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Capítulo 35 — O Grito

          No escritório, Jorge estava ansioso, a forma como Henrique saíra, o silêncio repentino, os sentimentos que captara pela marca — tudo lhe dizia que algo tinha acontecido.

        E sabia, com a certeza que só os vínculos profundos trazem, que era com Gui.

        Queria pegar no telemóvel, sair dali, correr até onde o coração o chamava.

        Mas não podia, estava preso à rotina, ao espaço à espera, e isso estava a matá-lo, os olhos iam da porta ao telemóvel, numa dança inquieta.

        Queria chorar, mas não sabia se podia.

        O tempo arrastou-se até que, finalmente, a porta do elevador se abriu, e Henrique entrou com um ar calmo — demasiado calmo — mas os olhos procuravam apenas uma coisa: o seu ómega.

      Quando os olhares se encontraram, Jorge sentiu o alívio a escorrer pela marca, a tempestade a abrandar e que Gui estava vivo.

        E o corpo, antes em tensão, começou a relaxar.

— Sr. Jorge, por favor, venha ao meu gabinete — disse Henrique, sereno.

       Jorge levantou-se sem hesitar.

       Entraram juntos.

       Henrique fechou a porta à chave e puxou o ómega para um abraço quente, forte, inteiro, um abraço que dizia tudo o que as palavras não conseguiam.

        O corpo pequeno tremeu, o choro contido rompeu-se, e ali, entre braços e silêncio, o amor falou mais alto.

— Desculpa, lobinho… está tudo bem… — murmurou Henrique, acariciando-lhe a nuca.

— O que se passou? Foi com o Gui, não foi? Ele está bem? Diz-me que sim

        Henrique respirou fundo.

— Está tudo bem. Mário ligou-me aflito porque o Gui não acordava. Já tinha chamado o Marco. Ele disse que era só exaustão — esforço extremo, algumas feridinhas… nada grave. Coisas normais quando somos alfas lúpus. Nada que mimo e descanso não cure.

         Jorge fechou os olhos, deixando o alívio entrar.

— Eu sabia que algo tinha acontecido… mas ainda bem que está tudo bem.

— Agora vamos trabalhar. Em casa falamos melhor.

— Podemos passar pelo Gui quando sairmos daqui?

— Claro que sim. Vou avisar a minha mãe que hoje não passamos lá. A miúda já percebeu que tu não vais fugir de novo.

         Jorge sorriu, tímido.

— Obrigado, meu amor…

        Deu-lhe um beijo leve.

        Henrique não resistiu — aprofundou o beijo, puxando o corpo pequeno para si.

        Ambos estavam excitados, mas sabiam onde estavam.

— Vai… sai daqui tentação… estamos no escritório.

— Mau! Provocas e foges… logo pagas — riu Jorge.

Ui… que medo…

— O que vais fazer? — provocou Jorge.

— Fazer-te meu de novo…

          Jorge riu e saiu, deixando um alfa nervoso, excitado e com um sorriso idiota nos lábios.

         Mal se sentou, o telemóvel vibrou.

📩 "Ómega atrevido… isso não se pede a um alfa."

         Jorge mordeu o lábio.

📩 "Conheço um alfa que adorou submeter-se ao ómega…"

        A resposta veio rápida.

📩 "Amo-te, ómega atrevido e sem vergonha… receber-te-ei em mim."

        Jorge corou, o coração acelerado.

📩 "Também te amo."

        O sorriso que lhe surgiu era puro fogo e doçura.


🍃 🍃 🍃


         No final do expediente, Henrique e Jorge seguiram direto para casa de Mário e Gui.

         Jorge ia em silêncio, os olhos baixos, o corpo tenso, e Henrique sentia tudo — a inquietação vinha em ondas.

        Segurou-lhe a mão, deixando fluir calma pela marca, o gesto era simples, mas cheio de significado: estou aqui.

        Assim que chegaram, a porta abriu-se depressa, e o sorriso de Mário morreu ao ver Jorge.

        Não por desagrado, apenas pela emoção, pela culpa e mais do que tudo… por medo.

        O silêncio entre eles durou um segundo, mas foi denso.

        Henrique apertou a mão de Jorge, como quem diz vai.

       Mário respirou fundo e abriu espaço.

— Henrique, Jorge, entrem. O Gui está na sala.

         Mas antes que avançassem, Mário segurou o braço de Henrique.

        O olhar dele estava assustado — não de perigo, mas de receio emocional.

— Que se passa? — perguntou Henrique, já sabendo a resposta.

— Henrique… vou ser um alfa morto — murmurou Mário, com um sorriso nervoso que não chegava aos olhos.

E quem te vai matar?

— O teu ómega… quando vir o estado do Gui.

         Nesse instante, um grito ecoou da sala.

— MÁRIO!

         Era Jorge.

        Entraram depressa.

        Gui estava sentado no sofá, com um sorriso cansado, tentando acalmar o amigo.

        Jorge parou, o choque estampado no rosto.

— Meu Deus, Gui… — a voz falhou antes de subir num tom rouco — …como é que ele te deixou assim?

         A raiva veio antes da razão, o instinto protetor rugiu.

         Gui estendeu a mão, sereno.

— Jorge… calma. Eu estou bem. Juro que estou bem.

        Jorge tremia.

— Isto… isto não é "estar bem", Gui…

        Gui sorriu, suave.

— Acredita… quando chegar a tua vez, vais perceber. Não é dor. É entrega. E fazer amor com o lobo… — riu ao ver a cara de Jorge — …é algo indescritível.

        Jorge engoliu em seco.

