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Capítulo 38 — Uma Noite em Família

        Sexta-feira chegou.

        Saíram no carro de Mário. Tinham reservado mesa num dos restaurantes mais falados do momento.      Situava-se na periferia da grande cidade, rodeado por uma paisagem arborizada, com um jardim bonito e bem cuidado. O interior rústico, todo em madeira, lembrava casas antigas e acolhedoras.

         Os ómegas adoraram.

        Deixaram o carro no estacionamento e entraram. Depois de se anunciarem, foram conduzidos a uma mesa num dos cantos da sala. As paredes de vidro deixavam ver toda a beleza da paisagem ao redor.

— Isto aqui é lindo! — disse Gui, encantado.

Sim, muito bonito. Obrigado… — acrescentou Jorge.

— O melhor para os nossos ómegas — disse Henrique, fazendo uma festa na face de Jorge.

         Uma simpática beta aproximou-se, deixou a ementa e algumas entradas, perguntou pelas bebidas e saiu, deixando-os a decidir o que comer.

         Depois de uma longa luta, optaram por dividir: pediriam vários pratos e cada um provaria um pouco.

         Fizeram os pedidos e aguardaram.

— Anjo, a minha mãe quer conhecer-te — disse Mário, segurando a mão de Gui. — Domingo a família vai estar toda reunida, incluindo o meu irmão mais novo e o meu padrasto. Que achas de irmos lá almoçar? Eles estão ansiosos por te conhecer.

         Gui engoliu em seco.

— Tem de ser? E se eles não gostarem de mim? Vão achar que estou contigo por interesse… eles sabem da gravidez?

         Mário acariciou-lhe o rosto com calma.

— Ainda não sabem da gravidez. E vão adorar-te, tal como eu.

— Ei, Gui… o que se passa contigo? Só pode ser as hormonas! — brincou Jorge. — É claro que vão gostar de ti.

          Mário apertou-lhe a mão.

— Eu quero que conheças a minha família, mas não te vou obrigar. Será quando estiveres pronto.

          Gui respirou fundo.

— Desculpa… eu vou sim. E podemos contar sobre a gravidez.

— Ainda é cedo para isso — respondeu Mário. — Eu só quero que te sintas bem.

          Jorge inclinou-se para a frente, animado:

Gui, a tua mãe vai querer conhecer o teu alfa. Eu tenho a tua mãe como minha também… podemos falar com ela e marcar um dia para irmos lá comer e apresentar os nossos alfas. Posso levar a Alice… o Carlitos vai adorar conhecer a menina.

          Gui sorriu, mais tranquilo.

— Acho uma boa ideia. Amor, o que achas? — perguntou a Mário.

— Por mim, ficaria muito feliz em conhecer a tua mãe, meu anjo.

— Eu também — disse Henrique. — Adorava conhecer a família de Gui… e a tua também.

          A comida chegou, e a conversa continuou animada: brincadeiras, piadas, histórias antigas, gargalhadas e muito carinho.

         Depois do jantar, seguiram para o bar do Miguel — um sítio calmo, familiar, onde já não iam há demasiado tempo.


🍃 🍃 🍃


         No bar, como sempre, foram recebidos à entrada pelo porteiro, que os cumprimentou com a simpatia habitual.

— Os meus ómegas favoritos! Já não os via há algum tempo!

— Olá, temos andado muito ocupados… — respondeu Gui.

— E a família, como está? — perguntou Jorge.

— Está ótima, felizmente.

          O porteiro virou-se para os alfas, um pouco atrapalhado:

— Desculpem, senhores… mas adoro estes ómegas como se fossem filhos.

         Henrique sorriu.

— Tudo bem. Nós também gostamos muito deles.

       A mão que tinha na cintura de Jorge puxou-o mais para si, fazendo o ómega encostar a cabeça no seu ombro.

         Mário fez o mesmo com Gui.

— Felicidades aos quatro! Entrem, está cheio, mas o Miguel arranja uma mesa para vocês de certeza.

           Entraram, e um Miguel sorridente veio cumprimentá-los de imediato.

— Ora, ora… como vão os meus ilustres amigos? Humm… vejo que estão bem acompanhados. Os meus ómegas favoritos! Pensei que estivessem magoados comigo depois do que aconteceu.

— Nada disso — disse Henrique. — Tu não tiveste culpa nenhuma. Temos estado ocupados com outros assuntos.

          Beijou a face de Jorge, que sorriu.

— Ah… então afastaram-se por uma boa causa. Venham, tenho uma mesa para vocês.

         Foram conduzidos a uma mesa discreta, num canto acolhedor onde podiam estar à vontade.

        Jorge olhou em volta, encostando a cabeça ao ombro de Henrique, as mãos entrelaçadas.

— Este lugar traz boas e más recordações…

— Lobinho, hoje só pensamos nas boas, ok? — murmurou Henrique, beijando-lhe o cabelo.

— Sim, Jorge, só as boas — disse Gui, beijando a face de Mário.

           Os ómegas eram naturalmente carinhosos e não se incomodavam em demonstrá-lo em público, e os alfas adoravam isso — e retribuíam sem hesitar.

