Capítulo 42 — Estamos Grávidos
O hospital estava a dez minutos. Pareciam dez horas.
Henrique mal sentia o próprio corpo. O banco do carro era duro demais, o cinto apertava-lhe o peito, e a cidade do lado de fora passava desfocada, feita apenas de luzes partidas e sombras sem forma. Tudo o que conseguia ver, por trás dos olhos abertos, era Jorge caído naquele chão frio. O cheiro do medo. O corpo demasiado quieto.
Ao volante, Mário mantinha as duas mãos firmes, os maxilares cerrados, a atenção inteira na estrada. Não dizia nada, porque não havia nada que pudesse dizer que desfizesse o terror a crescer dentro do amigo. Ainda assim, a sua presença era a única coisa que impedia Henrique de se desfazer por completo.
Quando finalmente estacionaram à entrada das urgências, Henrique saiu do carro antes mesmo de a ignição se desligar por completo. O ar frio da noite bateu-lhe no rosto, mas não o clareou. As portas automáticas abriram-se à sua frente com um sopro estéril, libertando o cheiro intenso a desinfetante, medicação e cansaço.
Henrique avançou depressa até ao balcão da receção, os passos descompassados, as mãos trémulas.
— Trouxeram um ómega há pouco tempo… vindo de uma agressão… Jorge Veiga — disse, e a voz falhou-lhe no nome. Engoliu em seco. — Eu preciso de saber onde ele está.
A enfermeira ergueu os olhos, habituada a familiares em pânico, mas ainda assim surpreendida pela intensidade daquele alfa. Antes que Henrique pudesse perder a pouca calma que lhe restava, Mário aproximou-se e pousou-lhe uma mão firme no ombro.
— Calma — murmurou, baixo. — Deixa-a ver.
Henrique fechou os olhos por um segundo, forçando o ar a entrar-lhe nos pulmões, mas o corpo recusava-se a obedecer. Sentia o lobo inquieto dentro de si, preso entre a necessidade de correr para Jorge e a impotência de não saber sequer em que sala o tinham levado.
A enfermeira confirmou o nome no sistema e pediu-lhes que aguardassem.
Aguardar — a palavra caiu sobre Henrique como uma crueldade.
A sala de espera parecia pequena demais para o conter. Sentou-se apenas por segundos antes de se levantar de novo. Voltou a sentar-se. Passou as mãos pelo rosto. Tornou a levantar-se. Percorreu o mesmo pequeno espaço entre a parede e as cadeiras vezes demais para conseguir contar. A cada porta que se abria, o coração disparava. A cada segundo que passava, o medo crescia.
O lobo de Henrique estava inquieto — não em fúria, mas numa agitação surda, como um animal preso que sente o seu par do outro lado de uma parede e não consegue chegar lá.
A marca no pescoço pulsava, fraca, mas constante.
Ele está aqui. Está vivo.
Era o suficiente para o manter de pé.
Mário observava-o em silêncio, mas não se afastava. Deixou que andasse, que respirasse mal, que tentasse conter um desespero impossível de disfarçar. Só intervinha quando era preciso — um copo de água que Henrique não quis, uma mão no braço quando ele parecia prestes a correr corredor adentro, uma presença firme que segurava a realidade no lugar.
— Henrique. — Mário falou baixinho, sem o olhar. — Ele é forte. Já sobreviveu a coisas que partiriam qualquer um.
Henrique não respondeu de imediato. Apenas fechou os olhos e respirou fundo, deixando o cheiro asséptico do hospital entrar nos pulmões como uma âncora ao presente.
— Eu sei — disse, por fim. — Só não consigo deixar de pensar que devia ter estado lá.
— Estavas. — Mário virou-se para ele, firme. — O teu lobo esteve lá. A marca esteve lá. E tu chegaste a tempo.
Henrique abriu a boca para responder, mas a porta lateral abriu-se nesse momento e um médico de bata branca aproximou-se com passos calmos.
— É o acompanhante do Sr. Jorge Veiga? — perguntou, olhando para Henrique.
— Sou. — Henrique levantou-se de imediato. — Como está ele?
O médico acenou para que o seguisse até um espaço mais reservado. Mário ficou para trás, mas Henrique olhou para ele por cima do ombro.
— Vem.
Mário seguiu sem hesitar.
O médico falou com a calma de quem já deu más notícias muitas vezes — não fria, mas contida, profissional.
