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Capítulo 23 — Ciúmes e Perdão

          Henrique e Jorge foram abrir a porta de mãos dadas, e foi uma Alice sorridente que correu imediatamente para os braços de Jorge.

Saudades, mami!

— Também tive saudades tuas, meu sol.

            Gui entrou logo atrás e parou de súbito, porque o cheiro, o ambiente e a energia gritavam que algo estava diferente, demasiado diferente, até que o olhar dele encontrou a marca.

— Jorge… ele… marcou-te…

           Mário ficou imóvel, o olhar pousando na marca.

          Depois em Henrique.

           Depois em Jorge.

— Henrique… o que fizeste?

          Jorge levantou a mão, pedindo calma.

— Eu quis. Ele não me forçou. Estamos bem.

           Gui respirou fundo, a voz a tremer.

Tens a certeza? Conseguiste…?

— Sim. E foi maravilhoso. Henrique foi incrível. Eu confio nele. Agora preciso que relaxes e olhes para ti… e para o Mário.

           Gui virou-se para Mário, ao encontrar no olhar dele tristeza, mágoa e ciúme, sentiu o coração cair-lhe aos pés.

— Príncipe… — murmurou, aproximando-se.

           Mas Mário desviou o olhar, e isso bastou para quebrar Gui por dentro.

          Gui saiu a correr.

          Jorge deixou a menina com Henrique e foi atrás dele.

          Encontrou Gui encolhido junto à janela, a chorar descontroladamente.

Que fiz eu, Jorge? — soluçou. — Só me preocupei contigo… e agora ele não me fala… magoei-o… eu magoei o meu alfa…

         Jorge ajoelhou-se à frente dele.

— Gui… ouve-me. Tu tens de me deixar ir. Tens de te focar no teu alfa. Ele ama-te. E sente ciúmes do nosso laço. Se não mudares, podes perdê-lo.

          Gui arregalou os olhos.

Eu não o quero perder…

— Então vai falar com ele. Pede desculpa. Mostra-lhe que ele é a tua prioridade.

           Gui caiu nos braços de Jorge, chorando.

— O que faço agora?

— Vais lutar por ele. — Jorge apertou-o com força. — E eu vou ficar bem. Confia.

          Jorge ajudou Gui a limpar o rosto, a respirar fundo, a recuperar alguma força.

— Vai. Ele está à tua espera, mesmo que não admita.

          Gui assentiu, ainda trémulo.

Obrigado, mami… — murmurou, num tom infantil, vulnerável.

           Jorge sorriu.

Vai, meu amor. Ele precisa de ti.

          Gui saiu do quarto devagar, o coração aos pulos.

         O corredor estava silencioso. Cada passo de Mário parecia mais pesado do que o anterior, o coração a apertar-se a cada metro. O cheiro de pêssego chegava-lhe fraco, cortado — e isso, mais do que qualquer palavra, disse-lhe o quanto tinha magoado o seu ómega. Parou à porta, respirou fundo, e entrou.

Henrique estava encostado à secretária, braços cruzados, o rosto tenso. Assim que Mário entrou, o olhar dele fixou-se no amigo com uma intensidade que o fez parar.

— Mário — começou Henrique, a voz firme, mas embargada de frustração — explica-me o que se passa contigo. Porque é que agiste assim? Sabes perfeitamente que ele não fez nada de errado. Ele só estava preocupado com o meu ómega.

          A deceção era evidente nos olhos de Henrique, mas havia também compaixão, como se estivesse a tentar compreender o que nem o próprio Mário conseguia explicar.

         Mário hesitou. Os ombros curvaram-se, as mãos tremiam discretamente. O olhar fugia, perdido, como se procurasse dentro de si uma desculpa que não existia.

— Eu… não sei o que me aconteceu — murmurou, a voz trémula. — Senti ciúmes, Henrique. Mas não consigo explicar porquê. Vi o Gui reagir à tua marca… e pensei que ele estivesse a afastar-se de mim. Que fosse preferir o Jorge. Mas agora percebo que não fazia sentido. Ele é meu.

         A voz quebrou-se-lhe. Os olhos marejaram.

         Henrique inspirou fundo, passando a mão pelo cabelo, tentando organizar os próprios pensamentos.     Depois aproximou-se e pousou uma mão firme no ombro do amigo.

— Magoaste o Gui, Mário. E magoaste-te a ti também. Ele ama-te. E tu sabes disso. O Jorge é só um irmão para ele. Devias confiar mais. Não percebo como é que não vês o que está mesmo à tua frente.

           As palavras caíram pesadas, mas não cruéis. Henrique falava como um alfa que conhecia o peso das emoções e o perigo de deixá-las crescer no silêncio.

          Mário fechou os olhos, engolindo em seco. A vergonha queimava-lhe o peito.

— Tens razão — murmurou. — Fui um idiota. Preciso de falar com ele… preciso de reparar isto.

          Henrique assentiu, o olhar grave, mas esperançoso.

— Vai. Ele precisa de te ouvir. E tu precisas de lhe mostrar que és digno do amor dele.

           Mário saiu do quarto com o coração apertado. O corredor parecia ainda mais escuro, e o som distante do choro de Gui ecoava como um lembrete doloroso do que podia perder. Cada passo era uma promessa silenciosa de mudança.

        Quando entrou no quarto, fê-lo quase sem respirar.

