Capítulo 43 — Dois Lobos em Paz
O carro de Mário parou em frente à casa da mãe.
Por um momento, ele ficou sentado sem se mexer, as mãos ainda no volante, a deixar o silêncio da noite assentar sobre os ombros. O mogno e a canela que o acompanhavam estavam diferentes — mais pesados, carregados de tudo o que tinha vivido nas últimas horas.
Respirou fundo, o seu ómega estava ali dentro, e precisava dele.
Entrou devagar, sem fazer barulho. A casa estava quieta — a irmã e o cunhado tinham ido para o quarto dos hóspedes com as crianças, a mãe adormecera no sofá com o irmão mais novo enroscado ao lado. Marcos tinha ido embora há pouco, deixando instruções claras e o número de telemóvel ligado.
Mário parou à porta do quarto, por baixo da qual viu que havia uma fresta de luz — sinal de que Gui ainda estava acordado.
Abriu a porta com cuidado.
Gui estava sentado na cama, os joelhos dobrados contra o peito, os olhos fixos na parede. O cheiro de pêssego chegou a Mário imediatamente — não doce, não tranquilo. Estava cortado por uma ansiedade fina, quase cortante, como fruta que amadureceu depressa demais.
O lobo de Mário reagiu de imediato à cena, tomado por um instinto feroz e protetor, da única forma que sabia: o cheiro a mogno e canela espalhou-se pelo quarto, denso e avassalador.
O lobo de Gui foi o primeiro a estremecer, e Gui virou a cabeça no exato instante em que a porta se abriu.
Os olhos encontraram-se.
E o pêssego mudou — não para alívio imediato, mas para algo mais complexo: reconhecimento, medo do que estava para vir, e por baixo de tudo, amor.
— Finalmente — disse Gui, a voz baixa. — Já estava a ficar louco aqui sozinho.
Mário atravessou o quarto sem dizer nada e sentou-se na beira da cama, puxando o ómega para os braços antes que ele pudesse fazer mais perguntas.
O seu lobo estava mais calmo, Gui deixou-se envolver, mas não relaxou.
— Mário… — murmurou contra o peito dele. — Diz-me o que se passou. Senti coisas pela marca que não percebi. Senti-te com medo. Senti-te com raiva. E depois… nada. Como se tivesses fechado tudo.
— Fechei — confirmou Mário, a voz baixa. — Não queria que sentisses antes de eu poder explicar.
Gui afastou-se o suficiente para o encarar.
— Então explica.
Quando Mário chegou à parte do Carlos, parou.
— Anjo… — disse, com cuidado. — O homem que estava aqui hoje. O padrasto da minha mãe. Era o teu pai?
O pêssego no ar ficou suspenso por um instante — como se o corpo tivesse parado de respirar.
O lobo de Mário sentiu isso antes de o ver — aquela hesitação no aroma do ómega, como uma flor que fecha antes da tempestade. E reagiu da única forma que sabia: o mogno e a canela intensificaram-se, lentos, constantes, envolvendo o quarto como um abraço invisível.
O lobo de Gui reconheceu o gesto — e o pêssego, que estava suspenso, voltou a respirar.
Devagar, o ómega assentiu.
— Sim. Não tinha como não o reconhecer… aquele cheiro… aquele olhar… aquela voz… não tinha como não ser ele. — A voz saiu trémula, como quem tenta engolir o choro. — Foi por isso que entrei em colapso.
Mário apertou-lhe a mão. O lobo dentro dele queria mais — queria envolver, proteger, afastar tudo o que tinha magoado o seu ómega. Mas conteve-se. Este momento era de Gui. Precisava de o deixar falar.
— O que lhe aconteceu? — perguntou Gui, direto, sem rodeios.
Mário hesitou apenas um segundo.
— Foi morto. O Gonçalo disparou quando ele tentou fugir.
O silêncio que se seguiu não foi de choque — foi de alívio. E o pêssego, pela primeira vez naquela noite, ficou simplesmente doce.
Um olhar de dúvida surgiu no rosto de Gui, e Mário percebeu de imediato.
— Henrique tinha medo de que a Alice pudesse ser raptada de novo ou que algo lhe acontecesse — explicou, com calma. — Por isso mandou fazer um dispositivo de localização e colocou-o no colar que ela usa sempre. Ensinou-a a ativá-lo se precisasse de ajuda.
O sorriso de Gui alargou-se — mas os olhos marejaram.
— Ela é incrível.
— É. — Mário fez uma pausa. — Tal como o pai dela.
