top of page

Capítulo 41 — Os Lobos

         Quando Mário e Gonçalo chegaram a casa de Henrique, ele entrou com a chave que guardava para emergências — tal como Henrique tinha uma da casa de Mário — e a cena que encontraram apertou-lhes o coração.

         O amigo, sempre tão composto, estava sentado no chão, a chorar, agarrado a uma das camisas de Jorge e a cheirá-la como se aquilo fosse a única coisa que o mantinha de pé.

         Mário sentiu um nó na garganta ao vê-lo assim.

        Gonçalo hesitou antes de se aproximar, tocado pela dor crua que pairava no ar.

— Henrique? — chamou Mário, a voz baixa, mas firme, tentando transmitir alguma esperança. — Nós vamos encontrá-los, prometo.

         Henrique apertava o tecido com força, os olhos marejados, a respiração descompassada.

— Porquê que os levaram…? Quem era aquele homem? Porquê eles…? — a voz mal lhe saía, quebrada entre medo e incredulidade.

         Mário respirou fundo, sentindo o peso da verdade.

— Henrique… desculpa dizer assim… mas acho que quem os raptou foi o meu padrasto.

          Gonçalo manteve-se em silêncio, as mãos fechadas em punho, o olhar decidido.

O teu padrasto? — Henrique levou a mão ao peito, o coração a acelerar. — Porquê que ele faria isto? Isto não faz sentido, Mário…

— Henrique, ouve. O Carlos é… o pai do Gui.

          Henrique ficou boquiaberto, a mente a tentar encaixar as peças.

— Como assim? O teu padrasto é mesmo o pai do Gui?

— É. O Marcos está com o meu ómega, que ficou em choque ao vê-lo. A minha mãe e a Lídia também estão lá. O Carlos… ele sempre foi instável. E agora parece querer vingança.

          Gonçalo respirou fundo, assumindo o controlo.

— O que importa agora é encontrá-los. A Alice e o Jorge tinham telemóveis?

O Jorge sim… mas depois da chamada ficou desligado. A Alice ainda não tem. — Henrique limpou as lágrimas, tentando manter a voz firme.

— Isso não ajuda — murmurou Gonçalo, frustrado.

         De repente, Mário ergueu a cabeça, os olhos arregalados.

— Henrique… tu não tinhas dado um dispositivo de localização à Alice?

          Henrique piscou, como se a mente tivesse finalmente acordado.

— Sim… sim! Se ela precisasse de ajuda, devia ligá-lo… está conectado ao meu telemóvel…

— Onde está o telemóvel? — perguntou Gonçalo, já a aproximar-se.

          Com as mãos a tremer, Henrique entregou-lho.

— Desbloqueia — pediu Gonçalo.

          Henrique deu a senha, e Gonçalo abriu rapidamente a aplicação, onde o ponto no mapa brilhava no ecrã, fixo, imóvel, como uma agulha cravada no peito de Henrique.

— Ela lembrou-se… — murmurou ele, a voz a tremer. — A minha menina lembrou-se…

          Mário pousou uma mão no ombro dele.

Vamos buscá-los.

         Gonçalo já estava ao telemóvel, a voz firme, profissional.

— Aqui é o inspetor Gonçalo Silva. Enviem todas as unidades disponíveis para o endereço que vou enviar. É urgente.


🍃 🍃 🍃


         Jorge e Alice foram levados de carro por algum tempo até um local afastado da cidade — uma fábrica abandonada. O ambiente sombrio e degradado intensificava a sensação de perigo, tornando cada som um motivo de alerta.

         O ar mudou assim que Carlos empurrou a porta enferrujada.

         Um cheiro pesado escapou de dentro — uma mistura de ferrugem antiga, humidade entranhada nas paredes e óleo velho que parecia ter impregnado o chão para sempre.

         Era um cheiro que colava à garganta, que fazia o estômago apertar.

         Jorge sentiu a pele arrepiar-se. Alice, agarrada ao braço dele, encolheu-se ainda mais.

        O interior era frio, muito mais frio do que o exterior, o tipo de frio que não vinha do clima, mas do abandono, da ausência de vida, da memória de máquinas que já não existiam.

