Capítulo 20 — Instinto 🔞
🔞 Este capítulo contém conteúdo para leitores adultos.
Em casa de Mário e Gui, o silêncio instalou-se assim que o telefone foi desligado, mais denso que o normal.
Mário observava-o, braços cruzados, o olhar firme e Gui, ainda com o telefone na mão percebeu — pela expressão contida, pelo olhar mais sério — que o alfa não tinha gostado da decisão tomada sem consulta.
— Vamos buscar a menina?... — Perguntou Mário, com a voz baixa, mas firme. — …e não me perguntas se quero?
Gui sentiu o coração apertar. A culpa subiu-lhe ao rosto como um calor súbito.
— Desculpa! Desculpa! Mas é muito importante para o Jorge… e aliás, também para o Henrique — respondeu rápido, quase atropelando as palavras, tentando evitar que Mário interpretasse mal o gesto.
Mário cruzou os braços, confuso.
— Agora estou baralhado… queres explicar com clareza?
Gui respirou fundo. Sabia que precisava ser honesto, mesmo que o assunto fosse delicado.
— Príncipe… eles querem fazer amor. Jorge sente-se preparado para o ato em si, mas tem medo do seu comportamento, e não quer ter de pensar na menina. Ele quer estar livre, à vontade, sem interrupções. Por favor… desculpa não ter perguntado… mas ele é teu amigo também.
Mário ficou em silêncio por um momento. O peso da explicação assentou, e aos poucos a expressão dele suavizou. Um sorriso brincou-lhe nos lábios, e os olhos voltaram a brilhar com ternura.
— Tudo bem, Anjo… até porque nós já temos algum avanço…— disse num tom provocador, mas cheio de compreensão. — E sei que isso é um passo importante para os dois. Vamos lá buscar a menina.
Gui abriu um sorriso largo, aliviado. Num impulso, abraçou o pescoço do alfa e beijou-lhe os lábios com carinho, como quem agradece não só pela resposta, mas pela capacidade de entender o que não foi dito.
— Obrigado por seres assim — murmurou.
— Sempre — respondeu Mário, apertando-o contra si por um instante.
Saíram logo de seguida, ainda com as roupas do jantar, mas com o coração leve. A noite continuava a ser deles — agora com mais uma missão de cuidado, mais uma prova de que o amor também se mede pela generosidade.
Pouco tempo depois, a campainha tocou na casa de Henrique, que abriu a porta, e Alice, como se tivesse esperado por aquele som, levantou-se num salto do colo de Jorge. Correu com os braços abertos e, para surpresa de todos… lançou-se nos braços de Gui.
Gui ajoelhou-se instintivamente e acolheu-a no colo. A menina enlaçou-lhe o pescoço com força, e Gui… chorou.
Apertou-a contra si, sentindo o coração bater descompassado.
O cheiro leve a rosas da menina misturou-se ao pêssego de Gui — dois aromas que se reconheciam, como se nunca se tivessem esquecido.
Não imaginava que um ser tão pequeno se lembrasse dele com tanta intensidade. Como sentia falta da sua irmãzinha. Como aquele abraço lhe devolvia algo que nem sabia que tinha perdido.
Mário observava em silêncio. Henrique e Jorge trocavam olhares emocionados.
— Tu és o outro cheirinho que dava colinho a Alice — disse Alice, com a voz embargada.
Gui chorou mais, acariciando-lhe o cabelo. Aquele cheirinho leve a rosas, tão simples e infantil, fez-lhe doer o coração de saudade.
— Estás triste?
— Não estou triste, maninha… estou feliz. Pensei que não te voltava a ver.
— Ma… tu és o meu Ma.
— Sou, meu amor. Sempre fui.
A ternura daquele reencontro encheu o coração dos três adultos, Mário aproximou-se, fingindo ciúmes.
— E eu? Não recebo um beijo?
Alice riu e saltou para o colo dele, distribuindo beijos pela face.
— Princesa, vens connosco? — perguntou Gui.
— Vou sim! Amanhã volto? — perguntou ela.
— Claro que sim, almoçamos aqui em casa — disse Jorge, antes de se corrigir. — Amor… desculpa, a casa é tua…
Henrique sorriu.
— A casa é tua também, lobinho. Podes convidar quem quiseres.
— Viremos almoçar — disse Mário. — Mas agora vamos. Vocês precisam de ficar a sós.
E conduziu Alice e Gui para fora, deixando atrás de si um silêncio cheio de promessas.
