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Capítulo 04 — Volta para Mim

        Nota da autora: Este capítulo aborda temas sensíveis, incluindo violência sexual. Foi escrito com respeito e cuidado, mas se precisares de pausar, está tudo bem.


       Durante todo aquele tempo, ninguém suspeitava da presença de alguém distante, oculto na penumbra, a vigiar com olhos gélidos e um propósito obscuro. O estranho permanecia imóvel, fundido às sombras do bar, observando cada movimento dos rapazes com uma ansiedade doentia.

        Ele não me escapa, pensava, saboreando a antecipação.

       O olhar fixava Jorge — avaliando-lhe cada gesto, cada fragilidade, à espera do momento em que ficasse sozinho.

        Quando Jorge se levantou e se dirigiu à casa de banho, o observador soube que a oportunidade tinha chegado. Seguiu-o com passos silenciosos, aproveitando o descuido do grupo, que permanecia alheio ao perigo.

        Assim que Jorge entrou, o cheiro que lhe chegou primeiro não era o de nenhum alfa que conhecia — era acre, pesado, a fumo e metal, misturado a algo que o instinto reconhecia como perigo. O lobo de Jorge contraiu-se antes mesmo de o corpo perceber o que estava a acontecer.

        Sem ter tempo para reagir, uma força repentina empurrou-o para dentro de uma das cabines. O embate com a parede arrancou-lhe um gemido abafado, rapidamente silenciado por uma mão áspera que lhe tapou a boca.

        O medo tomou conta dele — intenso, paralisante. O aroma doce que lhe era próprio rompeu em pânico, espalhando-se no ar sem controlo.

        Cheirava a pânico.

— Não devias ter-me rejeitado — rosnou o alfa, a voz rouca, carregada de mágoa disfarçada de arrogância.

        Por detrás das palavras duras vibrava um ressentimento antigo, uma necessidade doentia de afirmação.

— És um ómega. Devias obedecer aos alfas. Ninguém me escapa.

          O pensamento dele era claro, mesmo sem o dizer:

         Não posso permitir que me desafiem. Preciso que ele ceda, ou deixo de ser quem sou.

         Jorge tentou resistir, mas o corpo tremia descontroladamente. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, misturando-se com um pânico que vinha de muito antes daquele momento. O toque brusco do alfa, invasivo e sem cuidado, deslizou por debaixo da roupa, arrancando-lhe um lamento abafado.

        O som do tecido a ser puxado, a pressão nos pulsos, as mãos ásperas apertando-lhe o peito sem delicadeza — tudo o fazia mergulhar em memórias antigas. O cheiro acre do medo subia-lhe à garganta, sufocando-o.

        A mente dividiu-se em dois — uma parte tentava lutar, a outra tinha fugido para muito longe, para uma noite parecida com aquela, anos atrás, quando também tinha tentado gritar e ninguém tinha ouvido.    O presente e o passado colidiram dentro dele como dois comboios — e o impacto deixou-o paralisado.

        Porque é que isto me acontece sempre? Porque é que nenhum alfa é seguro para mim…?

        A dor e a vergonha apertavam-lhe o peito  até quase faltar-lhe o ar.

        O perigo não vinha apenas da força física, mas da convicção cruel de que ómegas não tinham direito à recusa.

        As ameaças sussurradas ao ouvido, o tom possessivo, a certeza de que a sua voz seria anulada — tudo isso esmagava o pouco de coragem que ainda restava.

        O lobo interior de Jorge gritava em silêncio, desesperado por socorro.

        O medo espalhava-se no ar, cru e desordenado — um aroma que Henrique reconheceria em qualquer lugar.

         Henrique… Henrique… ajuda-me, meu alfa…

         Na mesa, Henrique começou a ficar inquieto.

         O seu lobo agitava-se, como se algo o chamasse com urgência.

         Uma dor súbita, estranha, intensa, apoderou-se dele — medo, desespero, angústia.

