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Capítulo 24 — Sim

        A cozinha estava cheia de aromas quentes e familiares. Panelas tilintavam, o vapor subia em pequenas nuvens perfumadas, e o som das risadas dos dois ómegas misturava-se ao crepitar suave do fogão. A menina, sempre entre eles, brincava com uma colher de pau, batendo-a levemente na bancada, os olhos brilhando de pura felicidade.

— Gui, estás feliz agora? — perguntou Jorge, enxugando as mãos no avental, observando o amigo com um sorriso cúmplice.

— Muito — respondeu Gui, com um brilho travesso nos olhos. — E ele vai arrepender-se do que me fez.

            Jorge inclinou-se para mais perto, baixando a voz para que a menina não ouvisse.

— O que estás a planear?

             Gui sorriu de lado, aquele sorriso que só aparecia quando a mente dele já tinha decidido algo.

— Vou seduzir o Mário — murmurou, num tom baixo e seguro. — Quero que ele me deseje, que não consiga resistir. Quero ir além do que ele imagina. Quero que ele perca o controlo… por minha causa.

            Jorge arregalou os olhos, surpreendido.

— Estás a falar sério? Queres mesmo isso?

— Quero. E muito — disse Gui, lançando um olhar rápido para a porta, como se esperasse ver Mário ali. — Depois do que ele me fez passar, está na hora de ele sentir o que é ficar sem chão.

— Achas que ele vai aceitar?

— Espero que sim — respondeu Gui, dando de ombros, mas havia determinação na voz.

— Mas… tu és ómega.

             Gui ergueu o queixo, os olhos brilhando com um desafio silencioso.

— E daí? Também tenho desejos, Jorge. E desculpa, mas vou fazer aquele alfa meu. Ele merece.

           Jorge engoliu em seco, dividido entre o espanto e a admiração.

          E, no fundo, sabia que Mário não teria como resistir.


🍃 🍃 🍃


           Na sala, o clima era outro. O silêncio pesava entre os dois alfas, interrompido apenas pelo tique-taque distante do relógio. Henrique encarava o chão, os punhos cerrados sobre os joelhos, enquanto Mário parecia encolhido dentro de si.

— Henrique… diz alguma coisa, por favor. Ou dá-me um soco… mas não fiques assim. Eu sei que errei. Já pedi desculpa a ele… e a ti também.

             Henrique suspirou, a voz baixa, carregada.

— Quero entender o que se passou na tua cabeça. Eles são ómegas, Mário… Ciúmes? Não faz sentido. Os nossos chegaram até nós sem serem tocados. Isso é raríssimo. Terias ciúmes se ele já tivesse tido outros?

— Não sei… sinceramente, não sei — murmurou Mário, a voz rouca. — Só sei que não o quero com mais ninguém.

— Eles são só nossos. Marca-o, talvez isso te acalme. Ou ele não quer?

— Ele quer. E eu também. Só estávamos à espera mais um pouco… mas acho que não posso adiar mais. Quero que todos saibam que ele é meu.

             Henrique assentiu, mas o olhar era firme.

— Então muda de atitude. Ou vais perdê-lo. Por mais que ele te ame… principalmente se o afastares do Jorge.

            Mário baixou o olhar, a culpa a pesar-lhe no peito.

— Ele estava disposto a afastar-se do Jorge por mim…— murmurou, triste. — Fui mesmo um idiota.

— Foste — confirmou Henrique, sem rodeios. — Mas ainda vais a tempo de consertar.

             Mário passou a mão pelo rosto, exausto.

— Tomara que eu não me arrependa do que prometi…

— O que prometeste?

— Que faria qualquer coisa para o ver feliz… — suspirou. — Mas esqueci que ele tem uma cabeça pervertida.

             Henrique soltou uma gargalhada sincera.

— Estás em apuros, amigo.

— O pior é que acho mesmo que sim… e vou aceitar. Seja lá o que for.

— Até mesmo… — provocou Henrique, com um sorriso malandro.

            Mário rosnou baixo, mas o sorriso denunciava-o.

— Até mesmo isso. E não te rias, porque tenho a sensação de que estes nossos ómegas ainda nos vão surpreender muito.

              Henrique riu alto, o som ecoando pela sala.

— E o que não faríamos por eles, diz-me tu?

           O momento foi interrompido pela voz doce da menina, chamando-os para comer. O convite trouxe leveza ao ambiente, e todos se dirigiram à mesa.

           O almoço decorreu num clima descontraído. Entre brincadeiras, risos e provocações, ouviram-se também pedidos de desculpa sinceros. Os alfas acabaram convencidos a lavar a loiça, sob o olhar divertido dos ómegas, enquanto a menina corria pelo quintal, rindo alto.


🍃 🍃 🍃


          Ao cair da noite, escolheram um restaurante calmo para jantar. A música ao vivo embalava a conversa, criando uma atmosfera íntima onde se permitiam conhecer-se verdadeiramente.

           Apesar da harmonia, Henrique observava Jorge com atenção. Havia algo no olhar dele — uma inquietação que não lhe passava despercebida.

— Lobinho, que se passa? — perguntou, num tom baixo e terno.

           Jorge ergueu os olhos, mas desviou-os logo.

— Não se passa nada…

          Henrique pousou a mão sobre a dele.

— Não te esqueças que consigo perceber o que sentes… O que te preocupa?

         Jorge suspirou, rendendo-se.

— Como vamos agir no escritório agora? As pessoas vão pensar que só estamos ali porque dormimos com vocês…

            Gui assentiu.

Vão comentar. Não será bom para nós… nem para vocês.

            Henrique respirou fundo.