         A luz entrava por janelas partidas, criando feixes estreitos que cortavam o pó suspenso no ar.

        Cada passo levantava pequenas nuvens cinzentas que brilhavam nesses feixes, como se o ar estivesse cheio de cinzas.

        O som ecoava.

        O gotejar de água num canto distante. O ranger metálico de uma chapa solta ao vento. O arrastar dos passos deles no chão de cimento rachado.

         Alice apertou a mão de Jorge.

— Cheira mal… — murmurou ela, quase num sussurro.

— Eu sei, meu amor… — respondeu ele, tentando manter a voz firme. — Fica perto de mim.

          Mas por dentro, Jorge tremia.

         O cheiro a ferrugem misturava-se com algo mais… algo que só um ómega reconhecia:

         O cheiro do perigo, do instinto, da intenção.

         E o lobo dentro dele reconhecia-o também. Não rosnou. Não havia força para isso. Mas estava ali — quieto, tenso, os sentidos todos apontados para o homem que caminhava à frente. Vigilante. A registar cada detalhe.

          Carlos caminhava à frente, o som das botas ecoando como golpes secos, a cada passo, Jorge sentia a marca no pescoço pulsar — não de dor, mas de alerta. Como se o corpo dele soubesse antes da mente que aquele lugar era errado, que nada de bom acontecia ali.

          Passaram por corredores estreitos, paredes manchadas de humidade, portas partidas que davam para salas vazias. O chão estava coberto de pedaços de madeira, metal e vidro. A fábrica parecia um esqueleto gigante, abandonado, mas ainda assim ameaçador.

          Quando chegaram à sala principal, o espaço abriu-se à frente deles — enorme, vazio, com sombras longas que se moviam com o vento.

         Jorge engoliu em seco. Alice agarrou-se mais a ele.

         E a marca…

        A marca começou a aquecer.

        Como se soubesse que o Henrique estava longe demais.

         Como se estivesse a tentar protegê-lo antes mesmo de o perigo se revelar.


🍃 🍃 🍃


No carro, o silêncio pesado foi cortado por um rosnar.

        A marca de Henrique ardeu — mas foi o lobo quem reagiu primeiro.

        Tudo dentro de Henrique gritava.

— Mário… — a voz dele saiu rouca, quase um rosnar. — Eu sinto… a marca a arder…

        A tensão era quase palpável.

        O ar parecia denso, e cada respiração de Henrique era pesada, impregnada de um cheiro metálico que evocava sangue e perigo. Apenas o bater frenético do seu coração e o rosnar surdo que escapava por entre os dentes quebravam o silêncio.

        Os olhos de Henrique ficaram vermelhos, e o calor da marca espalhou-se pelo corpo num arrepio quase febril. As presas despontaram devagar, enquanto as garras rompiam gradualmente a pele — como se o lobo estivesse a espreitar à superfície, pronto para rasgar, para sair.

        Mário, ao seu lado, permanecia em silêncio, mas o lobo dentro dele tornara-se alerta. O coração acelerou involuntariamente; os punhos fecharam-se por reflexo, as unhas pressionando contra a pele, a tensão percorrendo cada fibra do corpo.

         A mente de Mário fugiu por instantes para Gui, desmaiado em casa, e para o filho por nascer. A mistura de medo e proteção transformou-se num ódio ardente, que parecia corroer-lhe o estômago.

         Os lobos empurravam por dentro — não como fúria, mas como urgência. Os ossos pediam espaço. A pele formigava. Respirar era um esforço para não ceder.

          Mas sentiam que ainda não era a altura para isso.

         Ainda não.

         Ainda conseguiam manter o controlo — por um fio.

        Gonçalo olhou-os pelo retrovisor, o coração apertado.

— Aguentem só mais um pouco. Estamos quase.


🍃 🍃 🍃


         Carlos empurrou-os para dentro de uma sala que parecia ter sido, em tempos, um escritório, mas agora, era apenas um espaço frio e cinzento, onde a luz do dia entrava por janelas partidas, desenhando retângulos pálidos no chão coberto de pó.

          Uma mesa metálica, torta e enferrujada, ocupava o centro da sala, duas cadeiras velhas, uma com uma perna partida, estavam encostadas à parede.

