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Capítulo 29 — Efeitos 🔞

          🔞 Este capítulo contém conteúdo para leitores adultos.


          As semanas que se seguiram trouxeram uma calma nova. Os casais passaram a viver juntos, e a rotina instalou-se com uma naturalidade surpreendente, como se aquele arranjo já existisse há muito tempo. Saíam juntos de casa todas as manhãs, separando-se apenas no estacionamento do trabalho. Ao fim do dia, voltavam a reunir-se ali, como se o mundo lá fora fosse apenas uma pausa entre os momentos partilhados.

           Mário e Gui seguiam para casa, rindo de algo dito no elevador. Henrique e Jorge passavam primeiro pela casa dos pais, onde Alice os esperava com os braços abertos e histórias para contar. Um beijo na testa, um abraço apertado, e então seguiam para casa — a casa deles.

          As noites eram cheias de amor. Não se cansavam uns dos outros. Havia desejo, sim, mas também chá quente, conversas sussurradas, risos partilhados no escuro. Era intimidade, não urgência.

          No escritório, o cuidado era outro. Mantinham a formalidade, como se fossem apenas colegas. Não queriam dar nas vistas. Mas nem sempre era fácil esconder o brilho nos olhos, ou o leve sorriso que surgia quando os olhares se cruzavam. E, quando entravam nas salas dos respetivos alfas, havia sempre um beijo discreto, uma troca de carinho que dizia: "estou aqui".

           Era terça-feira, e tudo parecia correr dentro da normalidade. O sol entrava pelas janelas do escritório, tingindo os corredores com uma luz suave e dourada.

          Jorge entrou primeiro, seguido por Henrique. Como de costume, mantinham a discrição. Evitavam gestos que os denunciassem como casal, embora os olhares cúmplices e os sorrisos partilhados já tivessem despertado suspeitas. Ainda assim, ninguém comentava. Os ómegas eram respeitados, admirados pelo profissionalismo e pela forma como conquistaram a confiança dos colegas.

Mas havia algo estranho naquela manhã.

          O tempo foi passando, e Mário e Gui ainda não tinham chegado. Jorge olhou discretamente para o relógio, depois para o telemóvel. Nenhuma mensagem. Nenhuma chamada. E isso era incomum. Mário era pontual. Gui ainda mais.

           A inquietação começou a crescer. Jorge tentou disfarçar, mas a ansiedade era visível nos gestos.    Levantou-se e dirigiu-se à sala de Henrique. Bateu à porta e entrou, o olhar já carregado de preocupação.

— Que se passa, lobinho? — perguntou Henrique, ao ver a expressão do companheiro.

— Eles ainda não chegaram. Sabes de alguma coisa? O Gui não me atende o telemóvel.

           Henrique franziu o cenho.

— Não chegaram?! Eu não sei de nada… espera, vou tentar ligar ao Mário.

           Fez a chamada. Do outro lado, o som que veio não foi uma voz — foi um rosnar.

📞 — [Henrique… tira-o daqui… não sei se resisto muito tempo… não o quero magoar…]

          E a chamada caiu.

          Henrique levantou-se num salto, o rosto tenso.

— Tenho de ir a casa deles… — disse, já a caminho da porta. — O Mário está no cio.

— Estás preocupado… eu sinto isso. Fala comigo, por favor. Diz-me o que se passa.

— Tenho de ir. Falamos depois.

— Vou contigo.

— Não! Ele está no cio… e tu és ómega… marcado. Não sei o que pode acontecer.

— Vou contigo. O meu amigo pode estar a precisar de mim. Nada vai acontecer.

           Henrique hesitou apenas um segundo.

Está bem… vamos.

           A expressão de Henrique, carregada de preocupação, começava a assustar Jorge. Havia algo mais ali, algo que não estava a ser dito.

— Maria, temos de sair. É urgente. Se precisarem de alguma coisa, liga para mim ou para o Jorge.

— Sim, Sr. Henrique.

           No carro, o silêncio entre uma curva e outra parecia mais pesado que o ar.

          Henrique apertava o volante com força, os nós dos dedos brancos. Jorge olhava para ele, tentando decifrar o que se passava por trás daquele maxilar cerrado.

— Amor, fala comigo… estás a deixar-me aflito.

           Henrique respirou fundo, como se cada palavra fosse uma confissão.

— Os nossos cios… como alfas lúpus… são mais intensos. Mais difíceis de controlar. E dizem que… se a ligação entre alfa e ómega for grande… o lobo pode despertar. Sair. E com Mário e Gui… não estão marcados, mas há uma ligação forte. Forte demais. Mário está com medo. Medo de magoar o Gui. E não se perdoaria por isso.

          Jorge desviou o olhar para a janela, onde a cidade passava em borrões de luz.

