Capítulo 34 — Cura
Tinha acabado, foram dias intensos, como uma dança entre tempestade e abrigo.
Mário sentia-se pleno, como se algo há muito perdido tivesse finalmente encontrado lugar. O vazio que o consumia após cada cio estava preenchido.
Aquele era o seu ómega, o seu lobo, por fim, repousava em paz.
Despertou primeiro.
O quarto ainda envolto em sombras suaves, e Gui dormia ao seu lado — tranquilo, vulnerável, entregue, mas o olhar de Mário logo se perdeu nas marcas espalhadas pelo corpo do ómega. Algumas ainda guardavam vestígios de sangue seco, como lembranças que não se apagavam.
O coração apertou-se-lhe — a culpa veio como um sussurro cortante. Terá ido longe demais?
Gui estava de bruços.
Mário, com mãos trémulas, destapou-o com cuidado, procurando com toda a delicadeza sinais de algum outro ferimento.
Não havia sangue.
Mas o corpo permanecia imóvel, pesado, e isso preocupou-o ainda mais.
— Anjo… — chamou, baixinho. — Gui… acorda, por favor…
Nada. O silêncio era um peso que se espalhava pelo quarto como névoa, o pânico subiu-lhe pela garganta, e pegou no telemóvel com mãos que já não obedeciam.
📞 — [Bom dia, Mário! Há quanto tempo…]
Marcos. Médico, amigo, alfa marcado, e alguém que sabia ouvir silêncios.
📞 — "Preciso de ti. Podes vir cá a casa? É urgente."
A urgência na voz de Mário não deixou espaço para perguntas.
📞 — [Estou a caminho.]
Mário voltou para a cama, puxou Gui para si com cuidado, o corpo do ómega encaixou-se no seu, e um queixume leve escapou-lhe dos lábios.
Mário chorou sem perceber, a dor não era só física — era o medo de ter ferido quem mais amava.
Então pensou em Henrique, e em como precisava dele, mas Jorge, ligado pela marca, sentiria qualquer oscilação emocional, e isso podia levantar suspeitas.
Escreveu:
📩 "Estás no escritório? Preciso de ti. Vem cá a casa. Não tragas o Jorge. Por favor."
🍃 🍃 🍃
A campainha tocou algum tempo depois.
Marcos e Henrique tinham-se cruzado no elevador, e o coração de Henrique apertou ao ver Marcos ali, o que significava que… era grave.
— Mário, o que se passou? O Gui?… — Perguntou Henrique, quase sem respirar.
A campainha tocou algum tempo depois.ra pela marca, pelo risco de Jorge sentir qualquer sombra de dor.
— Meninos… querem dizer-me o que se passa? —perguntou Marcos, com a calma de quem já viu demasiadas dores para se assustar facilmente.
— Ele… não acorda… — a voz de Mário quebrou. — O cio acabou hoje… e ele não acorda… eu… eu marquei-o demais… e se eu o feri por dentro?… eu não posso perdê-lo…
Marcos não perdeu tempo.
— Vou vê-lo.
Mas quando tentou passar, Mário bloqueou-lhe a entrada, tomado pelo pânico.
— Não! Espera! Eu…
— Eu vou entrar — disse Marcos, firme, sem elevar a voz. — E tu vais deixar-me ajudar.
Mário tentou segui-lo, mas Henrique segurou-o.
— Deixa-o trabalhar — murmurou. — Respira. Conta-me o que te lembras.
— Quase nada… só flashes… — Mário passou as mãos pelo rosto. — Foi intenso… o mais intenso da minha vida… o meu lobo… nunca o senti assim… mas eu não lembro… e o corpo dele… Henrique, e se eu o feri?… e merda… acho que nem proteção usamos…
Henrique respirou fundo, tentando manter a própria ansiedade sob controlo.
— Eles são fortes, Mário. O vínculo protege. O amor também. Não te castigues antes de saberes.
O silêncio instalou-se até que a voz de Marcos ecoou do quarto:
— Mário?
O alfa quase caiu ao levantar-se.
— Então? Como está ele?
— Está bem — disse Marcos, com um sorriso leve. — Relaxa.
