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32 – Esta Noite é Nossa

           Henrique e Jorge chegaram juntos ao local, como faziam tantas vezes, mas naquele dia algo estava diferente. Não traziam a leveza habitual, e o peso do momento refletia-se em cada gesto. No quarto que tinham acabado de deixar, ficaram Mário e Gui — o casal que ambos viam como família —, entregues a um destino incerto, onde a esperança e o medo se misturavam num silêncio carregado de expectativa.

          O percurso entre a casa de Mário e o escritório foi feito em silêncio; em ambos os rostos, notava-se a preocupação. A zona de conforto eram as mãos entrelaçadas, que transmitiam segurança mesmo diante do silêncio e da inquietude, servindo de elo invisível que os mantinha unidos face ao peso do momento.

          O elevador abriu com um som suave, e Jorge saiu primeiro, respirando fundo como quem tenta recompor-se antes de entrar num espaço público. Henrique veio logo atrás, mais pálido do que o habitual, o cabelo desalinhado e as mãos ainda trémulas — não de medo, mas do peso do que tinham acabado de viver.

           Assim que atravessaram a receção, o ambiente profissional envolveu-os como uma máscara automática.

          Maria, atrás do balcão de mogno, levantou os olhos com uma expressão de preocupação no rosto. Ela havia notado a saída apressada dos dois instantes antes.

— Dr. Henrique, está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

          Jorge permaneceu em silêncio, semblante fechado, e foi sentar-se no seu lugar, fixando o olhar no vazio da mesa ao lado.

— Nada de grave, Maria. Agradeça por vocês, betas, não passarem por cio.

          Maria corou levemente antes de perguntar:

— O Dr. Mário? E o Gui… — A frase ficou pela metade, quase revelando mais do que devia.

           Maria corou levemente antes de perguntar:

— Desculpe, isso não é da sua conta.

— Exatamente.

           Henrique endireitou os ombros, mas o gesto saiu tenso. Jorge percebeu, tal como percebia tudo nele.

— Estás bem? — murmurou, num tom baixo, discreto, adequado para um lugar onde paredes tinham ouvidos.

          O cheiro de Henrique estava diferente — mais denso, mais quente, como se o lobo ainda roçasse por dentro da pele, inquieto.

           Henrique assentiu, mas o gesto era mais pesado do que convincente.

— Só… cansado.

          Jorge aproximou-se um pouco, mas não o suficiente para chamar atenção.

— Foi intenso.

          Henrique soltou um riso pequeno, quase impercetível.

— Intenso é pouco.

        O silêncio caiu entre eles, carregado de imagens recentes: o cheiro do cio ainda suspenso no ar, a urgência que os impelira a sair dali com o coração a bater no pescoço, tudo tão vivo que parecia ecoar no espaço entre ambos.

        Depois, o carro — onde o silêncio pesado se instalou, transformando o desejo súbito numa promessa sussurrada, quase tão palpável quanto tudo o que tinham vivido minutos antes.

         Henrique passou a mão pelo cabelo, nervoso, e desviou o olhar para o chão.

— Sabes… — começou ele, a voz baixa, quase um sussurro. — Depois de tudo aquilo… eu…

         Engoliu em seco.

— Eu só pensei numa coisa.

         Jorge inclinou-se ligeiramente, atento.

         Henrique levantou os olhos, e havia ali vulnerabilidade, coragem, e o eco da promessa feita no carro.

— Que esta noite… — murmurou. — Esta noite é nossa.


🍃 🍃 🍃


         Quando finalmente encerraram o expediente, o escritório já estava quase vazio. As luzes automáticas começavam a apagar-se por setores, e o silêncio do fim de dia envolvia o espaço como um cobertor pesado. Jorge desligou o computador, recolheu alguns papéis e olhou discretamente para Henrique, que ainda fingia rever um documento que já tinha lido três vezes.

— Vamos? — perguntou Jorge, num tom suave.

         Henrique assentiu, mas demorou um segundo a mais do que o habitual a levantar-se.

