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Capítulo 36 — Sinais

         Depois do jantar, Henrique e Jorge caminharam até casa, o silêncio entre eles era como a névoa antes da chuva.

         Henrique parecia inquieto, os passos mais curtos, o olhar mais baixo, ao entrar, foi direto para o banho, sozinho.

         Jorge estranhou, pois normalmente partilhavam aquele momento como um ritual íntimo, mas calou-se.

         Henrique saiu com a toalha apertada à cintura — gesto incomum nele.

         Jorge entrou no banho, deixou a água correr sobre o corpo nu, como se quisesse lavar a dúvida que lhe pesava no peito.

        Ao sair, não vestiu nada.

        Sentou-se ao lado do alfa, a pele ainda húmida, o olhar firme.

Queres falar comigo? — perguntou, sem rodeios. — Queres dizer o que se passa contigo? Porque estás a afastar-te?

          Henrique demorou a responder, e quando falou, a voz veio baixa, quase quebrada.

— Desculpa… tenho pensado em tudo o que o Mário contou. Pensado em nós. E fiquei com medo… medo por ti.

          Jorge aproximou-se um pouco.

Também falei com o Gui. E quando chegar a hora, pensaremos nisso. Ainda temos tempo. Mas sinto que não é só isso. Não precisas de fazer nada só para me agradar.

         Henrique ergueu os olhos, como quem é visto por dentro.

— Como sabes que…

— Sinto o teu medo — interrompeu Jorge, suave. — Sinto que queres, mas tens receio. Estás excitado com a ideia, mas tens medo de mostrar. Por isso o banho sozinho. Por isso a toalha. O teu lobo recua.

          Henrique fechou os olhos, como se escutasse algo dentro de si.

— O meu lobo rejeita, sim… mas eu… eu quero. O corpo é meu. E deseja o teu de novo. Faz-me teu… lobinho.

          O aroma de Henrique mudou naquele instante — o pinho e a baunilha ficaram mais densos, mais quentes, carregados de uma vulnerabilidade que o alfa raramente mostrava. O lobo recuava, sim… mas o homem avançava.

         O sorriso de Jorge foi ternura e desejo ao mesmo tempo.

— Então… tira a toalha.

         O pêssego de Jorge intensificou-se, suave, mas inegável — não era urgência, era convite. Era promessa.

         E a toalha deslizou até ao chão.

         A porta fechou-se.

         E naquela noite, entre murmúrios e entrega, o alfa deixou-se guiar — de novo — pelas mãos do seu ómega.


🍃 🍃 🍃


           Nesse dia, porém, tudo foi diferente: Mário e Gui chegaram juntos ao edifício.

          Gui estava nervoso, embora tentasse disfarçar, e Mário caminhava ao lado dele como um escudo vivo — não agressivo, apenas presente.

          Assim que entraram, foram recebidos pelo burburinho contido de um escritório a meio da manhã.

          Maria, a Beta sempre sorridente, aproximou-se com um brilho maroto nos olhos e pousou a mão na sua barriga arredondada.

— Bom dia, Dr. Mário… e Gui. Ou será que, de agora em diante, temos de tratá-lo por Sr. Gui? — brincou, piscando discretamente para o grupo que os observava.

          Gui sentiu as faces arderem e baixou o olhar ao sentir o peso da atenção coletiva, mexeu as mãos, inquieto, tentando esboçar um sorriso, mas a voz tremeu:

— Maria… — hesitou, os olhos fugindo dos colegas, que trocavam olhares cúmplices e sorrisos contidos. — Eu… sou só o Gui.

          Mário, atento ao desconforto dele, pousou-lhe a mão nas costas com delicadeza, puxando-o gentilmente para a frente. Entrelaçou os dedos nos dele, transmitindo segurança.

— Bom dia, Maria — respondeu Mário, com voz firme, mas calorosa. — Chega de segredos. Quero apresentar-vos o meu ómega.

         Gui sentiu-se pequeno, quase a querer desaparecer atrás dele, mas permaneceu ao seu lado — o coração disparado, o rosto escarlate, os dedos suados entrelaçados nos de Mário.

         A vergonha era nítida no olhar húmido de Gui, que lutava para não fugir dali.

         Alguns colegas desviaram os olhos por respeito; outros trocaram sorrisos discretos.

        Uma colega inclinou-se para outra, murmurando algo que terminou num riso abafado.

        Pensamentos ansiosos borbulharam na mente de Gui:

        "E se acharem que só estou aqui pelo dinheiro? E se não aceitarem?"

         Foi interrompido por um dos colegas, que se aproximou com um sorriso atrevido:

Então é mesmo oficial? Vocês os dois…?

        Outro colega, mais velho, balançou a cabeça em falsa reprovação:

Finalmente! Estava a ver que nunca mais

         Outro colega, mais velho, balançou a cabeça em falsa reprovação:

— Já sabiam? Pensámos que tínhamos sido discretos.

         Maria soltou uma gargalhada franca, cruzando os braço. Os olhos brilharam de ternura ao responder:

— Eu posso ser Beta e o meu cheiro não ser grande coisa, mas os meus olhos funcionam bem! — riu-se, contagiando alguns colegas. — Desculpe a frontalidade, doutor, mas vocês são péssimos atores! Vocês e o outro casal também. Mas podem ficar tranquilos, está tudo bem.