        Gui estava encolhido no colo de Jorge, soluçando convulsivamente. O corpo tremia, os ombros estremeciam a cada choro, o rosto escondido entre as mãos. Jorge, sentado no chão com ele, envolvia-o num abraço protetor, murmurando palavras baixas que tentavam acalmar o desespero.

          Ao ver a porta abrir-se, Jorge ergueu o olhar. Os olhos dele encontraram os de Mário.

          Jorge pousou uma mão no ombro de Gui, murmurou-lhe algo suave, e levantou-se devagar. Ao passar por   Mário, tocou-lhe discretamente no braço, num gesto claro:

         "Cuida dele."

          A porta fechou-se atrás dele.

          Mário aproximou-se devagar, sentindo o peso de cada passo. Sentou-se ao lado de Gui, hesitante, o peito apertado. Estendeu a mão e afagou-lhe as costas e o cabelo, com dedos trémulos.

— Anjo… eu… eu não queria magoar-te — disse, a voz embargada. — Desculpa-me… por favor, desculpa-me…

           As lágrimas começaram a cair-lhe pelo rosto, quentes, descontroladas.

— Eu não me importo de ser alfa, de ser forte… mas agora só consigo odiar-me pelo que fiz. Por favor, fala comigo… diz qualquer coisa. Nem que seja para dizeres que me odeias. Mas, por favor… para de chorar…

           A voz vacilou.

— Merda, Gui… nem sei porque agi assim. Senti ciúmes. Eu… eu não devia… mas aconteceu. Eu só queria que me dissesses alguma coisa.

            Gui ergueu o rosto devagar. As lágrimas escorriam-lhe pelas faces, mas havia surpresa nos olhos — surpresa pela vulnerabilidade de Mário.

— Eu amo-te, seu tolo… amo-te tanto — murmurou, a voz trémula. — Não percebo porque é tão difícil para ti acreditares nisso. És tu quem eu quero. És tu quem eu escolhi. Não tens de sentir ciúmes. O Jorge é só um amigo. Quase um irmão. Mas se isso te fizer sentir melhor… eu posso até deixar de falar com ele.

            Mário sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés.

— Não! — exclamou, a voz carregada de culpa. — Não digas isso. Não faças isso. Eu sei que me amas. E desculpa… prometo que não vai voltar a acontecer. Não quero que deixes de falar com o Jorge. Eu é que fui um idiota.

            Gui limpou uma lágrima, olhando-o com tristeza… mas também esperança.

— Magoaste-me muito — disse, num sussurro.

— Eu sei — respondeu Mário, engolindo em seco. — E faço qualquer coisa para te ver feliz. Qualquer coisa mesmo. Só preciso que acredites em mim.

             Gui hesitou. Depois, um sorriso maroto surgiu-lhe nos lábios.

Qualquer coisa mesmo?…

             Mário soltou um suspiro trémulo.

— Acho que vou arrepender-me… mas sim. Só para ver esse sorriso de novo.

— Ótimo. Não te esqueças do que prometeste.

— Meu anjo… só para ver esse teu sorriso lindo… eu aceito qualquer coisa.

            Encostou a testa à dele e beijou-o com todo o carinho que tinha guardado no peito.

          O silêncio que se seguiu foi breve, mas cheio de significado — e quando Jorge saiu do quarto, levou consigo o peso de tudo o que tinha acabado de ver.


🍃 🍃 🍃


          Na sala, Jorge chegou nervoso, sentou-se junto a Henrique e abraçou-o com força. As lágrimas caíam-lhe sem controlo. A menina, no colo de Henrique, observava tudo em silêncio, com olhos grandes e atentos.

Lobinho… estás bem? — perguntou Henrique, tentando soar calmo.

Não estou… odeio ver o Gui assim — confessou Jorge, limpando as lágrimas. — Porquê que o Mário teve de reagir daquela forma?

            Henrique cerrou os lábios, a raiva a subir-lhe ao peito.

— Porque é parvo. Só pode. Magoa toda a gente à volta dele… até a ti. E se não pedir desculpa ao Gui, eu juro que vou lá e digo-lhe umas verdades.

            Jorge deixou escapar um sorriso pequeno, cansado.

— Acho que ele vai pedir. O Gui ama-o. Faz tudo por ele. Mas também se preocupa comigo, sabes?

           Henrique assentiu.

— Eles vão ficar bem. Vais ver.

           A menina, que até então estivera calada, tocou no rosto de Jorge com a mãozinha pequena.

— Mami tá triste?

          Jorge sorriu-lhe, emocionado.

— Já passa, meu sol.

           O silêncio durou apenas alguns segundos, porque a porta abriu-se e Mário e Gui entraram de mãos dadas, ambos com os olhos vermelhos, mas a expressão leve.

— Jorge… desculpa a minha atitude estúpida — disse Mário, sincero.

            Jorge assentiu.

— Se já pediste desculpa ao Gui, para mim está tudo bem.

— Já pedi… só espero não me arrepender da promessa que fiz — murmurou Mário, apertando a mão de Gui.

— Promessa? — perguntou Henrique, erguendo uma sobrancelha.

             Gui e Jorge trocaram um olhar cúmplice, sorrisos discretos a despontar nos lábios, enquanto os dois alfas ficavam visivelmente inquietos com aquele segredo partilhado entre ómegas.

             E a sala, pela primeira vez naquela manhã, encheu-se de um calor familiar — como se todos ali, finalmente, respirassem o mesmo ar.

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