que pareça — respondeu Jorge, com um sorriso tranquilo. — Perceber a reação do Henrique à situação fez-me ver que posso relaxar, ser eu mesmo e finalmente confiar num alfa... o meu alfa. Sinto que posso entregar-lhe o meu coração.

— Só o teu coração? — provocou Gui, com um sorriso maroto nos lábios.

— Não, ele terá também o meu corpo — admitiu Jorge, sincero. — Desejo muito senti-lo, como nunca tive vontade antes.

           Gui conhecia bem o amigo e sorriu, sentindo orgulho da sinceridade dele.

— Tu mereces ser feliz, Jorge.

— E tu também — respondeu Jorge, olhando-o com preocupação. — Ficaste mais afetado do que eu e acho que eles perceberam.

— Desculpa, mas quando te vi voltei... — disse Gui, a voz a tremer, sem conseguir acabar a frase.

         Jorge aproximou-se, num gesto de apoio.

— Não precisas de dizer mais nada. Estou bem, tu é que não, e não é só por causa disso, pois não?

          Gui hesitou por instantes, mas acabou por admitir:

— Sabes que não. Não queria, mas deixei o Mário muito chateado com a minha atitude no carro. Mas sabes que fui educado assim...

— Eu sei, mas o Mário não — respondeu Jorge, compreensivo. — Temos de mudar essas ideias, aliás, os dois. Eles não são assim. Mas acho que deves esclarecer esses mal-entendidos e falar com ele.

Achas que sim? — perguntou Gui, inseguro.

— Tenho a certeza — afirmou Jorge, determinado. — Liga-lhe. Sou da opinião que o diálogo é a chave de um relacionamento.


🍃 🍃 🍃


         A sala mergulhava numa penumbra silenciosa, cortada apenas pelo tique-taque distante do relógio e pelo som abafado da respiração dos dois. Henrique e Mário estavam sentados no sofá, cada um envolto nas suas próprias espirais de pensamento, incapazes de encontrar consolo no silêncio ou na companhia.   O ar parecia denso, carregado de inquietação, como se os lobos dentro de ambos circulassem agitados, incapazes de repousar.

         Uma mistura de pinho, baunilha, mogno e canela encheu o ar, escapando ao controlo de ambos.

         Henrique sentia o peso do silêncio esmagando-o, incapaz de pedir ajuda ou de oferecer conforto.

         Mário sentia o peito apertado, uma pressão crescente a comprimir-lhe o estômago. O desejo de proteger Henrique misturava-se ao receio de enfrentar os próprios medos. Olhou para o amigo — olhos fixos no vazio, maxilar tenso — e percebeu que partilhavam a mesma sombra de insónia. Não queria deixá-lo sozinho, nem suportar o próprio isolamento.

         Mário, por sua vez, sentia as mãos formigarem de nervosismo. Passou-as devagar pelo rosto, tentando varrer a inquietação, mas a tensão só aumentava. A voz soou rouca quando finalmente falou, sem o encarar:

— Henrique, posso ficar aqui esta noite? Não quero ficar sozinho — hesitou antes de pedir, a voz baixa, temendo impor-se.

          Henrique soltou um suspiro pesado, como se as palavras lhe custassem o dobro do esforço habitual.  Olhou para Mário, com um tímido agradecimento nos olhos, e respondeu, ainda a esfregar as têmporas como se pudesse acalmar a mente:

— Eu agradeço-te que fiques, a minha cabeça não para. A noite estava a correr bem, achei que tinha feito progressos com o Jorge… Mas depois, aquele maldito alfa… — Henrique cerrou os punhos, os nós dos dedos brancos. — Não consigo parar de rever a cena. Será que ele ficou assustado comigo? Com o meu lobo? — A voz vacilou, um tremor quase impercetível denunciando o medo por trás da raiva. — O que vou fazer, Mário? E se nunca me perdoar?

         Mário inspirou fundo, tentando suavizar o próprio batimento cardíaco que martelava nos ouvidos.     Lembrou-se do momento no carro, da tensão que pairava, mas o peso no olhar de Henrique era claramente diferente, mais fundo. Apagou as próprias inquietações e focou-se no amigo, pousando uma mão hesitante sobre o ombro dele.

— Calma, Henrique — falou devagar, escolhendo as palavras com cuidado. — Ele não me pareceu assustado… aliás, pareceu conseguir acalmar o teu lobo. Não havia medo, só… confiança. — Notou o olhar atento de Henrique e continuou, encorajado. — Senti que ele sabia, de alguma forma, que estavas a lutar por te controlar.

           Henrique recostou-se, fechando os olhos por um momento. A tensão nos músculos aliviou ligeiramente ao recordar o timbre suave de Jorge, o cheiro reconfortante que parecia abrandar a fúria do lobo dentro de si. Um sorriso breve cruzou-lhe os lábios:

— Sim… ouvir a voz dele, o cheiro… acalmou-me, acalmou-nos. Ele até deixou que o abraçasse, ele que me disse não gosta de ser tocado. Senti… senti que estava seguro, mesmo que só por instantes.