        E então soube. O pânico era cortante, como uma lâmina invisível. Só podia vir de Jorge.

        Sentiu as emoções de Jorge invadirem-lhe o corpo — o coração disparou, o suor frio escorria-lhe pela testa, e um nó apertava-lhe o estômago. Era o medo puro, desorientado, que só ele conseguia reconhecer. Era Jorge.

         Sem dizer palavra, levantou-se de repente, como se uma força o puxasse. O cheiro metálico do perigo parecia impregnar o ar.

         Os olhos escurecidos, o corpo em alerta total. Cada músculo tenso, preparado para reagir a qualquer ameaça.

       Gui e Mário olharam-no, perplexos — sentiram a tensão no ar, quase palpável, mas não ousaram perguntar.

         O olhar de Henrique dizia tudo: não há tempo. A urgência era visível, como um grito silencioso entre eles.

          A ligação profunda entre eles iluminou-se num lampejo. Henrique sentiu o cheiro de adrenalina misturado ao medo, e a certeza de que algo terrível o chamava para agir.

        Jorge precisava dele — não apenas como alfa, mas como alguém capaz de romper o ciclo de medo.

         O coração de Henrique batia tão forte que parecia ecoar pelo corredor.

         Cada passo era uma promessa de proteção.

         Mário sentiu a mesma inquietação vibrar no ar.

         Sem hesitar, seguiu Henrique — decidido a não o deixar enfrentar o perigo sozinho.

         O olhar dele cruzou-se com o de Mário, carregado de uma pergunta silenciosa:

         Vamos conseguir chegar a tempo?

         Gui e Miguel correram atrás deles, o pânico a tomar conta dos passos.

         Miguel, ao ver a tensão nos rostos dos dois, fechou rapidamente as portas atrás.

         Ao entrar na casa de banho, Gui sentiu o peito apertar — como se cada soluço fosse um pedido de socorro não atendido.

— Jorge! — gritou, a voz a falhar, o desespero a rasgar-lhe a garganta.

          Tentou avançar, mas Mário segurou-o, abraçando-o com força para o proteger da visão que se aproximava.

Não! Não! Por favor, não outra vez… — soluçou Gui, convulsivo, a culpa e o medo a esmagarem-no.

         O lobo de Mário rosnava baixo, inquieto, impotente.

          Dentro da cabine, Jorge tremia e chorava de forma incontrolável, o corpo encolhido, vulnerável, humilhado.

         Mãos ásperas rasgaram-lhe as roupas, expondo a pele branca. O calor da pele prensada contra o azulejo frio ressaltava ainda mais a sensação de fragilidade a cada centímetro exposto. O choque térmico entre o calor do corpo e o gelo do azulejo fazia cada músculo se enrijecer, intensificando a vulnerabilidade, enquanto a sensação desconfortável e o arrepio percorriam todo o corpo, ampliando o medo e a humilhação.

        Tremeu ao sentir as mãos descendo para o cós das calças, baixando-as junto com a roupa íntima. A humilhação de se sentir desprotegido era como um peso insuportável sobre o peito.

         O corpo, encolhido, buscava um refúgio impossível, enquanto o medo se entranhava a cada respiração, misturando-se ao cheiro acre da vergonha. O tremor que lhe percorria as pernas era tanto físico como emocional — um eco do terror, da impotência, da vontade de desaparecer.

         O agressor, absorto na própria euforia, não percebeu a presença de outros. Henrique, ao ver a cena, sentiu uma raiva avassaladora tomar conta de si.

         O cheiro acre do medo tornava-se quase palpável.

         E então… algo mudou.

         O cheiro a pinho e baunilha, familiar, reconfortante começou a preencher o espaço.

         Jorge reconheceu-o imediatamente.

         Era Henrique.

         O cheiro do seu alfa protetor envolveu-o como um cobertor quente, misturado ao odor metálico do medo.

