Capítulo 40 — A Verdade
O grito de Gui ainda ecoava pela sala quando o pânico tomou conta de tudo.
— Por favor… tira-me daqui!
As duas crianças foram as primeiras a reagir, parando de brincar, os olhos muito abertos, e num segundo correram para os pais, agarrando-se às pernas deles com força. Uma delas começou a chorar baixinho.
— Lídia, leva-as daqui! — murmurou Gonçalo, já a pegá-las ao colo.
A irmã de Mário não hesitou, agarrou as meninas, uma de cada lado, e começou a empurrá-las para fora da sala, protegendo-as com o corpo enquanto o caos começava a instalar-se atrás dela.
E foi nesse momento, com as crianças a desaparecerem pelo corredor, que o homem deu um passo em frente.
O ómega tremia nos braços de Mário, o corpo inteiro a pedir fuga.
O cheiro do pânico dele era tão forte que o lobo de Mário rosnou por dentro, inquieto, a exigir proteção.
Carlos avançou mais um passo, o sorriso frio a cortar o ar.
— Então é isto — disse ele, num tom carregado de desprezo. — O meu filho… aqui.
Fez uma pausa, avaliando Mário de cima a baixo.
— O mundo é pequeno.
Depois, acrescentou com um sorriso ainda mais venenoso:
— Deve ter algum mérito para te manter assim preso. — Os olhos de Carlos brilhavam — não de amor fraternal, mas de ódio. — Ele nunca me enganou. É um oferecido… como qualquer ómega.
Mário congelou, o cheiro, a voz, a postura — tudo encaixou num segundo.
— Não… — murmurou, quase sem ar. — Não pode ser.
O lobo empurrou-lhe o peito por dentro, furioso, pronto a atacar, os olhos de Mário escureceram, a respiração tornou-se pesada.
— Mário? — chamou D. Olívia, assustada. — O que se passa?
Carlos riu, como se estivesse a saborear o momento.
— Sempre tão fraco — disse ele, olhando para Gui como se fosse nada.
O ómega encolheu-se no canto, as mãos na cabeça, o corpo a tremer como se estivesse a ser esmagado por memórias.
Mário deu um passo à frente, o instinto a dominar.
— Não lhe fales assim — rosnou, a voz mais grave do que a sua própria. — Nem mais uma palavra.
Carlos ergueu uma sobrancelha, provocador.
— Continua igual. Sempre a proteger quem não vale nada.
O lobo de Mário explodiu.
Ele avançou num impulso puro, instintivo, pronto a derrubar Carlos — mas Gonçalo foi rápido.
— Mário, não! — gritou, agarrando-o pelos ombros antes que o impacto fosse maior.
Mário ainda assim empurrou Carlos com força suficiente para o fazer recuar, mas o toque firme de Gonçalo impediu que fosse pior.
O corpo de Mário vibrava de raiva, o lobo a rosnar tão alto dentro dele que parecia ecoar pela sala.
Lídia e o irmão mais novo continuavam agarrados um ao outro, mas o medo entre eles só aumentava.
O cheiro pesado de adrenalina e raiva fazia os seus lobos encolherem ainda mais, como se procurassem esconder-se dentro deles.
O irmão tremia de forma quase impercetível, e Lídia apertou-o com mais força, tentando protegê-lo mesmo sem saber de quê.
— Mário! — gritou Olívia, a voz embargada. — Basta!
Carlos abriu a boca para falar, mas Mário virou-se para ele com uma fúria que fez a sala inteira prender a respiração.
— Tu destruíste o Gui! — gritou, a voz a falhar de pura raiva. — Passaste anos a fazê-lo acreditar que não valia nada. Sempre o diminuíste. Sempre o trataste como se fosse inferior só por ser ómega.
Carlos revirou os olhos, indiferente.
— Ele sempre foi um problema.
— E não foi só ele — continuou Mário, o peito a subir e descer num ritmo descontrolado. — Também fizeste mal ao Jorge. De uma forma que o deixou marcado para o resto da vida. E ainda o envolveste numa situação que nunca deveria ter acontecido.
