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Capítulo 37 — Vamos Ser Papás

         O corredor do consultório de Marcos parecia mais longo do que o habitual.

         Mário e Gui caminhavam lado a lado, mas o silêncio entre eles pesava como uma nuvem prestes a desabar.

         Gui apertava os dedos uns contra os outros, inquieto, os olhos baixos, o peito apertado.

— Anjo… que se passa? Porque estás tão nervoso? — perguntou Mário, tentando tocar-lhe o braço.

         Gui parou por um instante, os olhos marejados.

— E se eu estiver grávido? Tu não queres filhos…

          Mário suspirou e puxou-o para um abraço, envolvendo-o com firmeza e ternura.

— Anjo… eu já te disse que quero, sim. Queria mais tempo só para nós, é verdade… mas se estiveres grávido, vou amar esse filho como amo o pai dele. — Encostou a testa à dele, sussurrando: — E se não estiveres… continuaremos a tentar.

         Gui afastou-se um pouco, os olhos agora mais duros.

— Como? Desde o teu cio que não me voltaste a tocar. Já não me queres? Não percebo o que fiz de errado…

         A frase morreu-lhe na garganta, afogada por um nó que subia do peito, a voz embargada era um espelho da dor que não conseguia nomear.

        Mário olhou para ele e, naquele instante, viu mais do que lágrimas — viu o medo de não ser desejado, a insegurança de quem ama demais e não entende o silêncio.

         Gui desviou o olhar, tentando conter o choro, mas os olhos já brilhavam, e a respiração tremia.

— Anjo… desculpa. Continuo a querer-te, mais do que nunca. Só… achei que depois do cio talvez quisesses espaço. Não queria magoar-te ainda mais. A verdade é que… não foi fácil manter-me longe de ti.

— E pensaste em mim? — A voz de Gui vacilou, mas não perdeu a força. — A minha opinião já não conta? Podias ter perguntado se eu queria ou não. Doeu tanto pensar que já não me desejavas…

         Mário engoliu em seco, sentindo o peso da culpa descer-lhe pelos ombros.

— Tens razão… — disse por fim, com a voz embargada. — Desculpa. Devia ter-te perguntado. Devia ter-te escutado. A tua opinião conta. Conta muito.

         Gui ainda chorava, mas não se afastou.

         Quando foram chamados para o consultório, os olhos ainda brilhavam de lágrimas, mas a mão dele procurou a de Mário, entrelaçando os dedos com firmeza.

— Bom dia! — disse Marcos, sorrindo ao vê-los entrar.

— Bom dia… — responderam os dois, quase em uníssono.

        Marcos observou-os com atenção.

— Algum problema? Que se passa, Gui?

        Mário foi o primeiro a falar, a voz baixa, mas firme.

— O problema sou eu, Marcos. Fui estúpido. Desde o meu cio mantive-me afastado do Gui. Achei que era o melhor, que ele precisava de tempo. Não queria magoá-lo… mas esqueci-me de um detalhe: perguntar-lhe o que ele queria. Tomei uma decisão sozinho, quando devia ter sido dos dois. E magoei-o. Ele tem toda a razão.

         Gui apertou a mão de Mário, a voz ainda trémula, mas cheia de dignidade.

— Vou ficar bem. Sou ómega, sim… mas a minha opinião conta. Não voltes a decidir por mim.

        Marcos assentiu, com um sorriso compreensivo.

— Fico feliz por estarem a conversar. Agora vamos ao que interessa. Gui, vou precisar observar-te e depois vais tirar sangue. Logo saberemos se vão ser papás ou não. Podes mudar de roupa ali no canto, vestir uma bata e deitar-te, está bem?

         Enquanto Gui se afastava, Mário ficou parado, os olhos fixos no chão.

— Que se passa contigo? — perguntou Marcos, em voz baixa.

— Eu desejo demais aquele ómega… — confessou Mário, quase num sussurro. — Achei que estava a fazer o melhor. Vi o estado em que ele ficou depois do cio. Não queria magoá-lo mais. E não o magoei fisicamente, mas… magoei-o por dentro. E isso é pior.

          Marcos cruzou os braços, observando-o com atenção.