O corpo de Mário desfez-se num suspiro e o choro cessou, a alma encontrou um ponto de repouso.
— Tem feridas, sim, mas vão cicatrizar. Não há lesões internas. Ele está exausto, com os níveis de açúcar baixos. Os ómegas gastam muita energia no cio, e o teu ainda não está habituado. Dá-lhe descanso. Coisas doces. Carinho. E nada de sexo por uns dias.
Mário assentiu, lágrimas silenciosas a correrem-lhe pelo rosto.
— Obrigado… obrigado, Marcos…
— Mais uma coisa — acrescentou o médico. — Ele mencionou que não usaram proteção. O risco de gravidez existe. Falei com ele sobre a pílula do dia seguinte. Ele quer falar contigo sobre isso. E daqui a um mês, análises. Para os dois.
Henrique sorriu, tenso.
— O meu foi há pouco tempo… agora é o Jorge que anda ansioso. Vou voltar ao escritório antes que ele rebente.
Marcos recolheu o material.
— Cuidem-se. E cuidem deles.
Quando saíram, a casa mergulhou num silêncio expectante.
Mário entrou no quarto com o coração a bater descompassado, viu Gui acordado, mas sem o sorriso que iluminava até os cantos mais escuros do seu lobo.
Sentia a preocupação pairar no ar, densa como uma névoa entre os dois.
Mário sentou-se ao lado dele na cama e puxou-o para um abraço apertado, como quem tenta juntar os pedaços de algo que teme ter quebrado.
— Anjo… minha vida… fiquei tão assustado… como te sentes? Dói-te?
— Estou bem… só muito dorido, só isso.
— Como consegues estar calmo ao meu lado? — a voz de Mário tremia. — Magoei-te… estás cheio de marcas… devias ter medo de mim… e do meu lobo…
Gui ergueu os olhos, cansados, mas firmes.
— Medo? Porquê? Foi intenso, sim… às vezes violento… mas esse também és tu. E acredita, adorei cada bocadinho. Desculpa se te assustei… e não te atrevas a dizer o que estás a pensar.
— E o que eu estou a pensar? — perguntou Mário, tentando sorrir.
— Que não vais querer passar o cio comigo outra vez. Nem penses nisso… adorei o teu lobo… quero estar com ele mais vezes. — O tom provocador, a faísca de humor nos olhos, eram bálsamo para o alfa.
Mário soltou um riso fraco.
— Começo a ficar com ciúmes do meu lobo… deixou-te todo ferido e ainda o defendes.
— Bem podes ficar… ele é muito mais meigo que tu! E quem me deixou ferido não foi o lobo… foste tu.
Mário empalideceu.
— Eu? Eu fui quem te deixou assim? Merda… não me lembro… fui sempre violento contigo? Alguma vez… fiz amor contigo… ou foi só sexo bruto? Conta-me tudo, por favor…
Havia urgência crua na voz dele, um medo que não se escondia, os olhos buscavam nos de Gui uma verdade que o libertasse da culpa.
Gui pousou a mão no rosto dele.
— Fica calmo, por favor… — disse com suavidade firme. — Em nenhum momento eu me senti ameaçado. Em nenhum momento senti medo. Senti prazer, sim… mas acima de tudo senti o teu carinho, o teu amor por detrás de cada gesto. Foste tu, Mário. Apenas tu. Durante todo o cio. E eu… eu aprenderei a conviver com isso. Agora já sei com o que conto. E quero repetir… porque foi fantástico. Quero repetir por muitos anos.
A culpa ainda pesava, mas começava a dissolver-se.
— Agora sabes por que eu tinha medo de passar contigo…— murmurou. — Sempre foram intensos, selvagens mesmo. Mas contigo… eu sabia que seria mais. Tive medo de me descontrolar, de te ferir… ou até… de te matar. E isso… isso eu não me perdoaria. Pensar em te perder… deixa-me doente. O meu lobo nunca fez tenção de marcar nenhum dos ómegas com quem passei cios antes… mas contigo… foi ele que te marcou.
Gui sorriu, travesso.
— Não te vais livrar de mim tão depressa.
— Conta-me tudo, por favor?
— Tens a certeza?
— Tenho.