           O corpo de Jorge, ainda tenso, começou a relaxar ligeiramente — como se cada molécula daquele aroma fosse uma promessa de salvação.

          O rosnar grave de Henrique ecoou pela casa de banho, vibrando nos azulejos, fazendo o agressor vacilar.

           Não era apenas um som, era uma onda de força, de poder, de proteção.

           Era o lobo dele a dizer:

           Ele é meu. E ninguém lhe toca.

           Sem hesitação, Henrique avançou — e, num instante carregado de urgência, o corpo dele começou a transformar-se. Ossos reajustaram-se, músculos expandiram-se, o pelo surgiu como uma onda viva.     Em segundos, o alfa deu lugar ao lobo imponente, feroz, protetor.

          O lobo de Henrique irrompeu pelo espaço com tal imponência que o ar parecia comprimido à sua volta. O ambiente era saturado pelo cheiro forte de medo e pelo odor familiar de proteção, quase palpáveis no ar abafado da casa de banho.

          O pelo eriçado tremia com cada movimento, refletindo a intensidade da tensão. Os olhos do lobo, fixos e brilhantes, transmitiam uma determinação selvagem — uma promessa silenciosa de que ninguém se atreveria a tocar em Jorge enquanto ele estivesse ali.

           Henrique avançou, cada passo reverberando contra o chão frio e húmido, criando um ritmo firme e decidido. O som ecoava abafado pelos azulejos, misturando-se ao ruído irregular da respiração dos presentes, intensificando a sensação de claustrofobia.

           Assim que chegou junto de Jorge, o lobo lançou-se sobre o agressor com uma rapidez feroz. Garras arranhando o piso, corpo musculoso se projetando, afastou o invasor com força e precisão, deixando claro: aquele ómega não estava sozinho, nem vulnerável.

            O confronto, embora breve, desenrolou-se com uma intensidade brutal. O agressor tentou resistir, mas foi subjugado numa dança de corpos e instintos — cada movimento capturado no som seco de corpos a colidirem, que ecoava pelo espaço apertado, tornando a cena ainda mais impactante.

O rugido do lobo misturou-se ao gemido rouco do agressor, cujo corpo caía pesadamente no chão, o ar escapando-lhe em suspiros de dor e derrota.

            O cheiro de medo tomou conta do ambiente, impregnando cada canto com a certeza da submissão.

Henrique, com movimentos precisos e instintivos, imobilizou o adversário, pressionando-o contra o chão gelado. O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelos sons contidos dos que assistiam, ainda sem acreditar que a ameaça fora derrotada em tão poucos segundos.

           O alfa invasor dobrava-se em dor, a respiração ofegante misturando-se ao cheiro amargo da derrota.

          Gui sentiu os ombros descair, o nó na garganta a desfazer-se devagar. Respirou fundo — pela primeira vez em muito tempo, conseguia fazê-lo.

           Mário mantinha o lobo à superfície, cada músculo tenso, os olhos fixos em Jorge e Henrique. O instinto rosnava baixo, pronto.

           E Jorge… fechou os olhos e inspirou o cheiro de Henrique. O coração abrandou. Estava ali. Estava salvo.

          A voz de Henrique, agora meio humana, meio animal, ecoou pelo espaço:

— Devias ter ficado quieto. Isto vai ficar marcado em ti. Vais aprender a respeitar. Quando um ómega disser não… é não.

          O tom era firme, implacável, carregado de indignação — uma ordem alfa que fez o ar vibrar.

          Mas, para surpresa de Jorge e de Gui, a voz de Henrique não os atingiu. Em vez disso, sentiram algo suave envolvê-los, como se uma barreira invisível se erguesse entre eles e a fúria que dominava o ambiente.

          O silêncio à volta tornou-se denso, acolhedor, abafando parte do som e acalmando-lhes a respiração. O instinto protetor de Henrique criara um escudo que amortecia o impacto da sua própria raiva.