          O silêncio seguinte foi pesado, como se ambos temessem nomear o passado. Mário mordeu o lábio inferior, pensamentos fugidios a deslizar para recordações incertas, pedaços de histórias que ainda não fora permitido conhecer. Finalmente, comentou num sussurro cauteloso:

— O Gui… Quando tudo aconteceu, ele só repetia "outra vez não", pedia desculpa, como se carregasse uma culpa antiga. Tenho medo de que… algo lhe tenha acontecido antes. Algo grave.

         Henrique rosnou baixinho, a raiva a crescer-lhe nas entranhas, fina como uma lâmina. Mas respirou fundo e, com esforço, suavizou o tom:

— Não quero pensar nisso, Mário. Não quero imaginar o que alguém pode ter feito, usar força, autoridade… Quando há tantos que aceitariam de bom grado. — Uma pausa pesada. — Seja o que for que ele tenha passado, não vou desistir dele. Posso esperar o tempo que for preciso.

          Mário assentiu, o coração a apertar-se de compaixão. A ansiedade era palpável entre eles, mas havia também uma promessa silenciosa de proteção e paciência, como se ambos soubessem que os demónios do passado têm de ser enfrentados devagar.

— Acho que já perceberam que não queremos só sexo — disse Mário, com um sorriso triste. — Isso seria fácil, mas não é isso que procuramos. — Hesitou, lembrando o olhar ferido de Gui no carro. — A atitude dele magoou-me, confesso… Mas deve ter os seus motivos. Acredito que eles carregam mais feridas do que imaginamos.

          O silêncio voltou, apenas quebrado pelo som abrupto de um telemóvel a vibrar. Ambos se sobressaltaram, a tensão a subir novamente. Mário olhou para o visor, um sorriso breve a dissipar um pouco da escuridão.

— Nem preciso perguntar quem é… — comentou Henrique, deixando no ar uma nota de alívio e esperança.

         O telemóvel vibrava suavemente nas mãos de Mário, que o agarrou com dedos ligeiramente trémulos, o coração a bater mais depressa na expectativa do que poderia ouvir do outro lado. Inspirou fundo antes de atender.

📞 — [Olá, espero não incomodar?]

📞 — "Tu nunca incomodas, seja a que horas for."

📞 — [Obrigada. Queria pedir desculpa pela minha atitude no carro. Não volta a acontecer — não será fácil, mas vou tentar.]

📞 — "Tudo bem. Desculpo, claro. Deves ter tido os teus motivos."

📞 — [Educação. Fui criado assim. Para o meu pai, todos os ómegas eram seres inferiores que deviam saber o seu lugar.]

          Mário ficou em silêncio um instante. Perceber a origem daquela atitude não o desculpava, mas explicava tudo — e deixou-o aliviado e irritado ao mesmo tempo. Aliviado porque a culpa não era do Gui. Irritado porque ainda havia quem pensasse assim.

📞 — "Estamos bem, meu anjo. Não estou chateado contigo. Vai descansar — teremos muito tempo para falar e esclarecer as coisas."

📞 — [Não estás mesmo chateado?] — deixou escapar um suspiro profundo.

📞 — "Não estou."

📞 — [Então até segunda… dorme bem.]

📞 — "Nem um beijo de boa noite?"

📞 — [Beijos… e até segunda.]

📞 — "Assim está melhor… beijos, meu doce."

           Desligou o telemóvel com um sorriso sincero, o coração aquecido por algo que ainda não sabia nomear.

          Do outro lado, Guilherme permaneceu alguns segundos a olhar para o ecrã escuro, a respiração acelerada. Um misto de alívio e vulnerabilidade percorreu-o. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se verdadeiramente ouvido e aceite. Uma lágrima solitária desceu-lhe pela face — não de tristeza, mas de gratidão.

— Nunca pensei que fosse telefonar, mas gostei da atitude— comentou Mário, mais descontraído, dirigindo-se a Henrique.

— Ele gosta de ti, só deve ter medo de o demonstrar. Temos de ter paciência — respondeu Henrique, com um sorriso compreensivo.

— Bolas, Henrique, eu paciência até tenho, mas que faço com a excitação que sinto de cada vez que estamos juntos, não me dizes? — perguntou Mário, corando.

— Fazes o mesmo que eu: uso a mão e muita imaginação— brincou Henrique.

— É a solução — riu Mário, sentindo-se mais leve.

— Vamos descansar, porque amanhã temos por aí o nosso furacão — disse Henrique, espreguiçando-se.

          Após uma última troca de sorrisos cúmplices, Henrique retirou-se para o quarto e Mário seguiu para o quarto de hóspedes, ambos levando consigo pensamentos inquietos sobre o dia seguinte e as emoções que ainda os aguardavam.

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