Capítulo 03 — Mais Perto
O perigo deixara um rasto no ar, mas começava já a dissolver-se. Só então Jorge e Gui se permitiram relaxar verdadeiramente. A emoção acumulada transformou-se num sorriso tímido e num olhar de gratidão dirigido aos seus protetores. O perigo afastara-se, mas algo novo permanecia no ar — um laço silencioso, instintivo, que se fortalecia a cada respiração. Pela primeira vez, ambos sabiam que não estavam sozinhos.
O cheiro denso do medo começou a dissipar-se, diluído por aromas mais firmes, mais seguros.
Mário inclinou-se ligeiramente para a frente, os olhos cheios de uma ternura tranquila. A voz dele atravessou o espaço como um cobertor quente:
— Meu anjo, podes relaxar. Vai ficar tudo bem.
O aroma quente de mogno e canela envolveu Gui, despertando nele uma sensação de pertença rara. Por um instante, fechou os olhos e inspirou fundo, permitindo que aquela energia protetora acalmasse o coração acelerado.
Um sorriso tímido nasceu-lhe nos lábios, desta vez sincero, espontâneo. Olhou Mário nos olhos, o olhar repleto de gratidão.
— Obrigado… — murmurou, a voz ainda embargada, mas mais firme, como se finalmente acreditasse na promessa de segurança.
Satisfeito, Mário apertou-lhe a mão com suavidade.
— Assim mesmo, anjo. Menos assustado. Gosto mais assim.
Henrique manteve-se alerta por mais um instante, certificando-se de que o intruso se afastava de vez. Só então relaxou os ombros e contornou Jorge, colocando-se atrás dele. Os olhos semicerrados, o cheiro mais intenso — sinais claros de que o lobo ainda estava à superfície. Pousou suavemente a mão nos ombros ainda rígidos do ómega. O cheiro familiar de pinho e baunilha chegou-lhe antes do toque — e o lobo de Jorge reconheceu-o imediatamente.
O corpo reagiu antes da mente.
O toque de Henrique era diferente — não invadia, não exigia, apenas oferecia.
Por um segundo, Jorge hesitou. Memórias antigas ameaçaram surgir: mãos que não pediram permissão, noites em que o corpo se fechava para sobreviver. Mas ali, com Henrique, o passado parecia menos ameaçador.
O beijo leve na bochecha que se seguiu foi uma promessa silenciosa: aqui, és seguro.
O calor espalhou-se-lhe pelo rosto. E, surpreendentemente, não sentiu necessidade de se afastar. O medo cedeu espaço a um conforto tímido — e a um desejo nascente de acreditar que podia ser amado sem reservas.
— Desculpa o atraso, meu lobinho — murmurou Henrique ao ouvido dele, a voz carregada de um carinho que parecia antigo e novo ao mesmo tempo.
Jorge relaxou sob o toque. Um sorriso pequeno, cúmplice, surgiu entre os dois.
Mas a tensão não desaparecera por completo.
O outro alfa ainda estava ali, demasiado perto, o olhar predador a rondar a mesa. O salão pareceu abrandar. As luzes lançavam sombras densas, e cada gesto carregava significado.
Henrique ergueu o queixo.
Mário percebeu.
Os dois trocaram um olhar silencioso — uma decisão tomada sem palavras.
Henrique deu um passo à frente. A voz dele cortou o ar:
— Esse lugar é meu.
O alfa adversário tentou insistir, aproximando-se um pouco mais, invadindo o espaço de uma forma deliberada. O cheiro dele — fumo e metal, áspero, hostil — chocava com o ar quente do bar.
— Não vejo o nome dele em ti — provocou, com um sorriso torto. — Ainda não o marcaste. Para mim, ele está livre.
Mário avançou também, posicionando-se ao lado de Henrique.
— Livre de ti, com certeza — disse, a voz baixa, perigosa. — Vais embora pelas tuas próprias pernas, ou queres que te ajudemos?
O outro alfa hesitou, o sorriso a vacilar perante a dupla.
Henrique não recuou. O braço que segurava Jorge tornou-se uma muralha. O olhar dele era aço.
— Ele é meu. — A voz ecoou pelo bar. — Sai. Agora.