— O teu ómega é especial. Sabes disso. Tens de conversar com ele. Não me parece um ómega muito submisso.

          Mário soltou um riso breve, sem humor.

— E não é mesmo. Acredita.

         Marcos fez sinal para que se calasse quando ouviu o som da cortina a abrir.

— Vou observá-lo agora. Espera lá fora.

— Deixa-me ficar. Por favor.

          Marcos olhou para Gui, já deitado na marquesa, envolto na bata branca.

— Se o teu ómega permitir…

         Gui olhou para Mário.

        Os olhos ainda estavam vermelhos, mas havia ali um brilho novo — de mágoa, sim, mas também de amor.

— Quero que fiques.

        Mário aproximou-se, sentando-se ao lado, e segurou-lhe a mão com delicadeza.

       O silêncio entre eles agora era outro — um silêncio de recomeço.

       Marcos aproximou-se com passos calmos.

— Gui… Mário pode ficar?

— Sim, pode… — respondeu o ómega, sem hesitar, embora a voz ainda carregasse o peso da mágoa.

       Mário inclinou-se até ao ouvido dele.

— Desculpa, Anjo… amo-te muito. Acredita, achei que estava a proteger-te de mim.

        Gui não respondeu, o silêncio dele era como uma parede de vidro: transparente, mas intransponível.

         Mário sentia o coração apertar, a rejeição seria mais do que dor — seria perda. E ele não sabia se aguentaria.

       Marcos iniciou o exame com delicadeza.

— Está tudo bem, Gui. As feridas cicatrizaram. O resto também está ótimo. Podem ter relações à vontade. Agora podes vestir-te. Depois, lá fora, vais tirar sangue. Chamarei quando tiver os resultados.

        Marcos iniciou o exame com delicadeza.acompanhou-o até à sala de espera.

        O exame fora rápido, mas o tempo parecia arrastar-se.

        Gui continuava calado, e Mário respeitava — mas por dentro, o alfa estava em ruínas.

         "Ele sente o meu cheiro. Sabe que estou nervoso. Mas não diz nada. Talvez precise que eu sinta o que ele sentiu. Talvez precise que eu espere."

         Mário mantinha o olhar baixo, os dedos entrelaçados, o corpo tenso. Mais do que sexo, precisava do toque, do carinho, da certeza de que ainda era amado.

         Sentia-se perdido, como se tivesse quebrado algo precioso e não soubesse como colar.

         Então sentiu uma mão pequena tocar a sua, firme, dedos pequenos a entrelaçarem nos dedos grandes, e quando Mário levantou os olhos, viu o sorriso — aquele sorriso que dizia tudo sem precisar de palavras.

— Anjo… perdoa-me. Por favor, não te afastes de mim. Posso viver sem sexo, mas não viverei sem ti. Sem ti… não. Já não saberia como.

         Gui apertou-lhe a mão com mais força.

— Shh… está tudo bem. Eu não vou fugir. Também não saberia viver sem ti. E gosto de sexo contigo, meu tolo… mesmo quando ficas um pouco violento. Esse és tu. E eu gosto. Só não me afastes das decisões. Sobretudo se forem nossas.

— Prometo.

         Foram chamados por Marcos, e entraram de novo no consultório, de mãos dadas.

         Ambos nervosos.

         Mário sentia a mão de Gui apertar a sua com força, como se quisesse segurar o momento.

— Então, Marcos? — perguntou Mário, a voz trémula.

         Marcos sorriu.

— Parabéns! Vão ser papás.

         Mário olhou para Gui, os olhos arregalados, viu que ele chorava.

— Anjo… vamos ter um bebé! Porque choras?

— Estou feliz… muito feliz. Um bebé… não podia estar mais feliz.

         Marcos continuou, com a voz prática e gentil:

— Vou encaminhar-vos para um amigo meu, obstetra. Ele vai acompanhar a gravidez. Essa não é a minha área.

         Mário hesitou, depois perguntou:

— Marcos… sexo coloca em risco a gravidez? Ou o Gui?

        Marcos riu, com um brilho nos olhos.

— Mário… tu é que te colocas em risco se não o fizeres. Serias um alfa morto, meu amigo. Os ómegas nesta fase são mais sensíveis… e mais desejosos. Acho que estás tramado.

