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Capítulo 39 — O Cheiro Familiar

          A semana passou depressa, mas não sem deixar sinais.

          Numa das tardes, Henrique estava na sala a arrumar alguns papéis do trabalho quando sentiu passos pequenos aproximarem-se.

           Alice entrou abraçada ao seu peluche, arrastando os pés no tapete, e subiu para o colo dele como se fosse o lugar mais natural do mundo.

Papi… o Mami está estranho.

          Henrique pousou os papéis de imediato.

— Estranho como, princesa?

          Ela franziu o nariz, pensativa.

— Ele cheira diferente. E está sempre cansado. E hoje ficou enjoado quando a avó fez sopa… o Mami gosta de sopa.

          Henrique sentiu o estômago apertar, a menina tinha razão — ele também sentira isso pela marca.

Jorge andava mais calado, mais carente, mais sonolento… e agora, enjoado.

— Ele está doente? — perguntou Alice, baixinho.

         Henrique beijou-lhe o topo da cabeça.

— Não sei, meu amor. Mas o Papi vai cuidar dele, está bem?

          Ela assentiu, confiante, e encostou-se ao peito dele.

           Pouco depois, Jorge apareceu à porta da sala, pálido, uma mão no estômago.

— Henrique… posso deitar-me um pouco? Estou com uma tontura esquisita.

           Henrique levantou-se de imediato, com Alice ao colo.

Claro que sim, amor. Vem, eu ajudo-te.

        Ajudou-o a caminhar até ao quarto, devagar, atento a cada passo, Jorge parecia mais leve, mais frágil, como se o corpo estivesse a pedir descanso. Henrique ajeitou-o na cama, cobriu-o com cuidado e passou-lhe a mão pelo cabelo.

— Descansas, lobinho. Eu fico aqui.

          Jorge fechou os olhos, respirando fundo. E enquanto o observava, Henrique sentiu aquela sensação estranha no peito — uma mistura de preocupação e pressentimento.


🍃 🍃 🍃


          Nesse mesmo domingo, a luz suave entrava pelas janelas, deixando a casa num silêncio confortável.

         Henrique estava na cozinha a preparar o pequeno-almoço quando sentiu braços pequeninos abraçarem-lhe a perna.

— Bom dia, Papi… — murmurou Alice, ainda com voz de sono.

         Ele sorriu, pegando nela ao colo.

— Bom dia, princesa. Dormiste bem?

        Ela assentiu, mas o olhar desviou-se para o corredor.

O Mami ainda está a dormir… ele está sempre cansado.

          Henrique pousou-a no balcão e continuou a mexer a chávena de café, tentando não deixar transparecer a preocupação que já lhe apertava o peito há dias.

— O Mami precisa descansar um bocadinho mais, só isso.

         Alice franziu o nariz, desconfiada.

— Mas ele cheira diferente hoje outra vez…

            Henrique congelou por um segundo.

          A menina tinha um faro emocional que ninguém conseguia ignorar, mas antes que pudesse responder, Jorge apareceu à porta da cozinha, cabelo despenteado, olhos meio fechados, uma mão pousada no estômago.

— Bom dia… — disse com um sorriso cansado. — Acho que dormi demais.

           Alice correu para ele.

— Mami, estás doente?

          Jorge ajoelhou-se para ficar à altura dela.

— Não, meu amor… só estou com um bocadinho de tontura. Já passa.

          Henrique aproximou-se, pousando uma mão firme nas costas do ómega.

— Senta-te um pouco, Lobinho. Eu faço o teu chá.

           Jorge obedeceu sem discutir — e isso, mais do que tudo, deixou Henrique inquieto, Jorge nunca obedecia sem refilar.

         Enquanto preparava o chá, Henrique observava-o de relance: pálido, quieto, com um ar frágil que não era dele.

         E, no fundo, uma certeza começava a formar-se… mas ele ainda não tinha coragem de lhe dar nome.


🍃 🍃 🍃


        O domingo amanheceu luminoso, mas para o Gui parecia que o céu estava pesado. Acordou cedo demais, com o estômago apertado e a sensação de que o dia ia ser longo.

        Mário ainda dormia, respirando devagar, mas o ómega já estava sentado na beira da cama, mãos entrelaçadas, balançando o pé num nervosismo que não conseguia controlar.

         Mário abriu os olhos devagar.

— Anjo… estás acordado há muito tempo?

         Gui encolheu os ombros, sem o encarar.

— Não consegui dormir. Fiquei a pensar no almoço.

        Mário sentou-se atrás dele e envolveu-o com os braços, encostando o queixo ao ombro do ómega.

— Vai correr bem.

— Não sabes isso… — murmurou Gui, a voz trémula. — E se eles não gostarem de mim? E se acharem que eu estou contigo por interesse? E se eu disser alguma coisa errada? E se… e se…

        Mário virou-o para si com toda a calma do mundo.