         O ar ali dentro era ainda mais pesado — cheiro a mofo, a madeira húmida, a ferrugem que se desfazia ao toque.

        Alice agarrou-se ao braço de Jorge, mas Carlos puxou-a com força.

— Anda cá, miúda — rosnou ele, empurrando-a para uma das cadeiras. — Senta-te aí e não te mexas.

         Alice fez menção de se levantar, mas ao ouvir a voz do alfa, estremeceu e sentou-se novamente, assustada, embora ainda com o queixo erguido.

         Os olhos grandes e brilhantes, iguaizinhos ao de Jorge, fixaram-se nele, como se tentassem protegê-lo só com a força do olhar.

         Carlos virou-se para o ómega.

— Tu… — sussurrou, avançando lentamente, tal como um predador observa a sua presa. — Estás bonito; na verdade, ainda mais bonito do que antes. Os sentimentos que me provocas permanecem os mesmos.

         Carlos avançava sobre Jorge.

         Jorge recuava.

        As costas bateram na parede fria, o coração batia tão rápido que parecia querer fugir do peito.

        A marca no pescoço começou a aquecer — primeiro um calor suave, depois uma ardência que se espalhou pelo corpo inteiro.

         Carlos estendeu a mão para tocar-lhe o rosto.

         E a marca reagiu.

         Um calor intenso atravessou o corpo de Jorge, como se algo dentro dele gritasse "não".

        A respiração falhou, os músculos contraíram-se, e a pele ardeu sob o toque que nunca chegou a acontecer.

        O lobo e a marca a falarem a mesma linguagem — a protegerem o ómega quando o homem não conseguia fazê-lo sozinho.

         Carlos recuou de imediato, como se tivesse levado um choque.


🍃 🍃 🍃


         Henrique arquejou.

        A mão foi instintivamente ao pescoço, sobre a marca que ardia como fogo vivo.

       O corpo dobrou-se para a frente, um rosnar profundo escapando-lhe da garganta.

— Henrique! — Mário virou-se para ele, alarmado.

         Mas o alfa já não o ouvia, os olhos escureceram num segundo, as pupilas dilatadas, selvagens.

        O lobo empurrava por dentro, rasgando, exigindo sair.

Ele tentou tocá-lo… — rosnou Henrique, a voz já não humana. — Eu senti… ele tentou…

         O carro encheu-se de um cheiro quente, metálico, instintivo — o cheiro do lobo prestes a romper.

        Mário sentiu o seu próprio lobo reagir, os pelos dos braços eriçados, o coração acelerado.

— Aguenta só mais um pouco — pediu Gonçalo, a voz tensa. — Estamos quase.

    Mas Henrique já não estava a ouvir ninguém, a marca ardia como se estivesse a ser queimada por dentro.

        O lobo queria sangue, queria proteger, queria chegar ao ómega.

        E estava a um fio de o conseguir.

        O primeiro sinal foi o cheiro.

        O ar dentro do carro mudou — ficou mais denso, mais quente, carregado de algo primitivo que não tinha nome humano. O mogno e a canela de Mário intensificaram-se até se tornarem quase sufocantes, e o pinho e baunilha de Henrique transformaram-se em algo mais cru, mais selvagem — como se a madeira tivesse pegado fogo por dentro.

         Gonçalo abriu a janela instintivamente, os pulmões a pedir ar.

        Henrique sentiu os ossos moverem-se sob a pele — não com dor, mas com uma pressão irresistível, como se o corpo fosse pequeno demais para o que carregava dentro. Os tendões nos braços endureceram.      As mãos espalmadas no banco da frente deixaram marcas onde as garras começavam a rasgar o couro.

— Henrique… — murmurou Mário, a voz tensa. — Olha para mim.

         Mas os olhos de Henrique já não eram os seus. Eram vermelhos — não o vermelho suave do desejo, mas o vermelho profundo do lobo prestes a romper, cheio de uma fúria antiga que não reconhecia paredes nem portas.

        O rosnar que saiu da garganta dele não era humano.

        Mário sentiu o seu próprio lobo responder — não em desafio, mas em reconhecimento. Como se dissesse: eu estou contigo. Vamos juntos.