A voz dele tremeu.
— E como se isso não bastasse… tiraste a Alice da família dela. Sem direito. Sem explicação. Sem humanidade.
A sala ficou em silêncio.
D. Olívia levou a mão ao peito, pálida como um lençol.
— Carlos… diz-me que isto não é verdade.
Ele encolheu os ombros, indiferente.
— O rapaz sempre foi um problema. Todos eles foram.
Gui deixou escapar um soluço tão doloroso que todos se viraram para ele.
O lobo dele estava em colapso, a tentar fugir do próprio corpo, e o cheiro do medo espalhou-se pela sala como uma onda.
Gonçalo apertou os ombros de Mário, a voz tensa.
— Controla-te…
Mas Mário já estava a ajoelhar-se ao lado de Gui, tocando-lhe no rosto com cuidado.
— Amor… olha para mim. Estou aqui.
Gui tentou, mas o ar não entrava.
— Amor… respira comigo… isso mesmo.
Olívia levou a mão à boca, horrorizada.
— Chega — disse D. Olívia, a voz firme apesar das lágrimas nos olhos. — Tens uma hora para sair da minha casa. Uma hora. Leva tudo o que é teu.
— Querida… vais acreditar nessas histórias?
— Eu também sou ómega — respondeu ela, com uma calma que escondia uma tempestade. — Eu sei exatamente o que tu pensas sobre isso. E não me venhas dizer que a reação do Gui é fingida. Nem tu terias coragem de dizer isso.
Carlos olhou para todos, o sorriso finalmente a desaparecer.
E saiu, batendo a porta.
No instante em que a porta se fechou, Gui perdeu as forças e desmaiou nos braços de Mário.
— Mãe… preciso de o deitar. E chama o Marcos. Por favor.
— Já vou ligar — disse D. Olívia, ainda em choque.
Algum tempo depois, Marcos chegou, entrando no quarto com o seu humor habitual.
— Boa tarde… vocês gostam mesmo de me dar trabalho. Que se passa afinal?
Mário respirou fundo.
— Marcos… foi o Gui. Ele desmaiou. Por favor…
O médico ficou imóvel por um instante, o olhar a endurecer, sabia da gravidez — mas não do que tinha acontecido ali.
— Vamos ver isso — disse, aproximando-se de Gui com cuidado. — Preciso de espaço. Podem sair um momento.
A família saiu e reuniu-se na sala.
A casa inteira parecia soltar um suspiro preso há anos.
Gonçalo estava sentado, com Lídia bem aconchegada contra si, num abraço que dizia tudo o que as palavras não conseguiam.
As crianças estavam no colo dele, caladas, como se sentissem que o mundo tinha ficado demasiado grande e demasiado assustador naquele instante.
Mário estava de pé, mas o corpo tremia — não de medo, mas de adrenalina, de raiva, de instinto. O lobo ainda rosnava por dentro, inquieto, cada músculo tenso, pronto a reagir.
D. Olívia estava sentada no sofá.
O filho mais novo repousava aos seus pés, com a cabeça no colo dela, e ela acariciava-lhe os cabelos com movimentos lentos, quase automáticos.
No rosto daquela ómega mais velha não havia tristeza — havia alívio.
Um alívio profundo, quase palpável, como se finalmente pudesse respirar sem medo depois de anos de tensão silenciosa.
— Filho, desculpa-me. Eu não sabia… — começou ela, mas Mário interrompeu-a, a voz já trémula.
— Mãe, a senhora não tem culpa. A culpa é daquele inútil. Como é que alguém consegue carregar tanto ódio dentro de si? Eu odeio-o. Por tudo o que ele foi capaz de fazer.
As palavras saíam entre dentes cerrados, o olhar endurecido pela mágoa.
E então, tanto ele quanto o lobo se quebraram.
Mário ajoelhou-se aos pés da mãe, as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, a cabeça repousava no colo dela como quem procura abrigo, perdão, descanso. O alívio misturava-se à dor, e a tensão acumulada parecia finalmente começar a dissolver-se naquele silêncio quente.