          Jorge sentiu o corpo relaxar, como se um peso lhe fosse retirado do peito. A respiração tornou-se mais profunda, e o calor familiar de Henrique ao seu lado trouxe-lhe lágrimas aos olhos — não de medo, mas de alívio.

         Nos braços de Mário, Gui, ainda trémulo, olhou para Henrique com olhos marejados, incapaz de esconder a gratidão. Não precisava de palavras; o olhar dizia tudo.

         Mesmo tomado pela raiva, Henrique nunca deixava que a sua força magoasse aqueles que queria proteger. O controlo era absoluto, guiado pelo instinto de defesa e pela necessidade de garantir a segurança de Jorge e de Gui.

           Naquele instante, ambos souberam: enquanto Henrique estivesse ali, nada lhes poderia tocar.

           Enquanto isso, Mário tentava acalmar Gui, que chorava convulsivamente, e Miguel tentava aproximar-se para conter Henrique — mas nenhum deles conseguia atravessar a barreira emocional que o alfa erguera.

          Henrique estava completamente dominado pelo instinto de defesa, a sua presença impunha-se de modo quase palpável, como uma força da natureza que não podia ser contida.

          O agressor, já inconsciente, continuava a sofrer a fúria de Henrique, que não dava sinais de ouvir as súplicas angustiadas dos amigos. O ambiente era tenso, carregado de violência contida — Henrique não conseguia parar.

          Foi então que Jorge, com o corpo trémulo e os olhos ainda húmidos, sentiu uma onda de compaixão ao olhar para o lobo. O coração batia tão forte que temia que todos pudessem ouvir. Apesar do medo que lhe apertava o peito, tomou uma decisão que mudaria tudo.

          Com as mãos trémulas, Jorge enxugou as lágrimas do rosto e respirou fundo, tentando reunir forças. O ar parecia pesado, cada inspiração era uma luta contra a ansiedade. Deu alguns passos cautelosos em direção ao lobo, movendo-se lentamente para não chamar atenção, sentindo a tensão nos músculos e o suor frio na pele. A cada avanço, lutava contra a vontade de recuar, mas o desejo de ajudar Henrique era mais forte do que qualquer receio. O contraste entre a violência da cena e a ternura que guiava os seus gestos tornava aquele momento ainda mais intenso.

           Quando finalmente se aproximou, Jorge parou por um instante, olhos marejados e voz trémula. Mas, apesar de tudo, era a ternura que dominava cada palavra:

— Henrique… Henrique… sou eu. O teu ómega. Ouve a minha voz. Sente o meu cheiro.

          O coração de Jorge batia tão alto que parecia ecoar pelas paredes.

         O medo de perder Henrique para o instinto era esmagador.

         E se ele não o reconhecesse?

         E se o vínculo não fosse suficiente?

         E se aquele fosse o último momento entre eles?

         Mas Jorge não desistiu.

         O elo era tudo o que tinha.

         A lucidez chegou-lhe de forma estranha, quase cruel — um clarão no meio do caos. O adesivo. Se o tirasse… se libertasse o cheiro… Henrique sentiria. Mas e se não sentisse? E se já fosse tarde demais? A mão tremeu durante o que pareceu uma eternidade antes de finalmente se mover.

         Com mãos trémulas, levou os dedos ao adesivo e libertou o próprio cheiro.

         O ar encheu-se da essência dele — quente, doce, familiar.

        Um chamamento primordial.

        Volta para mim… não me deixes sozinho.

         Do outro lado, o Lobo Henrique — uma criatura de músculos tensos, garras cravadas no chão e olhos incendiados pela fúria — parou. O rosnado grave reverberou pelo ar, vibrando nos ossos de quem o ouvia, enquanto o farfalhar do pelo eriçado se misturava ao silêncio suspenso.