— Aguenta — repetiu Gonçalo, a voz tensa, mas firme. — Trinta segundos.


🍃 🍃 🍃


— O quê…? — rosnou Carlos, irritado. — Marca de alfa…

          Deu uma gargalhada que roçava a loucura antes de dizer:

— Achas mesmo que isso me vai impedir de o fazer contigo… e quem sabe com aquela ali…?

          Apontou para a menina, que continuava de cabeça erguida na cadeira.

O que me apetecer?

          Outra gargalhada sinistra ecoou pela sala, mas o que ele não notou foi o pequeno sorriso no rosto da Alice — um sorriso quase invisível, mas cheio de coragem.

          Carlos voltou a avançar sobre o ómega, Jorge levou a mão ao pescoço, arfando, o corpo a tremer.

         A marca pulsava, viva, protetora, como se o Henrique estivesse ali — mesmo estando longe demais.

        Alice levantou-se meio centímetro da cadeira, instintivamente, mas Carlos virou-se para ela num segundo.

— Senta-te! — gritou ele.

         A menina voltou a encostar-se, mas sem desviar os olhos do Jorge.

— Não me vais tocar de novo… — sussurrou Jorge, a voz fraca, mas firme.

         A frustração de Carlos transformou-se em raiva, agarrou Jorge pelo braço e atirou-o ao chão com violência, fazendo-o bater com a cabeça, a visão a ficar turva.

         Alice gritou.

— Não! Deixa-o! — tentou puxar o braço de Carlos, desesperada.

         Ele empurrou-a para o lado, irritado.

— Cala-te, miúda!

         E voltou-se para Jorge, descarregando a raiva com murros e pontapés — não por desejo, mas por frustração, por não conseguir quebrar a marca.

         A dor atravessou o corpo de Jorge…

         O lobo do Jorge recebeu cada golpe já sem conseguir proteger, já sem conseguir resistir. Apenas presente. Apenas a aguardar. O seu alfa viria. Ele sabia.

         E atravessou o corpo de Henrique, a poucos metros dali.

        O alfa levou a mão ao peito, a marca a arder como fogo vivo, sentia cada golpe como se fosse nele mesmo.

— Não… — o grito desesperado, misturado com um rosnar, ecoou pela estrada. — Deixei de o sentir. Mário… deixei de o sentir!

        Finalmente, Henrique cedeu lugar ao lobo.

         A transformação não foi violenta.

         Foi inevitável.

         Como uma onda que se forma ao longe e que nenhuma força do mundo consegue parar, a pele de   Henrique estremeceu numa onda que desceu dos ombros até às mãos. O pinho e a baunilha explodiram no ar — tão intensos que Gonçalo encostou o braço ao nariz — transformados em algo que já não era perfume, era território, era aviso, era promessa de proteção.

          Os olhos ficaram completamente vermelhos, as garras romperam por inteiro.

        E o lobo saiu — não a correr, não a rosnar — mas com uma calma selvagem que era mais assustadora do que qualquer fúria. Era um predador que sabia exatamente onde ia e o que ia fazer.

        O lobo de Mário seguiu sem hesitar.

        Dois lobos. Uma intenção.

         Gonçalo saiu do carro atrás deles, a pistola na mão, mas sabia — naquele momento, não eram precisas balas.

        Eram precisos lobos.


🍃 🍃 🍃


         Alice, desesperada, jogou o corpo pequeno à frente de Jorge, tentando protegê-lo com o que tinha — que não era muito, mas era tudo.

          Carlos agarrou-a pelo braço com uma força que a fez soltar um grito, puxando-a para si, usando-a como escudo entre ele e a porta.

— Afastem-se! — rosnou ele, recuando, o olhar a saltar entre a entrada e o ómega caído no chão.

         Mas o cheiro chegou antes dos lobos.

        Pinho e baunilha — Selvagem, primitivo, inconfundível.

        E depois o som.

        Não um rosnar. Não um grito.

        Apenas dois lobos a entrar pela porta, com a calma de quem já ganhou antes de começar.

        Carlos sentiu as pernas tremerem.

        E pela primeira vez naquela noite, foi ele quem recuou.


🍃 🍃 🍃


         O ómega sentiu o ardor da marca mais forte — e depois sentiu algo mudar no ar.