🍃 🍃 🍃
— Mário… — Gui hesitou, mordendo o lábio. — Preciso de saber como o Jorge está. Preciso de falar com ele.
— Ele está bem — disse Mário, firme. — O Henrique está com ele. Está estável.
— Mas preciso de ouvir a voz dele. Preciso de saber que está mesmo bem.
Mário olhou para ele — e percebeu, pela marca, que não era apenas ansiedade de amigo. Era algo mais profundo. A necessidade de confirmar que o mundo ainda estava de pé.
— Amanhã — disse, com suavidade. — Hoje ele precisa de descansar. E tu também. — Fez uma pausa, deixando o mogno e a canela ficarem mais quentes, mais tranquilos, como um cobertor invisível. — Mas prometo que amanhã vais falar com ele. E quando o vires… ele próprio te vai contar o que aconteceu. Há uma coisa que ele quer dizer-te.
Gui franziu o sobrolho, curioso.
— O quê?
— Isso é dele para contar. — Mário sorriu, levantando-se. — Agora deita-te.
Gui abriu a boca para protestar, mas Mário já se estava a deitar ao lado dele, puxando-o para o peito com uma firmeza carinhosa que não admitia discussão.
— Mário…
— Dorme, anjo.
Gui suspirou, mas o corpo cedeu — como sempre cedia quando estava ali, naquele lugar que era o seu. A cabeça pousou no ombro do alfa, os olhos fecharam-se devagar.
O mogno e a canela envolveram-no como sempre faziam — firmes, constantes, seguros.
A mão de Mário deslizou até à barriga de Gui, pousando ali com uma delicadeza quase reverente. Sem dizer nada. Apenas presente.
O pêssego de Gui aqueceu sob aquele toque — mais doce, mais calmo, como se o corpo soubesse que estava protegido.
— Mário… — murmurou Gui, já a meio do sono. — Prometes-me uma coisa?
— O que quiseres.
— Se tivermos um ómega… prometes que o vais tratar como merece? Que não vai haver diferença entre alfas e ómegas nesta família?
Mário apertou-o com mais força, beijando-lhe o topo da cabeça.
— Prometo — disse, a voz firme, sem hesitação. — O nosso filho, seja ómega ou alfa, vai ser amado e respeitado. Não haverá discriminação nesta família. Nunca. Isso prometo-te.
Dois lobos. Em paz. Em casa.
Mário fechou os olhos.
🍃 🍃 🍃
A porta do quarto abriu-se uma fresta, e Lídia espreitou, curiosa, preocupada.
E encontrou os dois assim — Gui aninhado no peito de Mário, a respiração lenta e serena, a mão do irmão pousada na barriga do ómega com uma ternura que a fez parar.
Sorriu.
Fechou a porta sem fazer barulho, e foi dormir com o coração mais leve.
🍃 🍃 🍃
A manhã chegou com uma luz suave que entrava pelas janelas do hospital como uma promessa silenciosa.
Jorge estava sentado na cama, as costas apoiadas nas almofadas, o olhar perdido algures entre o teto e os seus próprios pensamentos. Os hematomas ainda ardiam, as costelas protestavam a cada respiração mais funda — mas havia algo diferente naquela manhã.
Uma leveza.
Pequena, tímida, mas real.
Henrique tinha ficado a noite toda. Estava agora sentado na cadeira ao lado da cama, o casaco dobrado sobre os joelhos, o cabelo despenteado, o olhar fixo no ómega com aquela atenção quieta que Jorge já reconhecia como amor.
— Dormiste alguma coisa? — perguntou Jorge, a voz ainda rouca de sono.
— O suficiente — respondeu Henrique, o que era claramente mentira.
Jorge sorriu, pequeno, mas verdadeiro.
— Mentiroso.
Henrique levantou-se e pousou os lábios na testa dele — um gesto tão natural, tão antigo entre eles, que Jorge fechou os olhos por um instante e se deixou ficar ali.
— Como te sentes?
— Dorido — admitiu Jorge. — Mas bem. — Fez uma pausa. — Melhor do que ontem.
Henrique voltou a sentar-se, segurando-lhe a mão.
O silêncio entre eles era confortável — do tipo que não precisa de ser preenchido.
🍃 🍃 🍃
Não demorou muito.
O corredor do hospital, normalmente tão asséptico e silencioso, foi interrompido por um som inconfundível — passos apressados, vozes baixas a tentarem conter a agitação, e uma vozinha que não se continha de forma nenhuma.