          O cheiro de Jorge explodiu no ar como trovão, rasgando o silêncio da noite e atravessando-lhe as defesas — intenso, familiar, quase palpável, como mãos invisíveis a acariciar o seu dorso.

          O mundo abrandou, suspenso como um fio prestes a rebentar.

         O ódio diluiu-se como tinta em água. A raiva cedeu, esmoreceu, como brasas a arrefecer. O instinto violento derreteu-se lentamente, sem resistência.

           O lobo hesitou e respirou fundo, como se procurasse o próprio centro.

          A respiração descompassada tornava-se mais suave, acompanhando o abrandar do coração.

         Olhos a suavizarem-se, olhos que já não incendiavam — apenas procuravam, apenas sentiam, hesitavam.

          Jorge deu o passo final:

— Estou bem! Volta para mim! Preciso do teu abraço. LARGA-O!

           A mudança começou.

          O corpo do lobo estremeceu, sentindo o calor percorrer-lhe as veias.

          Os pelos recolheram-se e as garras desapareceram, enquanto a postura se erguia lentamente, num movimento quase involuntário.

          O tamanho diminuiu aos poucos, acompanhando a sensação de leveza que subia do peito ao pescoço.

          Por entre tudo, o lobo ouviu o estalido suave dos ossos a reorganizarem-se, sensação que ecoou por dentro e pelo espaço em redor, como uma promessa de mudança iminente.

          E então…

          Onde antes estava o lobo feroz, surgiu o homem — vulnerável, ofegante, com os olhos marejados.

          E tudo isso… por causa do vínculo entre Jorge e Henrique.

          Assim que recuperou a consciência de si próprio, Henrique abriu os braços, hesitante. O rosto estava marcado pela dúvida, pela culpa, pelo medo de rejeição. Dentro de si, uma pergunta martelava sem descanso:

           Assustei-o? Perdi a confiança daquele que mais amo?

           O alívio de ter regressado era profundo, mas vinha misturado com uma dor aguda — a sensação de ter falhado como protetor.

             Mas Jorge não hesitou.

            Num impulso cheio de confiança e necessidade, correu até Henrique e deixou-se envolver nos seus braços, como se só ali pudesse respirar. Olhou-o nos olhos, procurando certezas e oferecendo serenidade.

          O medo de perder Henrique dissolveu-se naquele abraço.

           O vínculo entre eles, antes abalado pelo terror, reacendeu-se com uma força nova.

— Desculpa… eu disse que nada de mal te iria acontecer e falhei — murmurou Henrique, a voz embargada, os olhos a implorar perdão. As mãos trémulas agarravam-se a Jorge como se temessem perdê-lo.

            Jorge acariciou-lhe as mãos, devolvendo-lhe a esperança.

— Não falhaste. Tu salvaste-me. O meu lobo chamou o teu… e tu vieste. Sentiste-o, não sentiste? Eu sabia que virias.

            Henrique apertou-o com força, o alívio a invadir-lhe o peito.

— Sim… ouvi-te. Diz-me que não te assustei. Não ficaste com medo de mim… nem do meu lobo… pois não? — perguntou, a voz trémula, os olhos escuros a vasculharem o rosto do ómega em busca de qualquer sombra de receio.

— De ti não, meu alfa. Nunca — respondeu Jorge, com um sorriso tímido que iluminou o olhar. Aproximou-se mais, num tom íntimo: — E podes abraçar-me sempre que quiseres. Preciso do teu abraço.

           Assim que os braços de Henrique o envolveram, Jorge fechou os olhos e deixou-se afundar no calor familiar. O aroma do alfa envolveu-o como um cobertor, acalmando cada fibra do seu ser.

         O coração de Henrique acelerou.

         Um alívio quente e profundo expandiu-se no peito — como se finalmente tivesse regressado a casa depois de uma tempestade longa demais.

        Apertou Jorge contra si, as mãos a percorrerem-lhe os cabelos e as costas num gesto que misturava ternura e urgência. Depositou beijos suaves no rosto do ómega, quase reverentes, como se cada toque fosse uma forma de se redimir das sombras do próprio instinto.

