Capítulo 02 — O Primeiro Olhar
Jorge enrijeceu ao ouvir o anúncio no intercomunicador. O seu nome ecoou pela sala de espera e ele levantou-se com mãos trémulas. Parte de si desejava que tudo terminasse depressa, só para acabar com a ansiedade que lhe apertava o estômago; outra parte agradecia por ter mais alguns segundos para se preparar.
O cheiro forte de alfa vindo da sala de entrevistas fez o seu lobo interior agitar-se. A pressão da hierarquia era impossível de ignorar, por mais que tentasse manter a compostura.
Por trás da secretária, Maria observava tudo com o profissionalismo habitual.
Jorge olhou para Guilherme, que permanecia calado, perdido nos próprios pensamentos. O ambiente parecia preso num silêncio tenso, como se todos aguardassem algo inevitável. Tentou controlar a respiração, focando-se nos pequenos sons à sua volta: o tique-taque do relógio, o ranger distante de uma cadeira, o murmúrio abafado no corredor.
E se me bloquear? E se perceberem o quanto estou nervoso?
Os pensamentos atropelavam-se, cada um mais inquietante que o anterior. Tentou lembrar-se dos conselhos de sempre — respira fundo, mantém a calma — mas naquele momento tudo parecia mais difícil.
Quando finalmente o chamaram, levantou-se com pernas trémulas e foi conduzido até à porta da sala. Os dois advogados estavam absortos nos papéis à sua frente. Mas não foi isso que o perturbou — foi o moreno.
Assim que o aroma doce de morangos se espalhou, os olhos do alfa escureceram, tingindo-se de um rubor profundo. O lobo dele rosnou por dentro, e Jorge sentiu o perigo crescer no ar, palpável, quase elétrico.
Recuou instintivamente até à parede fria. O terror apertava-lhe o peito, mas a vergonha por sentir medo em público era ainda maior.
Respira, Jorge… inspira, segura… solta devagar.
Tentava seguir o ritmo, mas cada inspiração vinha curta, cortada pelo receio. As lágrimas ameaçavam cair.
Porque é que ele reage assim? Está zangado comigo? E se perder o controlo?
O medo e o fascínio misturavam-se, deixando-o preso àquele olhar intenso, incapaz de se mover.
Mário percebeu a espiral de tensão e interveio com firmeza:
— Sr. Jorge!... Por favor, SAIA e já chamamos!
A palavra “SAIA” ecoou, arrancando Jorge do transe.
Saiu num relance, encostou-se à parede do corredor e deixou-se deslizar até sentir o frio nas costas. A respiração continuava descompassada; contava até quatro, inspirava lentamente, tentando enganar o corpo e convencer-se de que estava seguro. Mas o peito doía, os pensamentos embaralhavam-se.
Preciso de acalmar… não quero que me vejam assim… não posso perder o controlo.
Cada lágrima que caía era uma mistura de humilhação e alívio, enquanto o cheiro de morangos ainda pairava no ar, e o olhar rubro do alfa o perseguia na memória.
🍃 🍃 🍃
Mário, atento ao amigo, percebeu que Henrique tinha sido profundamente afetado pela presença do jovem ómega. O lobo interior de Henrique manifestara-se de forma súbita, perigosa.
— Henrique! Henrique!
Mas o amigo não reagia.
Sem hesitar, Mário ergueu a mão e deu-lhe um estalo forte. A confiança entre ambos permitia esse gesto sem ressentimentos.
Henrique piscou, voltando a si.
— Obrigado, Mário… — murmurou, ainda confuso. — Não sei o que se passou. Foi como se tudo desaparecesse. Só existia aquele cheiro. O meu lobo ficou… fora de controlo. Nunca senti nada assim.
Mário cruzou os braços, preocupado.
— Achas que consegues aguentar? O pobre ómega ainda está lá fora. Não quero que ele pense que fez algo errado.
Henrique respirou fundo.
— Vou tentar. Mas… se puderes, pede-lhe para disfarçar o cheiro. Eu sei que não é justo, mas está a ser difícil manter a compostura. E… consigo sentir o medo dele. É quase palpável.
Mário assentiu e saiu.
Encontrou Jorge encostado à parede, ainda abalado.
— Sr. Jorge, está melhor? Consegue diminuir um pouco as suas feromonas?
O ómega limpou discretamente o rosto.
— Sim… estou a tentar. Quer que eu vá embora? Não quero causar problemas… é o mínimo que consigo.
— Não é você que está a causar problemas— garantiu Mário. — Só preciso que tente mais um bocadinho. Não queremos que se sinta desconfortável.
Jorge suspirou.
— Vou tentar, prometo.
— Obrigado. Podes entrar quando quiseres.
Jorge entrou, evitando o olhar de Henrique. O alfa ergueu-se, já mais calmo.
— Sr. Jorge… peço desculpa pela minha reação. Não queria assustá-lo. Não é culpa sua.
— Não tem problema — murmurou Jorge, tentando aliviar o ambiente. — Acontece.