A força conjunta de Henrique e Mário, a certeza nos seus gestos, foi suficiente.
O alfa invasor recuou, os olhos estreitos lançando um último olhar carregado de rancor e humilhação, deixando transparecer toda a frustração e o orgulho ferido. Ao afastar-se, o cheiro acre da derrota misturava-se ao aroma forte e animal do dominante, impregnando o ar com uma tensão palpável que parecia envolver todos os presentes.
O silêncio que ficou era balsâmico.
Agora, apenas os quatro restavam à mesa. O ar parecia mais leve, como se uma tempestade tivesse passado.
Henrique sentou-se junto de Jorge, atento a cada sinal. Segurou-lhe a mão e acariciou-lhe o rosto com uma ternura infinita.
— Lobinho… já passou. Fica calmo, por favor.
Jorge encarou-o. Não recuou. Pela primeira vez em muito tempo, permitiu-se ficar exposto.
Onde antes havia tensão, nasceu um abrigo silencioso.
Deixou-se ficar. E, no silêncio, algo dentro dele se acalmou.
Gui, ainda surpreendido, deixou escapar uma expressão de espanto.
Mário inclinou-se, curioso:
— Que cara é essa, anjo?
Gui manteve o olhar fixo em Jorge e Henrique.
— O teu amigo deve ser mesmo especial…
Mário franziu o sobrolho, intrigado.
— Ele tem bom coração, sim. Mas porquê?
Gui hesitou, os dedos entrelaçados, antes de confessar:
— Conheço o Jorge há anos. E nunca o vi deixar alguém tocar-lhe assim. Nem eu consegui. E agora… olha para ele.
O silêncio que se seguiu era feito de compreensão.
Mário passou a mão pelo queixo, absorvendo o peso daquelas palavras.
Gui baixou os olhos, a voz num sussurro:
— Ele já sofreu muito…
Mário aproximou-se, o coração apertado.
— Sofreu… o quê?
Gui mordeu o lábio, desviando o olhar.
— Só ele pode contar essa história. Só espero que o teu amigo não o magoe. Ele merece paz.
Mário assentiu, sentindo o peso daquela verdade.
— Prometo que não vai acontecer. Mas percebo o teu receio. — Mário observou Gui, reparando no modo como os ombros dele tremiam ligeiramente. — Tens medo de mim?
Gui ergueu o olhar de repente, as mãos entrelaçadas a apertarem-se uma contra a outra, tentando controlar o tremor. O coração batia-lhe rápido, a ansiedade a invadir-lhe o peito.
— Não é de ti. O medo é pelo Jorge. — Gui respirou fundo, sentindo o aperto no peito. — Não aguentava vê-lo sofrer outra vez, como naquela noite em que tudo desmoronou.
A ansiedade de Gui não lhe permitiu esconder o leve cheiro de pêssego.
Mário sentiu o cheiro e, intrigado, inclinou-se, procurando os olhos dele, tentando entender o que se passava.
— Gostas mesmo dele, não é? — A voz de Mário quase falhou, um vestígio de insegurança a pairar entre as palavras. — Tens medo de o perder? Ou… de ele se aproximar do Henrique?
Gui baixou o olhar sem responder logo, os dedos a brincarem nervosos com a manga do casaco. O silêncio pesou, só quebrado pelo som distante dos seus próprios batimentos, acelerados.
A tensão entre os dois era palpável; Gui sentiu o estômago apertar, mas percebeu que algo era diferente. Mário inspirou discretamente, sentindo o aroma adocicado que parecia envolver aquele momento e, por um instante, hesitou, incapaz de ignorar o efeito que o cheiro ómega provocava em si. A dúvida e um leve ciúme pairavam no ar — mas não vinham dele. Mário desviou o olhar por um instante, os lábios semicerrados como quem tenta esconder o que sente, lutando entre o desejo de se aproximar e o receio de revelar demasiado.
— Não é isso… — murmurou, com a voz baixa, hesitante, como se as palavras lhe escapassem do controlo. — Só quero protegê-lo. É o meu melhor amigo.