— Mas…

— Sem mas, meu querido. Os nossos alfas são assim. Não se controlam totalmente. E quando há marca… tudo é mais intenso. O Mário já se sente culpado que chegue. Não o faças tu também.

         Jorge respirou fundo, a raiva foi-se dissolvendo, dando lugar à inquietação, à ansiedade, à curiosidade.

Queres contar-me tudo?

         Gui levantou-se devagar e estendeu-lhe a mão.

Vem. Vamos conversar no quarto.

         Jorge seguiu-o, sentindo que cada passo o levava a uma verdade que precisava de ouvir.


🍃 🍃 🍃


         Os ómegas desapareceram no corredor, deixando os alfas sozinhos.

         O silêncio era denso, mas não desconfortável.

— Eu sabia que o Jorge me ia acusar… — suspirou Mário.

— Bolas… até eu fiquei com vontade de te matar — disse Henrique, meio a sério, meio a brincar.

— Habituem-se. Não vai ser diferente convosco. Ouviste o que disseram o Marcos e o Gui… também vai acontecer contigo e com o Jorge.

           Henrique empalideceu.

Estás a brincar… foi o teu lobo que fez aquilo?

— Segundo o Gui, não. Fui eu. O lobo foi… meigo. Eu é que fui bruto.

          Henrique passou a mão pelo cabelo, inquieto.

— Tu sabes como o Jorge é… eu tenho de ser tão cuidadoso com ele… qualquer coisa mais brusca e ele fecha-se. Eu não quero magoá-lo. Nunca.

         Mário pousou a mão no ombro do amigo.

— Henrique… nós amamo-los. E eles são mais fortes do que parecem. No cio… o vínculo protege. O amor também.

         Henrique respirou fundo, absorvendo as palavras.

— Henrique, ainda tens tempo até ao teu cio. Vais passar pelo de Jorge primeiro. E podes falar com o Marcos — ele vai ajudar, com certeza. Mas não caias no erro que eu cometi. Não afastes o teu ómega. Ele vai sentir-se mal, magoado, rejeitado. E saber que tens o teu ómega e não o queres… isso dói mais do que qualquer cio. Não faças isso.

         Henrique assentiu devagar, absorvendo cada palavra.

— Obrigado pelos conselhos. Vou falar com o Marcos. Mas não vou rejeitar a ajuda do Jorge. Ele não aceitaria isso, tal como o Gui não aceitou. — Henrique riu, tentando aliviar a tensão. — E se conheço os ómegas… por esta altura o Gui já contou ao Jorge tudo, com todos os pormenores mórbidos. Algo me diz que ele vai estar mais do que preparado para o meu cio.

         Mário riu, abanando a cabeça.

— Tens razão… aqueles dois não escondem nada. Mas eu até compreendo… nós também não.

— E ainda dizem que quem manda são os alfas… — Henrique suspirou, divertido. — Isso é porque não conhecem os nossos ómegas. Estamos nas mãos deles. E gostamos. E MERDA… quem disse que os ómegas são só passivos? O meu gosta bastante de ser ativo… e hoje estou tramado.

         Mário soltou uma gargalhada.

— Vais ser passivo?!

         Henrique riu também, mas havia ternura no brilho dos olhos — aquela luz que só quem ama de verdade carrega.

— Merda… sim. Mas eu gostei de o sentir dentro de mim. E quero experimentar de novo.

        Mário sorriu, cúmplice.

— Eu também gostei… mas o Gui nunca pediu outra vez. O meu ómega é menos atrevido que o teu. Quem sabe um dia eu lhe peça… No amor tudo é válido, desde que os dois desejem.

— Exato.


🍃 🍃 🍃


        No quarto, envoltos pela penumbra suave, Gui contava tudo a Jorge com detalhes que pareciam saídos de um sonho febril.

        Jorge ouvia em silêncio, os olhos arregalados, o coração acelerado.

— Não tiveste medo? — perguntou, num sussurro.

— Tive, sim. Quando o lobo apareceu diante de mim, o medo foi como um trovão. Mas depois olhei nos olhos dele… e vi o Mário. Vi o amor que ele tem por mim. Soube, ali, que não me faria mal. Então deixei o instinto tomar conta. Afinal, o cio… é dos lobos.

         Jorge respirou fundo, absorvendo cada palavra.

— Eu entendo… e aceito. Mas tenho quase certeza de que o Henrique não vai querer ficar comigo. Ele tem medo de me magoar. Sabe que eu preciso de tempo, de preparação. E se for como dizes, no cio deles isso não acontece.

        Gui sorriu, tranquilo.

— Agora que sabem, vão encontrar uma forma. O Marcos pode ajudar-vos.

Jorge baixou os olhos, emocionado.

— Fico feliz por estares bem.

          Gui hesitou um instante… e depois deixou cair a bomba com a naturalidade de quem fala do tempo:

— Acho que posso estar à espera de um filhote.

— O quê?!

— Não houve tempo para proteção. Queríamos esperar mais… mas se aconteceu, será bem-vindo.

          Jorge abriu um sorriso enorme.

— Posso ser tio?

— Claro. E quem sabe, daqui a uns meses, não estejas tu a dizer o mesmo.

— Eu adoraria. Sabes disso.

         Gui levantou-se, caminhando até à janela.

— Vamos chamar os dois para jantar connosco?

— Vou perguntar ao Henrique.

— Então jantam connosco.

— Mas eu…

— Amigo, basta dizermos que queremos. Eles aceitam logo.

          Jorge riu, com um brilho novo nos olhos.

— Tens razão.

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