— Mãe… o Gui está grávido. — A voz saiu embargada, carregada de medo e amor. — Se algo lhe acontecer…
A notícia pairou no ar, pesada, sem espaço para reação.
🍃 🍃 🍃
O som da porta do quarto a abrir-se cortou o silêncio, e Marcos entrou na sala, os passos firmes a ecoarem no soalho antigo, parando junto à entrada, o olhar atento a percorrer cada rosto.
D. Olívia continuava sentada, imóvel, as lágrimas a escorrerem-lhe silenciosamente pelo rosto.
Mário levantou-se, movido por uma urgência interna, e avançou na direção de Marcos.
Marcos aproximou-se um pouco mais.
— Está tudo bem com ele e com a criança — disse, a voz baixa, mas firme. — Acredito que o desmaio tenha sido causado pela emoção. Fisicamente, ele está bem. Dei-lhe algo leve para descansar. Quando acordar, vai estar melhor. Fiquei ao lado dele até ter a certeza de que a respiração e os batimentos estavam regulares.
Ao ouvir Marcos, Mário fechou os olhos e soltou um suspiro profundo, por um instante, o peso no peito pareceu aliviar.
Ele olhou para a mãe, para a irmã, para o irmão.
O silêncio continuava espesso, mas agora havia aceitação — nos olhos brilhantes de D. Olívia, no pequeno sorriso de Lídia, no modo como Gonçalo apertava os filhos contra si.
— Eu amo tanto aqueles dois… como nunca pensei ser possível.
E pela primeira vez desde que o caos começou, Mário sentiu o peito aliviar — só um pouco, mas o suficiente para respirar.
Mas o telefone a tocar no bolso mudou tudo.
🍃 🍃 🍃
Carlos saiu daquela casa alimentado pela raiva, levando apenas o que conseguiu agarrar quando foi expulso.
Malditos ómegas. Quem eles pensam que são? Não são nada.
Ao entrar no carro, sentia-se tomado pelo ódio. O coração batia acelerado, e cada pensamento era um impulso para não voltar atrás.
Conduzia como se o volante fosse a garganta de alguém, apertando-o com força, como se tentasse sufocar todos os sentimentos que o consumiam.
O nome do Mário martelava-lhe a cabeça como um eco.
O do Gui ardia-lhe como uma ferida aberta.
O da Alice pesava-lhe como uma dívida que nunca aceitara pagar.
E o do Jorge… o do Jorge era uma afronta. Uma lembrança viva de tudo o que ele queria apagar.
Quando deu por si, estava parado em frente à casa de Henrique, o impulso tinha-o levado até ali, e o destino bateu à porta.
A porta do prédio abriu-se e dela surgiram Jorge, de mão dada com a pequena Alice, que saltitava alegremente ao seu lado, o casaco a balançar-lhe nos ombros, completamente alheia ao peso que pairava no ar.
— Vamos só ali fora um bocadinho, está bem? — disse ele, sorrindo-lhe.
Alice assentiu, apertando-lhe a mão com confiança.
Jorge deu dois passos para fora da porta.
E foi aí que o viu.
Carlos estava parado junto ao carro, meio oculto pela sombra, o olhar fixo neles como um predador que finalmente encontra a presa.
O coração de Jorge falhou uma batida.
— Alice… — murmurou ele, puxando-a instintivamente para trás.
Mas não teve tempo.
Carlos avançou num segundo, rápido demais, decidido demais, uma mão dele agarrou o braço de Jorge com uma força que o fez perder o equilíbrio, enquanto a outra mão puxou Alice num movimento brusco, arrancando-lhe um grito de susto.
— Não! — Jorge tentou puxá-la de volta, mas Carlos empurrou-o contra o carro, usando o corpo para o bloquear.
Alice chorava agora, assustada, chamando pelo Henrique.
— Calem-se — rosnou Carlos, a voz carregada de fúria. — Os dois.