Gui respirou fundo, pronto para começar, mas Mário ergueu a mão, interrompendo-o.
— Antes disso… temos outro assunto.
Gui franziu o sobrolho.
— Não, não temos — disse Mário, com ternura firme. — Se estiveres grávido, será bem-vindo. Será criado com amor. E se não estiveres… continuaremos a tentar. E antes que perguntes… sim. Tenho a certeza.
O sorriso voltou ao rosto de Gui — aquele sorriso que iluminava tudo.
— Adoro esse teu sorriso, Anjo — murmurou Mário.
— Tenho fome… vais alimentar o teu ómega?
— Vou buscar qualquer coisa para o meu ómega comer… descansa.
Mário voltou com uma bandeja de sandes e leite, e colocou-a diante de Gui com cuidado, como quem oferece mais do que alimento — oferece presença.
Sentou-se ao lado dele, atento a cada expressão.
— Queres ouvir como foi? — perguntou Gui, com um brilho suave nos olhos.
— Por favor… — respondeu Mário, quase reverente.
Gui começou a contar, com detalhes, com pausas, com sorrisos tímidos e lembranças vivas. E Mário ouvia, espantado, como quem descobre partes de si que desconhecia.
— Queres dizer que fui mais bruto que o meu lobo? — perguntou, incrédulo.
— Sim… estou a dizer isso mesmo. O teu lobo tem uma língua fantástica e foi sempre meiguinho a entrar em mim… ao contrário de um certo alfa que eu conheço… — provocou Gui, com um sorriso malicioso — …que gosta de me ouvir gritar.
Mário passou a mão pelo rosto, entre choque e fascínio.
— Nunca imaginei que o lobo pudesse ser meigo… estou com ciúmes do meu lobo… e com raiva. Ele fez amor contigo… eu só te violentei.
Gui segurou-lhe o queixo, firme.
— Queres parar com esse disparate? Eu gostei dos dois. Aliás, dos dois não… adorei-te a ti. Porque tu és os dois.
Mário respirou fundo, tocado até ao osso.
— Prometo que te compensarei… farei amor contigo. Com calma. Com tudo o que sinto.
Gui riu baixinho.
— Príncipe… vai com calma. Fica longe de mim por uns tempos… não sei se aguentaria…
— Ei… calma, Anjo. Não vou ficar longe. Vou ficar bem perto. Mas sexo… só quando tu quiseres. — Fez uma pausa, sorrindo. — Mas posso pedir que uses essa tua boquinha maravilhosa de vez em quando, não posso?
Gui mordeu o lábio, provocador.
— Vou adorar usar a minha boca para satisfazer o meu alfa… Mas tu não vais nunca usar o teu poder de alfa para me obrigares, pois não?
Mário aproximou-se, encostando a testa à dele.
— Nunca. Comigo, o desejo será sempre escolha. E o amor… sempre abrigo. Anjo… tu és o meu ómega… a minha esposa… a pessoa que mais amo neste mundo. Não meu escravo. És livre. Sempre. E isso inclui o sexo. Só haverá se tu quiseres, quando tu quiseres. Mas posso sempre tentar convencer-te…
Gui sorriu, doce.
— Vou estar sempre pronto para ti. Não vais trabalhar hoje? Posso ir também!
— Nem penses nisso… vamos ficar aqui os dois. Vou tratar do meu ómega… ou serei um alfa morto.
— Vais estragar o teu ómega com mimos…
— O meu ómega merece isso. E muito mais. Já te disse que te amo, ómega?
— Não precisas de dizer por palavras. Eu sinto nas tuas atitudes. E eu também te amo. Muito.
Mário beijou-lhe a testa com delicadeza.
— Vou dar banhinho ao meu ómega… e depois tratar dessas feridas.
Gui fechou os olhos, deixando-se embalar pela promessa.
Ali, entre lençóis e murmúrios, o amor não era apenas desejo — era cuidado, era escolha, era abrigo.
E assim ficaram, o resto do dia, perdidos na companhia que finalmente podiam chamar de casa…
…sem imaginarem que o final daquela tarde lhes traria surpresas que nenhum dos dois estava preparado para enfrentar.