          A alguns passos, Mário observava a cena enquanto tentava consolar Gui, aninhado contra o seu peito. Mas os olhos de Gui estavam distantes — presos a ecos do passado que aquela situação lhe despertava.

          Por um instante, reviu-se nos tempos em que acreditara que quem devia protegê-lo o ensinara a temer o futuro.

           Com uma mão nos cabelos de Gui, Mário tentava transmitir segurança, mesmo enquanto lutava com os próprios fantasmas.

— Anjo… está tudo bem. Não se passou nada. O teu amigo está bem — sussurrou, tentando convencer Gui… e talvez a si mesmo.

          Mas Gui, ainda abalado, virou o rosto para Mário, os olhos marejados.

Não está não, Mário. Eu vi tudo. Não está nada bem— murmurou, a voz trémula, carregada de medo e sinceridade.

           Ao notar o tremor quase impercetível no corpo de Gui, Jorge afastou-se devagar do abraço de Henrique. O calor do alfa ainda lhe persistia nos braços, mas agora era o amigo que precisava dele.

           Aproximou-se com passos suaves, atento ao modo como Gui se encolhia no abrigo dos braços de Mário.

           No olhar do amigo, Jorge viu um medo que conhecia bem — um reflexo do que sentira minutos antes.

            Com delicadeza, rodeou Gui por trás num abraço firme, mas gentil. Sentiu a tensão nos ombros do amigo, o sobressalto breve, e desejou poder arrancar-lhe o medo com um simples toque.

            Pousou o queixo sobre o ombro de Gui, tentando transmitir tranquilidade, enquanto observava atentamente os dedos do amigo mexendo-se nervosamente, agarrando-se à manga do casaco. O gesto era pequeno, mas revelador, e desejou que bastasse para que Gui sentisse que não estava sozinho.

           Gui, envolvido entre Jorge e Mário, sentiu o coração acelerar.

           As memórias recentes misturavam-se com outras mais antigas — vozes elevadas, mãos que hesitaram entre proteger e ferir, a sensação de que nada era realmente seguro.

           Um arrepio percorreu-lhe a espinha quando o cheiro familiar de Mário se misturou ao pânico recente.

            Virou-se levemente para Jorge, procurando sinceridade no olhar do amigo — como se ali pudesse encontrar uma fortaleza improvável.

— Calma, Gui… eu juro que está tudo certo. Não foi nada grave — sussurrou Jorge, a voz baixa, envolvente, como quem embala um segredo.

           Mas dentro dele, uma inquietação persistia.

           E se o amigo não conseguisse acreditar?

          E se, por trás daquele medo, houvesse algo que nem ele próprio pudesse proteger?

           Gui inspirou devagar, o corpo a relaxar milímetro a milímetro enquanto o calor dos dois amigos o envolvia. Ainda assim, os dedos mexiam nervosos, apertando-se nas mangas do casaco de Mário.

          Será mesmo seguro ceder?

         A dúvida insistia, mas o desejo de confiar era mais forte.

           Com um suspiro cansado, apoiou-se mais em Mário, permitindo-se, por fim, render-se ao consolo daquele abraço protetor — mesmo que, lá no fundo, uma sombra de receio ainda persistisse.

Está bem… assustaste-me — murmurou, a voz entrecortada, o olhar a desviar-se de Jorge para pousar nas mãos de Mário, como se ali pudesse encontrar estabilidade.

           Ao ver o alívio gradual de Gui, Jorge sentiu o peito aliviar-se também, como se um peso lhe fosse retirado. Voltou para junto de Henrique, que o esperava de braços abertos, e deixou-se envolver novamente naquela segurança serena — saboreando um momento de paz que temia ser efémero.

           Mário observava tudo em silêncio.