            Gui, ainda atrapalhado, tentou desculpar-se, mexendo nos óculos e procurando as palavras certas:

Nós… eu… não queríamos causar problemas…

           Maria interrompeu-o, pousando uma mão reconfortante no ombro dele:

— Gui, ninguém pensou nada disso. Quem vê de fora nota como vocês mudaram o ambiente aqui dentro. Os doutores estão mais alegres, mais humanos, até distribuem palavras de ânimo. Fazem-nos bem.

           O ambiente suavizou-se e um a um, os colegas aproximaram-se, dando parabéns com sorrisos sinceros, tapinhas nas costas, até um abraço mais entusiasmado de uma colega que não conteve a alegria.

          Antes de regressar ao seu posto, Maria disse em tom bem-disposto, mas cheio de carinho:

— E podem avisar o outro casalinho que já não há razões para se esconderem. Estamos felizes por vocês.

         O murmúrio de aceitação espalhou-se pelo escritório, deixando no ar uma sensação de alívio, pertença e início de uma nova fase para todos.


🍃 🍃 🍃


         Durante dias — talvez semanas — Henrique e Jorge debateram, em silêncio e em palavras, a possibilidade de trazer a menina para viver com eles.

         Henrique desejava profundamente acolhê-la, argumentando com voz serena que, ali em casa, ela seria amada tanto quanto no lugar onde crescera; dizia que as rotinas poderiam ser ajustadas e lembrava, com carinho, que Jorge era, de facto, o seu pai.

         Nesse dia foram buscar a menina, que pulava animada ao redor deles. Os olhos brilhavam ao ver os avós, e o sorriso era contagiante.

         Ela abraçava cada um com entusiasmo, como se aquele momento fosse um presente.

— A Alice vai para casa com os papis… vai para casa!— dizia, parando de vez em quando para olhar os avós. — Mas volta para os avós, volta!

         Os quatro mais velhos sorriram, enternecidos com a felicidade infantil, sentindo-se ainda mais unidos.

          O acordo era simples e fácil de gerir: a menina iria morar com eles, mas durante o tempo em que Henrique e Jorge estivessem a trabalhar, ficaria com os avós.

          Isso agradou tanto à menina como aos avós.


🍃 🍃 🍃


          Jorge e Henrique foram-se adaptando à nova rotina.

         A menina corria pela casa como se sempre tivesse vivido ali.

         Jorge tentava ser responsável, mas às vezes parecia mais criança do que ela.

— Jorge, ela não pode comer gelado ao pequeno-almoço— suspirou Henrique.

— Mas ela pediu com aquela carinha… — respondeu Jorge, derrotado.

         A menina abraçou-o pelas pernas.

— A mami é fofinha.

         Os dois alfas sentiram o coração apertar — de amor, de medo, de futuro.

         Henrique aproximou-se e beijou a testa do ómega.

— Vais ser um pai incrível.

        Jorge corou até ao pescoço.

         A rotina instalou-se: levantavam-se, arranjavam-se, preparavam a menina, deixavam-na com os avós, iam para o escritório e, ao final do expediente, buscavam-na para voltar para casa.

         Todos gostavam daquela estabilidade — Jorge e Henrique sentiam-se completos, e a menina parecia feliz com o carinho que recebia.

          Mário e Gui tinham conversado com Henrique e Jorge sobre o que se passara no escritório e sobre o facto de todos já estarem cientes de que também eles estavam juntos.

           Por isso, nesse dia entraram de mãos dadas.

          A reação de quem os viu foi a mais natural possível.

          Sorrisos sinceros apareceram, e os parabéns sucederam-se.

          Jorge sentiu um alívio quente ao perceber a aceitação dos colegas, enquanto Henrique apertava a sua mão com mais força, partilhando a mesma alegria.


🍃 🍃 🍃


          Gui sentia-se cansado e sonolento, tentando convencer-se de que não era nada demais.

         Por vezes, surgiam ligeiras náuseas; o aroma do café embrulhava-lhe o estômago, ou cansava-se com facilidade. Ainda assim, permanecia em silêncio para não preocupar Mário.

         Havia algo que o inquietava, um peso que tentava esconder.

         A marca dizia-lhe que era amado… mas ele questionava-se se ainda era desejado.

         E isso doía.

        Mário beijava-o, abraçava-o, cuidava dele — mas não avançava, não o tocava, pelo menos não sexualmente.

        Gui começou a achar que era rejeição, que Mário tinha medo dele, ou pior… nojo do que tinha acontecido.

         Mas calou-se, porque o amor também sabia esperar.


🍃 🍃 🍃


          Jorge, por sua vez, começou a sentir-se estranho, mas atribuía tudo ao stress: alterações de humor, vontade de chorar sem causa aparente, irritação por quase tudo e uma fome que parecia impossível de controlar.

         As tonturas matinais e o sono extremo tornavam os dias ainda mais difíceis.

        Foram muitas as mudanças recentes na vida de Jorge, e ele tentava justificar tudo por aí. Ainda assim, sentia-se cada vez mais perdido, incapaz de entender o que estava a acontecer consigo.

         Enquanto Jorge lutava com as próprias emoções, Henrique observava-o com atenção crescente, percebendo que algo não estava bem.

         Preocupava-se, mas não queria invadir o espaço do ómega, preferia esperar, atento, à procura do momento certo para conversar — sem pressionar, sem assustar, sem ferir.

          Os dias foram passando assim — entre rotinas novas, silêncios que escondiam dúvidas e pequenos gestos que diziam mais do que palavras.

         E assim, quase sem darem por isso, o tempo avançou.

       Um mês depois, Mário e Gui estavam a caminho do consultório de Marcos — prontos para enfrentar respostas que poderiam mudar tudo.


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