          Gui foi o primeiro a rir, ainda um pouco envergonhado, quando reparou no modo como Henrique mantinha a mão de Jorge entre as suas, como se largá-la fosse sequer uma hipótese. Mário, percebendo o olhar, ergueu uma sobrancelha divertida.

— O que foi, anjo? — perguntou Mário, inclinando-se na direção de Gui. — Estás a olhar assim para nós como se estivesses a descobrir um grande segredo.

— Não estou a olhar para vocês — defendeu-se Gui, corando logo de seguida. — Estou a olhar para o Jorge, que afinal consegue mesmo relaxar quando quer.

           Jorge baixou os olhos, mas o sorriso denunciou-o. Henrique aproximou-se apenas o suficiente para roçar o ombro no dele, gesto simples e silencioso que fez Jorge relaxar ainda mais na cadeira.

— Eu já te disse que é diferente — murmurou Jorge, tentando manter o tom sério, sem grande sucesso. — Com ele… não custa tanto.

           Mário levou a mão ao peito, fingindo-se ofendido.

Fantástico. Então o segredo é ser moreno e rabugento— resmungou ele. — Andei este tempo todo a conquistar o meu ómega com charme, e afinal bastava-me fazer cara de poucos amigos.

          Gui soltou uma gargalhada sincera, encostando-se ao ombro de Mário.

— Não digas isso com tanta confiança — provocou Gui. — Ainda corres o risco de o Jorge te trocar pelo Henrique.

Nem brinques — respondeu Mário, puxando Gui um pouco mais para si. — Este anjo já tem dono.

         A frase, dita em tom brincalhão, fez Gui corar até às orelhas. Ainda assim, não se afastou. Pelo contrário, pousou a mão sobre a de Mário em cima da mesa, entrelaçando os dedos com uma timidez enternecedora. Do outro lado, Jorge observou a cena com um brilho suave nos olhos, e Henrique percebeu-o de imediato.

— O que foi, lobinho? — perguntou Henrique, baixando a voz.

— Nada… — respondeu Jorge, com um sorriso pequeno. — Só estava a pensar que gosto de vos ver assim. Os quatro.

          Por instantes, ninguém respondeu. Mas o silêncio não foi desconfortável — foi pleno, morno, cheio daquela sensação rara de pertença. Até que Mário, incapaz de permanecer quieto durante muito tempo, olhou para a pista e sorriu de lado.

Chega de conversa séria — declarou. — Vamos dançar.

— Eu não sei se… — começou Jorge, mas Henrique levantou-se primeiro e estendeu-lhe a mão, paciente, sem qualquer pressão.

— Só se quiseres — disse Henrique, com suavidade. — Um passo de cada vez, lembras-te?

         Jorge fitou-lhe a mão por um segundo e, depois, pousou a sua sobre ela. Levantou-se devagar, deixando-se conduzir para a pista. Ao lado deles, Gui ainda hesitou, mas Mário aproximou-se logo, pousando-lhe uma mão quente na cintura.

— E tu nem penses em fugir — murmurou Mário ao ouvido de Gui, arrancando-lhe um arrepio e um sorriso envergonhado ao mesmo tempo.

          A música era lenta, envolvente, com um ritmo suave que parecia pedir proximidade. Henrique pousou uma das mãos na cintura de Jorge e a outra ficou entrelaçada à dele. Mário fez o mesmo com Gui, guiando-o com segurança, sem pressa, como se quisesse que cada movimento servisse apenas para o tranquilizar.

          Aos poucos, Jorge foi relaxando contra Henrique. O corpo deixou de estar rígido, e o olhar, antes inquieto, começou a ganhar um brilho tímido, mas feliz. Gui, por sua vez, escondia o rosto no ombro de Mário de vez em quando, só para disfarçar o embaraço que sentia sempre que o alfa o apertava um pouco mais contra si.

          Por alguns minutos, o mundo pareceu resumir-se àquela pista pequena, à luz morna, aos sorrisos discretos e aos aromas que se misturavam no ar como uma espécie de promessa silenciosa. Não havia pressa, nem medo, nem passado. Apenas aquele instante.

          Foi Gui quem quebrou a distância entre os casais. Num impulso leve, ainda sorridente, estendeu a mão a Jorge quando a música mudou de compasso. Jorge olhou-o, confuso por um instante, mas acabou por rir baixinho e aceitar.

           O gesto obrigou Henrique e Mário a aproximarem-se também, e, num instante, já não eram apenas dois pares isolados. Estavam os quatro juntos, rindo-se da falta de jeito, tropeçando de leve uns nos outros, corrigindo passos, trocando olhares cúmplices.

         Henrique acabou por passar um braço pelos ombros de Jorge enquanto Mário mantinha Gui encostado a si. Durante alguns segundos, balançaram todos ao mesmo ritmo, como se o corpo de um acompanhasse naturalmente o do outro. Gui ria sem reservas. Jorge também — um riso mais baixo, mais raro, mas profundamente verdadeiro.

         E foi nesse instante, de mãos dadas, braços enlaçados e sorrisos desarmados, que os quatro perceberam — talvez sem o dizer em voz alta — que já não estavam apenas a partilhar uma noite. Estavam a construir qualquer coisa nova, bonita e inesperadamente segura. Ali, no meio da música e da luz suave, pareciam finalmente no lugar certo.

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