        O seu lobo reconheceu-o antes da mente.

        Henrique.

        E dentro do caos, dentro da dor, dentro do medo — o corpo de Jorge finalmente largou.

        Não de fraqueza.

        De confiança.

       O alfa estava ali.

       E isso era suficiente.


🍃 🍃 🍃


         Os pneus do carro chiaram no asfalto, e as portas abriram-se quase ao mesmo tempo.

         O lobo de Henrique — negro como breu — saltou primeiro.

        O lobo de Mário, cinzento e imponente, veio logo atrás.

         Passaram pelos agentes da polícia sem lhes dar atenção, que tensos, ergueram as armas por instinto… mas baixaram-nas quando viram Gonçalo sair do carro e fazer-lhes sinal de que estava tudo sob controlo.

         Os lobos entraram no edifício.

        O lobo preto parou por um instante na entrada, as narinas a trabalhar, o cheiro chegou-lhe como um murro — o aroma de morangos que conhecia melhor do que o seu próprio nome, mas distorcido, partido, misturado com sangue e medo e dor.

         Um rosnar baixo, profundo, saiu-lhe do peito.

        O lobo cinzento tocou-lhe o flanco com o focinho — não em desafio, mas em apoio. Estou aqui.  Vamos juntos.

         E avançaram.

         Gonçalo e alguns agentes seguiram-nos de perto.

         O lobo preto avançava como uma flecha, guiado pelo odor do seu ómega, enquanto o lobo cinza mantinha-se colado a ele, vigilante.

          O cheiro tornava-se cada vez mais intenso, mais urgente, mais errado.

        O lobo preto sofria — sentia a dor do seu ómega, sentia o medo, sentia o que tinha acontecido.

        A sala onde entraram era fria e sombria, mas o lobo preto viu-o antes de qualquer outro.

        Caído no chão, imóvel, o rosto voltado para o lado, o corpo numa posição que dizia tudo o que as palavras não conseguiriam.

        O lobo parou.

        Não de medo — mas de uma dor tão profunda que parecia rasgar-lhe o peito por dentro. O aroma de morangos estava ali, fraco, irregular, mas estava. O ómega respirava.

        O lobo baixou a cabeça, um som baixo e trémulo a escapar-lhe — não um rosnar, mas quase um lamento. Como se o instinto soubesse que a ameaça já tinha passado, mas o corpo ainda não acreditasse.

        A marca ardeu uma última vez — e depois aqueceu.

        Reconhecimento. Alívio. Pertença.

        O seu ómega estava ali.

        Estava vivo.

        Jorge estava caído no chão, com sinais claros de agressão: feridas, hematomas, respiração fraca.

        Alice estava presa contra o corpo de Carlos, usada como escudo.

— Eu tenho a menina… vão deixar-me ir! — gritou Carlos, desesperado. — Vou levá-la comigo… vale bom dinheiro… e aquele ómega continua útil…

         O lobo preto rosnou, mas sabia que, se atacasse naquele momento, a menina podia sair magoada.

         Mas Alice era esperta, e aproveitando um pequeno deslize, virou o rosto e mordeu com força a mão que lhe tapava a boca.

        Carlos soltou a menina com um grito de dor, a mão a sangrar.

        Alice correu.

         E Carlos, percebendo que tinha perdido o escudo, virou-se para a saída, e tentou correr.

        Foi o último erro que cometeu.

        Gonçalo não hesitou — a voz firme, a arma já apontada.

— Polícia. Para!

        Mas Carlos não parou… e o disparo ecoou pela fábrica como um trovão.

         Mas Carlos não parou… e o disparo ecoou pela fábrica como um trovão.

         Carlos caiu sem um som, o corpo a bater no chão de cimento com uma pesada finalidade.

         O lobo preto virou-se para o som — mas o perigo já não estava ali.

         A ameaça tinha acabado.

         A transformação de volta foi lenta, quase reverente.

         Primeiro os olhos — o vermelho a ceder ao castanho, devagar, como luz a voltar a uma sala escura.

        Depois a pele — o formigamento a dissipar-se, os músculos a relaxarem, o corpo a lembrar a sua forma humana.