🍃 🍃 🍃
Em casa de Mário, Alice resistia ao sono, agarrada ao pescoço de Gui.
— Cedo, titi… cedo…
Foi Gui quem a acalmou.
— Eu fico contigo até adormeceres, meu sol.
— Prometes?
— Prometo.
Deitou-a com carinho e ficou ao lado dela até os olhos se fecharem, enquanto Mário observava da porta, o coração cheio. Quando Gui se levantou, aproximou-se dele e beijou-o com leveza.
— Estás aí há muito tempo?
— Tempo suficiente para perceber o quanto te amo… e o quanto quero ter filhos contigo. Vais ser um bom pai! — respondeu Mário, envolvendo com ternura a cintura do ómega e puxando-o para junto de si, deixando transparecer o quanto o desejava.
Gui sorriu, encostando a testa à dele.
— Também quero. Muito. Que tal começarmos? — sugeriu Gui num tom leve, aproximando-se de Mário e deixando transparecer o quanto ansiava pela sua presença.
— Aceito, desde que treinemos muito.
— Mas hoje… queria ir devagar. Desejo-te muito, anjo, mas sei que deves estar dorido, esperemos.
Gui sorriu, provocador.
— Agradeço a tua preocupação para comigo. E se eu não quiser devagar?
O olhar de Mário mudou, juntamente com a calma que ele tentava manter. Num gesto rápido, o alfa puxou-o pela cintura, deixando transparecer uma urgência que nada tinha de serena. Era fome que apertava o peito, uma saudade que queimava por dentro, misturada à necessidade urgente de quem passou o dia inteiro a lutar para se conter.
Gui mal teve tempo de reagir: primeiro sentiu as mãos de Mário na sua cintura, puxando-o com determinação, depois o corpo do alfa pressionou-o com firmeza contra a parede, num movimento fluido e urgente. O calor de Mário envolvia-o, espalhando-se pela pele de Gui e intensificando cada batida do seu coração; a respiração pesada tornava-se palpável, misturando-se com o aroma familiar do outro, enquanto os dedos exploravam com precisão cada centímetro do seu corpo. Era impossível distinguir onde terminava um e começava o outro — o toque, o cheiro, o ritmo acelerado de ambos compunham uma atmosfera densa, carregada de desejo e saudade.
— Mário… — sussurrou Gui, já sem fôlego.
O beijo aconteceu num sobressalto: rápido, intenso, os lábios colidiram com uma urgência que queimava. Gui sentiu o calor do outro, o gosto familiar misturado à pressa, e Mário pensou apenas no quanto precisava senti-lo ali, inteiro. A promessa de calma dissolveu-se no instante seguinte; tudo o resto foi esquecido, restando apenas o desejo cru e incontido de se fundirem, sem medida.
Gui agarrou-se aos ombros dele, mas Mário prendeu-lhe os pulsos acima da cabeça, num gesto firme que arrancou um gemido baixo.
— Eu disse que ia devagar… — murmurou Mário, a voz rouca, a boca a roçar-lhe o pescoço. — Mas não consigo. Não quando te tenho assim.
Gui tremeu.
— Então não pares…
Foi tudo o que Mário precisou.
Virou-o contra a parede com um movimento urgente, quase desesperado. O lobo tomou conta — não havia mais homem ali, só instinto, só fome antiga, só a necessidade crua de se fundir com o seu ómega de uma vez por todas. O mogno e a canela chegaram sufocantes, dominantes, um perfume que já não pedia — exigia.
Gui sentiu a diferença. Não era o Mário que conhecia — era o lobo dele, inteiro, sem trela. E havia algo arrebatador nisso, algo que o fazia querer ceder sem perguntas.
Mas o corpo ainda não estava pronto para tanta urgência.
Ali não houve palavras — só instinto, só urgência, só desejo que não esperou. O coração disparou, as mãos tremiam, a respiração tornou-se pesada, tudo era guiado por um impulso incontrolável, e logo veio a invasão única, crua e arrebatadora, deixando-os entregues ao que não podia ser evitado.
E, de repente, um calor abrasador tomou conta de todo o corpo de Gui — não era o calor acolhedor que esperava, mas uma onda ardente que queimava sob a pele, intensa demais para ser suportada. O contacto apertado parecia incendiar cada nervo, mas, em vez de prazer, o que sentiu foi uma dor aguda, como se o fogo da proximidade se transformasse num corte inesperado. O contraste era brutal: enquanto o desejo pedia entrega, o corpo de Gui respondia com lágrimas involuntárias, mostrando que, naquele momento, a paixão se confundia com sofrimento, marcando-o com uma vulnerabilidade inesperada.
