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Capítulo 27 — Segunda-feira

          A luz suave da manhã entrou pela janela antes de qualquer um deles acordar.

          Gui foi o primeiro a mexer-se, sentindo o peso quente do corpo de Mário encostado ao seu. O peito do alfa subia e descia num ritmo tranquilo, como se finalmente tivesse encontrado paz. Gui sorriu e passou os dedos pelo cabelo dele.

           O lobo de Mário reagiu de imediato — não com alerta, mas com um suspiro profundo, satisfeito.

          Mário abriu os olhos devagar.

— Bom dia… — murmurou, a voz rouca.

           Gui encostou a testa à dele.

— Bom dia, amor.

         Quando Mário tentou mexer-se, soltou um pequeno gemido abafado.

         Gui riu baixinho.

— Estás bem?

— Estou… só… o meu corpo está a lembrar-me de tudo.

          Gui beijou-lhe a bochecha.

— Olha, só quero que percebas pelo que nós, ómegas, passamos — disse, com uma risada suave. — Mas… se quiseres mais, é só dizer.

           Mário escondeu o rosto no pescoço dele, envergonhado.

— Não digas essas coisas logo de manhã… estou a sofrer… e o meu lobo está a achar graça. Maldito lobo, por ter gostado.

          Gui ergueu uma sobrancelha, provocador.

E foi só o lobo?

— Seu malvado… — Mário tentou virar-se para o prender sob si, mas um alerta vindo de uma parte sensível do corpo fê-lo parar imediatamente. — Não te faças de difícil, meu Anjo. Bolas, Anjo… tu sentes-te sempre assim?

            Gui apenas sorriu e envolveu-o num abraço apertado.

Anda, levanta-te. Temos de ir trabalhar.

          Mário levantou-se devagar, sentindo o corpo protestar. Gui ajudou-o a vestir-se, com pequenos toques cheios de carinho.

           Quando saíram de casa, Mário caminhava com uma rigidez subtil — nada óbvio, mas impossível de esconder de quem o conhecia bem.

          Gui entrelaçou os dedos nos dele.

— Vai correr tudo bem.

          Mário sorriu.

Contigo… corre sempre.


🍃 🍃 🍃


          Jorge acordou com um peso pequenino sobre o peito.

          Alice dormia meio atravessada, uma perna por cima dele e a cabeça apoiada no ombro de Henrique.

           Ele sorriu. Ainda se estava a habituar à ideia de acordar ali, naquela cama, naquela casa, com aquelas duas pessoas. Uma já era parte do seu mundo, a outra tinha sido tudo — antes de lhe ser arrancada de forma cruel.

          Um aperto atravessou-lhe o peito ao vê-los assim, juntos.

          Era estranho, bonito. Mas ao mesmo tempo assustador.

         Mas Jorge permitiu-se ficar ali, a saborear aquele início, mesmo sem saber se conseguia entregar-se por completo.

          Desejava, com todo o corpo, que aquilo fosse real.

          Henrique abriu os olhos logo a seguir e tentou mexer-se… fazendo uma careta discreta.

         Jorge levantou uma sobrancelha.

Estás bem?

— Quem estaria? — Henrique respondeu, com um sorriso cansado. — A Alice passou metade da noite em cima de mim. Dormi pouco e torto. Parece que me passou um camião por cima.

           Apesar das queixas, o olhar que lançou à menina era puro carinho.

           Jorge sorriu e aproximou-se para lhe dar um beijo suave.

          Nesse momento, Alice abriu os olhos, pestanejou… e, ao ver os dois tão perto, iluminou-se toda.

— Papi… Mami! A Alice não sonhou, dormiu mesmo com os dois!

          Jorge riu e beijou-lhe a bochecha.

           Henrique inclinou-se: primeiro beijou a testa do ómega, depois a outra bochecha da menina.

— Não sonhaste, Furacão. Bom dia.

— Bom dia, Meu Sol — acrescentou Jorge.


🍃 🍃 🍃


           A manhã seguiu com uma mistura deliciosa de caos e ternura.

           Alice insistiu em escolher a própria roupa.

          Henrique tentou preparar o pequeno-almoço como sempre fazia.

           Jorge, ainda a aprender a rotina deles, ajudava onde podia — ora a arranjar o cabelo da menina, ora a procurar coisas que não sabia onde estavam.

            Quando saíram, Alice deu as mãos aos dois.

— Somos uma equipa! — anunciou, orgulhosa.

           Henrique e Jorge trocaram um olhar que dizia tudo.

          Sim.

         Estavam a tentar ser exatamente isso.

         Na escolinha, Alice correu para a beta responsável, mas voltou atrás só para abraçar os dois com força.

— Amo-vos! — gritou, antes de entrar.

           Henrique e Jorge sorriram, completamente derretidos.

Ela está tão crescida… — murmurou Jorge.

— E tão rápido… — respondeu Henrique, ainda a recuperar da correria.

         Jorge riu, encostando o ombro ao dele.

— Vais sobreviver.