Depois da tensão, Mário finalmente relaxou. Sentiu o peito expandir-se, como se pudesse respirar fundo pela primeira vez, deixando a ansiedade escorrer para longe. Uma onda de alívio atravessou-lhe o corpo, libertando o peso que carregava desde o início da conversa.
Tocou de leve no braço de Gui, num gesto discreto, agradecendo silenciosamente pela presença e pelo apoio, sentindo que aquele toque era um elo silencioso entre eles naquele momento de vulnerabilidade.
— Espero merecer, um dia, que me protejas assim também.
Gui corou, o sorriso tímido a escapar-lhe sem que conseguisse controlar. Quis responder, mas as palavras fugiram-lhe. Só levantou os olhos quando Mário, num gesto suave, lhe tocou o queixo, guiando-lhe o rosto para cima.
Os olhos de Mário estavam fixos nos seus lábios.
Gui sentiu um calor súbito subir-lhe pelo peito acima, um desejo novo que não sabia bem onde pousar — misturado com receio, mas também com uma vontade crescente de não recuar. Fechou os olhos quando os lábios de Mário tocaram os seus — um toque breve, delicado, quase uma pergunta. O coração disparou. Sentiu o calor daqueles lábios espalhar-se pelo rosto, pelo pescoço, pela pele toda — e o seu aroma de pêssego intensificou-se sem que conseguisse controlá-lo, denso, involuntário, uma resposta do corpo que as palavras ainda não sabiam dar. Mário inspirou fundo, e Gui sentiu esse momento — o alfa a recebê-lo, a reconhecê-lo — como se o beijo tivesse sido apenas o início de algo muito maior.
— Desculpa… ficas irresistível quando te envergonhas— murmurou Mário, com um sorriso suave, inspirando fundo o aroma doce que agora envolvia ambos, deixando claro que sentia o efeito daquele desejo manifestado no ar.
Gui não respondeu. O coração batia-lhe desordenado, e temia que qualquer palavra estragasse aquele instante.
— Sabes dançar, anjo? — perguntou Mário, direto, o tom quente.
— Sei — respondeu Gui, a voz trémula, mas firme.
— Danças comigo? Preciso sentir-te perto. Posso?
— Sim… quero.
Gui agarrou-lhe a mão, sentindo o toque quente e reconfortante.
Caminharam juntos para a pista, as mãos unidas, como se o mundo tivesse encolhido até caber entre os dedos entrelaçados.
🍃 🍃 🍃
Na mesa, Jorge permanecia imóvel, dividido entre o conforto do toque de Henrique e a memória das feridas antigas. Henrique passou-lhe a mão pela bochecha, suave, e a pele de Jorge arrepiou-se.
— Já passou, lobinho. Não deixo que ninguém te magoe— murmurou Henrique, a voz cheia de carinho e curiosidade. — Que queria ele?
Jorge baixou o olhar, o coração acelerado, a vergonha a apertar-lhe o peito. Confiava em Henrique, mas o medo ainda soprava dentro de si.
— Jorge, olha para mim… — pediu Henrique, firme, mas sem imposição. Não queria usar a voz alfa; queria apenas ser ouvido.
Tocou-lhe no queixo com delicadeza, tentando encontrar-lhe o olhar. Jorge manteve os olhos fechados, à procura de abrigo dentro de si. Sentiu o toque quente e seguro, e ouviu Henrique falar, baixo, protetor:
— Lobinho, não tenhas medo. Nunca te farei mal. Não vais ouvir a minha voz alfa. Quero que sejas livre, que me olhes sem receios, que fales comigo sempre que quiseres. Estou aqui. Só para ti. Abre os olhos?
As palavras atravessaram Jorge como luz a romper uma porta entreaberta. Inspirou fundo, abriu finalmente os olhos e encontrou o azul intenso de Henrique — cheio de ternura.
O sorriso tímido que Henrique lhe deu iluminou tudo à volta.
— Obrigado… mesmo, lobinho — murmurou Henrique, a voz embargada.
Jorge esboçou um sorriso pequeno, mas desta vez sentiu-se menos inseguro. O calor do olhar de Henrique dava-lhe força para não se esconder.
Henrique notou o sorriso e brincou:
— O que foi? Achas que tenho graça?