— Anjo… para… fica calmo, por favor.

         Gui tentou, mas o ar parecia preso no peito. Mário pousou a mão na nuca dele, fazendo pequenos círculos.

— Respira… a minha família vai adorar-te. E mesmo que não adorassem… eu estou contigo. Sempre.

        Gui mordeu o lábio, inquieto.

— Mas e se a tua mãe não gostar de mim?

— A minha mãe vai amar-te — disse Mário, com uma certeza tão tranquila que parecia impossível duvidar. — E não vamos contar nada sobre a gravidez hoje. É só um almoço. Só para te conhecerem.

          Gui assentiu, mas o nervosismo não cedia.

— Eu não sei se consigo comer… sinto-me estranho.

        Mário franziu o cenho, preocupado.

— Estranho como?

        Gui hesitou.

— Não sei… só… ansioso. Muito ansioso.

         Mário aproximou-se devagar, como quem se aproxima de um animalzinho assustado, e puxou-o para o peito.

— Anjo… olha para mim.

        Gui tentou, mas os olhos estavam cheios de nervosismo. Então sentiu os braços fortes do alfa abraçá-lo com firmeza, envolvendo-o completamente, deixando que o corpo maior o rodeasse como um casulo.

         Encostou o nariz ao pescoço do ómega e deixou que as suas hormonas fizessem o trabalho — aquele instinto natural de alfa que acalmava, aquecia, protegia.

        E conseguiu.

       O corpo do Gui relaxou aos poucos, os ombros desceram, a respiração desacelerou, e deixou-se cair contra o peito do alfa, como se finalmente tivesse encontrado um lugar seguro.

— Assim… isso, meu anjo — murmurou Mário, passando a mão pelo cabelo dele. — Respira comigo. Pensa no nosso bebé.

          Gui fechou os olhos, absorvendo o cheiro, o toque, o calor.

— Eu odeio sentir-me assim… — confessou baixinho. — Parece que o meu corpo está a fugir de mim.

— Não está a fugir — respondeu Mário, beijando-lhe a têmpora. — Ele só está a pedir calma. E eu estou aqui para te dar isso.

          Gui soltou um suspiro tremido.

— Obrigado… amor.

          Mário sorriu contra a pele dele.

— Vamos com calma. Tomamos banho, vestimo-nos devagar… e se em algum momento não quiseres ir, nós não vamos. Nada é mais importante do que tu estares bem.

         Gui assentiu, ainda encostado ao peito dele.

         Mas dentro dele, algo continuava a borbulhar — uma ansiedade que não era só medo do almoço.

         Era outra coisa.

       Algo que ele ainda não sabia nomear.


🍃 🍃 🍃


          Chegaram à casa da mãe de Mário, com Gui ainda um pouco nervoso, as mãos trémulas e o olhar atento, mostrando claramente o seu desconforto.

         Antes de entrarem, Mário entrelaçou a sua mão na de Gui, sentindo-lhe a respiração acelerada. As suas hormonas tornaram-se mais intensas, como se tentassem acalmar e proteger o ómega, transmitindo-lhe silenciosamente: eu estou aqui para ti.

— Pronto, meu anjo — disse num tom reconfortante, apertando-lhe a mão.

         Gui apenas abanou a cabeça, o coração a disparar como um cavalo à solta, o seu olhar procurava o de    Mário, desesperado por segurança.

         Abriram a porta e entraram.

         A casa estava cheia de vida, a mãe e a irmã de Mário conversavam animadamente, um rapaz, quase uma cópia mais nova de Mário, falava com outro homem — o cunhado, deduziu Gui.

          Num canto, duas crianças brincavam, rindo alto, completamente alheias ao nervosismo que o ómega carregava.

          Por um instante, Gui sentiu-se acolhido, aquela alegria familiar era bonita, sincera.

         Mas então…

        Um aroma familiar invadiu-lhe as narinas — aquele cheiro que ele tentara enterrar durante anos, que aparecia nos pesadelos e não pedia licença.

         Gui congelou.

        Era impossível.

        Mas ele reconhecia aquele cheiro.

         Era impossível.hecia aquele cheiro.ente… e perigoso.

         Memórias que ele preferia manter enterradas subiram à superfície como um soco no estômago.

         A figura masculina junto ao bar, de costas, não se moveu.

         Mas Gui sabia.

         Sabia antes mesmo de o homem se virar.

         A mão de Gui apertou a de Mário com força, quase com dor.

        A figura virou-se lentamente.

        Gui empalideceu de imediato.

        O corpo tremeu.

        O ar desapareceu dos pulmões.

        Sem pensar, refugiou-se nos braços do seu alfa, como se o mundo estivesse a desabar.

        O homem sorriu — um sorriso estranho, desconfortável, que fez o pânico de Gui explodir.

— Tira-me daqui! — gritou Gui, a voz a tremer de puro terror. — Por favor! Tira-me daqui!

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