— O seu companheiro tem vários hematomas, duas costelas fissuradas e algumas lacerações superficiais. Nada que não recupere com repouso e tempo. — Fez uma pausa, consultando a folha na mão. — Há apenas uma coisa que precisamos de monitorizar com mais atenção nos próximos dias — a gravidez. Dado o impacto físico que sofreu, vamos querer ter a certeza de que está tudo bem com o bebé. Por enquanto os sinais são estáveis, mas recomendo repouso absoluto durante pelo menos uma semana.
Henrique ficou imóvel.
O médico continuou a falar — sobre medicação, sobre acompanhamento, sobre a consulta de obstetrícia já marcada para o dia seguinte.
Mas Henrique já não ouvia.
A gravidez… a palavra martelava-lhe na cabeça como mil martelos.
O médico dissera como se fosse algo conhecido, como se fosse apenas mais um item na lista de cuidados a ter. Como se Henrique soubesse.
Mas não sabia.
Não tinha ideia.
Sentiu a mão do Mário pousar-lhe no ombro — firme, presente — e percebeu que o amigo tinha ouvido, e estava a processar.
— Obrigado — conseguiu dizer, a voz surpreendentemente estável. — Podemos vê-lo agora?
— Sim. Está acordado e estável. Sala 14, pelo corredor à direita.
O médico afastou-se.
O silêncio que ficou entre os dois durou apenas um segundo — mas foi um silêncio denso, cheio de tudo o que nenhum dos dois sabia ainda como nomear.
— Henrique… — começou Mário.
— Estou bem. — A voz falhou ligeiramente. — Eu… preciso de um segundo.
Encostou-se à parede, os olhos fechados, uma mão pousada no peito sobre a marca.
Um filho.
O seu ómega estava vivo. E carregava o seu filho.
Quando abriu os olhos, estavam húmidos — mas havia ali algo mais do que lágrimas. Havia uma certeza nova, quente, inabalável.
— Vamos — disse, endireitando-se.
🍃 🍃 🍃
A sala 14 estava mergulhada numa luz suave.
Henrique parou à porta por um instante — só um instante — e tirou o telemóvel do bolso.
As mãos ainda tremiam ligeiramente.
📞 — “Mãe, está tudo bem? Preciso de te dizer uma coisa…” — A voz de Henrique saiu trémula, quase irreconhecível.
Do outro lado da linha, a mãe estranhou de imediato o telefonema àquela hora.
📞 — [Filho, está tudo bem? Precisas de alguma coisa?] — perguntou, já inquieta.
Henrique tentou responder, mas ouvir a voz da mãe foi como quebrar a última barreira que ainda o mantinha de pé.
Do outro lado, o coração da Sra. Silva apertou-se. Um pressentimento sombrio atravessou-lhe a alma.
Só tinha visto o filho chorar daquela forma uma única vez: quando recebeu a notícia da morte do irmão e do cunhado.
📞 — [Henrique… o que se passa?] — insistiu ela, agora claramente assustada. — [Filho?]
Henrique tentou falar, mas a voz não lhe saiu. Com as mãos a tremer, passou o telefone a Mário.
📞 — “Mãe, sou eu, o Mário” — disse ele, com calma. Depois, de forma breve e clara, explicou o que estava a acontecer. — “O Henrique precisa de vocês aqui.”
📞 — [Nós vamos já a caminho.] — respondeu ela, sem hesitar.
Mário desligou e devolveu o telefone a Henrique. Este agradeceu-lhe apenas com o olhar. Não precisavam de palavras; conheciam-se bem demais.
🍃 🍃 🍃
Henrique tentou acalmar-se — a si e ao lobo. Mário deu-lhe um leve impulso no ombro.
Quando Henrique finalmente entrou, Mário ficou do lado de fora. Foi então a sua vez de pegar no telemóvel e ligar para saber do Gui, enquanto tentava acalmar a mãe, ainda consumida pela culpa por tudo o que estava a acontecer.
Mário prometeu que iria para casa assim que pudesse, mas sabia que, naquele momento, não conseguia deixar Henrique sozinho. O amigo ainda precisava dele.
D. Olívia garantiu-lhe que o Gui estava bem e que a Alice tinha ficado com o cunhado e com a irmã, entretida a brincar com as sobrinhas.
🍃 🍃 🍃
Henrique entrou quase em silêncio.
Jorge estava deitado na cama, o rosto voltado para a janela, os olhos abertos, mas distantes. Os hematomas eram visíveis mesmo da porta — no rosto, no pescoço, nos braços que descansavam sobre o lençol.
O cheiro de morangos chegou-lhe de imediato — fraco, cansado, mas presente.
Está aqui. Está vivo.
O lobo sossegou.
Jorge virou a cabeça ao ouvir os passos e, quando viu Henrique, os olhos encheram-se de lágrimas antes que conseguisse dizer uma palavra.