— Não — Jorge riu, encolhendo os ombros. — Gosto quando me tratas assim… de "lobinho". Faz-me sentir menos sozinho. E obrigado por não largares a minha mão. Senti mesmo que não ias embora.
A sinceridade surpreendeu-o. Era raro conseguir expressar-se sem tropeçar no medo.
Henrique inclinou-se, curioso:
— Mas… como sabias isso?
Jorge hesitou. Um relâmpago de memórias antigas e dolorosas cruzou-lhe o pensamento, deixando-o vulnerável; sentiu o peito apertar, como se as lembranças se insurgissem contra o presente.
Henrique percebeu de imediato o desconforto do amigo: o olhar de Jorge desviou-se, os dedos encolheram-se ligeiramente, a respiração tornou-se mais curta.
O instinto de proteção de Henrique intensificou-se. O coração bateu mais rápido, e sentiu um impulso de confortar Jorge sem ser invasivo. O vínculo entre os dois tornava-se tangível, carregado de cumplicidade e uma tensão que não se explicava só com palavras.
— Não tens de explicar nada, Jorge. Só quero que saibas que estou aqui, ao teu lado, sempre que precisares.
O silêncio tornou-se confortável. Jorge fechou os olhos por um instante e sentiu-se plenamente presente, como se aquele instante suspendesse qualquer preocupação ou dor.
— Não sei explicar… — murmurou Jorge. — Antes de te ver, já sentia que estavas por perto. O teu cheiro… era diferente. E quando olhei para ti, percebi que não me assustavas.
Henrique esperou. Não interrompeu.
— Eu também senti — confessou Henrique. — O teu cheiro era tudo o que fazia sentido na sala. Fiquei… ciumento, ao ver aquele outro alfa contigo.
Jorge engoliu em seco. A memória ardeu outra vez — o toque invasivo, o medo.
— Foi horrível quando ele me tocou. Odeio que me toquem sem pedir — murmurou, quase inaudível.
Henrique afastou a mão, deixando-a repousar aberta sobre a mesa — acessível, mas sem invadir.
— Não faz mal, Jorge. Não tens de explicar nada. — Sorriu de leve. — Se quiseres falar, estou aqui. E se quiseres a minha mão… é só pedires. Não vou a lado nenhum.
Jorge encarou Henrique, surpreso com a simplicidade daquela promessa. Por um instante, os seus olhos encontraram os de Henrique, e naquele olhar havia um entendimento silencioso, uma troca de confiança que ultrapassava as palavras.
Inspirou fundo e, devagar, estendeu a mão, hesitando por um segundo antes de entrelaçar os dedos nos de Henrique. Sentiu o calor reconfortante do toque, e a leveza de saber que podia largar a qualquer momento — mas, naquele instante, escolheu ficar.
Henrique apertou-lhe a mão com suavidade, apenas o suficiente para responder, nunca para prender. Um sorriso discreto surgiu-lhe nos lábios, como um convite silencioso a confiar. O silêncio, antes intimidante, tornou-se um refúgio onde ambos podiam existir, juntos.
— O teu toque não me assusta — sussurrou Jorge. — Gosto. Só preciso de tempo, está bem?
— Todo o tempo do mundo — respondeu Henrique, com um sorriso genuíno. — Não quero apressar nada. Só quero que fiques bem. Vamos passo a passo. À tua maneira.
E naquele instante, Jorge percebeu que talvez, finalmente, começasse a acreditar — não pelas palavras, mas pelo silêncio que não cobrava, pelo toque que só vinha quando era desejado.
As lágrimas ameaçavam romper, mas Jorge esforçou-se por manter a compostura, absorvendo cada gesto e cada promessa silenciosa do alfa ao seu lado.
Inspirou fundo, a voz trémula, mas determinada:
— Henrique… o que esperas de mim? O que queres realmente?
Henrique aproximou-se, o olhar azul repleto de ternura.
— Quero que confies em mim, Jorge. Quero ser o teu porto seguro, o teu alfa. Não te peço pressa, só te peço que não desistas de tentar. Podemos ir devagar, ao teu ritmo. O importante é que te sintas seguro.