— Eu sei que ele está aqui! — dizia Alice, com toda a convicção dos seus anos. — A Alice sabe onde está o mami!
Henrique levantou-se antes mesmo de a porta se abrir.
A enfermeira que vinha atrás da menina parou à entrada, ligeiramente sem fôlego.
— Senhor, ela escapou-me na receção, peço desculpa…
— Está tudo bem — disse Henrique, com um sorriso cansado. — É família.
Alice já tinha atravessado o quarto a correr e estava de joelhos na cama, os braços abertos, os olhos brilhantes — mas assim que viu o rosto do Jorge, parou.
O sorriso hesitou.
Os olhinhos percorreram os hematomas, as ligaduras, o rosto pálido do seu mami — e encheram-se de lágrimas.
— Mami… — disse, num fio de voz. — Dói?
— Já está muito melhor, meu sol — respondeu Jorge, estendendo os braços com cuidado. — Vem cá.
Alice avançou devagar, pela primeira vez na vida sem o furacão habitual, como se soubesse instintivamente que tinha de ser gentil. Aninhou-se ao lado dele com uma delicadeza que fez o coração de todos os presentes apertar-se.
— A Alice ficou com medo — confessou, a voz abafada contra o ombro do ómega. — Quando aquele homem te levou… a Alice ficou com muito medo.
— Eu sei, princesa. — Jorge beijou-lhe o topo da cabeça.
— A Alice lembrou-se, mesmo com medo a Alice lembrou-se, e ajudou o seu mami.
A menina falou animada, na sua voz infantil, e Jorge sorria sem perceber o que se tinha passado na realidade.
Henrique sorriu ao ver a expressão confusa do seu ómega e então explicou o que Alice tentava dizer.
No final, não só o rosto, mas também os olhos de Jorge sorriam — orgulho estampado no corpo.
— Meu sol, obrigado por te teres lembrado, salvaste-nos.
Alice ergueu a cabeça, o orgulho a misturar-se com as lágrimas.
— Eu lembrei-me. Como o papi ensinou.
Henrique, que estava de pé ao fundo do quarto, engoliu em seco.
— Ensinaste muito bem — murmurou Jorge, olhando para ele por cima da cabeça da menina.
Os pais de Henrique entraram a seguir, a mãe com os olhos já húmidos, o pai com aquela postura contida de alfa que mal escondia o alívio. Vieram os abraços, as palavras baixas, os gestos de carinho que não precisavam de explicação.
E depois — a porta abriu-se mais uma vez.
🍃 🍃 🍃
Gui entrou devagar, a mão de Mário entrelaçada na sua.
Estava pálido, os olhos ainda com o vestígio vermelho de quem chorou mais do que dormiu — mas havia ali um brilho que não conseguia esconder.
Quando os olhares se encontraram, Jorge abriu não só um sorriso que não cabia no rosto, mas também os braços.
— Gui…
Gui atravessou o quarto depressa — mais depressa do que Mário esperava — e abraçou o amigo com uma força que fez Jorge soltar um gemido abafado.
— Desculpa! — Gui afastou-se de imediato, horrorizado. — Magoei-te?
— Não — mentiu Jorge, ainda a sorrir. — Está bem.
— Magoaste — disse Mário, seco, pousando a mão no ombro do seu ómega. — Vai com calma, anjo.
Gui sentou-se na beira da cama, os olhos a percorrerem o rosto do amigo com aquela atenção minuciosa que só quem ama de verdade tem.
— Estás bem mesmo?
— Estou — confirmou Jorge. — E tenho uma coisa para te contar.
Gui franziu o sobrolho.
— O quê?
Jorge olhou para Henrique, que assentiu com um sorriso.
— Estamos grávidos. Vais ser tio.
O silêncio durou apenas dois segundos.
Depois, Gui abriu a boca, fechou-a, tornou a abri-la — e começou a chorar.
— Gui… — Jorge riu, tocando-lhe no braço. — Estás a chorar.
— Sim — soluçou Gui. — Mas de felicidade! Deixa-me chorar! Tu mereces tanto, depois de tudo o que passaste.
Depois, virou-se para Henrique, com os olhos cheios de lágrimas.
— Obrigado por teres aparecido na vida do Jorge. E por não teres desistido dele. Obrigado.
Mário passou-lhe um braço pelos ombros, com um sorriso largo e genuíno.
— Eu é que agradeço o dia em que ele apareceu naquela entrevista e teve a coragem de me contar tudo, deixando-me protegê-lo e ajudá-lo.
Henrique falou com sinceridade na voz.