— Eu sei que os vossos lobos não nos fariam mal. Eu já vi o teu. Tu ouviste-me. Acalmaste. Com eles vai ser igual. Tens de o convencer. O Gui não se perdoaria se não passar o cio com o seu alfa.

           Henrique assentiu, mas os olhos continuavam sombrios.

— Vou ver o que consigo fazer.

          Chegaram à casa de Mário sem anunciar. Henrique usou a chave, e a porta cedeu com um clique seco. O cheiro era denso, quase palpável — denso, quente, carregado de cio, misturado com um traço de medo que parecia entranhado nas paredes.

           Jorge estacou.

          O corpo reagiu antes da mente: o aroma do cio puxava-lhe o instinto, não de forma perigosa, mas suficiente para lhe acelerar o coração.

           Um calor estranho subia-lhe pela espinha, uma vontade de se aproximar, de ajudar… mas era controlável. Mário não era o seu alfa. Estava seguro. Por enquanto.

— Lobinho… estás bem? — murmurou Henrique, atento.

         O cheiro de Henrique — firme, amadeirado, protetor — envolveu Jorge, criando uma barreira instintiva que o ajudou a respirar.

— Sim… estou — respondeu Jorge, embora a voz traísse o turbilhão interno.

          Na porta do quarto, Gui estava sentado no chão, encostado à madeira, os ombros sacudidos pelo choro. O cheiro dele — normalmente leve e doce — estava desalinhado, misturado com ansiedade e rejeição.

          Jorge correu até ele, ajoelhou-se e envolveu-o num abraço apertado, sentiu o aroma do amigo aos soluços, como se o corpo dele gritasse pelo alfa. Gui afundou-se nele, como se o mundo estivesse a desmoronar.

— Jorge… ele não me quer… não me deixa entrar. Eu quero estar com ele, ajudá-lo… mas ele só diz que tem medo de me magoar. Pede-lhe… por favor… pede-lhe para me deixar entrar. Ele nunca me magoaria. Eu sei disso. Eu sinto isso.

— O Henrique vai falar com ele. Vai resolver-se. Mas Gui… tu sabes do que ele tem medo, não sabes?

— Sei. Ele explicou-me. E eu não me importo. Eu aceito. Já discutimos isso. Mas ele quer passar sozinho… e eu não aceito isso. Não aceito ser deixado de fora.

           Henrique aproximou-se da porta, pousando a mão na madeira como se pudesse sentir o coração do amigo do outro lado. O aroma de Mário escapava por baixo da madeira — um cheiro de alfa lúpus em cio, profundo, selvagem, mas também… contido.

           Havia ali luta.

          Havia medo.

— Mário… sou eu. Abre a porta.

— Não quero. Tira-o daqui!

— Ele está a sofrer, Mário. Tu sabes os riscos, e ele também. Mas os nossos lobos… eles não fariam mal aos seus pares. Eles amam os seus. Querem estar com eles. O teu ómega vai sofrer mais se o rejeitares. Vai ficar magoado contigo. E tu sabes que não vais suportar isso.

           Silêncio. Do outro lado, apenas respiração pesada.

— E se eu o magoar? E se eu perder o controlo? Tenho tanto medo disso…

         A voz de Gui atravessou o espaço entre eles, trémula, mas firme.

— Príncipe… eu sei que tu não me vais magoar. O meu lobo está ansioso para estar com o teu. Eles também se querem. E eu… eu quero muito estar a teu lado. Não me rejeites.

         Por um instante, o silêncio reinou. Depois, o som seco da fechadura rompeu o ar. Gui soltou os braços de Jorge e correu para dentro do quarto, fechando a porta atrás de si com urgência.

          Henrique aproximou-se, pousando a mão no ombro de Jorge.

— Lobinho… vem. Eles vão ficar bem agora. Estás bem?

          Jorge abanou a cabeça, os olhos inquietos.

Não. Não estou — admitiu Jorge, a respiração curta. — O cheiro… mexeu comigo.

         O aroma dele — normalmente suave — estava mais quente, mais denso, como se o corpo respondesse ao cio alheio.

         Henrique sentiu isso. O lobo dele reagiu, aproximando-se instintivamente do seu ómega.

— Vamos sair daqui — disse, firme, envolvendo Jorge com o seu cheiro para o proteger.


🍃 🍃 🍃


          Já dentro do veículo, Jorge respirava com dificuldade, o corpo tenso, os olhos semicerrados como se lutasse contra algo invisível, o cheiro de Jorge estava desordenado, cheio de instinto reprimido.

Henrique aproximou-se, deixando o seu aroma envolver o espaço — calmo, estável, territorial, dizendo ao lobo de Jorge: "és meu, estás seguro."

Ficaste afetado pelo cheiro, não foi?