Havia verdade em cada palavra. Desde o primeiro olhar, Henrique sentira uma ligação inexplicável — como se tivesse encontrado algo que procurava há muito tempo. A necessidade de proteger Jorge era instintiva, nascida de um desejo profundo de cuidar de alguém que via tão frágil e, ao mesmo tempo, tão forte por sobreviver ao passado.
— Aceita-me como teu alfa — pediu Henrique, a voz a vacilar. — Deixa que eu te chame "meu ómega", que te proteja. Preciso tanto de saber que és meu… Mal nos conhecemos, mas é assim que me sinto.
— Não quero apressar nada, lobinho. — A voz saiu-lhe mais rouca do que pretendia. Passou o polegar pelo dorso da mão de Jorge, devagar, consciente do que aquele toque lhe fazia — o calor a subir pelo braço, o instinto a apertar-lhe o peito, o corpo a pedir o que a cabeça recusava apressar. — Posso desejar-te muito — e desejo, não vou mentir-te. — Ergueu os olhos, fixando-os nos de Jorge. — Mas não é só isso que eu quero. Tu é que dirás quando estiveres pronto. Só peço para estar ao teu lado.
Henrique manteve o olhar fixo em Jorge, como se quisesse garantir que cada palavra era compreendida. O desejo existia, claro, mas o que realmente importava era o homem à sua frente — frágil, corajoso, cheio de histórias que Henrique estava disposto a receber quando ele se sentisse seguro.
Jorge respirou fundo. Sentiu o corpo relaxar aos poucos, como se finalmente pudesse baixar as defesas.
— Sim, aceito. Eu quero ser o teu ómega, meu alfa — disse, tocando com carinho o rosto de Henrique.
A sinceridade da resposta fez o coração de Henrique acelerar. A ansiedade misturou-se com esperança. Perguntou-se se aquele momento marcaria um novo começo — e percebeu que sim.
Jorge, envolvido pela paciência e honestidade de Henrique, sentiu uma onda de emoções invadir-lhe o peito. Dúvidas ainda sussurravam, mas o alívio era mais forte. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se visto — desejado não pelo que podia dar, mas pelo que era.
No instante em que ouviu a resposta, Henrique sentiu uma alegria indescritível inundar-lhe o peito. Os olhos brilharam com lágrimas contidas. O aroma de Jorge parecia envolver-lhe os sentidos, enchendo o espaço de promessa e desejo. Sentiu-se inteiro, escolhido, capaz de proteger e de ser melhor por e para Jorge. Ao mesmo tempo, o seu próprio odor misturava-se ao de Jorge, criando um laço físico que só os dois podiam sentir, um pacto que transcendia palavras.
Entre eles, nasceu uma promessa muda: juntos, seriam mais fortes, passo a passo, ao ritmo de ambos. E, a cada respiração, o aroma dos dois selava aquele momento.
Henrique sorriu, os olhos brilhando como estrelas em noite serena. Os dedos deslizaram suavemente pela face do mais novo, enxugando-lhe as lágrimas. O silêncio entre eles era um abraço sem palavras — um laço invisível feito de ternura e desejo de proteção.
Aquele instante era mais do que entrega.
Era um pacto sussurrado ao coração.
🍃 🍃 🍃
Na pista, Mário e Gui observavam a cena, abraçados. O sorriso de Mário ao ver o amigo feliz era sincero, iluminando-lhe o rosto — mas foi surpreendido pelas lágrimas de Gui, que tremia ligeiramente nos braços de Mário, e o rubor que lhe subia ao rosto denunciava a intensidade do momento. Mário apertou-lhe o abraço, sentindo o coração bater mais depressa, numa tentativa silenciosa de transmitir segurança. A emoção de ver Gui chorar, não de tristeza, mas de felicidade, mexeu com ele, deixando-o vulnerável e exposto.
— Que se passa, anjo? Para de chorar e fala comigo. Que tens? — perguntou, preocupado.
Gui hesitou. Os olhos ardiam. Uma onda de emoções atravessava-lhe o peito — alegria, alívio, insegurança, memórias antigas.