Henrique atravessou o quarto em três passos e ajoelhou-se ao lado da cama, pegando nas mãos do ómega com um cuidado quase reverente — como quem segura algo que quase perdeu.
— Lobinho… — a voz saiu rouca, partida. — Estou aqui.
— Desculpa — disse Jorge, imediatamente, as lágrimas a escorrerem. — Desculpa, eu tentei resistir… tentei proteger a Alice… mas ele era mais forte e eu não consegui…
— Para. — Henrique apertou-lhe as mãos com mais força. — Não há nada a desculpar. Fizeste exatamente o que devia ser feito. Protegeste a Alice com o teu corpo. E estás aqui.
— Mas ele bateu-me… e eu não consegui fazer nada… fiquei ali no chão…
— Eu sei. — A voz de Henrique não tremeu — mas os olhos sim. — E ele nunca mais vai fazer mal a ninguém. Acabou, lobinho. Desta vez acabou mesmo.
Jorge fechou os olhos, as lágrimas a continuarem silenciosas.
— A marca funcionou… ele não me tocou. Mas tinha tanto medo…
— A marca protegeu-te. — Henrique encostou a testa à dele. — E eu cheguei. Tu aguentaste até eu chegar. Lobinho… há uma coisa que preciso de te contar. É sobre ti… sobre nós… algo que o médico acabou de me dizer.
Jorge franziu ligeiramente o sobrolho, preocupado. Ainda assim, o brilho contido nos olhos de Henrique acalmou-o um pouco.
— O quê?
Henrique respirou fundo, sem desviar o olhar. Entrelaçou os dedos nos dele e, com a outra mão, tocou-lhe de leve na barriga.
— Estamos grávidos.
As palavras atingiram Jorge em cheio, e o silêncio que se seguiu não nasceu do desconforto, mas do peso inesperado daquela realidade.
Ficou imóvel, os olhos presos nos de Henrique, como se precisasse de confirmar que tinha ouvido bem.
— Nós… o quê?
— Estamos grávidos — repetiu Henrique. Desta vez, a voz tremeu, não de tristeza, mas de emoção. A mão continuou a acariciar-lhe a barriga, como se, naquele gesto, coubesse todo o amor que sentia por ele… e pela vida que crescia dentro dele. — O médico falou disso com tanta naturalidade que parecia um dado adquirido. Eu não sabia. Mas… — engoliu em seco — …estamos bem. Os dois estão bem.
As lágrimas voltaram — mas eram diferentes agora.
Jorge deixou repousar a sua mão sobre a do alfa, um gesto tão profundo, que Henrique sentiu o coração apertar-se de uma forma que não tinha palavras.
— Um filho — murmurou Jorge, a voz pequena, espantada. — Nós vamos ter um filho.
— Vamos — confirmou Henrique, sorrindo pela primeira vez desde que a ambulância tinha saído.
Jorge olhou para ele com uma expressão que misturava o choro com o riso.
Henrique riu — um riso baixo, trémulo, mas genuíno — e levou a mão do ómega aos lábios, beijando-a com uma ternura que dizia tudo o que ainda não conseguia verbalizar.
A marca aqueceu entre eles — suave, constante, como uma promessa cumprida.
🍃 🍃 🍃
Mário tinha ficado junto à porta, discreto, dando espaço ao que precisava de acontecer, mas quando ouviu o riso baixo de Henrique e sentiu o ar do corredor mudar — o pinho e baunilha a ficarem mais quentes, o morango a ganhar força — soube que estava tudo bem.
A porta abriu-se suavemente. Os pais de Henrique entraram com os passos cuidadosos de quem não quer interromper — e Mário recuou um passo, deixando-lhes espaço.
A Sra. Silva parou ao ver o filho ajoelhado ao lado da cama, as mãos entrelaçadas nas de Jorge, o rosto molhado de lágrimas que não tentava esconder.
O Sr. Silva pousou-lhe a mão no ombro, os olhos brilhantes.
Foi então que Jorge os viu — e sorriu, com os olhos ainda húmidos.
— Vamos ser pais.
A Sra. Silva levou a mão à boca. Ninguém disse nada. Não era preciso.
— Fico feliz, Jorge. Muito feliz. Vocês merecem. Mas agora vou embora. O meu ómega precisa de mim.
— Mário, deixa ser eu a contar ao Gui sobre a gravidez.— Jorge pediu, a felicidade na voz e no olhar.
Henrique assentiu, os olhos a dizerem o que as palavras não conseguiam.
Mário saiu do quarto com passos calmos — mas o coração acelerado.
O Gui estava à sua espera.
E havia muito para contar.