— Meus queridos… por mim vocês nem precisavam de trabalhar. Mas sei que isso não vos faria felizes. Então… podemos disfarçar no escritório. Ou procurar outro sítio para trabalharem.

— Não! — disseram os dois ómegas ao mesmo tempo.

           Gui apertou a mão de Mário.

— Não queremos estar longe.

           Jorge assentiu, a voz baixa.

— Não queremos mesmo.

           Mário endireitou-se, sério.

— Então está combinado. No trabalho, seremos apenas patrão e empregado. Serão tratados como qualquer outro.

           Fez uma pausa, olhando Gui nos olhos.

— Mas digam-me uma coisa… vocês não querem morar connosco?

           O silêncio tornou-se pesado. Os ómegas trocaram olhares de surpresa, enquanto os alfas aguardavam, de coração suspenso.

           E ali, naquele instante, todos perceberam que a pergunta era muito maior do que parecia.

— Não querem morar connosco? — repetiu Henrique, sério, fitando Jorge nos olhos. A voz carregava uma ansiedade que ele tentava disfarçar, mas que se denunciava no leve tremor das palavras.

           Jorge hesitou. As bochechas coraram-lhe devagar, e o olhar caiu para o chão, como se procurasse ali a coragem que lhe faltava.

— Vocês não nos perguntaram nada sobre isso… — murmurou, a voz embargada. — Não sabíamos o que esperavam de nós… se queriam mesmo que fôssemos morar convosco…

            Os dois alfas trocaram um olhar silencioso. Só naquele instante perceberam que nunca tinham dito aquilo em voz alta. Tinham assumido demais. Tinham tomado como garantido algo que, para os ómegas, era enorme.

           Henrique respirou fundo e aproximou-se de Jorge, tocando-lhe no ombro com um carinho que parecia envolver o próprio ar.

— Jorge, lobinho do meu coração… tens toda a razão. Desculpa essa falha — disse, num tom quase sussurrado. — Achei que tinha deixado claro quando te marquei. Quero-te por perto. Sempre. Namora comigo… e vem morar comigo. Quero que toda a gente saiba que és meu.

             As lágrimas começaram a escorrer silenciosas pelo rosto de Jorge, como se tivessem estado à espera daquele momento para cair. Um sorriso emocionado abriu-se devagar, iluminando-lhe as feições.      Ele atirou-se para os braços do alfa, escondendo o rosto no pescoço dele.

— Sim… sim… — sussurrou, entre soluços felizes, beijando Henrique com gratidão e alegria.

            Mário, que observava a cena, voltou-se para Gui. Viu uma sombra de tristeza atravessar-lhe o olhar — tão rápida que quase passaria despercebida, mas não para ele. Segurou-lhe a mão com delicadeza, como quem segura algo precioso.

— Meu anjo… perdoa-nos — começou Mário, num tom suave. — Não deixámos isso claro. Na nossa cabeça, já estava decidido. Ainda não te marquei, mas sei que és meu. Quero que venhas morar comigo… quero namorar contigo… casar contigo… ter os meus filhos contigo…

            Os olhos marejaram-lhe, brilhando com emoção.

— Sim… claro que sim… — murmurou, a voz trémula.

            Mário estudou-lhe o rosto, preocupado.

— Anjo… não estás feliz? O que se passa nessa cabecinha?

            Gui tentou brincar, mas a inquietação estava ali, escondida no fundo dos olhos.

— Não te posso esconder nada, pois não?

— Nada — respondeu Mário, rindo baixinho. — Não me escondes nada.

             Gui suspirou, as sobrancelhas franzidas.

— O que vão as vossas famílias pensar de nós? Conhecemo-nos há tão pouco tempo… vão achar que só queremos o vosso dinheiro.

            Mário apertou-lhe a mão com mais força, como se quisesse afastar cada dúvida com o toque.

— Lobinho, tens de parar com isso. As nossas famílias vão adorar-vos. Não vão pensar nada disso. Depois falamos melhor. Agora… vamos aproveitar o jantar e levar essa pequena para dormir.

              A menina, que ouvia tudo com atenção, virou-se para Henrique com olhos brilhantes de esperança.

— Vou dormir com os dois? — perguntou, já meio sonolenta.

             Henrique sorriu-lhe com ternura.

— Vais dormir lá em casa, mas não com os dois…

— Mas eu quero… — murmurou ela, fazendo beicinho.

— Sol… vais dormir na tua caminha, está bem? Eu e o papi precisamos de estar sós. É importante para nós — explicou Henrique, acariciando-lhe o cabelo com cuidado.

— Não gostam da menina? — perguntou ela, baixinho, com medo da resposta.

— Claro que gostamos, meu sol… gostamos muito — garantiu Henrique, envolvendo-a num sorriso afetuoso. — Mas às vezes os adultos precisam de um tempinho só para eles.

— Ok… mas vou dormir lá em casa, não vou?

— Vais — confirmou Henrique, gentil. — Mas amanhã vais voltar para os avós.

— Sim… — murmurou ela, tristinha, encostando a cabeça no ombro dele.

— Meu raiozinho de sol… — disse Jorge, agachando-se à altura dela. — Mesmo que estejas na casa dos avós, eu nunca te deixo de verdade. Vou estar sempre aqui, contigo. A amar-te de longe ou de perto.

— Sim… já entendi… — respondeu ela, encostando-se ao peito dele com confiança, como quem encontra abrigo num porto seguro.

            Depois do jantar, com Alice já a cair de sono, os quatro chegaram juntos à porta de Henrique e Jorge. Mário e Gui despediram-se com um último sorriso cúmplice antes de seguirem o seu caminho, enquanto Henrique e Jorge entravam em casa com a menina ao colo, prontos para a adormecer.

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