        Mário olhou para Gui, que sorria com malícia.

— Acho que dou conta do recado.


🍃 🍃 🍃


         O escritório estava num daqueles momentos tranquilos entre tarefas, cada um focado no que tinha à frente.

         Mário trabalhava em silêncio, e Gui permanecia ao lado dele, inquieto, como se guardasse algo no peito.

         Jorge e Henrique conversavam baixinho, sem imaginar o que estava prestes a acontecer.

        Gui respirou fundo, deu um passo à frente, e disse de uma vez.

Temos uma notícia… vocês vão ser tios.

        A voz de Gui tremia, mas era de felicidade.

        Jorge arregalou os olhos e correu para abraçar o amigo, o riso misturado com lágrimas.

Gui… que maravilha! Estou tão feliz! Está tudo bem contigo e com o Mário?

— Sim… é cedo, eu sei, mas estamos radiantes — disse Gui, com um brilho nos olhos que parecia iluminar a sala.

         Henrique aproximou-se e abraçou Mário com força.

— Parabéns, papá… fico feliz por ti. Sei que serás um pai maravilhoso.

        Mário sorriu, emocionado, a voz embargada de gratidão.

— Obrigado… e conto convosco para ajudar a cuidar do afilhado… ou da afilhada.

— Estaremos cá para tudo — disse Henrique, firme. — E que tal comemorarmos logo à noite? Um jantar, algo especial.

         Mário trocou um olhar cúmplice com Gui e respondeu com um sorriso cheio de carinho:

— Hoje, eu e o Gui temos uma comemoração só nossa. Mas sexta-feira… jantamos juntos e depois vamos ao bar do Miguel. Já faz tempo que não vamos lá.

— Combinado. Parece-me justo — disse Henrique, com um sorriso tranquilo. — Agora… vamos voltar ao trabalho, antes que a emoção nos roube o dia inteiro.

        Durante todo o dia, Henrique sentiu tristeza atravessar a marca — uma tristeza que não combinava com o seu ómega.

         Jorge tentava disfarçar, falando da gravidez do amigo com um entusiasmo que não lhe chegava aos olhos.


🍃 🍃 🍃


          Mais tarde, já no escritório de Henrique, os dois estavam sentados lado a lado, com Jorge particularmente calado — o que não era da sua natureza.

         O olhar triste denunciava tudo.

        Henrique puxou-o com cuidado para o colo, e Jorge encostou a cabeça no peito dele sem resistência.

— Lobinho… queres contar-me o que se passa? E não me digas que não é nada. Porque tanta tristeza?

         Jorge respirou fundo, a voz embargada.

— E se eu não conseguir ter filhos? Queria tanto dar-te um filho…

       Henrique apertou-o com mais força.

— Já tivemos essa conversa. Há outras maneiras, e tu sabes disso. Quero filhos, claro que quero… mas tu és mais importante.

        Fez uma pausa, depois acrescentou com suavidade:

— Mas vamos fazer o seguinte: quando estiveres preparado… deixas de tomar os supressores. Quero passar o cio contigo… sem proteção. Que me dizes?

          Jorge levantou o rosto, surpreendido.

Não te importas de tentar agora?

— Não me importo.

— Então… aceito.

          Henrique sorriu, mas manteve o tom responsável.

— Mas antes… quero que passes no Marcos. Só para garantir que está tudo bem contigo.

         Jorge assentiu devagar.

Combinado. Quando tu achares que é altura de marcar… eu vou.

          Fez um pequeno beicinho.

— Posso ficar no teu colinho? Só… preciso de carinho hoje.

          Henrique riu baixinho, acariciando-lhe o cabelo.

— Claro que podes, ómega manhoso. Lobinho… estás mesmo bem? Nunca me pediste carinho assim.

— Estou bem… só quero carinho. E tenho soninho. Deixa-me ficar aqui.

— Pois… é isso que me preocupa.

          Mesmo assim, Henrique não deixou de o mimar, passou-lhe os dedos pelo cabelo, pelo rosto, murmurando palavras suaves até o ómega adormecer ali, no seu colo.

          Ficou a observá-lo, o coração apertado. Sentia que algo não estava certo, e a ideia de o ver doente deixava-o inquieto.

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