         Jorge reparou, não comentou nada, mas pela marca percebeu não só a ansiedade de Henrique, como também a inquietação selvagem do lobo — um turbilhão de emoções que quase o fez estremecer. Aquela ligação era intensa, quase tangível, e por um instante sentiu a tensão correr-lhe pelo corpo, misturando sentidos, como se partilhasse não apenas sentimentos, mas instintos. Talvez, pensou Jorge, fosse esse o verdadeiro peso da promessa feita: carregar dentro de si emoções que não eram só suas.

         Saíram lado a lado, mas sem se tocarem — não ali, não naquele corredor onde ecos de passos podiam denunciar mais do que queriam mostrar. Só quando entraram no elevador, as portas fechadas atrás deles, o silêncio ganhou outra textura.

         Henrique respirou fundo, como se estivesse a preparar-se para algo.

        Jorge inclinou ligeiramente a cabeça, atento.

— Nervoso? — perguntou ele, sem ironia, sem pressão.

         Henrique desviou o olhar para o chão.

— Não é nada. Estava a pensar no Mário e no Gui. E em como estarão a lidar com tudo aquilo.

         A resposta saiu rápida demais — a primeira coisa que lhe veio à cabeça para desviar a atenção da pergunta.

        Jorge apenas estendeu a mão, devagar, oferecendo-a. O aroma de Jorge tocou o de Henrique, suave, quente, e o lobo dele acalmou como se tivesse encontrado o seu lugar. Um sorriso confiante apareceu no rosto dele, e Henrique aceitou a mão sem hesitar, sentindo o calor do gesto suavizar-lhe a tensão no peito. Por um instante, o silêncio entre os dois tornou-se mais denso, mas também mais cúmplice — como se aquele toque dissesse mais do que qualquer palavra ousaria revelar.

— Se bem conheço o meu amigo, tenho a certeza de que conseguiu dominar o lobo de Mário.

         O elevador desceu em silêncio, mas aquele toque — simples, firme, quente — dizia tudo o que nenhum dos dois ousava verbalizar ali.


🍃 🍃 🍃


          Assim que entraram no apartamento, o ambiente familiar trouxe um pouco de calma. Jorge tirou o casaco e pendurou-o com um cuidado quase exagerado, como se precisasse de ocupar as mãos para não pensar demais. Henrique pousou as chaves na mesa da entrada e ficou um momento parado — os gestos mais lentos do que o habitual, como se também ele precisasse de tempo para aterrar.

— Queres que eu faça o jantar? — perguntou Jorge, já a caminho da cozinha.

— Eu ajudo — respondeu Henrique, rápido demais.

          Jorge sorriu de lado.

— Não precisas.

— Quero — insistiu Henrique, aproximando-se.

         E ali, lado a lado, cortando legumes, mexendo panelas, trocando olhares breves, a tensão foi-se transformando em algo mais suave. Henrique evitava o olhar dele, mas aproximava-se sempre um pouco mais, como se estivesse a tentar ganhar coragem sem o admitir. Jorge reparou nos gestos cuidadosos, na forma como ele segurava a faca como se precisasse de ocupar as mãos — e percebeu imediatamente.     Henrique estava nervoso, mas não era medo. Era expectativa.

           Quando se sentaram à mesa, o jantar simples — massa, legumes, um pouco de frango — parecia quase cerimonial. Henrique mexia na comida sem grande apetite, mas com uma concentração estranha, como se estivesse a preparar-se para um salto.

         Jorge pousou os talheres.

— Henrique… — chamou, num tom baixo. — O que se passa?

         Henrique levantou o olhar devagar. Os olhos dele estavam brilhantes, não de lágrimas, mas de coragem.

— Estive a pensar… — começou, a voz baixa, quase um sussurro. — No carro. No que te disse.

          Jorge manteve-se imóvel, atento, presente.

         Henrique respirou fundo, como quem atravessa uma porta invisível.

— Esta noite… Eu quero que seja nossa. E… se tu quiseres… quero que sejas tu o ativo. Quero confiar-te o que nunca confiei a ninguém.

         O silêncio que se seguiu não foi vazio, foi cheio, denso, acima de tudo carregado de significado.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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