          Jorge desviou o olhar, envergonhado, mas o aroma não o deixou negar.

— Um pouco… não foi descontrole. Mas o cio… mexeu comigo. E agora… só consigo pensar em ti. Preciso de te sentir perto.

         Henrique aproximou-se, o olhar firme e sereno.

— Estou aqui. Respira comigo.

        Jorge fechou os olhos, mas o corpo não obedecia — tremia, quente, inquieto, o instinto a pedir o que a mente ainda tentava conter.

— Mostra-me onde dói — murmurou Henrique, a voz grave.

        Jorge levou a mão dele ao peito, pressionando-a ali. Depois desceu-a devagar, guiando-a, sem vergonha, sem hesitação — apenas necessidade.

        Henrique deixou-se guiar.

         Henrique olhou para ele por um instante — para o Jorge que sempre hesitara, que sempre pedira desculpa por existir, que sempre esperara permissão para ser desejado. E agora estava ali, a guiar-lhe a mão sem vergonha, com uma necessidade honesta que lhe apertou o peito de uma forma que não esperava.

         Não era só desejo. Era confiança. A confiança de alguém que finalmente acredita que merece ser cuidado.

         Henrique sentiu o lobo dentro dele aquietar-se num reconhecimento profundo — este é o meu ómega. Inteiro. Sem medo.

          E isso — isso — era mais do que qualquer coisa que alguma vez imaginara receber.

         As mãos aprenderam o que o corpo de Jorge pedia, devagar, com uma atenção quase reverente. Jorge arqueou-se ligeiramente ao primeiro toque — um som baixo escapou-lhe, involuntário, honesto. O aroma de morangos intensificou-se, denso, aberto, e Henrique inspirou fundo, deixando o instinto falar mais alto que qualquer contenção.

          Não havia pressa. Havia intenção.

        Cada gesto era uma resposta ao que o corpo de Jorge dizia — e Jorge dizia tudo, sem palavras, com o tremor da pele e os sons que não conseguia segurar.

          O clímax chegou suave, mas profundo, como uma onda que desfaz o nó sem fazer barulho. Jorge ficou imóvel por alguns segundos, a respiração a assentar, os olhos fechados.

        O aroma de Jorge estabilizou — suave, quente, alinhado.

       O de Henrique respondeu, protetor, satisfeito.

— Estás melhor agora?

— Estou… — sorriu Jorge. — Obrigado. Eu precisava de ti.

           O cheiro dele confirmava: calmo, seguro, amado.

         Henrique sorriu também, com aquele brilho que só aparecia quando o seu ómega se entregava assim, inteiro.

— À noite… falamos disso — murmurou, roçando-lhe o maxilar com os dedos.

          Jorge riu baixinho, o olhar cheio de afeto e promessa.

— Combinado.

— Vamos voltar ao escritório… estás mesmo melhor?

Estou. Só… pensei que não me fosse afetar por estar marcado. Mas não foi fácil resistir. — Jorge hesitou, depois olhou para Henrique com vulnerabilidade. — Olha… tu não me vais afastar quando for o teu cio, pois não?

         Henrique demorou um segundo antes de responder, como quem escolhe as palavras com cuidado.

— Não… posso estar com algum receio, sim. Mas eu sei que o meu lobo reconheceu o teu. Já te protegeu… mesmo quando não tinhas a minha marca. Não te fez mal. E agora que és meu… não o fará. Não te vou afastar. Mesmo sabendo que posso magoar-te… vou querer que estejas comigo.

       Jorge sorriu, aliviado.

— Ainda bem… eu também vou querer estar contigo. Vou deixar de tomar os supressores. Quero passar o meu cio contigo. E quero que passes o teu cio comigo.

          Henrique olhou para ele com ternura.

— Será daqui a seis meses… altura para tentarmos fazer um filhotinho.

          Jorge ficou em silêncio por um instante, absorvendo o peso da promessa.

— Queres filhos?

— Se forem contigo, sim.

— E se eu não conseguir?

— Não fiques triste… se não conseguires, adotamos. Mas parece uma boa altura para tentar.

          Nada mais foi dito. Não era preciso.

Aquela conversa já existia entre eles, mesmo antes de ser dita em voz alta. Ambos sabiam — queriam filhos, sim. Sonhavam com isso. Mas não se deixariam consumir pela ausência, se ela viesse. O desejo era real, mas não era uma exigência. Era uma esperança partilhada, não uma cobrança.

         O silêncio que se instalou entre eles era confortável, quase sagrado. Henrique mantinha o olhar firme na estrada, mas Jorge sabia que, por dentro, ele pensava no mesmo. E isso bastava.

        Ali, entre o ruído suave do motor e o calor partilhado no carro, havia uma promessa silenciosa: o que viesse, viriam juntos.

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