— Aiii… bolas, Mário… assim dói… — disse, incapaz de controlar as lágrimas que teimavam em cair, o corpo a tremer.
Mário congelou, o mundo caiu-lhe aos pés, a cor fugiu-lhe do rosto, e o coração disparou num ritmo frenético, enquanto um vazio súbito tomava conta da sua mente; por um instante, tudo o que conhecia parecia distante, como se a dor de Gui o tivesse arrancado do próprio corpo.
— Desculpa… desculpa… — a voz saiu-lhe partida. — Eu fui bruto… esqueci-me que isto ainda é novo para ti… queres que pare? Queres que me afaste?
Ia afastar-se, mas Gui segurou-lhe o braço com firmeza.
Mário ficou imóvel, o peso do que tinha feito a cair-lhe em cima como uma pedra. O lobo dentro dele recuou de imediato, envergonhado, e o homem voltou — com toda a culpa que o animal não sentia.
Respirou fundo, uma vez, duas, até sentir as mãos parar de tremer.
Depois pousou a testa na nuca de Gui, num gesto que era tudo menos desejo — era arrependimento, era cuidado, era a promessa silenciosa de que não voltaria a deixar o lobo falar mais alto do que ele.
— Dá-me uns segundos… eu já fico bem. Só não contava. Continua… mas vai com calma.
— Tens a certeza? — perguntou Mário, com os olhos cheios de culpa.
Gui assentiu, o olhar brilhando com algo mais profundo do que desejo, naquele gesto, estava a força de uma entrega rara: confiança, vulnerabilidade, amor.
Mário respirou fundo. Avançou devagar, como quem reconstrói algo precioso que quase se partiu, com o pensamento a sussurrar: "Não vou falhar contigo".
As mãos grandes largaram os pulsos de Gui e percorreram-lhe as costas até à cintura, onde o seguraram com ternura e firmeza, guiando um novo ritmo — um compasso que pertencia só aos dois.
Gui relaxou aos poucos, confiando o corpo ao alfa, guiando-o com respirações profundas e movimentos seguros, enquanto as mãos procuravam apoio na parede e no momento. Sentia-se protegido, inteiro.
A urgência retornou, menos feroz, mas igualmente intensa e quente — só deles, o quarto encheu-se de respirações entrecortadas, murmúrios e promessas sussurradas ao ouvido, tecendo uma intimidade tranquila e profunda.
Gui arqueou-se, olhos semicerrados, sentindo cada detalhe daquele instante gravar-se na memória.
— Assim… — murmurou, num suspiro trémulo.
Mário segurou-o com força, mas agora com cuidado, presença e amor, o toque transmitindo tudo o que as palavras não conseguiam dizer.
Quando o momento terminou e o nó os prendeu, o instinto de marcar voltou a pulsar — as presas prontas, o lobo a reclamar o que era seu. Mas desta vez também não era a hora. Gui sentiu as pernas fraquejarem, mas uns braços firmes mantinham-nos agarrados, como se quisessem protegê-lo do mundo inteiro. Sentiu o calor dos braços de Mário e o cheiro suave do seu perfume, trazendo-lhe uma sensação de segurança inesperada. Por um breve instante, deixou-se afundar nesse abraço, permitindo que os pensamentos se aquietassem e que o carinho falasse mais alto do que qualquer dúvida.
— Anjo… estás bem? Não te magoei muito, pois não?
Gui sorriu, cansado, mas tranquilo.
— Estou bem. Dorido… mas bem. Agora já sei que gostas assim. Vou estar preparado da próxima vez.
Mário fechou os olhos, magoado consigo mesmo.
— Não haverá próxima vez… o teu grito de dor… nem na tua primeira vez o ouvi…
Gui tocou-lhe o rosto, suave.
— Shiu… vai haver sim. E eu vou aceitar-te. Esse também és tu. O teu lado mais intenso. Eu sei que me amas. Sei que me cuidas depois. E sei que recebo carinho a dobrar.
Mário, depois do nó se ter desfeito, puxou-o para um abraço apertado, conduzindo-o para a cama.
— Onde andaste toda a minha vida? Adoro-te…
— E eu a ti — murmurou Gui, aninhando-se nele.
Adormeceram assim, nus, entrelaçados, num silêncio cheio de aceitação.
Ali, entre os lençóis, havia mais do que desejo — havia amor que aprende, que escuta, que se transforma.