— Desculpa… estou a chorar de felicidade. Acho que finalmente posso respirar em paz. O meu amigo vai ser feliz. Finalmente encontrou alguém com quem pode ser ele mesmo… e eu também posso ser feliz — confessou, aconchegando-se ao peito de Mário.
Mário afagou-lhe a nuca com ternura, beijando-lhe o alto da cabeça. Queria gravar aquele instante na memória. A outra mão deslizava pelas costas de Gui, num gesto que misturava carinho e desejo contido.
Gui sentiu a respiração acelerar. Um arrepio percorreu-lhe o corpo. Algo estranho pairou no ar — como se alguém os observasse ao longe — mas afastou o pensamento, convencendo-se de que era apenas nervosismo.
Deixou-se envolver no abraço forte, sem espaço entre os dois.
O cheiro doce de pêssego intensificou-se, involuntário, misturando-se ao mogno e canela de Mário — dois aromas que se encontravam como se sempre tivessem pertencido um ao outro.
O mundo lá fora desvaneceu-se, como se a realidade tivesse sido suspensa apenas para eles.
O ritmo dos corações acelerou, as respirações tornaram-se curtas e irregulares; os corpos aproximaram-se, atraídos como por um íman invisível, enquanto o roçar ao ritmo discreto da música os aquecia, espalhando arrepios pela pele.
As mãos de Mário, tímidas de início, hesitaram como se temessem ser rejeitadas, e detiveram-se suavemente acima das nádegas de Gui — um toque que misturava carinho e uma possessividade delicada. O alfa procurava ler cada reação, com os olhos atentos aos sinais.
Os aromas dos dois cresceram e entrelaçaram-se: o pêssego doce de Gui, com notas frescas e adocicadas, florescia com o desejo, misturando-se ao mogno e canela de Mário, que se tornavam mais densos, quentes, envolventes, criando uma atmosfera rica e intoxicante. Era como se cada inspiração trouxesse consigo um pedaço do outro, numa fusão de essências que os envolvia por completo.
Gui sentiu os lábios de Mário roçarem-lhe o pescoço, de leve, uma pergunta muda. Inclinou a cabeça, oferecendo-lhe espaço, e o gesto foi resposta suficiente. A boca de Mário desceu-lhe pela pele, devagar, provando o calor que ali pulsava, e Gui agarrou-se-lhe aos ombros, as pernas a perderem firmeza por um instante.
— Mário… — o nome saiu-lhe num fio de voz, metade aviso, metade súplica.
— Estou aqui — murmurou Mário contra a sua pele, sem se afastar. — Só isto. Só sentir-te.
O corpo de Mário traía-lhe a vontade — e Gui sentiu-o. Sentiu o calor daquele desejo contra a sua anca, inconfundível, e em vez de recuar, respirou fundo e ficou. As mãos que tinha nos ombros de Mário desceram devagar, guiando-o mais para baixo, uma permissão dada sem palavras. O estômago apertou-se-lhe — não de medo, percebeu, mas de querer. O seu aroma de pêssego escapou-lhe intenso, involuntário, e sentiu Mário inspirar fundo contra o seu pescoço, como se precisasse de o guardar.
As mãos de Mário fecharam-se com mais firmeza na sua cintura, puxando-o contra si sem pressa, e Gui deixou-se levar pelo ritmo lento que os corpos pareciam já conhecer, mesmo sem nunca se terem tocado assim antes. Cada movimento era uma pergunta, e cada resposta de Gui — o corpo a ceder, o aroma a intensificar-se, a respiração a falhar — era um sim sussurrado em linguagem própria, antiga, que não precisava de palavras.
Os olhos encontraram-se. Não havia dúvida no que ambos sentiam.
E assim ficaram, respirando juntos durante longos instantes, os corpos ainda próximos, ainda a tremer com o que tinham despertado um no outro, conscientes de que a noite ainda guardava promessas por revelar, ambos envoltos numa expectativa doce e arrebatadora.
Com um último toque leve, voltaram à mesa — os olhos brilhantes, os corpos ainda a recordar o que tinham partilhado.
Mário aproximou os lábios do ouvido de Gui, a voz baixa e segura:
— Não vou pedir desculpa, porque sei que ambos queremos. Mas sei esperar. Só preciso saber que és meu. Aceita ser meu ómega… por favor. Preciso de saber que és meu.