         Mário caiu de joelhos primeiro, as mãos no chão, a respiração pesada.

         Henrique seguiu-o um segundo depois — e mal recuperou a forma, já estava a arrastar-se para onde       Jorge estava.


🍃 🍃 🍃


          A ambulância, que aguardava ordens, avançou imediatamente.

         Gonçalo tinha sido o primeiro a pedir reforços médicos assim que entrou na sala.

Lobinho… lobinho! — soluçava Henrique. — Acorda, meu amor… por favor…

— Senhor, deixe-nos trabalhar — pediu o médico, aproximando-se com cuidado.

          Henrique afastou-se apenas quando sentiu uma mão pequenina puxar-lhe a camisa.

— Papi… por favor… deixa eles tratarem da mami… — pediu Alice, com os olhos cheios de lágrimas.

          Henrique abraçou-a com força e recuou.

         Mesmo sob os cuidados da equipa médica, Jorge não acordava, tinha ferimentos visíveis, perda de sangue e estava muito fraco.

— Senhor, vamos ter de o levar para o hospital — disse o médico. — Ele precisa de ser examinado. Vamos levá-lo para o hospital central imediatamente.

          O lobo rosnou dentro de Henrique, com vontade de saltar e correr atrás da ambulância, mas no seu colo tinha Alice, que tentava confortá-lo, fazendo-lhe festinhas, a cabeça encostada ao peito do alfa.

Papi, a mami vai ficar bem. Alice tem a certeza.

— Espero que sim, Princesa. Espero que sim.

— A mami prometeu que não voltava a sair da vida da Alice. Ele não vai fugir de novo. Alice sabe disso.

           As palavras da menina fizeram o coração de quem a ouvia bater de emoção.

— Eu vou lá ter — disse Henrique, por fim.


🍃 🍃 🍃


           A ambulância saiu com sirenes ligadas.

Vocês podem ir — disse Gonçalo. — Eu fico por aqui mais um pouco. Depois vou ter convosco ao hospital.

— Obrigado por tudo… — murmurou Henrique. — Se não fossem vocês… eu só quero que ele fique bem. Pensar em perdê-lo… deixa-me louco.

— Vai correr bem — garantiu Mário.

— Levas a Alice até casa da tua mãe ou da minha, por favor? — pediu Henrique.

— Nem penses — respondeu Mário. — Não te vou deixar sozinho. Vou ligar à tua mãe, contar o que aconteceu. Ela vai querer ir ao hospital e ficar com a Alice. E o Gui está bem, está a dormir e vigiado. Não pode saber de nada ainda.

— Vão indo… eu fico com a Alice — disse Gonçalo. — Ficas comigo, princesa? Tens de deixar o papi e o titi irem tratar da mamã, está bem?

— Sim… — respondeu ela, baixinho.

Foste muito esperta e muito corajosa — disse Gonçalo, sorrindo-lhe.

Liguei o sinalzinho… como me ensinaram. Fiz bem?

— Fizeste muito bem. Salvaste a tua mamã.

— Sim. Eu fico bem.

— Um dos nossos carros vai levá-los ao hospital — disse Gonçalo.

— Obrigado por tudo — disse Henrique. — Vamos passar por casa para mudar de roupa e depois seguimos para o hospital.

— A família serve para isso mesmo.

         Os dois saíram, ambos com o rosto marcado pela preocupação.

— Mário… eu fico bem. Vai ter com o Gui.

Nem pensar. O Gui está bem. O Jorge não está. E tu precisas de mim. Vou ligar aos teus pais e depois à minha mãe.

         Mário falou com os pais de Henrique, que saíram imediatamente para o hospital.

         Depois ligou para casa.

📞 — [Filho, fica com o Henrique. Ele precisa de ti. O Gui fica bem connosco. Ainda dorme. Marcos tratou disso. Assim fica até tu chegares e poderes falar com ele. E pede desculpa ao Henrique por mim.]

📞 — “Mãe, tu não tiveste culpa.”

           Foram deixados em casa pelo carro da polícia, mudaram de roupa rapidamente e seguiram para o hospital.

         Nenhum dos dois falou durante o caminho.

        O hospital estava a dez minutos. Pareciam dez horas.

bottom of page