Jorge tentou resistir, mas o choque, o medo e a força do alfa tornavam tudo impossível.
Carlos abriu a porta traseira do carro e empurrou Jorge lá para dentro, sem lhe dar tempo de reagir, e Alice foi colocada ao lado dele, ainda a soluçar.
A sua pequena mão apertava o colar que Henrique lhe tinha dado — e, por um instante, o polegar dela pressionou o centro do pingente, quase como um reflexo.
A porta bateu com violência, e o carro arrancou antes que Jorge conseguisse sequer recuperar o fôlego.
Dentro de casa, Henrique ouviu o grito, um som pequeno, mas tão cheio de medo que lhe gelou o sangue.
Correu até à janela, e viu o carro a arrancar…
e o casaco da Alice caído no chão.
— Não… não, não, não… — murmurou ele, ao ver as luzes traseiras do carro a desaparecerem na curva.
O coração dele parecia querer rasgar-lhe o peito.
Tirou o telemóvel do bolso com mãos a tremer.
O telefone chamou uma vez.
Duas.
Três.
E então alguém atendeu.
Mas não era o Jorge.
📞 — [Ele não pode falar agora.] — disse uma voz fria, quase satisfeita.
Henrique sentiu as pernas fraquejarem.
📞 — “Quem és tu? Onde estão Jorge e Alice?”
Um riso baixo ecoou do outro lado.
📞 — [Não interessa quem eu sou… o que importa é que não vais voltar a vê-los… sempre a atravessar o meu caminho… estes dois… mas agora acabou.]
O clique seco do telefone a desligar ecoou do outro lado, cortando brutalmente qualquer esperança de resposta.
Henrique, num reflexo desesperado, tentou ligar de novo. Repetidas vezes pressionou o botão, mas o silêncio persistente do aparelho apenas fazia crescer o vazio e o pânico dentro de si.
E então, com a voz a falhar, ligou para o único número que sabia que podia ajudar.
🍃 🍃 🍃
O telefone do Mário tocou no bolso, e no ecrã aparecia…
Henrique.
Atendeu.
📞 — [Mário… Mário…] — a voz do outro lado da linha era de choro e de pânico autêntico.
📞 — “Henrique… que se passa. Fala por favor.”
Do outro lado, só ouviu respiração acelerada, quase um soluço.
📞 — [Jorge e a Alice foram raptados. Ele ligou… eu vi… um homem… mas não consegui fazer nada… ele levou os dois… não sei o que fazer… preciso de ti, por favor.]
📞 — “Vou já para aí.”
Mário falou baixinho para a mãe.
— Jorge e Alice foram raptados e algo me diz que foi Carlos.
Olívia empalideceu num instante, os olhos arregalados de espanto e o corpo vacilante. Sentiu-se perder o chão, mas os filhos, atentos, ampararam-na antes que caísse.
O ar parecia mais pesado, como se tudo à volta tivesse ficado em suspenso.
Marcos, que ainda estava ali — não tinha tido coragem de sair enquanto a família tentava recompor-se — aproximou-se de imediato, instinto profissional e familiar a misturarem-se.
— Respire devagar, D. Olívia — disse ele, pousando uma mão firme no ombro dela. — Sente-se um pouco. Está tudo bem, eu estou aqui.
Mário engoliu em seco, a voz a sair rouca, quase um sussurro.
— Mãe… por favor… olhem pelo Gui, sim? Eu tenho mesmo de ir. Não posso ficar aqui agora.
Lídia aproximou-se, pousando a mão no braço dele, quente e firme.
— Vai, irmão. Claro que sim. Nós tratamos do Gui, ele é da família, está seguro connosco. Vai ajudar o Henrique, ele precisa de ti agora mais do que nunca.
Marcos assentiu, sério.
— Vai, Mário. Eu fico com eles. O Gui não vai ficar sozinho, prometo.
— Eu vou contigo — disse Gonçalo, já a caminhar ao lado do cunhado. — Acho que vão precisar de mim.