— Espero que sim. Dormi tão mal esta noite… a Alice não parou quieta um segundo.

          Jorge sorriu, com aquele carinho novo que ainda estavam a aprender a partilhar.

— É a primeira manhã dos três juntos. Vamos acertar o ritmo. Devagarinho.

         Henrique devolveu-lhe um sorriso tímido, mas cheio de esperança.

— Sim… vamos.


🍃 🍃 🍃


             Os quatro chegaram ao estacionamento quase ao mesmo tempo.

            Quando saíram dos carros, quase pareceram correr uns para os outros — como se tivessem passado dias separados, e não apenas uma noite.

            Jorge foi o primeiro a reparar no sorriso de Gui, um daqueles sorrisos raros, genuínos, que lhe iluminavam o rosto inteiro. Gui parecia vibrar por dentro, carregando uma felicidade silenciosa que transbordava sem pedir permissão.

           Jorge sentiu o peito aquecer, e a curiosidade também.

          Mário saiu do carro logo a seguir, o passo hesitante, como se cada movimento exigisse mais do que ele queria admitir. Os ombros pesados e o olhar distante. Um cansaço que não vinha apenas de uma noite mal dormida.

          Henrique reparou de imediato, e franziu a testa, preocupado, mas não disse nada.

          Quase num sussurro, Jorge inclinou-se para Gui:

— Esse teu sorriso… e o ar do Mário… significam o que eu estou a pensar.

           Na voz havia admiração, e no peito a curiosidade.

          Gui olhou para Mário, e o brilho nos olhos dizia tudo — cumplicidade, carinho, algo novo e profundo.

— Sim — respondeu, num tom baixo, mas cheio de verdade. — Aconteceu… o que estás a imaginar. E foi… especial.

           Mário desviou o olhar, as bochechas a aquecerem.

— Conta… por favor — pediu Jorge, incapaz de conter a ansiedade.

           Gui olhou ao redor. O estacionamento não era o lugar para confidências.

— Mais logo. Prometo.

           Henrique ergueu uma sobrancelha, curioso.

— Prometes mesmo?

— Prometo — repetiu Gui.

           Os dois ómegas trocaram um sorriso cúmplice, como quem guarda um segredo doce.

          Entraram separados, fingindo que o encontro tinha sido mero acaso.

          O acordo entre eles pesava nos gestos — e nenhum imaginara que seria tão difícil manterem-se afastados.

         Quando entraram, Maria saudou-os com o sorriso habitual, mas havia um brilho curioso no olhar dela. Apesar de ser Beta, tinha um talento natural para perceber mudanças de humor.

— Olá, Jorge, Gui. Bom dia, senhores! Como correu o fim de semana?

         Gui e Jorge partilharam um sorriso espontâneo, os olhos brilhando de cumplicidade.

         Henrique ajeitou a gravata, tentando disfarçar o nervosismo.

         Mário aproximou-se do balcão, mas ao tentar apoiar-se, pensou melhor e endireitou-se rapidamente, soltando um suspiro quase impercetível.

         Maria franziu ligeiramente o sobrolho.

— Sr. Henrique, está tudo bem? Parece-me cansado hoje…

— Foi uma noite daquelas… a Alice não me deu um minuto de sossego — respondeu Henrique, tentando soar descontraído.

          Maria riu.

— Ah, já percebi. E o senhor, Mário?

          Mário tossiu levemente, desviando o olhar.

— Dormi… pouco.

          Gui mordeu o lábio, contendo uma gargalhada, enquanto Jorge virou o rosto, disfarçando um sorriso.

          Maria fingiu não perceber as entrelinhas, mas o olhar atento dizia que tinha captado mais do que deixava transparecer.

— Pronto, então tenham um dia tranquilo! Os colegas já estão a chegar.

         Gui e Jorge seguiram para as suas salas, ainda a trocar olhares cúmplices.

         Henrique e Mário ficaram na primeira sala, lado a lado, presos num silêncio que dizia mais do que qualquer palavra.

          O dia mal tinha começado…

         e já prometia ser tudo menos simples.


🍃 🍃 🍃


          Assim que Maria se afastou para atender um telefonema, Henrique tocou no braço de Mário num gesto rápido e discreto.

— Vem comigo. Só um minuto.

           Mário franziu o sobrolho, mas seguiu-o pelo corredor até ao gabinete. Era o único espaço onde podiam falar sem serem interrompidos. Henrique fechou a porta atrás deles. O silêncio caiu de imediato, pesado, íntimo.

          Mário encostou-se à secretária, respirando fundo. O aroma dele — normalmente discreto, amadeirado — estava mais quente, mais profundo, como se o corpo ainda guardasse memórias recentes.

— Isto vai ser um dia longo…

         Henrique soltou um riso cansado.

— Nem me fales. Estou a cair de sono. Dormir com a Alice não só é desconfortável como… — suspirou — …como me afasta do meu ómega.

          Mário tentou sentar-se numa caixa, mas levantou-se logo a seguir, soltando um gemido de desconforto. O cheiro dele oscilou, revelando um traço de vulnerabilidade que o lobo de Henrique captou de imediato.