— Anjo, somos nós que temos de agradecer a vossa presença nas nossas vidas… Já não seríamos os mesmos sem vocês.
Mário afagou-lhe as costas e beijou-lhe a bochecha.
— Então somos dois — disse Gui, limpando as lágrimas. — Os dois grávidos ao mesmo tempo.
— Os dois — confirmou Jorge. — Imagina o caos.
Gui riu entre lágrimas, e o som foi tão genuíno, tão aliviado, que contagiou toda a sala.
🍃 🍃 🍃
Foi Alice quem quebrou o silêncio que se seguiu.
Tinha ficado quietinha ao lado de Jorge durante toda a conversa, os olhos a saltarem de pessoa para pessoa com aquela atenção de ómega que não perdia nada.
Agora, sem aviso, deslizou pelo leito e pousou as duas mãozinhas na barriga do Jorge — ainda plana, ainda sem sinais visíveis — com uma solenidade que não combinava com os seus anos.
— Olá, alfinha — disse, muito séria. — A Alice é a tua irmã mais velha. Vou ensinar-te muitas coisas.
O quarto ficou em silêncio.
Jorge olhou para a menina, depois para Henrique, os olhos arregalados.
— Alfinha? — repetiu.
— É um menino — confirmou Alice, com toda a convicção do mundo. — E é alfa. A Alice sabe.
— Como sabes tu isso? — perguntou Henrique, inclinando-se para a frente.
Alice encolheu os ombros, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— O nariz da Alice sabe.
Mário soltou um riso baixo. Gui mordeu o lábio para não rir também.
Mas Alice ainda não tinha terminado. Virou-se para Gui com a mesma solenidade e pousou uma das mãozinhas na barriga dele.
— O teu também é um menino — anunciou. — Mas é ómega. Como eu.
Gui ficou boquiaberto.
Mário olhou para a menina com uma expressão que misturava o espanto com a admiração.
— Tens a certeza, princesa?
Alice retirou as mãos e cruzou-as ao colo com uma dignidade impressionante.
— A Alice tem sempre a certeza.
O quarto explodiu em risos.
A Sra. Silva, que tinha ficado encostada à parede a observar tudo em silêncio, levou a mão à boca — mas não conseguiu conter o riso que lhe escapou, húmido de emoção.
— Meu Deus… — murmurou, abanando a cabeça. — Esta menina…
O Sr. Silva pousou-lhe a mão no ombro, os olhos brilhantes, um sorriso contido que dizia tudo o que ele raramente verbalizava.
— Avó vai ter mais bebés! — anunciou Alice, animada, virando-se para a Sra. Silva. — A Alice já gosta muito deles…
A Sra. Silva abriu os braços sem dizer nada.
E Alice foi direita a eles — como se soubesse exatamente onde era o seu lugar.
🍃 🍃 🍃
Mais tarde, quando a família foi saindo aos poucos e o quarto voltou a ficar mais quieto, Gui ficou para trás, Mário esperava no corredor, discreto, dando espaço ao que precisava de acontecer.
Os dois amigos ficaram sozinhos pela primeira vez desde que tudo tinha acontecido.
Gui olhou para Jorge durante um longo momento — para os hematomas, para o olhar mais fundo do que o habitual, para a mão que descansava sobre a barriga sem que ele próprio parecesse dar conta.
— Estás mesmo bem? — perguntou, mas desta vez era diferente. Não era a pergunta de alguém que quer ser tranquilizado. Era a pergunta de quem precisa de saber a verdade.
Jorge encontrou o olhar dele.
— Tive medo sim… muito… mas não me perdi — disse, com uma honestidade que só existia entre eles. — Sentir que a marca esteve sempre lá, e saber que vocês vinham, fez a diferença. Sentia o Henrique. — Fez uma pausa. — Ainda vai doer um tempo. Mas não me partiu, Gui. E saber que ele não é mais uma ameaça deixa o meu coração mais descansado.
Gui pousou a mão na dele, sem dizer nada.
Não havia nada a dizer.
Às vezes o silêncio entre dois amigos diz tudo o que as palavras não conseguem.
— Obrigado — murmurou Jorge, por fim.
— Porquê?
— Por teres ficado. Por teres sempre ficado.
Gui sorriu, os olhos húmidos, mas o sorriso firme.
— Para sempre — disse, simplesmente.
E foi assim — de mãos dadas, em silêncio, naquele quarto de hospital que já não parecia tão frio — que os dois perceberam que o pior tinha ficado para trás.
E que o melhor ainda estava por vir.