A conversa foi breve. Mário concluiu:
— Em breve daremos notícias. Obrigado por ter vindo.
Jorge saiu com o coração acelerado. O corredor parecia mais longo, o ar mais pesado. Sentia-se esgotado, como se tivesse deixado ali dentro uma parte de si.
O escritório fervilhava de movimento: secretárias apressadas, advogados em murmúrios, o cheiro a café e papel. Tudo parecia demasiado perfeito, demasiado distante da sua realidade.
Ao chegar à sala de espera, encontrou Guilherme inquieto.
— Então? — perguntou Gui, tentando sorrir.
Jorge hesitou. O olhar de Henrique ainda o perseguia. O seu lobo também.
— Não sei… acho que correu melhor do que esperava, mas… houve um instante em que… Quando vi o Henrique, foi estranho. Senti o meu lobo inquieto, como se o reconhecesse. O olhar dele… mexeu comigo de uma forma que nunca senti antes.
— O Henrique? O advogado moreno?— perguntou Gui.
Jorge assentiu.
— Sim. Foi como se ele me visse por dentro. O meu lobo ficou alerta. Ansioso. Nunca me aconteceu nada assim.
Guilherme pousou uma mão no ombro do amigo.
— O importante é que já passou. Agora é esperar.
Por um instante, Jorge sentiu um alívio tímido. O pior já tinha ficado para trás, mas a expectativa do resultado pairava no ar, densa e silenciosa. Olhou à volta: eles eram os últimos, já não havia mais candidatos na sala, apenas o silêncio e o céu nublado a tingir o escritório de uma luz cinzenta, tornando tudo mais frio e impessoal.
Respirou fundo. Sabia que, independentemente do desfecho, aquele dia marcaria uma viragem na sua vida. E, ao lado de Guilherme, sentiu que, pelo menos, não enfrentaria o futuro sozinho.
Quando se preparavam para sair, Maria ergueu os olhos do computador e ofereceu-lhes um sorriso compreensivo. O aroma neutro dela era um bálsamo naquele ambiente carregado de tensão.
— Correu bem? — perguntou num tom gentil, olhando de Jorge para Guilherme, como quem já vira aquela ansiedade muitas vezes.
Guilherme respondeu primeiro, tentando aliviar o ambiente:
— Acho que sim. O Jorge sobreviveu, pelo menos.
Maria soltou uma risada breve, sincera.
— Sobreviver já é meio caminho andado por aqui. — Depois inclinou-se um pouco, num tom de confidência: — Não liguem muito à postura dos alfas. Eles gostam de impressionar, mas no fundo são todos iguais.
Jorge sorriu, sentindo o lobo interior relaxar com a leveza da beta.
— Obrigado. Precisava mesmo de ouvir isso.
Ela acenou, voltando ao trabalho, mas não sem antes lançar-lhes um olhar encorajador.
— Se precisarem de água ou de um momento para respirar, podem usar a sala de espera ali ao fundo. E boa sorte, a sério.
Enquanto se afastavam, Jorge e Guilherme trocaram um olhar cúmplice. O escritório parecia menos opressivo, e Jorge sentiu que, mesmo num mundo de hierarquias e feromonas, ainda havia espaço para pequenos gestos de humanidade.
Quando tudo terminou, cada um ficou entregue aos próprios pensamentos.
Jorge caminhava pelo corredor, o corpo ainda tenso. O medo inicial dava lugar a um cansaço profundo, mas também a um certo orgulho por não ter fugido — por ter enfrentado o olhar de Henrique e a pressão do momento. Ainda assim, a dúvida persistia: teria sido suficiente? O eco daquele olhar intenso e a sensação de vulnerabilidade misturavam-se com um alívio tímido. No fundo, sabia que ultrapassara um limite pessoal.
Henrique permaneceu sentado por alguns minutos, tentando recuperar o controlo. O episódio com Jorge deixara-o inquieto, como se tivesse tocado numa parte de si que desconhecia. Sentia-se envergonhado pela perda de controlo, mas também perturbado pela intensidade da ligação instintiva. O cheiro a morangos ainda pairava na memória, e Henrique questionava-se sobre o que aquilo significava para o futuro — dele e do jovem ómega.
Mário observava o amigo com preocupação, mas também com compreensão. Sabia que, por vezes, nem toda a racionalidade do mundo era suficiente para conter os instintos. O gesto de apoio reforçava a amizade entre ambos, mas Mário também se perguntava se estavam preparados para lidar com as consequências daquele encontro inesperado.
Guilherme, do lado de fora, dividia-se entre a ansiedade pelo amigo e a esperança de que tudo corresse bem. O ambiente tenso deixara-o alerta, mas ver Jorge regressar trouxe-lhe algum alívio. Viu no amigo uma força que talvez nem ele próprio reconhecesse e prometeu a si mesmo estar presente, acontecesse o que acontecesse.
No fim daquele dia, cada um carregava consigo marcas invisíveis: dúvidas, esperanças, pequenas vitórias e medos renovados.