           Nos gestos trémulos de Gui e nos olhares furtivos, percebia-se a presença de segredos antigos, fragmentos de histórias que talvez nunca fossem reveladas. Optou por não questionar, confiando que o tempo ou o silêncio eventualmente trariam à tona o que ainda permanecia não dito, aguardando o seu momento.

             Enquanto passava os dedos pelos cabelos de Gui, guardou para si a inquietação e ofereceu o único escudo que podia: a certeza silenciosa de estar ali.

— A noite acabou para nós. Vamos embora, maltinha — anunciou Mário.

            Os outros concordaram com um simples aceno.

           Miguel aproximou-se, atento, o rosto cansado, mas firme.

— Desculpem pela confusão — disse Henrique, com um olhar pesaroso.

— Não foi culpa vossa — respondeu Miguel, sincero. — Fico feliz por terem estado aqui para proteger os meus ómegas favoritos. Eles merecem ser felizes. Podem ir… hoje é por conta da casa.

           Os ómegas, ainda abalados, deixaram o local sob o olhar atento dos seus alfas.

           Quem assistia permanecia em silêncio, respeitando o momento. Alguns tinham ouvido ecos do que acontecera; outros apenas suspeitavam, ao verem as roupas rasgadas de Jorge. O ambiente continuava pesado, carregado de uma quietude que ninguém ousava interromper.

Como vieram até aqui? — perguntou Mário, preocupado.

— Viemos a pé. Moramos perto — explicou Gui, tentando parecer firme apesar do nervosismo. — Ficamos bem, não te preocupes.

            Mário trocou um olhar com Henrique e decidiu:

— Vamos levá-los a casa. Certo, Henrique?

            Henrique concordou sem hesitar, apertando Jorge nos braços.

— Ficas mesmo bem, lobinho? Se quiseres, podes ficar comigo esta noite — murmurou ao ouvido dele, a voz cheia de preocupação.

           Jorge desviou o olhar, envergonhado.

— Fico bem, obrigado. Não leves a mal… mas ainda não me sinto confortável para ficar contigo.

            Henrique suspirou, compreendendo.

— Ainda tens medo de mim… ainda não confias totalmente, não é? — disse com tristeza, mas sem acusação. — Eu entendo. Só queria poder abraçar-te um pouco mais.

— Desculpa… — murmurou Jorge, a voz baixa.

             Henrique pousou uma mão gentil no ombro dele.

— Não fiques triste. Está tudo bem. Olha… podes dar-me o teu número de telemóvel? Assim falamos melhor.

             Mas assim que disse as palavras, viu o olhar de Jorge entristecer ainda mais — e arrependeu-se.

Jorge respirou fundo.

— Desculpa… mas eu não tenho telemóvel. Não tenho dinheiro para comprar um. Mas agora que vou começar a trabalhar… é a primeira coisa que vou fazer.

              O passado de Jorge continuava a intrigar Henrique — e a vontade de o proteger crescia a cada segundo.

            No carro, uma pequena confusão instalou-se quando Gui insistiu em ir atrás, junto de Jorge.

           Mário franziu o sobrolho, visivelmente chateado.

— O teu lugar é ao meu lado, entendido? Para mim essa coisa de ómegas serem inferiores não existe. Nem para o Henrique. Percebido? Então senta-te aqui.

— Entendido… — murmurou Gui, cabisbaixo, sentando-se ao lado do seu alfa.

           O caminho foi curto, mas o silêncio, ainda mais.

          Ao chegarem ao prédio, os mais jovens saíram do carro e despediram-se com poucas palavras, os rostos marcados por uma mistura de alívio e saudade.  O ambiente ao redor parecia envolvê-los em silêncio: apenas o som distante do carro a afastar-se e a luz mortiça dos candeeiros dava forma à noite.

         Antes de entrarem, olharam uma última vez para trás.

         O carro afastou-se em silêncio. E a noite, finalmente, parecia respirar.

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