          Henrique percebeu.

— Que se passa contigo? Andas de uma maneira estranha, só gemes, os teus passos estão mais lentos. Até parece…

           A frase ficou suspensa.

— Parece nada… estou bem — cortou Mário, rápido.

           Mas o aroma denunciava o contrário: havia ali algo novo, algo que o corpo dele ainda processava.

          Henrique estreitou os olhos.

Não… Tu e o Gui… tu foste…?

        Mário respirou fundo.

— Passivo.

          O cheiro dele estabilizou — firme, seguro — como se aquela verdade o deixasse finalmente inteiro.

— Queres saber? Fui, sim. E tanto eu quanto o meu lobo adorámos. Aceitámos porque era o nosso ómega. E fomos felizes. E, acima de tudo… fizemos o nosso ómega feliz.

           Henrique ficou alguns segundos sem reação. O aroma dele — normalmente controlado, fresco — oscilou, ficando mais denso, mais quente. O lobo aproximou-se do de Mário, curioso, atento.

— O teu lobo aceitou? Tu aceitaste?

— Aceitámos, sim. E vamos aceitar sempre que o nosso ómega quiser. Eu… sinto-me diferente. O meu lobo também. Está calmo. Ligado.

            Mário mudou de posição, e o ar à volta dele carregou-se de um cheiro suave, quase doce, que não era fragilidade — era memória. Entrega. Confiança.

            Henrique sentiu o próprio lobo reagir. Não era ciúme. Não era medo. Era… reconhecimento. Como se aquele aroma novo tivesse aberto uma porta dentro dele.

          Ele engoliu em seco.

— O meu também. Acho que estamos todos a mudar.


🍃 🍃 🍃


           Enquanto Henrique e Mário permaneciam no gabinete, Gui e Jorge seguiram para as suas mesas.    Bastou um olhar para perceberem que nenhum dos dois estava em condições de fingir normalidade.

— Assim vais matar-me de ansiedade — murmurou Jorge. O aroma dele, normalmente suave, estava inquieto, vibrante. — Eu quero saber tudo.

— Não aqui — sussurrou Gui. — A Maria está logo ali.

           Jorge olhou para a receção.

— Então anda. Vamos à copa.

           A copa era pequena, simples, mas privada. Jorge fechou a porta atrás deles.

— Agora fala. Como foi? Tu foste… ele deixou?

           Gui respirou fundo. O aroma de pêssego intensificou-se com a emoção.

— Aconteceu, sim. Ele… entregou-se.

            Jorge piscou os olhos.

— Entregou-se…?

— Como nunca pensei que ele fosse capaz. Ele confiou em mim. E o lobo dele também.

            Jorge aproximou-se, o cheiro dele oscilando entre nervosismo e esperança.

— Gui… isso é fantástico.

— Eu sei. E senti que era o meu lugar. Que era onde eu devia estar. Que ele era meu. Não por posse… mas por ligação. De alma.

          Jorge hesitou. Gui viu a sombra de dúvida — e sentiu o aroma dele mudar, mais quente, mais denso.

— E tu? — perguntou Gui. — Não tens vontade de experimentar? Ser o ativo uma vez na vida?

         Jorge suspirou.

— Não sei… Não tenho a tua coragem.

— E se o Henrique pedir?

           Jorge corou. O cheiro dele denunciou tudo.

— Ele nunca faria isso. Mas… sim. Nesse caso… eu atrevia-me.

           Gui apertou-lhe o braço.

— Eles são como nós. Aposto que agora o Mário está a ser bombardeado de perguntas. E isso vai mexer com o Henrique. Ainda mais por causa da marca entre vocês.

            Jorge desviou o olhar, tímido, mas com esperança.


🍃 🍃 🍃


            Pouco depois, Jorge bateu à porta do gabinete de Henrique.

— Entra.

            O aroma do ómega atingiu Henrique como um impacto suave, quente. O lobo ergueu-se.

— Aqui está o processo Andrade — disse Jorge.

— Obrigado.

            Ficaram ali, presos num silêncio carregado. O cheiro de Jorge oscilava, nervoso, e o de Henrique respondeu, mais denso, mais atento.

           Jorge saiu com o coração acelerado.

          Henrique ficou sentado, a tentar recuperar o fôlego.


🍃 🍃 🍃


            Na sala ao lado, Gui aproximou-se de Mário com um bloco.

— Precisas disto?

             Mário estendeu a mão. O aroma dele estava mais estável, mas ainda havia ali um traço quente, íntimo, que Gui reconheceu.

— Estás a andar melhor.

            Mário corou.

— Cala-te. Ainda te faço pior.

              Gui riu.

— Promessas…


🍃 🍃 🍃


             No final do expediente, os quatro arrumavam as coisas quando os telemóveis vibraram ao mesmo tempo.

📩 "Encontramo-nos no estacionamento. Agora."

         Assinada:

         Henrique & Mário

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