A voz de Mário saiu firme, mas o coração batia-lhe depressa. Temia ouvir uma recusa, mas manteve o olhar seguro. Gui sorriu — um sorriso pequeno, protegido, como há muito não se permitia sentir.
Aconchegou-se mais nos braços fortes do alfa e respondeu, com a voz carregada de emoção:
— Aceito, meu alfa. Preciso de tempo… mas o meu coração e a minha mente já são teus. O meu corpo… ele vai acompanhar, prometo.
Mário apertou-lhe a mão com ternura.
— E eu aceito cuidar de ti, Gui. Vou esperar o tempo que precisares. O teu ritmo é o que importa. Estás mesmo bem, anjo?
Gui hesitou, sentindo o calor da mão dele envolver-lhe os dedos.
— Acho que sim… só agora começo a acreditar que isto é real.
Mário passou-lhe o polegar pelo dorso da mão.
— É real. E não tens de ter medo. Não vou apressar nada, nem exigir o que não estás pronto para dar. Quero que te sintas livre ao meu lado.
Gui encostou-se ao ombro dele, tímido.
— Nunca pensei sentir-me assim. Sempre achei que o meu lugar era à margem… a ver os outros serem felizes.
Mário aproximou-se, o olhar firme e protetor.
— O teu lugar é aqui. Comigo. Quero que saibas que podes confiar em mim, que podes ser quem és, sem medo.
Passou-lhe a mão pelo cabelo, afastando uma madeixa do rosto. Gui fechou os olhos, inspirando o aroma familiar do alfa — mogno e canela, quente e protetor — sentindo o lobo interior finalmente repousar.
— E se eu falhar? — murmurou.
— Então falhamos juntos — respondeu Mário, com um sorriso sereno. — O importante é que nunca deixes de tentar. Eu estarei sempre aqui.
Gui abriu os olhos, emocionado.
— Quero ser teu, Mário. Preciso de tempo… mas quero tentar. Quero aprender a confiar. A entregar-me sem medo.
O alfa sorriu, apertando-lhe a mão.
— E eu quero ser teu. O resto… fazemos juntos.
Gui corou, desviando o olhar, mas não afastou a mão.
— Nunca ninguém me disse isso…
— Então prepara-te — brincou Mário, com um sorriso — porque vou repetir sempre que for preciso.
Gui riu, sentindo a ansiedade dissipar-se.
— Acho que vou gostar disso.
Mário encostou a testa à de Gui, num gesto íntimo, profundo.
— Promete-me só uma coisa — pediu, a voz baixa. — Que nunca te vais esconder de mim. Seja medo, tristeza ou alegria… quero estar contigo em tudo.
Gui assentiu, emocionado.
— Prometo. E tu… prometes não desistir de mim, mesmo quando eu for difícil?
— Prometo, anjo. Não há nada que me faça desistir de ti.
Ficaram assim, abraçados, enquanto o mundo continuava indiferente à felicidade silenciosa que crescia entre eles. Naquele instante, sabiam que juntos podiam enfrentar qualquer desafio.
Entraram na conversa de mãos dadas — gesto que não passou despercebido.
Mário sorriu, divertido:
— Então, pombinhos? Parecem felizes.
Henrique, vendo o rubor na face de Jorge, respondeu com um sorriso aberto:
— A língua não te cabe na boca, não, seu linguarudo? Não provoques o meu ómega. Mas não somos o único casal aqui, pois não?
Mário riu, olhando Jorge nos olhos.
— Obrigado, Jorge, por trazeres de volta o antigo Henrique.
Depois beijou a mão de Gui, entrelaçada na sua, deixando claro que também eles tinham encontrado o caminho um do outro.
A conversa seguiu leve, animada, cheia de gargalhadas e cumplicidade.
Mas, por trás do sorriso, Mário não conseguia afastar a sensação de que eram observados. Não disse nada — não queria preocupar Gui — mas uma inquietação discreta instalou-se-lhe no peito.
E, sem que ninguém notasse, a noite escondia perigos que nenhum deles poderia prever.